Psicologia Evolucionista

Porque o ser humano é capaz de atos tão heróicos, mas também de outros tão cruéis? Porque fazemos sexo e fazemos guerra? Como indagava o grande Cazuza, porque que a gente é assim?

No final da década de 1980, pesquisadores de diversas áreas interessados no comportamento humano começaram a se perguntar se a teoria da seleção natural de Darwin poderia ajudar a responder esse tipo de pergunta, fundando uma das áreas mais influentes e importantes da psicologia atualmente – a Psicologia Evolucionista.

Darwin, ciente das implicações de sua teoria, conclui o seu livro A Origem das Espécies prevendo que “a psicologia será baseada em novos alicerces”. Provavelmente devido ao receio das reações que o seu provocativo livro causaria, Darwin não explorou muito a questão neste livro. Em livros subsquentes como A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais e A Origem do Homem e a Seleção Sexual, Darwin trouxe evidências que indicavam a importância de sua teoria para a compreensão da natureza humana.

Muitas questões levantadas por ele ficaram em aberto e só foram retomadas por volta de 100 anos após a publicação de A Origem das Espécies com o advento da Etologia, da Sociobiologia, da Ecologia Comportamental e, mais recentemente, da Psicologia Evolucionista. Boyer e Heckhausen (2002) consideram a Psicologia Evolucionista como um dos mais importantes desenvolvimentos recentes nas ciências do comportamento.

A Nova Ciência da Mente

Até a década de 1980, grande parte dos grandes teóricos na Psicologia já haviam de alguma forma aludido à teoria da seleção natural quando falaram do ser humano, entre eles William James, Freud e Skinner. Entretanto, nenhum deles explorou devidamente as implicações diretas da teoria da seleção natural para o entendimento do ser humano, se restringindo à homenagens superficiais (Otta e Yamamoto, 2009).

Na biologia, campos como a Etologia e a Sociobiologia já vinham produzindo grandes contribuições na Biologia Evolucionista para o entendimento do comportamento de animais não-humanos e humanos, usando como base o modelo de Darwin. O final da década de 1960 foi marcado pelo surgimento da Ciência Cognitiva, uma área interdisciplinar buscando unir os esforços dos recentes avanços na neurociência, psicologia cognitiva, antropologia, ciência da computação, filosofia e da pesquisa em inteligência artificial para compreender como o ser humano processa informações.

ResearchBlogging.orgFoi da união entre a Ciência Cognitiva e a Biologia Evolucionista que surgiu a Psicologia Evolucionista, uma área de pesquisa com o objetivo de “estudar o comportamento humano como produto de mecanismos psicológicos evoluídos que dependem de inputs internos e ambientais para o seu desenvolvimento, ativação e expressão no comportamento manifesto” (Confer et al., 2010).

De forma simples, a Psicologia Evolucionista tenta entender porque o ser humano se comporta de uma determinada forma, se atentando para a função adaptativa desse comportamento (Izar, 2009).

De acordo com Darwin (1859), variações de características passadas adiante por progenitores á sua prole que aumentassem a chance de um organimo sobreviver e se reproduzir seriam transmitidas em maiores frequências para as gerações subsequentes do que as variações alternativas. Esse processo resultaria em adaptações, subprodutos e “ruído genético” (Confer et al., 2010) – adaptações são variações de características herdadas que resolveram, de forma mais eficiente que outras alternativas, problemas relacionados à sobrevivência e à reprodução (e.g. medo de cobras perigosas;) subprodutos são variações de características que não possuem uma função adaptativa mas persistem por estarem inerentemente relacionados com adaptações (e.g. medo de cobras inofensivas); ruídos genéticos são variações de características que resultaram de mutação genética ou de eventos ambientais aleatórios (e.g. medo do sol resultante de fatores genéticos e de desenvolvimento aleatórios).

Uma das idéias mais importantes na Psicologia Evolucionista é que o ser humano possui uma série de adaptações psicológicas – circuitos de processamento de informação que computam informações e transformam essas informações em respostas funcionais com o objetivo de resolver problemas específicos de adaptação (Confer et al., 2010).

“A mente humana é um conjunto complexo integrado de várias adaptações psicológicas funcionalmente especializadas que evoluíram como soluções de problemas adaptativos numerosos e qualitativamente distintos” (Cofner et al., 2010).

Dentro da perspectiva defendida por muitos pesquisadores da Psicologia Evolucionista, o cérebro humano pode ser entendido como um conjunto de sistemas computacionais resultante do processo de seleção natural visando “resolver problemas adaptativos de sobrevivência enfrentados por nossos ancestrais caçadores-coletores” (Seild de Moura e Oliva, 2009). Nós, seres humanos, somos uma espécie de primata com um cérebro avantajado que realiza uma série de complexas operações computacionais para processar informações, e podemos chamar esse conjunto de mecanismos de “mente”.

Tais adaptações evoluíram a partir dos constantes desafios encontrados por nossos ancestrais em suas buscas por comida, parceiros sexuais, segurança e cuidado parental. A Psicologia Evolucionista preconiza que a função de todo o comportamento é o sucesso reprodutivo, mas isso não quer dizer que essa é a forma que o ser humano deve se comportar nem que esta meta seja de alguma forma consciente ou planejada (Neuberg, Kenrick e Schaller, 2010).

Entretanto, sendo uma área ainda tão jovem de pesquisa, a Psicologia Evolucionista é muito heterogênea e seus pesquisadores têm oferecido diferentes propostas de estudo. Tem se tornado comum na literatura se referir aos psicólogos evolucionistas no sentido estrito e aos psicólogos evolucionistas no sentido amplo, sendo os primeiros representados por adeptos da proposta de alguns dos fundadores da disciplina como Cosmides e Tooby, e os segundos sendo pesquisadores interessados pelo pensamento evolucionista na teorização em psicologia, mas que não concordam necessariamente com a proposta de Cosmides e Tooby (Mameli, 2007).

Porém, muitos autores de ambas abordagens defendem que a teoria da evolução de Darwin não só pode como deveria fazer pela psicologia o mesmo que fez pela biologia, integrando todas as suas sub-áreas em uma mesma metateoria organizativa deste campo (Duntley e Buss, 2008), a partir de uma mesma linguagem evolucionista que traria coerência lógica e conceitual entre as diversas linhas de pesquisa na psicologia e suas respectivas teorias (Dunbar e Barrett, 2007). Além disso, a teoria evolucionista tem um grande valor heurístico, pois nos permite fazer predições precisas sobre como se espera que pessoas se comportem se uma hipótese específica for verdadeira.

