Enterrados por Más Decisões

A espécie humana se encontra hoje em uma situação grave em relação ao seu ambiente. São problemas sérios a serem enfrentados e que oferecem riscos para a nossa sobrevivência, como o aquecimento global, a expansão populacional, a escassez de recursos naturais e a destruição de florestas.

Mesmo com uma capacidade de raciocínio lógico tão suprema no reino animal, não fomos capazes até aqui de cuidar do nosso ambiente de forma sustentável, mesmo que soubessemos o que deveriamos fazer já há algum tempo. Nossas péssimas decisões no passado poderão ter consequências drásticas para a vida da nossa espécie na Terra.

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O psicólogo social Daniel Gilbert da Universidade de Harvard explica em um recente artigo publicado na revista Nature que possuimos cérebros otimizados para buscar comida e parceiros na savana africana, mas não tão bons para estimar consequências de longo prazo ou o impacto do consumo excessivo de recursos (Gilbert, 2011). Somos “pré-programados” para tomar decisões baseadas em necessidades de curto prazo.

Algumas pesquisas têm mostrado que os seres humanos tendem a se focar no que estão obtendo imediatamente e ignorar o que estão deixando de obter. Uma pesquisa, por exemplo, encontrou evidências de que temos maiores tendências a comprar um produto quando devemos escolher entre “comprar” ou “não comprar” do que quando escolhemos entre “comprar” ou “manter o dinheiro para outras compras”, por mais que “não comprar” e “manter o dinheiro” sejam a mesma coisa.

Gilbert explica que possuímos cérebros altamente especializados na compreensão de outras mentes, ou seja, no processamento de informações sociais relativas ao que outras pessoas pensam, sentem e desejam. Isso tem como consequência uma hipersensitividade nossa em relação aos danos que essas outras mentes podem nos causar. Resultados intrigantes de algumas pesquisas indicam que pessoas podem ser muito mais ameaçadoras para nós do que objetos ou coisas que não conseguimos ver a olho nu.

Essas pesquisas tem indicado que: participantes relatam sentir mais dor quando recebem choques elétricos administradores de forma intencional por outra pessoa em comparação com participantes que recebem o choque de forma não-intencional; participantes tendem a rejeitar ofertas que consideram injustas quando esta é feita por um pessoa em comparação com quando a oferta é feita por um computador. O resultado dessa tendência é que temos mais medo que nossos filhos sejam sequestrados do que se tornem obesos, mesmo que abduções sejam mais raras e diabetes sejam muito comuns. A diferença é que abusadores de crianças são agentes, enquanto que batatas fritas não são.

Além disso, ficamos obcecados quando nossos sistemas de moralidade são violados por esses agentes, visto que esses sistemas possuem funções centrais à convivência em grupo. O problema é que, como Gilbert coloca, “quando uma tribo cresce para quase 7 bilhões de pessoas, ameaças contra o seu senso de decência não são as ameaças mais sérias”. Como a decisão de se prevenir contra uma ameaça significa decidir não se prevenir contra outros, corremos o risco de nos distanciar dos problemas mais sérios ao nos preocupar demais com questões morais e menos com questões ambientais.

Um exemplo pode ser encontrado nos dados de alguns modelos econômicos em relação ao uso de drogas. Segundo alguns desses modelos, o abuso de drogas diminuiria se elas fossem taxadas ao invés de proibidas. Essa concessão ao uso de drogas poderia diminuir a sua própia frequência, mas quando se trata de um comportamento considerado imoral por muitas pessoas, o debate e a tolerância não costumam prevalecer.

Gilbert sugere duas possíveis soluções para o desencontro entre a forma como pensamos e os problemas que deveríamos estar nos ocupando. A primeira solução é descrever ameaças em termos de violações morais, visto que nossos cérebros são mais sensíveis a esse tipo de informação. Uma série de estudos feitos por psicólogos e economistas tem dado suporte a essa idéia ao identificar várias formas de tornar a reflexão sobre essas questões mais difícil de ignorar.

A outra solução é ensinar as pessoas a pensar racionalmente sobre probabilidades e consequências. Se queremos melhorar a nossa situação, precisaremos mudar a forma como pensamos. E, por incrível que pareça, isso é mais fácil do que imaginamos. Alguns estudos tem demonstrado que, por exemplo, lições de 5 minutos podem melhorar drasticamente a capacidade de tomar decisões das pessoas em domínios novos, um mês depois das lições. Gilbert afirma que “ensinamos nossos estudantes como ler Chaucer e fazer trigonometria, mas não como pensar racionalmente sobre os problemas que poderiam extinguir a sua espécie”.

Apesar dos avanços importantes que psicólogos e economistas tem alcançado no estudo do ser humano, pouco interesse e baixa prioridade tem sido demonstrada pelas agências de fomento. Temos o conhecimento para aprimorar as decisões e o modo de pensar das pessoas, mas falta o interesse político e econômico em investir nesse conhecimento. O problema é que nosso caminho, daqui em diante, dependerá de decisões que precisaremos tomar, e, orientados para o curto prazo, corremos o risco de continuar tomando as decisões que não favorecem a nossa saúde e a sustentabilidade do ambiente a longo prazo. Nossas decisões podem acabar nos “enterrando” prematuramente se mantivermos os rumos das coisas como estão, mas podemos evitar se, por exemplo, usarmos o conhecimento disponível sobre a natureza humana e sobre como podemos superar essa tendência de olhar só para o que estamos ganhando e não para o que estamos deixando de ganhar.

 

Referências:

Gilbert, D. (2011). Buried by bad decisions. Nature, 474 (7351), 275-7 PMID: 21677724

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Discussão - 1 comentário

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