Simpósio Internacional de Filosofia da Biologia

Fonte: Evolucionismo

Autor: André Rabelo

 

Recentmente a UnB sediou o Simpósio Internacional de Filosofia da Biologia, organizado pelo professor Paulo Abrantes do departamento de filosofia da UnB. Eu tive o privilégio de participar de dois dos três dias do Simpósio, e trago aqui um breve relato das discussões que mais me interessaram.

Anteriormente ao simpósio, houve a publicação no começo desse ano do livro Filosofia da Biologia. Pesquisadores internacionais e nacionais, tanto biólogos como filósofos, integram os colaboradores do livro assim como boa parte deles também foram palestrantes no simpósio, juntamente com outros pesquisadores convidados.

De um modo geral, as comunicações dos palestrantes estimularam e ilustraram uma visão muito clara e enfatizada pelo professor Abrantes: ciência e filosofia estão intimamente atreladas, uma tendo contribuições fundamentais para oferecer avanços à outra. Não me refiro aqui à óbvia relação histórica entre ambas, mas à atual de dependência entre elas. A ciência necessita de uma discussão filosófica que esclareça seus problemas de investigação e que facilite a sua construção teórica através de uma ênfase na clareza e na lógica do uso de seus conceitos e de suas teorias. A filosofia precisa usar o conhecimento produzido pela ciência se quiser ter avanços em suas investigações, do contrário ela perde uma grandiosa contribuição.

O simpósio reforçou uma idéia que cada vez mais percebo como verdadeira – não há como separar a investigação científica da filosófica. Como Sam Harris preconiza, boa parte do que se faz em ciência depende diretamente de idéias filosóficas e, especialmente hoje em dia, a filosofia depende dos avanços científicos. Não é a toa que cada vez mais filósofos estão se confinando em laboratórios e cientistas estão tendo preocupações epistemológicas em seus problemas de trabalho. A separação está cada vez mais difícil de ser feita, o que representa um sinal otimista de que estamos avançando num caminho muito frutífero e que tardou a percebermos a sua utilidade.

O primeiro dia começou com a provocante palestra do professor Charbel sobre as recentes discussões sobre o conceito de gene. Com o título da palestra “Como entender o gene no século XXI?”, Charbel discursou acerca das críticas que o conceito de gene vem sofrendo desde a época da nova síntese na genética. Para alguém de fora da biologia, o que o professor ilustrou causou uma estranheza enorme, tamanha é, aparentemente, a centralidade do conceito de gene na biologia molecular contemporânea. E ele é de fato muito importante, mas sua conceitualização apresenta algumas dificuldades que andam sendo revisadas por muitos autores.

Charbel expôs sua proposta, apoiada também por outros autores, de passarmos a localizar os genes no RNA ao invés do DNA como vem sendo feito. Segundo o Charbel, devemos abandonar a unidade de função como característica dos genes e usar apenas a unidade estrutural como fundamental para o conceito de gene. Genes são transitórios, eles se formam no momento da síntese proteica e depois se desfazem. Genes não “estão no DNA”, o que existe no DNA são bases para a produção do gene. O que herdamos de nossos ancestrais não são genes, mas sim os mecanismos epigenéticos de herança. Por fim, Charbel concluiu que muitas anomalias do conceito de gene desaparecem quando o situamos no RNA.

Outra palestra interessante desse dia foi a do professor Sergio Muñoz intitulada “O que é um mecanismo e como serve para explicar um processo?”. O professor esclareceu que explicações na ciência consistem na derivação de inferências a partir de modelos dos mecanismos envolvidos na produção de um fenômeno, sendo que os modelos caracterizam as partes e operações relevantes de um processo que ao serem organizadas de certa maneira, produzem o fênomeno. Outro ponto enfatizado pelo Sergio, relevante não só para a biologia mas para todos outros campos da ciência, é que os mecanismos descritos em diferentes níveis de análise descrevem fenômenos diferentes, sendo que as diferentes áreas da ciência tratam de diferentes relações entre níveis. A importância dessa observação é especial para campos como o da Ciência Cognitiva, que é um dos grandes interesses de pesquisa do própio professor Sergio Muñoz.

Essa foi uma observação extremamente relevante de ser levantada no simpósio e que inclusive  seria salutar se fosse mais enfatizada no cursos de graduação em ciências, visto que muitas vezes a falta de entendimento desse tipo de questão conceitual acaba criando grandes confusões estéreis em diferentes àreas. Na psicologia, por exemplo, observo isso cotidianamente.

Várias palestras dos três dias se focaram na discussão de outros mecanismos envolvidos na evolução das espécies – teoria neutra, deriva genética, equilíbrio pontuado, seleção sexual e migrações. Uma palestra que me chamou a atenção foi a do professor Diogo, intitulada “Evolução sem seleção natural”. O Diogo é um pesquisador na área de genética das populações e em sua palestra expôs resultados de algumas pesquisas da área que se baseiam na teoria neutra. Essa teoria “assume que a maioria da variação encontrada em seqüências de DNA e proteínas tanto dentro como entre diferentes espécies é neutra com relação à seleção e considera que boa parte dos diferentes alelos para um mesmo loco possui o mesmo valor adaptativo”.