Evidências

Numerosas evidências empíricas derivadas da lógica evolucionista têm demonstrado a importância e a originalidade da contribuição que a Psicologia Evolucionista oferece para a compreensão do comportamento humano. Um exemplo disso foi uma série de pesquisas que investigou o medo em seres humanos (Mineka & Öhman, 2002).

Esta série de estudos demonstrou empiricamente que seres humanos e outros primatas possuem um intensificado medo de cobras e aranhas: os resultados indicaram que a presença de cobras e aranhas em uma tarefa visual capturou automaticamente a atenção dos participantes muito mais que objetos inofensivos; que seres humanos são mais rapidamente condicionados a ter medo de cobras do que muitos outros estímulos, além dessa adaptação de medo de cobras ser difícil de extinguir e poder ser relacionada com circuitos neurais especializados.

Cobras, aranhas, altura e estranhos foram perigosas ameaças para os primeiros seres humanos a viver nas savanas africanas. Coincidentemente ou não, esses quatro estímulos aparecem regularmente no topo das listas de fobias mais comuns, em uma frequência muito superior do que ameaças atuais muito mais perigosas e importantes para a sobrevivência, como carros e armas (Confer et al., 2010).

Outra importante série de estudos tem sido empreendida pela equipe da professora Nairne sobre memória adaptativa (Nairne, Pandeirada & Thompson, 2008). A hipótese inicial da equipe era de que sistemas evoluidos de memória deveriam ser sensitivos à conteudos relacionados com a aptidão evolutiva da espécie humana. Experimentos utilizando uma tarefa de priming envolvendo cenários e uma tarefa de revocação surpresa identificaram que as palavras apontadas pelos participantes como tendo relevância para a sobrevivência na tarefa envolvendo cenários foram significativamente mais relembradas do que palavras relacionadas à outros conteúdos.

Estudos subsequentes comparando o processamento relacionado à sobrevivência com outras técnicas de codificação da memória levaram a equipe à conclusão de que o processamento de informações relacionado à sobrevivência é um dos procedimentos de codificação mais robustos na área de pesquisa sobre a memória humana.

Outro grande achado da Psicologia Evolucionista é o já bem documentado efeito Cinderela. Este efeito propõe que existe uma probabilidade significativamente maior de crianças adotadas ou criadas por pais não-biológicos de serem maltratadas (i.e. violentadas, abusadas, mortas) por seus pais do que crianças criadas pelos seus dois pais biológicos. A hipótese, gerada a partir da teoria da solicitude discriminativa dos pais, tem sido repetidamente corroborada em diversos contextos e com diversas espécies (Daly e Wilson, 1985; 2005).

A hipótese de que a mente humana é composta por diferentes adaptações psicológicas ou módulos cognitivos tem recebido grande suporte empírico, sendo que “não parece haver atualmente quem rejeite seriamente a idéia de alguma especificidade de processamento em domínios” (Seild de Moura e Oliva, 2009). As evidências têm convergido de diferentes campos como as neurociências, a Neurologia, a Psicologia Evolucionista, a Psicologia do Desenvolvimento e a Psicologia Diferencial: crianças e adultos que possuem habilidades gerais muito pobres mas demonstram habilidades muito sofisticadas em domínios específicos (i.e. os autistic savant);  bebês que possuem competências especializadas desde muito cedo; pacientes com lesões cerebrais que prejudicam alguma capacidade específica do indivíduo sem que haja qualquer prejuízo em outras capacidades.

Pesquisadores da área de plasticidade cerebral tem criticado a hipótese de modularidade, apresentando evidências de que o encéfalo humano é muito flexível e que várias capacidades humanas dependem de uma alta fluidez cognitiva. Entretanto, as evidências nas neurociências tem corroborado tanto a hipótese de modularidade como a de plasticidade – apesar de nenhuma função cerebral ser executada plenamente e rigidamente por uma região específica do encéfalo, nem todas as regiões encefálicas são igualmente responsáveis por uma função específica (i.e. amígdala), ou seja, as duas hipóteses não são mutuamente exclusivas.

Cabe ressaltar que, por se tratar de uma hipótese dentro de um nível de análise computacional, a hipótese de modularidade da mente humana não tem qualquer compromisso com uma divisão geográfica de funções no encéfalo ou com a tese localizacionista no âmbito das neurociências. A natureza, a quantidade e a localização encefálica destes módulos ainda são assuntos longamente debatidos e estudados na literatura da área e que parecem ainda longe de serem resolvidos.

Dificuldades, Confusões e Críticas

Apesar de ser um campo muito novo de pesquisa e promissor para o entendimento do ser humano, a Psicologia Evolucionista ainda enfrenta muitas dificuldades empíricas, confusões e críticas. A área herdou uma antipatia da Sociobiologia, visto que essa  acabou sendo muito críticada pelo suposto excessivo determinismo genético, o que a rendeu uma série de críticos ferrenhos (i.e. Stephen Jay Gould). Todavia, a maior parte das críticas dirigidas a um dos maiores nomes da Sociobiologia, E. O. Wilson, por exemplo, foram infundadas e precipitadas, mesmo que algumas críticas como a ausência de evidências em algumas especulações dele fossem verdadeiras (Mameli, 2007).

Uma grande dificuldade enfrentada pelos psicólogos evolucionistas é que boa parte das suas teorias dependem das evidências que possuimos sobre como era o ambiente no qual os nossos ancestrais evoluíram, ou seja, de informações sobre o nosso Ambiente de Adaptação Evolutiva. Este conceito é ao mesmo tempo um dos mais importantes e um dos mais polêmicos na área, visto que possuimos poucas evidências para conseguir descrever com grande precisão quais foram as características do ambiente seletivo no qual se desenvolveram as nossas capacidades mais complexas. Além disso, outra dificuldade com o Ambiente de Adaptação Evolutiva existe na justificativa para definir o seu período histórico como sendo o Pleistoceno (Mameli, 2007).

