Amar o Próximo

Existe uma profunda ligação entre todas as formas de vida na Terra com o universo. Como foi eternizado por Carl Sagan na série Cosmos (apesar da frase não ser sua), somos todos feitos de poeira estelar. Mais do que isso, estamos conectados a todas as estrelas, planetas, luas, asteróides e pedras por este laço que nos remete à infância do nosso universo.

“Somos todos primos” foi o que Carl Sagan escreveu em seu livro Bilhões e bilhões, ilustrando o fato de que podemos traçar um ancestral comum entre quaisquer duas pessoas que vivam hoje em dia. Mas não somos primos apenas de seres humanos: a teoria da evolução nos permitiu vislumbrar a complexa árvore da vida, na qual o ser humano é um de vários outros ramos.

A genética foi um passo além, ao constatar que compartilhamos grande parte dos nossos genes, os códigos da vida, com chimpanzés e até mesmo com esponjas. Os resultados que a primatologia, a psicologia evolucionista e a etologia vêm obtendo nos últimos 20 anos estão refinando ainda mais esta conexão que temos com os outros animais – somos uma grande família. Além disso, a pesquisa em biologia nos permitiu entender que a diferença de cor na pele humana corresponde a quantidades variáveis de compostos genericamente chamados de melanina, que não determinam quem somos ou quais as nossas capacidades, assim como a cor do nosso cabelo ou dos nossos olhos também não nos informam sobre isso.

Os seres humanos fazem parte de um ramo muito recente na história da vida na Terra e possuem os mesmos constituintes químicos e fisiológicos básicos, sejam japoneses ou africanos, heterossexuais ou homossexuais, homens ou mulheres. A ciência tem repetidamente encontrado em seus resultados que tudo está intimamente conectado, que somos todos interdependentes, de longíquas origens comuns e mais parecidos do que imaginávamos.

Foi pensando nestas coisas que um dia, sentado no final de um ônibus voltando da universidade, senti uma emoção diferente. Quando olhei todas aquelas pessoas, refletindo sobre como todas elas compartilhavam comigo esta mesma história cósmica, que teve início por volta de 13,7 bilhões de anos atrás, comecei a me sentir muito próximo delas, como se estivesse reconhecendo vagarosamente primos muito distantes, que há muito tempo eu não via. Foi uma sensação muito boa e que desde então vivo lembrando.

Alguns dias depois, uma pergunta surgiu em minha cabeça: como seria o mundo se a maioria das pessoas compreendessem toda a profundidade do que significa dizer que “somos todos primos”?

De maneira geral, temos algum afeto a mais pelos nossos familiares do que por pessoas que não conhecemos, em especial pelos familiares mais próximos e com quem mais convivemos. Por exemplo, se forçados a ajudar um parente que não temos contato ou uma pessoa que não conhecemos e que não é nosso parente, dificilmente deixaremos o primeiro na mão. Dizer que somos todos primos não é uma metáfora, somente difere do que normalmente compreendemos como “nossos primos” (filhos (as) de nossos tios (as)).

Infelizmente, são muitas as ocasiões em que tratamos muito mal os nossos “primos”. O que dizer da hostilidade e violência física que corriqueiramente surge entre duas torcidas durante um jogo de futebol? Ou de “machões” irritados com um casal homossexual em uma festa? Ou entre motoristas que se desentendem no trânsito e partem para a violência? Se aqueles torcedores estivessem sensibilizados a pensar que do outro lado da arquibancada encontrariam primos distantes que apenas torcem para outro time, os “machões” estivessem cientes de que o casal de homens na festa são dois parentes distantes seus que possuem orientações diferentes das deles e os motoristas diante de uma situação estressante conseguissem pensar que seu primo, o outro motorista, cometeu um erro acidental, será que ainda assim seriam severamente agressivos, como muitas vezes são?

O distanciamento psicológico possivelmente se reflete de alguma forma na violência que permeia o nosso cotidiano. Não é à toa que muitos crimes são cometidos por pessoas sob efeito de alguma droga, em um momento explosivo de emoção ou de necessidade. Enquanto enxergarmos alguém com o carinho e o respeito dignos de um primo, que compartilha conosco tantas coisas, dificilmente faríamos mal à esta pessoa por coisas tão superficiais e pessoais.

