A Neurologia das Experiências de Quase Morte

Eu e Rodrigo Véras traduzimos o texto a seguir, que foi publicado recentemente no Ceticismo Aberto.

Artigo de Alex Likerman, publicado em Happiness in this World
Traduzido por colaboração de Rodrigo Véras e André Rabelo


Eu nunca tive um paciente que confessasse ter tido uma experiência de quase morte (EQM), mas recentemente me deparei com um livro fascinante chamado O Portal Espiritual no Cérebro (The Spiritual Doorway in the Brain) de Kevin Nelson, que relata que cerca de 18 milhões de americanos podem ter tido uma. Se for verdade, as chances não são apenas que alguns dos meus pacientes estejam entre eles, mas também alguns dos meus amigos. O que me levou a pensar: o que exatamente a ciência tem a nos dizer sobre a sua causa?

Que EQMs acontecem não está em disputa. A sequência e os tipos de eventos dos quais elas são compostas são suficientemente similares entre as pessoas que as relatam de tal forma que EQMs poderiam ser consideradas como como algum tipo de síndrome, semelhante a uma doença sem causa conhecida. Mas só porque milhões de pessoas já viveram EQMs não significa que a explicação mais comumente acreditada para elas – que almas deixam corpos e encontram deus ou alguma outra evidência de vida após a morte – seja correta.

Afinal de contas, as pessoas interpretam erroneamente as suas experiências o tempo todo (uma ilusão ótica representando o exemplo mais básico). Sem dúvida, muitas pessoas que relatam EQMs são profundamente afetadas por elas, mas, geralmente, mais como um resultado de suas interpretações das experiências (i.e., a vida após a morte é real) do que como resultado da experiência em si. Acontece, entretanto, que um número de observações reproduzíveis combinado com uma pitada de conjecturas gerou uma explicação neurológica inteiramente plausível para todos os casos de experiências que incluam EQM.

Em seu livro, Nelson comenta que normalmente 20% do fluxo sanguíneo é direcionado para o cérebro, mas que este fluxo pode abaixar para 6% antes de ficarmos inconscientes (e mesmo nesse nível, nenhum dano permanente resultará). Nelson ainda observa que quando nossa pressão sanguínea diminui demais e desmaiamos, o nervo vago (um longo nervo que se conecta com o coração) desloca a consciência para o sono REM – mas não totalmente em algumas pessoas. Um número de sujeitos parece ser suscetível ao que ele chama de “intromissão REM”.

A intromissão REM ocorre tipicamente, quando ocorre, na transição da vigília para o sono. Nelson encontrou em sua pesquisa que o funcionamento do mecanismo que alterna as pessoas entre o sono REM e a vigília tendeu a ser diferente naquelas que relataram EQMs. Nessas pessoas, ele encontrou que a mudança era mais propensa a “fragmentar e misturar” esses dois estados de consciência (o controle do nosso estado de consciência é encontrado no nosso tronco cerebral e é precisamente regulado), fazendo com que essas pessoas exibam simultaneamente características de ambos. Durante a intromissão REM, as pessoas se viram paralisadas (“paralisia do sono”), totalmente despertas, mas experimentando luz, sensações fora do corpo, e narrativas surpreendentemente vívidas. Durante o sono REM, muitos dos centros de prazer do cérebro são estimulados também (animais que tiveram suas regiões REM danificadas perderam todo o interesse em comida e até em morfina), o que pode explicar os sentimentos de paz e unicidade também relatados durante EQMs.

A neurofisiologia também pode explicar o sentimento de estar se movendo através de um túnel tão regularmente mencionado em EQMs. É bem sabido que pessoas experimentam uma “visão de túnel” imediatamente antes de desmaiar. Experimentos com pilotos girados em centrífugas gigantes têm reproduzido o fenômeno de visão de túnel, aumentando as forças G e diminuindo o fluxo sanguineo em suas retinas (a periferia da retina é mais suscetível a quedas na pressão sanguínea do que o seu centro, de tal forma que o campo de visão parece comprimido, fazendo cenas parecerem vistas dentro de um túnel). Quando óculos especiais que geram sucção foram colocados nos olhos dos pilotos para neutralizar o efeito de queda da pressão sanguínea da centrífuga, os pilotos perderam a consciência sem desenvolver o efeito da visão de túnel – provando que a experiência da visão de túnel é causada por uma redução no fluxo sanguineo dos olhos.

Talvez o aspecto mais intrigante das EQMs seja o quão costumeiramente elas estão associadas com experiências fora do corpo. Isso, também, entretanto, trata-se de uma ilusão. Evidências de que experiências fora do corpo nada tem a ver com almas deixando corpos podem ser encontradas na observação de que elas também têm sido relatadas por pessoas acordando do sono, recuperando-se da anestesia, enquanto estão desmaiando, durante convulsões, durante enxaquecas, e quando estão em altas altitudes (não há razão para pensar que as almas das pessoas estão deixando seus corpos durante nenhuma dessas situações não ameaçadoras para a vida).