As evidências disponíveis indicam que os primeiros homo sapiens sapiens viveram nas savanas africanas, à cerca de 150 mil anos atrás, em pequenos grupos cooperativos onde muitos eram parentes (Richerson & Boyd, 2005), em um ambiente complexo e de difícil navegação, onde conseqüentemente os indivíduos eram forçados a cooperar para completar atividades necessárias à sobrevivência como localizar e proteger fontes de comida e abrigo, defender-se contra predadores e criar a prole (Lakin, Jefferis, Cheng e Chartrand, 2003).

Muitas críticas têm sido feitas também à ênfase de muitos pesquisadores da área no adaptacionismo, visto que outros processos seletivos como a exaptação, a deriva genética, a seleção sexual e a construção de nicho têm sido negligenciados pelos psicólogos evolucionistas. Como muitos aspectos do nosso ambiente de adaptação mudaram radicalmente do ambiente das savanas africanas, alguns autores argumentam que nem todos os comportamentos humanos atuais podem nos informar sobre os comportamentos dos seres humanos que viveram no Pleistoceno ou sobre a aptidão que estes comportamentos conferiram aos nossos ancestrais, visto que os mesmos mecanismos psicológicos podem estar envolvidos na produção de diferentes comportamentos em diferentes ambientes e que boa parte dos nossos comportamentos provavelmente são novidades evolutivas por conta da construção de nichos diferenciados ao longo da história evolutiva da nossa espécie (Mameli, 2007).

Seria impossível (ou ao menos inconveniente) tentar esgotar todas as grandes contribuições, dificuldades e desafios enfrentados pela Psicologia Evolucionista. Muitos outros textos explorando de forma mais específica os temas dentro desta área haverão de vir! A quantidade de simplificações e críticas sem embasamento que são ditas sobre a Psicologia Evolucionista é enorme.  Um bom texto feito pela Isabella Bertelli e pelo Marco Varella que trata deste assunto pode ler lido “aqui“. Fica aqui também a indicação do ótimo blog do Marco Varella no scienceblogs sobre psicologia evolucionista, o “Marco Evolutivo“.

A despeito das dificuldades enfrentadas pela área, inerentes à qualquer empreendimento científico, tudo indica que a Psicologia Evolucionista veio para ficar (Dunbar e Barrett, 2007).

Referências:

Boyer, P., & Heckhausen, J. (2002). Introductory notes. American Behavioral Scientist, 43, 917-925.

Confer, J., Easton, J., Fleischman, D., Goetz, C., Lewis, D., Perilloux, C., & Buss, D. (2010). Evolutionary psychology: Controversies, questions, prospects, and limitations. American Psychologist, 65 (2), 110-126 DOI: 10.1037/a0018413

Daly, M., & Wilson, M. (1985). Child abuse and other risks of not living with both parents Ethology and Sociobiology, 6 (4), 197-210 DOI: 10.1016/0162-3095(85)90012-3

Daly, M., & Wilson, M. (2005). The ‘Cinderella effect’ is no fairy tale Trends in Cognitive Sciences, 9 (11), 507-508 DOI: 10.1016/j.tics.2005.09.007

Darwin, C. (1859/2004). A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret.

Dunbar, R., & Barrett, L. (2007). Evolutionary psychology in the round. In R. Dunbar & L. Barrett (Eds.), Oxford Handbook of Evolutionary Psychology (pp 3-9). Oxford: Oxford University Press.

Duntley, J. D., & Buss, D. M. (2008). Evolutionary Psychology Is a Metatheory for Psychology. Psychological Inquiry, 19, 30 – 34.

Izar, P. (2009). Ambiente de adaptação evolutiva. In E. Otta e M. E. Yamamoto (Eds.). Psicologia Evolucionista (pp. 22–32). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Lakin, J. L., Jefferis, V. E., Cheng, C. M., & Chartrand, T. L. (2003). The chameleon effect as social glue: evidence for the evolutionary significance of nonconscious mimicry. Journal of Nonverbal Behavior, 27, 145-162.

Mameli, M. (2007). Evolution and psychology in philosophical perspective. In R. Dunbar & L. Barrett (Eds.), Oxford Handbook of Evolutionary Psychology (pp 21-34). Oxford: Oxford University Press.

Mineka, S., & Öhman, A. (2002). Phobias and preparedness: The selective, automatic, and encapsulated nature of fear. Society of Biological
Psychiatry, 52, 927–937. doi:10.1016/S0006-3223(02)01669-4

Nairne, J., Pandeirada, J., & Thompson, S. (2008). Adaptive Memory: The Comparative Value of Survival Processing. Psychological Science, 19 (2), 176-180 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2008.02064.x

Neuberg, S. L., Kenrick, D. T., & Schaller, M. (2010). Evolutionary social psychology. In S. T. Fiske, D. T. Gilbert, & G. Lindzey (Eds.), Handbook of Social Psychology (5 ed., Vol. 2, pp 761-796). New Jersey: Jon Wiley and Sons.

Otta, E., & Yamamoto, M. E. (2009). Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Richerson, P. J. & Boyd, R. (2005). Not by genes alone: How culture transformed human evolution. Chicago: University of Chicago Press.

Seild de Moura, M. L., & Oliva, A. D. (2009). Arquitetura da mente, cognição e emoção: Uma visão evolucionista. In E. Otta e M. E. Yamamoto (Eds.). Psicologia Evolucionista (pp. 42–53). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

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Discussão - 10 comentários

  1. […] Psicologia Evolucionista TweetFonte: Ciência – Uma Vela no Escuro […]

  2. Pedro Sampaio disse:

    “Entretanto, nenhum deles explorou devidamente as implicações diretas da teoria da seleção natural para o entendimento do ser humano, se restringindo à homenagens superficiais (Otta e Yamamoto, 2009).”

    TODA a Análise do Comportamento é alicerçada sobre o princípio de seleção por conseqüências, que é o mesmo princípio da seleção natural. Ouso inclusive dizer que a Análise do Comportamento não apenas utiliza a seleção natural para explicar os comportamentos humanos como também o faz de maneira melhor do que a Psicologia Evolucionista e todas as outras.

    “Foi da união entre a Ciência Cognitiva e a Biologia Evolucionista que surgiu a Psicologia Evolucionista, uma área de pesquisa com o objetivo de “estudar o comportamento humano como produto de mecanismos psicológicos evoluídos que dependem de inputs internos e ambientais para o seu desenvolvimento, ativação e expressão no comportamento manifesto” (Confer et al., 2010).”

