Ser otimista é saudável?

Romance protagonizado por "Pollyanna", uma menina cuja filosofia de vida é sempre encontrar algo para ficar contente

“Pense positivo”, “vai dar tudo certo, você vai ver”, “isso não vai acontecer com a gente, a probablidade é muito pequena”. Estes exemplos são familiares para você? Já ouviu isso de alguém hoje (ou ontem)? É cotidiano observar a capacidade que muitos de nós possuem de ser extremamente otimista, mesmo quando existem evidências claras de que deveriamos estar mais preocupados com o que está por vir.

Seja em relação ao contágio de doenças, ao furto de bens ou à acidentes graves, o ser humano parece tender a ver tais riscos como distantes de si e improváveis. Ser otimista já foi relacionado em alguns estudos com uma série de efeitos psicológicos benéficos, como menor ansiedade e melhor bem-estar. Este excesso de confiança, todavia, pode nos tornar ainda mais vulneráveis do que já somos, exatamente por pensarmos que não corremos certos riscos e não tomarmos ações necessárias de precaução.

O otimismo pode ser entendido tanto como uma superestimação de eventos futuros positivos quanto uma subestimação de eventos negativos futuros [1]. O que alguns estudos recentes tem indicado é que nós somos propensos a apresentar um otimismo exagerado, “irrealista”, em relação à eventos futuros [1,2]. Na psicologia social, uma propensão similar à esta já havia sido identificada nos anos 1970 e batizada de crença em um mundo justo [3]. Obviamente, esta crença (a de que o mundo é inerentmente justo) é bem otimista em relação à realidade cruel que salta aos nossos olhos diariamente, quando lemos ou ouvimos um noticiário. De acordo com esta ideia, as pessoas acreditam que o mundo é fundamentalmente justo e que coisas ruins acontecem com pessoas ruins – todos passam pelo que merecem [4].

ResearchBlogging.orgA tendência de ver o mundo por lentes cor-de-rosa foi investigada em dois artigos publicados este mês na revista Nature [1,2]. Para não me alongar muito, comentarei apenas sobre o trabalho de Sharot, Korn e Dolan, que buscou uma melhor compreensão dos princípios computacionais e biológicos que sustentam nossas predições enviesadamente otimistas sobre eventos futuros  [1]. Mesmo quando apresentadas com evidências que contradizem suas expectativas otimistas, as pessoas tendem a mantê-las, mesmo em casos envolvendo fatores de risco para doenças. Como resultado deste viés cognitivo, as pessoas podem se comportar de maneira menos cautelosa, como por exemplo, praticando menos sexo seguro. Os cientistas queriam saber como as pessoas mantinham o seu excessivo otimismo mesmo quando são expostas a informações que desafiam claramente suas crenças.

Para isto, eles registraram o funcionamento cerebral dos participantes por meio de um aparelho de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto os participantes estimavam a probabilidade de que viveriam 80 eventos adversos diferentes, como, por exemplo, adquirir a doença de Alzheimer ou ter o carro roubado. Após uma primeira estimativa de um determinado evento, era apresentada aos participantes a probabilidade média real de que aquele evento ocorresse com alguém do mesmo contexto cultural dos participantes, e então era pedido aos participantes que estimassem novamente a probabilidade de viver aquele evento para averiguar se os participantes “atualizavam” suas expectativas de acordo com as probabilidade médias apresentadas. O interesse científico era ainda maior por este fenômeno, pois, segundo os autores, ele não é explicado devidamente por teorias de aprendizagem tradicionais.

Os pesquisadores encontraram evidências de que o otimismo se relacionava com uma menor codificação de informações indesejáveis sobre o futuro em uma região do córtex frontal, enquanto que participantes com escores maiores no traço de otimismo eram piores na atualização de erros indesejáveis na estimação nesta mesma região cerebral, mas não em uma outra também relacionada no processamento de erros. A diferença no quanto os participantes “atualizaram” suas expectativas não foi explicada pelo nível de adversidade dos eventos,  nem pela familiaridade ou pelas experiências passadas com aquele evento, mas sim pelos erros de estimativa (que equivaliam à estimação inicial menos a probabilidade média real apresentada), sendo que a relação era mais forte para informações favoráveis a uma visão otimista.