O interessante da fala do Diogo foi quando ele disse que a teoria neutra que embasava sua pesquisa já estava refutada – já haviam problemas suficientes com a teoria para saber que ela não seria uma alternativa à altura da seleção natural e de outros mecanismos. Entretanto, ele argumentou que mesmo já estando refutada por uma série de observações, ainda assim é muito útil usá-la, pois ela nos permitirá mapear e entender melhor o seu alcance e qual a importância de processo desvinculados da seleção natural na diversidade genética de populações, ou seja, o modelo está certamente equivocado, mas ainda assim é útil explorá-lo para nos situarmos.

O terceiro dia do simpósio foi o mais interessante para quem é da psicologia e de outras ciências sociais, pois boa parte das comunicações envolveu a discussão das contribuições da biologia para o entendimento do comportamento e da mente humana. O professor Paulo Abrantes comentou sobre as principais áreas de pesquisa que vêm empreendendo essa ponte entre biologia e psicologia em sua comunicação intitulada “Mente e cultura nas abordagens atuais da evolução humana”. O Paulo discutiu principalmente a Psicologia Evolucionista e as teorias de dupla herança ou de coevolução gene-cultura, além de comentar rapidamente sobre a Ecologia Comportamental. O Fábio Portela também trouxe uma discussão muito interessante sobre a teoria de dupla herança de Richerson e Boyd na comunicação intitulada “A evolução da mente normativa: origens da cooperação humana” e o professor Filipe Cavalcanti da Silva Porto tratou da famosa hipótese do cozimento para a evolução humana, proposta por Richard Wragham. Ambas comunicações renderam discussões muito interessantes sobre questões cruciais dessas propostas, como os módulos cognitivos e o programa adaptacionista presente em especial na Psicologia Evolucionista.

Uma das comunicações que mais me chamou a atenção foi a do Gustavo Leal Toledo sobre “O nascimento do homem e do meme”. As teorias dos memes têm gerado muitas discussões desde sua proposição inicial de Dawkins em seu livro O Gene Egoísta, e desde então uma onda de autores tem defendido versões alternativas do que seriam os memes (i.e. Blackmore, Dennett, Aunger). Gustavo propôs que discussões sem fim, muito comuns na literatura, poderiam e deveriam ser deixadas de lado, e que os pesquisadores da área deveriam se empenhar em fazer uma ciência dos memes ao invés de tentar resolver todos os seus problemas inicialmente. Ele defendeu claramente uma posição mais pragmática e empírica no estudo dos memes ao invés da ênfase exagerada em definições precisas e detalhadas apriorísticas sobre todos os mecanismos envolvidos na transmissão dessas unidades sociais que seriam os memes.

Depois de tantos dados, discussões teóricas e conceituais, a última palestra do simpósio trouxe não só uma grande e complexa discussão teórica, como também trouxe emoção. O professor Waldenor Barbosa da Cruz discutiu sua trajetória pessoal na construção de uma teoria da “vida” em sua palestra intitulada “Biologia teórica e Filosofia: uma trajetória pessoal”. Depois de uma exposição de aspectos conceituais de sua teoria, o professor Waldenor comentou sobre o aspecto pessoal e emotivo envolvido na atividade de um cientista. Ele acredita que a emoção que motiva a busca pelo conhecimento, e que sem essa emoção dificilmente um cientista estaria disposto a incorrer nos entraves e frustações que comumente acompanham a prática científica rigorosa. A ciência se constrói na base dos erros e da crítica incessante. Saber lidar com isso e simultaneamente com as emoções inbuidas na prática cientifica é talvez uma das tarefas mais difíceis e que mais prejudicou pessoas brilhantes na história da ciência.  Ao mesmo tempo que essa emoção nos motiva, ela pode nos dominar e ser prejudicial para a ciência que fazemos.

O simpósio foi muito informativo e inspirador. Quem foi aprendeu muito sobre biologia, evolução, ciência e ser humano.

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Discussão - 2 comentários

  1. “Ele acredita que a emoção que motiva a busca pelo conhecimento, e que sem essa emoção dificilmente um cientista estaria disposto a incorrer nos entraves e frustações que comumente acompanham a prática científica rigorosa.”
    .
    Concordo com o professor Waldenor! 🙂
    Também adoro biologia e filosofia, gostaria de ter ido!!! 🙂

  2. André Rabelo disse:

    eu também concordo com ele Isabella, tem muita emoção dentro destes laboratórios de pesquisa, e desde que sejam emoções que não suplantem a racionalidade elas são fundamentais!

    abraço!

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