    Ou seja, começou mal. Pois parte de constructos INFERIDOS e desnecessários à explicação para poder tentar comprová-los por meio de uma teoria cientificamente validada. Compare com a Análise do Comportamento e passe Navalha de Occam nisso aí, rapaz!

    “De forma simples, a Psicologia Evolucionista tenta entender porque o ser humano se comporta de uma determinada forma, se atentando para a função adaptativa desse comportamento (Izar, 2009).”

    Isso é o que a Análise do Comportamento faz, mas ao contrário da Psicologia Evolucionista e outras propostas cognitivas, é verdadeiramente naturalista, não apelando a constructos inferidos ou tomando analogias e metáforas como coisas reais, apontando que o comportamento pode – e deve! – ser explicado sem estes. O comportamento pode ser explicado apenas pela seleção por conseqüências, não prostituindo o termo para justificar a existência destes constructos (os quais não existem evidência ALGUMA).
    Esta mal apropriação da seleção natural poderia ser feita por qualquer defensor de absolutamente qualquer bobagem, para tentar dar uma roupagem científica à sua teoria. Não é difícil imaginar um psicanalista evolucionista justificando ego, id, superego, libido e outras coisas, pela seleção natural.

    “Uma das idéias mais importantes na Psicologia Evolucionista é que o ser humano possui uma série de adaptações psicológicas – circuitos de processamento de informação que computam informações e transformam essas informações em respostas funcionais com o objetivo de resolver problemas específicos de adaptação (Confer et al., 2010).”

    O problema é que nem estes autores, nem nenhum outro, nos definem bem o que é processamento, o que é informação, o que é processamento de informação, o que é “computam”, o que é “computam informações”, o que é “transformar informação”, como algo pode ser desenvolvido com algum objetivo (isso é inverter o efeito pela causa, é justamente o que a seleção natural ensinou que NÃO existe: teleologia), como tudo isso ocorre, quais as evidências de que tudo isso existe e desta forma como descrevem.

    É o MÍNIMO que deveria ser feito.

    O problema ainda maior é que, mesmo isso sendo feito, ou seja, mesmo se estes termos forem traduzidos para uma linguagem operacionalizável e/ou funcional, ainda assim deveriam ser descartadas, por não serem termos econômicos, obscurecendo mais a explicação do que clareando-a, por utilizar-se demais de metáforas, analogias e constructos, correndo o risco de tomar a analogia pela coisa em si (o que muito frequentemente ocorre), enquanto tudo isso é total e absolutamente DESNECESSÁRIO à explicação, como a análise do comportamento demonstra.

    “Nós, seres humanos, somos uma espécie de primata com um cérebro avantajado que realiza uma série de complexas operações computacionais para processar informações, e podemos chamar esse conjunto de mecanismos de “mente”.”

    Está substituindo “mente” por uma série de outros termos que também precisam ser definidos. Não avança na explicação.

    “Porém, muitos autores de ambas abordagens defendem que a teoria da evolução de Darwin não só pode como deveria fazer pela psicologia o mesmo que fez pela biologia, integrando todas as suas sub-áreas em uma mesma metateoria organizativa deste campo (Duntley e Buss, 2008), a partir de uma mesma linguagem evolucionista que traria coerência lógica e conceitual entre as diversas linhas de pesquisa na psicologia e suas respectivas teorias (Dunbar e Barrett, 2007). Além disso, a teoria evolucionista tem um grande valor heurístico, pois nos permite fazer predições precisas sobre como se espera que pessoas se comportem se uma hipótese específica for verdadeira”

    É exatamente a proposta da Análise do Comportamento.

    É importante ressaltar que todas as “evidências” que trouxe, não são evidências alguma de módulos, de input e output ou nada disso. Estes são inferidos a partir dos dados. Existem pesquisas realizadas por psicólogos evolucionistas que são interessantíssimas, e um bom analista do comportamento tem de ficar atento ao que tem sido pesquisado e aos dados que têm sido colhidos. Mas um bom cientista tem igualmente de permanecer atento e crítico quanto a como estes dados estão sendo colhidos, como é feito a pesquisa e se a conclusão de fato deriva dos dados colhidos.

    “A hipótese de que a mente humana é composta por diferentes adaptações psicológicas ou módulos cognitivos tem recebido grande suporte empírico, sendo que “não parece haver atualmente quem rejeite seriamente a idéia de alguma especificidade de processamento em domínios” (Seild de Moura e Oliva, 2009).”

    Eu rejeito, enfaticamente. Por que é possível, e obviamente acredito ser o caso, que os DADOS colhidos de pesquisas que supostamente evidenciam isso sejam explicados na verdade por outro motivo, que não a existência destes módulos. Não se nega os dados, os fatos, os resultados, nega-se a explicação para estes. Dados semelhantes já vinham sendo colhidos por analistas do comportamento e explicados de outras formas.

    “Pesquisadores da área de plasticidade cerebral tem criticado a hipótese de modularidade, apresentando evidências de que o encéfalo humano é muito flexível e que várias capacidades humanas dependem de uma alta fluidez cognitiva.”

    Este é um dos zilhões de exemplos nas psicologias cognitivas de explicações que não explicam nada. São explicações circulares: acreditamos que o encéfalo humano é muito flexível por causa da alta fluidez cognitiva, e acreditamos na alta fluidez cognitiva porque o cérebro humano é muito flexível.

    Existem muitos, muitos outros problemas nas “explicações” evolucionistas. Recomendo – mais, faço QUESTÃO que leia, se topar debater mais sobre o tema – um artigo do Schlinger sobre isso:
    http://firstmonday.org/htbin/cgiwrap/bin/ojs/index.php/bsi/article/view/280/2144

    Ele aponta apenas algumas coisas, mas é um ponto de partida.

    Abraços

    PS: espero que se sinta incomodado (o incômodo é positivo e é o que move o cientista), porém não irritado com meus apontamentos. Acredito sinceramente que ambos sejamos, acima de tudo e de qualquer teoria específica, comprometidos com o conhecimento, e estejamos apenas fazendo esforço para termos as melhores explicações possíveis para os fenômenos.

  3. André Rabelo disse:

    Grande Pedro Sampaio, obrigado pelo comentário!

    vamos por partes… =)

    primeiro comentarei sobre as suas críticas, depois comentarei sobre o artigo que vc me enviou.