Em outras palavras, quando a probabilidade média real apresentada era menor do que a estimativa inicial do participante (o risco era menor do que o participante imaginava), era mais comum os participantes atualizarem suas expectativas na segunda estimativa; mas quando a probabilidade real era maior do que a estimativa inicial dos participantes (o risco era maior do que o participante imaginava), a tendência era que eles não atualizessem suas expectativas na segunda estimativa, desprezando a nova informação em favor do seu otimismo. Os autores sugerem que o princípio computacional que mediou o otimismo irrealista no experimento foi o sinal de aprendizagem fornecido pelos erros de estimativa que teriam impactos diferentes a depender da direção mais ou menos otimista da informação. Esta conclusão também foi corroborada pelos dados obtidos neste mesmo experimento com o contraste chamado BOLD (Blood Oxygen Level-Dependent), um sinal que indica a variação do nível de oxigênio nas hemoglobinas do sangue em função da atividade neural. O estudo ofereceu um mecanismo interessante para compreender o otimismo irrealista e demonstrou como nossos viéses cognitivos podem manter esse otimismo mesmo em face de informações desencorajadoras, deixando-nos mais vulneráveis a certos riscos.

Não há dúvida, entretanto, de que sem algum otimismo poderemos nos tornar demasiadamente apáticos e fatalistas, mas o otimismo em excesso pode nos colocar em uma situação perigosa por acharmos que estamos a salvo de males que não estamos e, como o estudo comentado anteriormente indica, esta tendência é muito poderosa. Uma série de eventos danosos como a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, acidentes de trânsito ocasionados pela ingestão de álcool e furtos de bens pessoais são extremamente beneficiados pelo nosso viés cognitivo de cometer erros de estimativa, ou seja, pela expectativa ingênua de que aquilo nunca aconteceria conosco. Infelizmente, muitos de nós precisam viver este tipo de experiência para reconhecer os riscos que corriam.

Saber que temos uma tendência irracional irrealista e robusta de esperar o melhor dos eventos pode nos tornar mais atentos às nossas intuições e precavidos, portanto estudos desta  natureza podem nos trazer uma grande contribuição social e até mesmo econômica imediata – os pesquisadores citam trabalhos que indicam que erros na estimativa foram uma das causas da crise mundial financeira de 2008, resultante de uma expectativa otimista irrealista sobre os riscos financeiros envolvidos naquele contexto. Quantos outros possíveis erros de estimativa já não andaram influenciando os rumos das nossas vidas?

 

Referências:

[1] Sharot, T., Korn, C., & Dolan, R. (2011). How unrealistic optimism is maintained in the face of reality. Nature Neuroscience DOI: 10.1038/nn.2949

[2] Johnson, D., & Fowler, J. (2011). The evolution of overconfidence. Nature, 477 (7364), 317-320 DOI: 10.1038/nature10384

[3] Rubin, Z., & Peplau, A. (1973). Belief in a Just World and Reactions to Another’s Lot: A Study of Participants in the National Draft Lottery. Journal of Social Issues, 29 (4), 73-93 DOI: 10.1111/j.1540-4560.1973.tb00104.x

[4] Fiske, S. T. (2010). Social beings : Core motives in social psychology. New York: Wiley.

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Discussão - 5 comentários

  1. […] BuleSobreTurma do BuleLinha Editorial18outSer otimista é saudável?TweetFonte: Ciência – Uma Vela no Escuro Autor: André Rabelo Romance protagonizado por "Pollyanna", uma menina cuja […]

  2. […] is Maintained in the Face of Reality – Estudo Assegura que o Otimismo é Defeito Cerebral – Ser Otimista é Saudável? –  Want More Pain Relief? Think Positive – Heal thyself: Think Positive – Esse Mundo Está Cheio […]

  3. […] Ser otimista é saudável? FONTE: Ciência – Uma Vela no Escuro […]

  4. […] menos probabilidade de sofrer acidentes ou contrair doenças graves do que a maioria das pessoas. Eu já tive a oportunidade de comentar aqui no blog acerca de um estudo publicado ano passado na revista Nature sobre o viés de otimismo irrealista […]

  5. […] Aqui no blog, já falamos mais de uma vez sobre esse assunto. Vale a pena ler esse post e esse aqui. […]

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