Semeando o Mundo com Heróis

Tudo que é necessário para o triunfo do mal é que homens de bem não façam nada.
– Sir Edmund Burke

A revista Science publicou um artigo recentemente (Miller, 2011) que traz o relato de um dos mais novos projetos do psicólogo social Phillip Zimbardo. Ele se tornou um dos psicólogos mais famosos no mundo por ter conduzido o famoso experimento da prisão de Stanford (comentado anteriormente aqui) e por ter sido o apresentador da série de divulgação científica Discovering Psychology.

Zimbardo particpou em 2004 do julgamento de Ivan “Chip” Frederick, um dos sargentos acusados de envolvimento em episódios de abuso e tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. O caso fez Zimbardo retomar questões envolvidas no seu famoso experimento e deu a inspiração para o seu próximo grande experimento –  o Projeto Imaginação Heróica – que tem como objetivo usar os resultados de pesquisas em psicologia social para ensinar as pessoas a reconhecerem as influências sociais às quais elas estão sujeitas no seu dia-a-dia e encorajar essas pessoas a praticarem “atos de heroísmo cotidiano” em situações que envolvam, por exemplo, bullying escolar, discriminação racial, discriminação sexual, violência doméstica, tortura ou abuso sexual.

O projeto planeja encorajar e dar o suporte para pesquisas sobre o tema, organizar cursos em escolas, incentivar a criação de jogos, programas, sites e grupos de ação conjunta. Além disso, pessoas do mundo todo podem enviar vídeos para serem publicados no site do projeto sobre os seus atos de heroismo realizados.

Dizer apenas que o projeto “planeja” tudo  isso seria uma injustiça, visto que essas ações já estão sendo promovidas em larga escala (mais informações podem ser obtidas no site do projeto, linkado anteriormente). Através dessas ações o projeto espera ensinar às pessoas tudo o que elas precisam saber sobre como se tornarem heróis ativos em suas comunidades.

“O primeiro passo para se tornar um herói é reconhecer as pressões sociais agindo numa situação” (Miller, 2011). Uma idéia que Zimbardo buscou enfatizar em seu trabalho, especialmente em seu célebre livro The Lucifer Effect (O Efeito Lúcifer), é que os heróis no cotidiano da maioria das pessoas são pessoas comuns – todos nós temos a potencialidade de ser um herói, mesmo que pela primeira vez. Ao estudar como as pessoas poderiam ser cruéis e indiferentes, influenciadas pela situação em que se encontravam, Zimbardo passou a defender que também podemos compreender como uma situação pode influenciar as pessoas a serem prestativas e heróicas, e que entender isso poderia nos ajudar a melhorar o convívio entre as pessoas.

Um exemplo desse tipo de situação cotidiana que ilustra a afirmação de Zimbardo pode ser encontrado em um episódio do programa “What Would you Do?” sobre o preconceito contra casais homossexuais que tem filhos. Nesse episódio, atores simulam uma situação de preconceito em uma lanchonete e observam qual a reação das pessoas em volta. O vídeo pode ser visto abaixo:

O mais interessante desse vídeo é que o Texas, em particular, é um estado americano muito tradicional e religioso, onde é até mesmo permitido que homossexuais não recebam atendimento ou serviço. Felizmente, haviam heróis naquele local. Como um dos rapazes que se manifestaram disse, uma das piores coisas que alguém pode fazer diante de uma injustiça é se calar.

Outro exemplo de um ato heróico, mais arriscado, foi o de Wesley, que ficou conhecido como “o herói do metrô”. Ele estava na estação de metrô de Nova Iorque com suas duas filhas, quando viu um homem que estava tendo convulsões e que acabou caindo nos trilhos do metrô. Apesar de que o metrô estava próximo, Wesley pulou nos trilhos e se deitou encima do homem entre os trilhos, de tal forma que ele  conseguiu salvar o homem sem se ferir. No vídeo abaixo ele conta como foi viver aquela situação.

Os heróis desses vídeos eram pessoas comuns, não eram bombeiros, policiais, médicos ou enfermeiros. Todos podemos agir nesse tipo de situação, e se assim o fizermos, podemos evitar prejuizos sérios para alguém ou até mesmo salvar uma vida. Entretanto, uma ressalva se faz necessária aqui. Ser um herói não pode ser entendido apenas no seu sentido esteriotipado – não se trata sempre de arriscar a vida para salvar alguém. Podemos ajudar as pessoas de várias formas, muitas delas sem envolver riscos graves – ligar para a polícia ao se deparar com uma situação de violência, doar sangue e fazer trabalho voluntário.

Nesse sentido, algo mais próximo da idéia de ato heróico como reagir a assaltos ou intervir nos mesmos, por exemplo, continua sendo considerada uma péssima opção, pois o risco de danos é muito maior, mesmo que muitas vezes a vítima possa ser ferida sem reagir. Em situações como essa, ajudar pode envolver uma simples ligação. Na grande parte das situações cotidianas, não precisamos bater em ninguém ou arriscar nossas vidas para ajudar muito uma pessoa. Saber quando e como ajudar de forma responsável  não é algo fácil, mas empreitadas como o Projeto Imaginação Heróica estão ai para orientar as pessoas.

Finalizo esse texto com as mesmas palavras de Zimbardo em uma palestra proferida no TED – o que o mundo precisa agora é de mais heróis. Que tal começar hoje a ser um herói?

Referências:

Miller, G. (2011). Using the Psychology of Evil To Do Good. Science, 332 (6029), 530-532 DOI: 10.1126/science.332.6029.530

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Discussão - 1 comentário

  1. Sabe que eu me deparei com uma situação de preconceito ontem mesmo?
    É incrível o ‘talento’ que algumas pessoas têm de se sentir tão superiores, apenas por questões de formação ou situação financeira mais elevada…

    Essas pessoas deveriam se preocupar mais em “ser heróis”. Só uma dica. 😉

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