    “TODA a Análise do Comportamento é alicerçada sobre o princípio de seleção (…) Análise do Comportamento não apenas utiliza a seleção natural para explicar os comportamentos humanos como também o faz de maneira melhor do que a Psicologia Evolucionista e todas as outras.”

    Pedro, vejo que boa parte dos seus comentários simplesmente ignoram as diferenças fundamentais existentes entre explicações que se situam em diferentes níves de investigação, tanto em níveis de análise quanto de organização, e isso prejudica boa parte da sua argumentação. Comparar explicações que se situam em diferentes níveis de análise e diferentes níveis de organização como se estivessem nos mesmos níveis é muito improdutivo e que carece de justificativa tanto lógica quanto empírica. é possível comparar sim explicações em diferentes níveis de investigação, mas este é hoje um dos maiores desafios enfrentados em vários campos de pesquisa como as neurociências e vc parece passar batido nisso.

    existem 4 formas de se fazer uma pergunta ou oferecer uma explicação para o comportamento de um animal não-humano ou humano: filogenético (qual a história evolutiva do comportamento?), funcional (porque o comportamento confere maior habilidade de sobrevivência e reprodução a um determinado organismo?); ontogenético (quais fatores estão envolvidos no desenvolvimento do comportamento ao longo da vida de um organismo?) e proximal (quais mecanismos imediatos estão envolvidos no comportamento?). Também pode-se agrupar esses 4 níveis de análise em duas categorias: causas finais (filogenia, funcionalidade) e causas próximas (ontogenia e mecanismos imediatos). Os psicólogos evolucionsitas lidam normalmente com questões finais e behavioristas com questões próximas, tratam-se de empreendimentos buscando explicações em diferentes níveis de análise que são ambos necessários para uma explicação completa do comportamento de um organismo e a explicação em um nível não é excludente em relação à explicação em outro nível, já que normalmente uma esta envolvida de alguma forma na outra.

    Além disso, sua afirmação de que o behaviorismo oferece a melhor explicação sobre qualquer aspecto do comportamento humano demanda também uma (enorme) justificativa racional que vc não apresenta, só fala que é assim que as coisas são e pronto. Porque é melhor? Baseado em que evidências vc pode afirmar e sustentar logicamente isso?

    o fato da Análise do Comportamento usar a lógica selecionista não implica que ela tenha se focado no nível de análise filogenético em seus estudos, como de fato não foi isso o que aconteceu. A explicação oferecida pela análise do comportamento se situa claramente num nível de explicação ontogenético. ela não fez uso extensivo de dados arqueológicos, antropológicos e paleontológicos para criar suas teorias (se usou, peço que me corriga, pois não sou especialista na história do behaviorismo) como muitas teorias dentro da Psicologia Evolucionsita fizeram. Skinner cita o nível de seleção filogenético como um dos níveis de seleção e parte para a utilização da lógica selecionista presente na teoria do Darwin para tentar explicar o nível ontogenético de desenvolvimento, os mecanismos ambientais que moldam o comportamento, adaptando essa lógica para construir uma OUTRA teoria. Me pareceu por vezes que a teoria do Skinner foi quase igualada à teoria de seleção natural de Darwin na sua fala. é claro que se tratam de duas teorias diferentes e sei que vc sabe disso.

    “parte de constructos INFERIDOS e desnecessários à explicação para poder tentar comprová-los por meio de uma teoria cientificamente validada. Compare com a Análise do Comportamento e passe Navalha de Occam nisso aí, rapaz!”

    Qual é o grande problema com a inferência, Pedro? Não vejo problema nenhum. A inferência já demonstrou sua enorme utilidade em vários campos da ciência com a física, a geologia, a biologia, a astronomia, a paleontologia, a química e a arqueologia, permitindo avanços significativos e sem precedentes em todos esses campos. A inferência é um método usado diariamente por boa parte dos cientistas e isso não parece estar nos levando para um estancamento em nosso avanço do conhecimento. Da teoria do Big-bang à teoria da deriva continental, os dados INFERIDOS por diversos pesquisadores parecem funcionar muito bem e dar uma sustenção robusta a estes modelos.

    a Teoria da evolução parece ser claramente sustentada pelos dados obtidos com métodos de datação de carbono, completamente INFERIDOS indiretamente, mas que mesmo assim convergem entre si e com outras evidências do processo evolutivo e hoje fazem parte do grupo de evidências mais robustos apoiando a teoria. Considerável parte da astronomia é baseada em inferências a partir da análise da radiação eletromagnética, sendo possível até mesmo inferir com enorme precisão a existência de determinados elementos químicos na atmosfera de um planeta. A química e a física começaram seus estudos sobre a estrutura do átomo de forma completamente inferencial, progressivamente se desenvolvendo até chegar ao estado robusto de predição que observamos hoje na física moderna.

    Gosto de um trecho do Dawkins (2010) sobre esse assunto:

    “A inferência cuidadosa pode ser mais confiável do que a “observação efetiva”, por mais que a nossa intuição relute em admiti-lo. (…) É bem verdade que, em última análise, a inferência tem de ser baseada na observação por nossos órgãos dos sentidos. (…) Porém – apesar de todas as intuições em contrário – a observação direta de um evento suposto (por exemplo, um assassinato) como ele realmente aconteceu não é necessariamente mais confiável do que a observação indireta de suas consequências ( com o DNA numa mancha de sangue) introduzidas em uma bem contruída máquida de inferir. É mais provável ocorrer um erro de identidade decorrente de testemunho ocular direto do que de inferência indireta baseada em dados de DNA. (…) No caso da evolução, como no da deriva continental, a inferência depois do evento é só o que temos a disposição, pela óbvia razão de que só viemos a existir depois do evento. Mas, nem por um nanossegundo devemos subestimar o poder dessa inferência.” (p. 24,25).

    Quanto a afirmação de que tais construtos são desnecessários e inúteis, não vejo embasamento na sua afirmação, pois eles têm sido muito úteis em diversas disciplinas. Você pode me mostrar uma única evidência empírica ou argumento válido de que tais construtos não tem qualquer utilidade e nem tem nos ajudado em nada? Fique a vontade para desbancar toda a literatura de pesquisa sobre memória humana e seus supostos “avanços”. novamente, senti falta de argumentos sólidos, só li nesse trecho seu afirmações vagas e muito pretensiosas.

