O que é e para que serve um experimento?

Fonte: Bule Voador

Autor: André Rabelo

Quando ouvimos as conclusões impressionantes que os cientistas são capazes de chegar a partir de suas pesquisas, podemos nos perguntar sobre como eles são capazes de descobrir tantas coisas a partir de tão pouco – como estudos aparentemente tão simples nos permitem chegar à conclusões tão precisas. É com grande frequência que o método experimental será apontado como um dos grandes pilares responsáveis pelo sucesso da ciência em compreender o universo. Apesar de não ser nem um método perfeito nem o único disponível para os cientistas, além de não conseguir nos dar todas as respostas e explicações que gostaríamos, sua utilidade e supremacia são de difícil contestação.

De forma simples, o método experimental consiste na modificação de uma variável (variável independente) e na averiguação do efeito que pode ser atribuido à essa modificação por meio de uma medida (variável dependente). Uma variável independente é qualquer coisa que possa ser variada em um estudo e que o pesquisador julgue ter relação causal sobre outra variável mensurada; uma causa é aquilo que se julga responsável por um efeito observado sobre outra variável; um efeito é a diferença entre o que aconteceu em um experimento e o que teria acontecido hipoteticamente caso a manipulação não tivesse sido feita [1].

SELO: a xícara no anel aromático, também conhecido como "Benzeno o Chá"Em grande parte dos fenômenos que os cientistas estudam, o número de causas envolvidas é muito grande, sendo raros os casos em que podemos falar “da causa” suprema de algo. Nesse sentido, muitas das relações causais discutidas e apresentadas por cientistas se referem à uma causalidade probabilística (tal variável aumenta a probabilidade de se observar tal efeito), e não à uma causalidade determinista (tal variável é necessária e suficiente para explicar tal efeito). É por isso que a previsibilidade é muito difícil em vários campos de pesquisa como a meteorologia, por exemplo.

Uma importante distinção a ser feita é entre descrições causais e explicações causais [1]: uma está relacionada à descrição das consequências que podemos atribuir às manipulações de variáveis, enquanto a outra está associada à explicação dos mecanismos e das condições nas quais uma relação causal se manterá. O método experimental é um dos mais úteis e mais valorizados na ciência pela sua capacidade de permitir a elaboração de descrições causais. Por outro lado, os experimentos em si muitas vezes não nos ajudam tanto na hora de desenvolvermos explicações causais. É ai que as teorias ganham tanta importância no empreendimento científico por permitirem a generalização dos resultados que obtemos em experimentos.

Para que possamos fazer um experimento adequado, precisamos de manipular nossa variável de interesse em pelo menos duas condições que possam ter respectivas variáveis dependentes comparadas. Dentre as muitas vantagens que o método experimental oferece para qualquer um que busque compreender um fenômeno natural, uma se destaca: variando um único aspecto da condição experimental e mantendo os demais aspectos constantes entre duas condições, temos maiores chances de avaliar corretamente o papel causal que pode ser atribuído à variável que manipulamos.

ResearchBlogging.orgNo caso mais particular da psicologia, o método experimental tem como grande vantagem adicional a possibilidade de designar participantes de forma aleatória à condições experimentais [2]. Contanto que um experimento conte com um número razoável de participantes, os cientistas podem ter certa confiança de que diferenças individuais entre os participantes não terão efeitos sifgnificativos nos resultados. Este procedimento não nos garante com certeza absoluta que diferenças individuais não terão influência nas diferenças observadas entre as condições – como distribuimos os participantes de forma aleatória às condições, podemos estar relativamente seguros de que as diferenças individuais entre eles tenderão a se distribuir de forma similar entre as condições. Com este procedimento torna-se mais provável que qualquer diferença observada possa ser atribuida à variável que manipulamos.

Um artigo publicado esta semana na prestigiada revista Psychological Science traz o exemplo de um experimento de priming que possibilitou a observação de um resultado intrigante sobre as crenças e a escolha de candidatos em uma eleição [3].

