Ciência Cognitiva da Religião

Fonte: Bule Voador

Autores: Daniel Gontijo e André Rabelo

A Ciência Cognitiva da Religião (CCR) baseia-se nas ciências cognitivas e nas abordagens evolucionistas, trazendo a proposta de explicar o pensamento e o comportamento religioso a partir de teorias que gerem hipóteses testáveis. O psicólogo Justin L. Barrett (2011), entusiasta da CCR, explica que “características universais da mente humana, interagindo com seus ambientes social e natural, informam e restringem o pensamento e o comportamento religiosos”. “Adicionalmente”, prossegue Barrett, “a CCR considera de que forma fatores religiosos, culturais e ambientais particulares estendem ou modificam tendências cognitivas naturais”.

Princípios básicos da CCR

Em primeiro lugar, a CCR rejeita a ideia de que a mente seja uma tábula rasa, isto é, que ela seja uma massa amorfa que será exclusivamente moldada pela cultura. Além de haver diferenças individuais genéticas, temos, enquanto descendentes de indivíduos que evoluíram em ambientes ancestrais, certas predisposições filogenéticas. Disso decorre o segundo princípio: pelo menos alguns aspectos da cognição humana são pré ou extraculturais. Esses aspectos, chamados por Barrett (2004) de ferramentas mentais, têm como exemplos o mecanismo de processamento de faces, a linguagem, a folk psychology (ou teoria da mente) e certas classes do pensamento moral. As ferramentas mentais estariam para a cultura como suportes e fundações estão para uma casa:

[Suportes e fundações] dão a forma básica e o tamanho da casa, mas o arranjo particular dos quartos, fachadas exteriores, a inclinação do telhado e toda característica que faz de uma casa única e bonita [variam] consideravelmente. Similarmente, identificar as ferramentas mentais relevantes da religião (ou outras expressões culturais) ajuda sobretudo a explicar os padrões básicos de recorrência transculturais […].

Numa outra ocasião, um dos autores citou uma hipotética ferramenta mental envolvida na crença religiosa, qual seja, o “mecanismo de detecção de agentes”, que se uniria à suscetibilidade ao “pensamento dualista” e ao “realismo moral” para engendrar comportamentos e pensamentos religiosos. Em complemento, podemos citar a proposta de Dawkins acerca do pensamento proposital, que teria se desenvolvido concomitantemente à expansão do córtex pré-frontal e que, como um subproduto, fomentaria a busca humana por um sentido para a vida.

O terceiro princípio, que complementa o segundo, é o de que as ferramentas mentais informam e restringem o pensamento, a experiência e a expressão religiosa. Desvios de certos padrões devem, portanto, dizer respeito a particularidades culturais acerca do comportamento religioso. E disso segue o quarto princípio: pesquisadores da CCR tipicamente concentram-se nas ideias que são distribuídas entre os indivíduos. Uma ideia que não é compartilhada por uma comunidade de indivíduos não é religiosa, mas idiossincrática. A religiosidade seria tomada como um tipo de traço comportamental difundido em uma sociedade – uma expressão cultural.

Barrett resume esses quatro princípios da seguinte forma:

[…] A tarefa da CCR é explicar padrões recorrentes da expressão religiosa — tipos de ideias, identificações, experiências e práticas — que são distribuídas entre algumas populações (ou mesmo entre culturas). Explicar a religião é explicar como ferramentas mentais trabalhando em ambientes particulares impedem ou encorajam a difusão dessas ideias e práticas que nós podemos chamar “religiosas” (Ibidem).

Por ser um empreendimento interdisciplinar, a CCR é marcada por um pluralismo metodológico. Seus estudos baseiam-se em dados arqueológicos, etnográficos, historiográficos, de entrevistas e de técnicas experimentais, incluindo as de caráter transculturais e longitudinais. Seus estudos abordam tópicos como a fé, a magia, a moralidade, o desenvolvimento da religiosidade na infância, a relação entre almas, mentes e corpos, a transmissão de ideias religiosas e a prevalência de conceitos e entidades sobrenaturais.

Para além do caráter interpretativo de uma abordagem, Barrett ressalta a importância do levantamento de hipóteses falseáveis. Tanto a sobrevivência como o destaque da CCR seriam ocorrências dependentes da adoção do método científico. Isso já vem sendo razoavelmente realizado, mas ainda há ramos cujo compromentimento empírico tem sido ínfimo. Com o intuito de fortalecer e expandir a CCR, ainda, Barrett sugere o estabelecimento de maiores intercâmbios com áreas afins, como com a psicologia da religião, sociologia da religião, estudos evolucionistas da religião, arqueologia da religião e neurociência da religião.

A CCR, em conclusão, parece ser uma promissora avenida de pesquisa que propõe agregar esforços de diferentes níveis de análise, nos âmbitos empírico e teórico, a fim de gerar uma compreensão mais abrangente da religiosidade. As dificuldades da área decorrem tanto de sua incipiência, o que é comum entre novos campos de estudo, como da complexidade do objeto a que se dispõe estudar. Entretanto, a cooperação interdisciplinar, a curiosidade e a dedicação de velhos e novos pesquisadores por certo hão de superar muitas das limitações que atualmente se lhe impõem.

Referências

Barrett, J. (2004). Why would anyone believe in God? Walnut Creek, CA: AltaMira Press. Em: Barrett, J. (2011). Cognitive Science of Religion: Looking Back, Looking Forward. Journal for the Scientific Study of Religion, 50 (2), 229-239

Barrett, J. (2011). Cognitive Science of Religion: Looking Back, Looking Forward. Journal for the Scientific Study of Religion, 50 (2), 229-239 DOI: 10.1111/j.1468-5906.2011.01564.x

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Discussão - 4 comentários

  1. Bacana seu texto, André! 🙂

    O trabalho do Justin Barrett é mesmo bem legal! Parte da pesquisa na área que eu realizei no Brasil com com financiamento de um dos projetos dele! Pena que ele esteja “out of the game” agora! A área está crescendo muito em torno dos conceitos desenvolvidos por Harvey Whitehouse (modes of religiosity) e os trabalhos que temos feito com ritual cognition. Sem dúvidas é uma área de pesquisa BEM promissora (os trabalhos são bem sérios e bem empiricamente fundamentados).

    Parabéns pelo texto! 🙂

  2. André Rabelo disse:

    @André L. Souza, que bom que gostou do texto! É uma honra ter um comentário de um dos atuais nomes da própria área aqui! Você tinha me falado que o Barrett saiu de Oxford, mas ele saiu da linha de pesquisa que seguia também? Seria uma grande perda mesmo… Coincidência, esses dias eu estava de olho em uns artigos do Whitehouse para ler quando tiver com mais tempo, mas por enquanto só estou podendo ficar na vontade. A área é muito legal mesmo, são terras férteis!

    abraço!

  3. […] para a compreensão do mundo (para mais detalhes sobre esta linha de pesquisa, leia aqui, aqui e aqui). Entretanto, outro posicionamento na área é o de que as religiões surgiram para beneficiar os […]

  4. Ótimo texto, André, como sempre!

    Engraçado que estava procurando algumas coisas pela net para poder escrever sobre o assunto para o CogPsi e fui cair bem aqui. É bom ver a psicologia sendo divulgada com base.

    Depois de ler seu texto, nem vou escrever sobre o tema, vou só linkar você mesmo.

    Ah, depois visita um novo blog sobre ciência que comecei com um pessoal da Unifesp, o http://prismacientifico.wordpress.com/

    Até,

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