    A navalha de Occam é, normalmente, uma ferramenta útil para usarmos, principalmente quando lidamos com afirmações esdrúxulas e esotéricas. Mas penso que ela é muitas vezes superestimada e tem sido usada de forma negligente, pois de fato é muito difícil justificar a sua generalização para qualquer caso quando pensamos em exemplos práticos nos quais poderiamos aplicá-la. Veja um exemplo dado pelo João Coutinho num ótimo texto publicado no astropt:

    “Se é fácil aceitar que a simplicidade é muito útil e leva a conhecimento, o que já não é tão fácil é justificar essa crença. (…) Enquanto parece ser “fácil” demonstrar que não devemos estar a por na teoria entidades novas que não acrescentam nada à explicação, que são portanto desnecessárias, não é tão fácil justificar a elegância (simplicidade sintáctica), ou interpretações mais gerais da simplicidade como pressuposto ou princípio. Dizer que a teoria que tem menos pressupostos secundários (embora sem postular nada de novo) é a que está provavelmente correcta, como por exemplo quando um detective formula hipóteses de como se deu um crime e uma hipótese considera vários assaltantes (são tudo entidades já existentes) a fazer vários roubos na mesma casa e em diferentes alturas do período em causa e outra hipotese considera que um assaltante fez tudo de uma vez, e preferimos esta ultima, não é tão obvio como se justifica claramente o porquê. Porque é fácil de ver que pode estar errada, pois coincidências existem. Daí a ter de acrescentar o “provavelmente”, para a coisa bater certo.”

    http://astropt.org/blog/2011/03/26/simplicidade/

    Se para uma proposta ser científico ela precisa obedecer rigorosamente as premissas da navalha de Occam, precisamos avisar isso para o pessoal da física quântica mostrando que eles estão errados porque é mais parcimonioso postular uma única particula constituidora da matéria do que ficar postulando mais e mais partículas sub-atômicas, cada vez menores, como as propostas pelo modelo padrão (6 tipos de quarks, 6 tipos de leptóns, 3 bósons, 8 gluóns, o gravitón, o fotón…). Basta dar uma olhada nos primeiros resultados que o pessoal do LHC e outros aceleradores de partículas estão encontrando para respeitar o modelo padrão (que tem alcançado índices de precisão impressionantes quando testados experimentalmente). Para se fazer ciência não adianta achar que a navalha de occam resolve os nossos problemas, precisamos ir além disso, e a física quântica está ai para mostrar isso.

    “O problema é que nem estes autores, nem nenhum outro, nos definem bem o que é processamento, o que é informação, o que é processamento de informação, o que é “computam”, o que é “computam informações”, o que é “transformar informação”

    Para tentar demonstrar que talvez estes seus questionamentos não sejam TÃO decisivos como vc defende, sugiro que pensemos na biologia. o que é a biologia? “a ciência que estuda a vida” é uma definição muito simplificada mas que comumente é citada com mais algumas adições. O que é vida? o mínimo que estes pesquisadores poderiam fazer “é oferecer uma definição clara”, explicar como ela acontece, como é operacionalizável e por ai vai seguindo sua linha de raciocínio.

    Acontece que, apesar dos avanços e das enormes contribuições da biologia como um todo para a compreensão de todos aspectos relacionados à vida, não existe até hoje um consenso na biologia sobre o conceito específico e preciso de “vida”, mesmo que esse seja, basicamente, seu conceito mais fundamental e básico. Isso tem impossibilitado avanços e contribuições da biologia? acho que não, sem dúvida foi um dos campos que mais progrediu e ofereceu avanços nos últimos anos. Meu posicionamento é que esses conceitos, no âmbito da ciência cognitiva, são suficientemente definidos para que nos permitam uma comunicação e organização de teorias numa linguagem lógica, e essa linguagem tem sim sido muito fértil e oferecido grandes avanços como no entendimento da memória, por exemplo.

    “Isso é o que a Análise do Comportamento faz, mas ao contrário da Psicologia Evolucionista e outras propostas cognitivas, é verdadeiramente naturalista”

    função ADAPTATIVA no sentido da teoria da evolução é diferente de função no sentido proposto por Skinner. Função adaptativa tem a ver com o quanto uma característica do organismo contribui para que este organismo se reproduza e sobreviva. Função no behaviorismo tem a ver com contingências ambientais e reforçamento. Portanto, o que a Psicologia Evolucionista se propõe a fazer não é o que a Análise do Comportamento fez ou faz.

    “e obviamente acredito ser o caso, que os DADOS colhidos de pesquisas que supostamente evidenciam isso sejam explicados na verdade por outro motivo, que não a existência destes módulos.”

    ok Pedro, vc acredita, mais e ai? quais são as outras explicações? cade os testes, artigos? no reino da especulação somos todos iguais =)

    ” São explicações circulares: acreditamos que o encéfalo humano é muito flexível por causa da alta fluidez cognitiva, e acreditamos na alta fluidez cognitiva porque o cérebro humano é muito flexível.”

    aqui acredito que vc distorceu o que de fato foi escrito, não intencionalmente provavelmente. Copio de novo o trecho aqui: “Pesquisadores da área de plasticidade cerebral tem criticado a hipótese de modularidade, apresentando evidências de que o encéfalo humano é muito flexível e que várias capacidades humanas dependem de uma alta fluidez cognitiva.”

    Para o seu comentário ter cabimento eu teria que ter escrito o seguinte: “Pesquisadores da área de plasticidade cerebral tem criticado a hipótese de modularidade, apresentando evidências de que o encéfalo humano é muito flexível PORQUE várias capacidades humanas dependem de uma alta fluidez cognitiva.”

    eu não comentei em nenhuma parte desse trecho quais são as explicações causais dadas por estes pesquisadores para a flexibilidade do encéfalo humano, disse que eles apresentam evidências para essa flexibilidade mas não comento sobre elas de fato, e depois disso disse tb que eles argumentam que várias capacidades humanas dependem dessa flexibilidade ou fluidez cognitiva, sendo que eles apresentam as evidências de estudos em neurociência para essa flexibilidade cognitiva, os quais resolvi omitir para não me alongar.

    abraço!

    Referências:

    Dawkins, R. (2009). O maior espetáculo da terra: as evidências da evolução. São Paulo: Companhia da Letras.