Os Estados Unidos tem um característica marcante em seu sistema político que é a divisão de seus protagonistas em republicanos e democratas. Após verificar que a bandeira dos Estados Unidos era mais facilmente relacionada com os republicanos, os investigadores resolveram testar a hipótese de que a manipulação de uma variável independente (a apresentação da bandeira) teria efeito nas crenças, nas atitudes e no comportamento (variáveis dependentes) dos participantes. Um detalhe interessante do estudo é que os participantes relataram explicitamente que não acreditavam que a bandeira poderia afetar o comportamento deles na direção que os pesquisadores acreditavam que ocorreria. Tirando o fato da bandeira ser mostrada para apenas um dos dois grupos durante uma tarefa computadorizada, todas os outros parâmetros dos experimentos permaneceram iguais para ambos os grupos.

Os dois experimentos reportados no artigo trazem evidências de que, ao contrário do que acreditavam os participantes, uma única exposição à bandeira norte-americana mudou de forma robusta a intenção de voto, a atitude política e o comportamento de voto dos participantes, que passaram a favorecer os republicanos. Os resultados foram tão dramáticos no segundo experimento que os pesquisadores identificaram a influência da manipulação nas crenças e no comportamento dos participantes até oito meses depois da manipulação experimental, um dos efeitos mais prolongados até hoje registrados na literatura de ciência cognitiva.

Experimentos como estes servem para nos auxiliar na avaliação de relações entre variáveis e, especialmente, nos ajuda a atribuir causalidade onde é plausível afirmar que exista esse tipo de relação. Para isso, são tomadas várias medidas nos experimentos de tal maneira que o argumento acerca da relação causal entre variáveis seja justificado e convincente. Experimentos servem para nos levar à atmosfera da Lua e também ao micronível dos átomos – são de longe uma das maiores conquistas intelectuais da espécie humana.

 

Referências

[1] Shadish, W. R., Cook, T. D., & Campbell, D. T. (2002). Experimental and quasi-experimental designs for generalized causal inference. New York: Houghton Mifflin Company.

[2] Wilson, T. D., Aronson, E., & Carlsmith, K. (2010). The art of laboratory experimentation. Handbook of Social Psychology (Vol. 1, pp. 51-81). New Jersey: John Wiley and Sons.

[3] Carter, T., Ferguson, M., & Hassin, R. (2011). A Single Exposure to the American Flag Shifts Support Toward Republicanism up to 8 Months Later. Psychological Science, 22 (8), 1011-1018 DOI: 10.1177/0956797611414726

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Discussão - 5 comentários

  1. Oi André, você possui esse capítulo do handbook de psicologia social (“the art of laboratory experimentation”) em pdf? Gostaria muito de tê-lo.

  2. André Rabelo disse:

    @Marcus Vinicius Alves, infelizmente não, temos uns dois exemplares dos dois volumes do handbook no laboratório de psicologia social da unb. Eu tenho alguns dos capitulos do handbook que consegui na pagina dos autores, mas esse ai não (eu não lembro de ter buscado ele, pode ser que role de achar ele por ai).

    O capitulo é muito bom mesmo, recomendo demais! Muito bem escrito e informativo, da dicas muito importantes e discute questões sutis mas centrais dos experimentos em psicologia social. Vê se da um jeito de achar com o Marcos Emanoel um exemplar e tira a cópia do capitulo, vale a pena! Ah, outra possibilidade é mandar um email para um dos autores (ou para todos), perguntando se eles teriam como disponibilizar. Quem não chora não mama =)

    abraço!

  3. Inaisa disse:

    Eu, não entendi muita coisa você podia se mais claro.
    Me , desculpe

  4. Inaisa disse:

    Mil desculpas

  5. […] Nesse texto escrito aqui no blog, discuti o que é um experimento e algumas noções mais formais de causalidade que complementam o conteúdo do vídeo. […]

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