“Amar o próximo” é um elemento que se tornou popular em diversos contexos religiosos e faz parte da educação moral de muitas religiões, mas será que, como muitos defendem, o único modo de compreendermos o quanto amar o próximo é necessário e benéfico é através da instrução religiosa? Se somos primos tão interligados, como os dados que comentei anteriormente apontam, acredito que temos motivos de sobra,  desvinculados de qualquer religião,  para buscar o cuidado e o respeito aos outros.

O “amar o próximo” certamente é inviável no nível “80” do continuum “8 ou 80”. Para a maioria de nós, seria insustentável andar pela cidade atrás de moradores de rua para acolhermos em nossas casas e dar o tratamento que eles merecem como nossos primos. Dificilmente teremos condições financeiras e psicológicas de sustentar uma vida tentando resolver o problema de todo o mundo. Também precisamos comer, trabalhar, dormir e nos divertir. Para isso poderemos sacrificar animais (há controvérsias), consumir grãos e usar uma parte do nosso tempo para nós, dormindo, nos divertindo ou trabalhando, ao invés de usar esse tempo para ajudar o próximo.

Mas existe uma parte do “amar” no meio deste continuum que não custa nada, é viável e poderia diminuir drasticamente um dos nossos maiores problemas hoje: a violência. Esta parte é o respeito, entendido como uma postura de reconhecimento enaltecedor da existência do outro. Respeito pelo que as outras pessoas representam (membros da sua espécie, primos distantes, resultados do mesmo processo que moldou todos nós), pelos direitos básicos que elas deveriam possuir (de viver e de ser livre) e pela sua integridade (física, psicológica e social).

Amar o próximo também significa lutar pelo respeito e a dignidade dos outros, dentro do que for possível fazer. Afinal, ficaríamos calados ao ver um primo (filho de algum tio(a) nosso(a)) sofrendo alguma injustiça? Se passamos a entender que todos são nossos primos, podemos passar a estimular mais ainda uma capacidade tão importante e tão em falta em nossos dias – a empatia. Isso não significa tentar salvar todo mundo ou ser o super-homem, mas tentar ser um grande homem (ou uma grande mulher) quando tiver a oportunidade de ser.

Se os nossos motoristas, por exemplo, fossem educados desde pequenos para compreender a importância deste tipo de relação, não porque é “certo” ou “errado”, mas porque somos primos de fato, talvez menos pessoas morressem por conta de brigas no trânsito (tão comuns hoje em dia). Faria diferença se todos pensassem que somos primos de verdade?

Para finalizar: o projeto Symphony of Science produziu uma ótima canção intitulada “We are All Connected” (nós estamos todos conectados), que pode ser ouvida no vídeo abaixo.

Observação: Destaque para a inenarrável cena de Richard Feynman batucando o tambor =)

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Discussão - 6 comentários

  1. Devanil disse:

    Cara, que texto perfeito!

    Quase me vi imaginando a voz do Carl Sagan no meio dele.

    “Somos todos primos” é a frase perfeita que demonstra a simbiose entre os humanos. Outro apelo que podemos fazer é de que “moramos no mesmo lar”.

    Perfeito texto, parabéns André!

  2. André Rabelo disse:

    @Devanil , obrigado pelo comentário! De fato, somos todos primos que moram no mesmo lar. Que bom que gostou do texto!

    um abraço,
    André

  3. Luiz disse:

    Cheguei pelo Bule Voador.

    Parabéns pelo texto, me deparei com ele em boa hora.

    A propósito: Feynman alegre e seu tambor, impagável.

  4. André Rabelo disse:

    Obrigado @Luiz , que bom que gostou do texto! é engraçado o Feynman batucando e fazendo aquele barulho estranho com a boca, fico imaginando como eles conseguiram ter acesso à esse vídeo…

    um abraço,
    André

  5. Matheus disse:

    Shoooooow de texto. Humanismo sempre de mãos dadas com a Ciência. Inenarrável a sensação que algumas das linhas são capazes de produzir.

    Parabéns. Você é ótimo!

    Abração!

  6. André Rabelo disse:

    @Matheus , que bom que gostou do texto! Agradeço o seu elogio meu caro!

    um abraço,
    André

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