  4. André Rabelo disse:

    Pedro,

    resumidamente, o artigo que vc me enviou apresenta uma série de problemas, e infelizmente acho que ele não traz tantas coisas novas para a discussão. o autor incorre no mesmo erro que praticamente todas as críticas à psicologia evolucionista advindas de behavioristas incorreu: não saber diferenciar explicações em diferentes níveis de análise e achar que a explicação em um nível é suficiente para explicar o comportamento humano. Penso que parte das suas críticas também incorrre nesse mesmo erro.

    Além disso, o autor, acredito que talvez pela época na qual o artigo foi escrito, afirma que boa parte das evidências se resumem à interpretações a partir da lógica evolucionista, dados correlacionais e estudos não experimentais. Para o estado da arte atualmente na Psicologia Evolucionsita, tal afirmação é simplesmente falsa. Talvez o autor tenha feito uma análise bem apropriada para o que havia sido produzido até 1995 (já que apesar do artigo ter sido publicado em 1996 é muito provável que ele o tenha escrito em 1995), mas os avanços circunscritos ao período seguinte, mais recentemente, foram muito grandes e principalmente no âmbito da elaboração de experimentos. No meu estudo relato uma série de estudos experimentais, por exemplo (Nairne, Pandeirada & Thompson, 2008). Existe ainda uma montanha de estudos experimentais no ambito da Psicologia evolucionista que foram feitos nos últimos e que não comento no texto, por se tratar de um texto de divulgação que busquei mostrar só as idéias básicas e contribuições da psicologia evolucionista. se quiser posso te passar depois alguns desses estudos.

    Talvez seja isso, mas suspeito ainda mais que o principal alvo do artigo tenha sido a Sociobiologia e não a Psicologia Evolucionista, ja que o autor usa várias páginas para falar do E. O. Wilson, o maior proponente da Sociobiologia, e boa parte das suas críticas são realmente as que foram feitas à sociobiologia, e não à Psicologia Evolucionista. Os objetivos de ambas as disciplinas talvez sejam muito parecidos, mas as estratégias utilizadas por ambos foram diferentes.

    Como eu havia comentado no texto, muitas críticas feitas ao Wilson são bem coerentes, como o apelo excessivo dele à lógica evolucionista como uma evidência suficiente para chegarmos a conclusões finais.

    O autor do artigo que vc enviou se apoia muito no argumento de que a psicologia evolucionista não tem sido científica pq apesar de fazer afirmações sobre bases genéticas não apresentam dados experimentais sobre o efeito direto de genes no comportamento. destaco alguns problemas nesse argumento: a manipulação direta genética é uma tecnologia bem recente no âmbito da genética e possui claras restrições éticas quanto à experimentação com seres humanos; o estudo de estruturas que claramente são determinadas geneticamente (i.e. olho, pulmão, cérebro) podem ser feitos com grande êxito mesmo sem termos conhecimento sobre as bases genéticas que determinam diretamente essas estruturas, e podemos estudar o comportamento humano do ponto de vista funcional sem identificar os genes respectivos; o autor várias vezes afirma que explicações ambientais podem ser feitas “to account” pelos resultados, mas não demonstra qualquer evidência de que essa explicação é mais vantajosa a não ser apelando para a parcimônia da mesma (como eu comentei anteriormente, esse é um critério interessante mas que não esgota a discussão).

    o autor também cai no mesmo erro dos sociobiologistas que critica ao afirmar, sem qualquer evidência direta ou advinda de experimentos, que a maioria dos adultos humanos atuais tem históricos de interação mais curtos e negativos com cobras e aranhas. Isso pode ser intuititvo e fazer todo o sentido dentro da lógica do senso comum, mas é pura especulação nesse caso pq ele simplesmente afirma isso como algo dado, assim como os sociobiólogos clássicos afimariam que o medo de cobras é mais comum pq foi mt comum na história evolutiva da nossa espécie.

    Algumas das críticas dele sobre dados correlacionais são procedentes e de fato configuram algumas das dificuldades iniciais da psicologia evolucionista, tendo em vista que algumas hipóteses que podem ser geradas a partir daa teoria da evolução são quase impossíveis de serem testadas. O campo está cheio de problemas, alguns bem colocados pelo autor, mas algumas das suas críticas são mal justificadas.

    Se lembrar de mais alguma coisa que pensei sobre o artigo comento aqui de novo, por ora é isso que lembro.

    abraçoo!

  5. Caros Pedro e André,

    Fiquei contente pela importante discussão que vocês começaram por aqui. O nível filogenético de explicação do comportamento ainda é pouco explorado e merece toda atenção da comunidade científica. Tentarei contribuir de alguma forma. Vamos em partes.

    “Nós, seres humanos, somos uma espécie de primata com um cérebro avantajado que realiza uma série de complexas operações computacionais para processar informações, e podemos chamar esse conjunto de mecanismos de ‘mente’.”

    Concordo com a crítica do Pedro a essa passagem, qual seja, a de que estamos definindo algo (mente) com termos (informações, processamento etc.) que ainda carecem de definições adequadas. Por outro lado, concordo com o André no sentido de que o modelo computacional da mente/cérebro nos auxilia na compreensão de inúmeros problemas comportamentais. A Neuropsicologia é sobretudo fundada em seus princípios, e seus avanços têm dado credibilidade à proposta da modularidade como sendo coerente e decisiva no diagnóstico, tratamento e prognóstico de uma variedade de transtornos. Mesmo assim, não sei se ainda é necessário chamarmos essas coisas de “mente”. Mas deixo essa discussão para uma outra oportunidade.

    E por falar em modularidade…

    “Porém, muitos autores de ambas abordagens defendem que a teoria da evolução de Darwin não só pode como deveria fazer pela psicologia o mesmo que fez pela biologia, integrando todas as suas sub-áreas em uma mesma metateoria organizativa deste campo (Duntley e Buss, 2008), a partir de uma mesma linguagem evolucionista que traria coerência lógica e conceitual entre as diversas linhas de pesquisa na psicologia e suas respectivas teorias (Dunbar e Barrett, 2007).”

