Pseudo-profundidade: Receitas para simular profundidade – aspirantes a gurus, tomem nota

Fonte: Psychology Today

Autor: Stephen Law

Tradução: André Rabelo

Deepak Chopra: mestre da pseudo-profundidade e da pseudociência

Ao redor do mundo, audiências se sentam aos pés de experts do marketing, consultores de estilo de vida, místicos, líderes de culto e outros “gurus” à espera do próximo insight oculto e profundo. As pessoas frequentemente pagam uma boa quantia de dinheiro para ouvir estas palavras de sabedoria. Como então estes indivíduos elevados chegam aos seus insights penetrantes? Qual é o segredo da profundidade deles? Infelizmente, em alguns casos, a audiência é enganada pelas artes das trevas da pseudo-profundidade.

A arte de soar profundo é muito facilmente dominada. Você também pode fazer pronunciamentos que soem profundos – e significativos – se você estiver preparado para seguir algumas regras simples.

Primeiro, tente afirmar o incrivelmente óbvio. Só faça isto m-u-i-t-o-l-e-n-t-a-m-e-n-t-e, com uma espécie de aceno de quem sabe. Isto funciona particularmente bem se sua afirmação tiver algo a ver com algum dos grandes temas da vida, do amor, da morte e do dinheiro. Aqui estão alguns exemplos:

A morte chega para todos nós

Todos nós queremos ser amados

O dinheiro é usado para comprar coisas

Tente você mesmo. Se você pronunciar o óbvio com suficiente seriedade, seguido de uma pausa longa, você logo poderá encontrar outros começando a acenar em concordância, talvez murmurando “Isso é verdade”.

Agora que você ja se aqueceu, vamos avançar para uma técnica diferente – o uso do jargão. Algumas palavras grandes, não totalmente compreendidas, podem facilmente realçar a ilusão de profundidade. Tudo o que é necessário é um pouco de imaginação.

Para começar, tente combinar algumas palavras que tenham significados similares com certos termos familiares, mas que se diferenciem deles de alguma maneira sútil e nunca-totalmente-explicada. Por exemplo, não fale sobre pessoas sendo felizes ou tristes, mas sim sobre pessoas tendo “orientações atitudinais positivas e negativas”. Isso soa muito mais impressionante e científico, não soa?

Agora tente traduzir alguns truísmos tediosos para a sua nova linguagem inventada. Por exemplo, o fato óbvio de que pessoas felizes tendem a fazer outros pessoas mais felizes pode ser expresso como “orientações atitudinais positivas têm alta transferabilidade”.

Igualmente,  se você é um guru dos negócios, líder de culto ou um místico, sempre ajuda falar de “energias” ou “equilíbrios”. Isso faz com que soe como se você tivesse descoberto algum mecanismo profundo ou poder que poderia potencialmente ser aproveitado e usado pelos outros. Isto vai tornar muito mais fácil convencer as pessoas de que se elas não acreditarem no seu conselho, eles vão estar realmente perdendo. Por exemplo, publique um artigo intitulado “Aproveitando energias atitudinais positivas dentro do ambiente de varejo”, e voilá, outro guru moderno dos negócios nasceu.

Finalmente, se alguém realmente tiver a coragem de perguntar exatamente o que uma “energia atitudinal positiva” é, você sempre pode dar uma definição usando outros pedaços do seu jargão recém inventado, deixando seus questionadores  sem saber nada a mais do que eles sabiam antes. Se todo o seu jargão é definido usando outro jargão, ninguém nunca vai ser capaz de entender exatamente o que você quer dizer (embora seus devotos possam pensar que sabem). E o fato de que enterrados dentro de suas pseudo-profundidades estão alguns truísmos verdadeiros vai dar à sua audiência a impressão de que você realmente deve estar certo sobre algo, mesmo que eles não entendam o que é. E então eles vão estar ansiosos para ouvir mais.

Infelizmente, alguns líderes de culto, gurus de negócio, místicos, consultores de estilo de vida, terapeutas – e até mesmo alguns filósofos – fazem uso destas técnicas para gerar a ilusão de que eles possuem insights profundos e penetrantes. Agora que você pode ver quão fácil é gerar suas próprias pseudo-profundidades, eu estou certo de que você ficará menos impressionado na próxima vez que algum “guru” auto-intitulado sugerir que suas energias atitudinais precisam se equilibrar.

Outro segredo da pseudo-profundidade é selecionar duas palavras que tenham significados opostos ou incompatíveis e combinar eles de forma enigmática, como em:

A sanidade é apenas outra forma de loucura

A vida é muitas vezes uma forma de morte

O ordinário é extraordinário

Tente isso por conta própria. Você logo irá começar a soar profundo. No romance de George Orwell 1984, os três slogans do partido são todos exemplos deste tipo de pseudo-profundidade:

Guerra é paz

Liberdade é escravidão

Ignorância é força

Um aspecto particularmente útil destas afirmações é que elas fazem sua audiência fazer todo o trabalho por você. “Liberdade é um tipo de escravidão” por exemplo, é interpretável de tantas maneiras que você provavelmente nem pensou. Apenas sente, adote uma expressão como a de um sábio e deixe sua audiência entender o que você quis dizer.

Nada disso signica que este tipo de afirmação enigmática não possa ser profundo, é claro. Mas, dada a facilidade com a qual elas são geradas, é sábio não ser tão facilmente impressionado.

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Stephen Law, Ph.D., é um ex-carteiro, que se tornou um filósofo profissional. Ele publicou dez livros e é um conferencista sênior na Universidade de London.

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Discussão - 1 comentário

  1. […] heading down the Path to Enlightenment.”Leiam todo o artigo, aqui.Ainda ligado a isto, gostei deste texto do André Rabelo sobre os segredos da pseudo-profundidade: afirmar o óbvio e esperar que a […]

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