Mas as evidências mais fascinantes de que experiências fora do corpo são fenômenos neurológicos vêm dos estudos feitos inicialmente na década de 1950 por um neurocirurgião chamado Penfield. Ele estava interessado em compreender como poderia distinguir tecidos cerebrais normais de tumores cerebrais ou “cicatrizes” que eram responsáveis por causar convulsões. Ele estimulou os cérebros de centenas de pacientes acordados no esforço de mapear o córtex cerebral e entender aonde em nossos cérebros nosso corpo físico é representado.

Um paciente sofria de danos no lobo temporal e quando Penfield estimulou a região temporoparietal do seu cérebro, ele relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando ele variou a corrente e a localidade do estímulo que ele poderia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado!

Em o Cérebro Contador de Histórias (The Tell-tale Brain), V. S. Ramachandran descreve um paciente que teve um tumor removido da sua região frontoparietal direita e desenvolveu um “gêmeo fantasma” ligado ao lado esquerdo do seu corpo. Quando Ramachandran colocou água fria no seu ouvido (um procedimento conhecido como teste calórico de água fria, o qual estimula o sistema de equilíbrio do cérebro, conhecido por ter conexões com a região frontoparietal), o gêmeo do paciente se afogou, movimentou e mudou de posições.

Neurologistas têm reconhecido desde então que a região temporoparietal do cérebro é responsável por manter a representação de nossos esquemas corporais. Quando uma corrente externa é aplicada nessa região, ela para de funcionar normalmente e nossa representação do corpo “flutua”. Outras evidências de que esse fenômeno é uma ilusão vem de experimentos nos quais as pessoas que tiveram experiências fora do corpo enquanto passavam do sono para a vigília eram incapazes de identificar objetos colocados no quarto depois que eles adormeceram, sugerindo fortemente que a imagem que eles viram deles mesmos dormindo nas suas camas era reconstruída na memória. Embora não exista ainda nenhuma evidência de que níveis baixos de oxigênio no sangue causem disfunção da região temperoparietal da mesma forma que uma corrente aplicada causa, isso permanece como uma hipótese testável e a explicação mais provável.

Em suma, embora longe de estar provada, como uma explicação para o que realmente explica as EQMs, a hipótese da intromissão REM tem mais evidências para corroborá-la do que tem a idéia de que nós realmente deixamos nossos corpos quando a morte está à espreita.

– – –

Mais informações sobre experiências de quase morte:

Keith Augustine (2008) – Experiências alucinatórias de quase morte

Página de Olaf Blanke, grande pesquisador da área

Vídeos do Laboratório de Neurociência Cognitiva (LNCO)

Página de Al Cheyne, grande pesquisador da área

Artigos disponíveis de Al Cheyne sobre paralisia do sono

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Discussão - 4 comentários

  1. Poxa, gostei muito mesmo do blog. Mas não sei se algumas pessoas preconceituosas da minha sala de aula (apesar de estudarem Psicologia) vão apreciar tanto quanto eu! Hahahaha…
    Esse blog tende à humanizar secularmente o ser humano… Piadinha, rsrsrsrs…

  2. André Rabelo disse:

    @Isabella Ferraz, que bom que gostou do blog, fico feliz de saber disso! espero que continue acompanhando!

    “Esse blog tende à humanizar secularmente o ser humano…”
    gostei disso, hahaaha

    um abraço,
    André

  3. Devanil disse:

    Eu assisti (ou li) alguma vez, em algum lugar, que as experiências de quase-morte poderiam estar ligadas ao nascimento. Se me recordo bem, fazia-se uma ligação com o momento do nascimento, quando saímos do útero de nossas mães (o que causa uma dor insuportável ao bebê) e encontramos o primeiro rosto humano (muitas das vezes um médico).

    Eles fizeram a ligação com a saída do útero com o túnel comumente visto no nascimento, e o rosto humano como “Deus” das experiências de quase-morte.

    Durante a evolução biológica foi desenvolvido algo que apagasse esse momento terrível da história.

    Eles fazem a experiência com o LSD (se não me engano, um terapeuta estimulava as pessoas a se lembrarem do passado mais remoto, e descreviam mais ou menos o que escrevi acima), e nas experiências de quase-morte, uma substância em comum com o composto do LSD é liberada pelo cérebro.

    Preciso anotar onde leio as coisas. hahahaha! Mas é bem por aí. Será que tem sentido científico?

  4. André Rabelo disse:

    @Devanil, obrigado pelo comentário! eu sinceramente nunca ouvi falar dessas informações, são intrigantes as hipóteses mas não conheço a validade e o suporte empírico das mesmas. achei interessante a terapeuta estimular pacientes com LSD, achei q isso não era permitido, hahahah

    valeu por compartilhar essas interessantes informações, Devanil!

    abraço!

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