    Pedro lembrou-nos de que selecionismo já foi adotado pela Análise do Comportamento. Skinner verificou que um processo simples parece explicar a evolução/seleção e a manutenção de uma gama de comportamentos: o condicionamento operante. A disposição de um organismo para aprender com as consequências de seus comportamentos — que possibilita o condicionamento operante — é herdada. Essa disposição teria sido selecionada, e um cognitivista poderia chamá-la “mecanismo” ou “módulo”. Eu desconfio que esse “módulo operante” está para o comportamento como o fator g está para a inteligência. Em outras palavras, não acho — sim, estou especulando — que módulos complexos foram selecionados, mas módulos bem simples que, em função de um módulo g, o “módulo operante”, passam a trabalhar em conjunto e a configurar comportamentos complexos como o acreditar em Deus, torcer para times de futebol, tocar algum instrumento musical e escrever textos em blogs e debater. Dessa forma, estou mais para a teoria hierárquica da inteligência do que para a teoria das inteligências múltiplas, e esta é a forma como me posiciono a respeito de todo tipo de comportamento.

    No meu ponto de vista, o problema não está em postular disposições, mecanismos ou módulos herdados, mas que tipos de mecanismos/módulos estamos postulando com que tipos e níveis de evidência. Penso, pois, que ambos, Pedro e André, têm razão em seus argumentos — cada um à sua maneira.

    Espero ter contribuído. Abraços.

  6. Caraca! Estou com preguiça de ler os comentários (confesso!), vou deixar pra outro dia XD
    Por enquanto vou só comentar sobre o texto mesmo… 🙂

    “muitos autores de ambas abordagens defendem que a teoria da evolução de Darwin não só pode como deveria fazer pela psicologia o mesmo que fez pela biologia” SIM! 🙂

    “Cobras, aranhas, altura e estranhos foram perigosas ameaças para os primeiros seres humanos a viver nas savanas africanas. Coincidentemente ou não, esses quatro estímulos aparecem regularmente no topo das listas de fobias mais comuns, em uma frequência muito superior do que ameaças atuais muito mais perigosas e importantes para a sobrevivência, como carros e armas (Confer et al., 2010).” Incrível mesmo! 🙂

    Não entendi muito bem o efeito Cinderela O_o’… não sei se li errado mas, na minha leiga compeensão, como por exemplo, o estuprador, vai saber se a criança ou adolescente é adotada ou não?! O_ô’ (se não for alguém conhecido, é claro)

    Acho que me encaixo nesse grupo: “crianças e adultos que possuem habilidades gerais muito pobres mas demonstram habilidades muito sofisticadas em domínios específicos” hahaha!
    XD

  7. André Rabelo disse:

    Oi Isabella,

    o efeito cinderela descreve uma probabilidade maior de abusos contra crianças em determinadas condições parentais, mas é importante enfatizar que ele não é descrito como um processo deliberado ou consicente por parte dos abusadores (não se deve concluir a partir dos dados apresentados que o abusador pensa algo como “essa criança não tem meus genes, portanto vou abusá-la”). entretanto, é plausível imaginar que um homem, por exemplo, ao se envolver com uma mulher que tenha um filho adotivo, acabe descobrindo isso. Se a mulher já tinha um filho antes do relacionamento, mesmo que fosse dela mesmo, o homem também saberia disso. no caso de casais que adotam filhos, obviamente eles sabem que seus filhos são adotados, então a informação sobre a criança ser adotada é muito simples de obter pelos responsáveis pela criança. só mais um ponto que talvez vc tenha confundido – o abusador descrito pelo efeito cinderela é sempre um dos responsáveis pela criança, seja o pai biológico, o padrastro, o tio, a avó ou qualquer cuidador direto da criança. o efeito cinderela não trata de todos os casos de abuso contra crianças, mas sim de abusos cometidos por cuidadores. consegui explicar melhor?

    abraço!

  8. Beheco disse:

    A Análise do Comportamento é uma ciência da variação e seleção. Porém, o foco é sobre a seleção. A variação fica a cargo da filogênese (apesar de determinados esquemas de reforço poderem potencializar isso, como o experimento com os golfinhos). Isso é ilustrado pelo próprio Skinner quando ele fala sobre o comportamento verbal “os fonemas indiferenciados das crianças são modelados pela comunidade verbal”. Os fonemas indiferenciados são parte dos comportamentos filogeneticamente determinados. O próprio Epstein chamou atenção para o fato de que o Skinner não se preocupou muito com o primeiro comportamento que aparece (o que ainda não foi reforçado), apenas com a modificação do seu fluxo.

    O grande problema da psicologia evolucionista atual é o seu diálogo com as “ciências” cognitivas. Quando psicólogos evolucionistas retribuirem o carinho e o amor que os analistas do comportamento têm por eles, daremos um passo enorme no estudo do comportamento humano.

  9. Carlos Gregório Moraes disse:

    Pedro. Que blog fantástico.
    Sou estudante de Psicologia. Curso o terceiro termo do curso. Na faculdade ao qual faço parte tem um cunho fenomenológico e tambem psicanalitico. Estamos vendo Behaviorismo e entramos em alguns conceitos de comportamentos (coisas basicas que vocês sabem mais do que eu). Pois bem. Psicologia Evolucionista nunca havia ouvido falar ate três dias atras quando encontrei um livro intitulado: Sapiens: Uma breve historia da humanidade de Yuval Noah Harari. Me apaixonei e desde então já baixei artigos e livros sobre o tema e estou completamente apaixonado por essa abordagem. Porem ainda estou meio perdido em como encontrar bons estudos, visto que ainda é bem escassos os estudos aqui no Brasil e talvez no mundo. Fiquei pensando em desenvolver meu TCC com essa abordagem relacionando-a com o advento tecnologico, mundo virtual, internertet etc,…Fiquei a pensar: As consequencias emocionais que alguns estudos vem descrendo como novas patologias virtuais. Se a mente humana é um construto de uma longa e lenta evolução, levando em consideração nossas emoções, forma de sentir e provar a existencia moldadas em um tempo dos caçadores-coletores…esse salto dado devido a revolução cognitiva e a mudança brusca da nossa realidade contemporanea cada dia mais artificial pode ser um dos fatores de doenças e transtornos justamente porque a mente humana não foi projetada ou não esteja apta para esse tipo de experiencia artificial? Consegue me compreender? Enquanto lia Sapien comecei a me lembrar de zygmunt bauman sobre seus livros Sociedade Liquida, Amores liquidos e fiz algumas sínteses mentais relacionando-os. Enfim. Se puderes me ajudar ficarei grato e disponibilizar materia sobre essa abordagem apaixonante. Abraços.

  10. Carlos Gregório Moraes disse:

    Desculpe. Li todos comentários e acabei confundindo os nomes.
    André*

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