Tudo acontece por uma razão?

Fonte: Psychology Today

Autor: Paul Thagard

Tradução: André Rabelo

Quando as pessoas precisam lidar com situações difíceis em suas vidas, às vezes elas se tranquilizam dizendo que tudo acontece por uma razão. Para algumas pessoas, pensar desta forma torna mais fácil lidar com problemas de relacionamento, crises financeiras, doenças, morte e até mesmo desastres naturais como terremotos. Pode ser angustiante pensar que coisas ruins acontecem apenas por acaso ou acidente. Mas elas acontecem.

O provérbio de que tudo acontece por uma razão é a versão moderna, New Age, do antigo provérbio religioso: “É a vontade de Deus.” Os dois provérbios têm o mesmo problema – a  completa ausência de evidência de que são verdadeiros. Não só não há boas evidências de que Deus existe, mas não temos maneira de saber o que é que ele (ou ela) queria que acontecesse, diferente daquilo que de fato aconteceu. Deus realmente quis que centenas de milhares de pessoas morressem em um terremoto em um dos países mais pobres do mundo? Qual poderia ser a razão para este desastre e o sofrimento em curso de milhões de pessoas, privadas de comida, água e abrigo? Porque as pessoas acham tranquilizante que o terremoto do Haiti aconteceu por uma razão como a vontade de Deus, quando eventos terríveis como estes sugerem um alto nível de malevolência no universo ou em seu alegado criador? Felizmente, tais eventos podem ser vistos alternativamente (e com boas evidências) como o resultado de acidentes e possivelmente até mesmo do acaso.

A ideia de que o acaso é uma propriedade objetiva do universo foi advogada no século dezenove pelo grande filósofo americano Charles Sanders Peirce, o qual chamou esta doutrina de tychism, da palavra grega para o acaso. Embasamento científico para esta doutrina veio no século vinte com o desenvolvimento da teoria quântica, à qual é frequentemente interpretada como implicando que alguns eventos como o decaimento radioativo são inerentemente imprevisíveis.

Mesmo se eventos que afetam as vidas humanas não aconteçam pelo acaso quântico, muitos deles deveriam ser vistos como acontecendo por acaso, no sentido de que eles são o resultado improvável do cruzamento de cadeias causais independentes. As mortes no Haiti, por exemplo, ocorreram por causa do resultado de várias cadeias causais, primeiramente (1) os eventos históricos que levaram milhões de pessoas a viverem perto de Port-au-Prince, e (2) os eventos sísmicos ocorrendo no emaranhado de falhas tectônicas perto da interseção de duas placas da crosta. Estas mortes foram acidentais na medida em que a interseção das cadeias causais desconectadas era imprevisível. Nem a história nem a sismologia são aleatórias, mas suas interseções  são tão imprevisíveis usualmente que nós deveriamos chamá-las de acidentais.

A doutrina de que tudo acontece por uma razão tem variações intelectuais. O filósofo alemão Hegel sustentou que no desenvolvimento histórico o real é racional e o racional é real. De forma semelhante, antes dos recentes colapsos no sistema financeiro, era um dogma da teoria econômica que indivíduos e mercados são inerentemente racionais. Alguns biólogos evolucionistas ingênuos e psicólogos assumem que todos os traços e comportamentos comuns devem ter evoluido de um processo de otimização da seleção natural. Na história, economia, biologia e psicologia, nós deveríamos sempre estar dispostos a considerar a evidência para a hipótese alternativa de que alguns eventos acontecem por conta de uma combinação de acaso, acidentes e irracionalidade humana. Por exemplo, Keynes atribuiu crises financeiras em parte aos “espíritos animais”, se referindo aos processos emotivos que podem fazer as pessoas oscilarem entre a exuberância irracional e o desespero pessimista.

Mas se o real não é racional, como podemos lidar com os desastres da vida? Felizmente, mesmo sem religião ou ilusões New Age, as pessoas possuem vários recursos psicológicos para enfrentar as dificuldades da vida. Estes incluem estratégias cognitivas para gerar explicações e soluções para problemas e estratégias emotivas para manejar o medo, a ansiedade e a raiva que naturalmente acompanham contratempos e ameaças. A pesquisa em psicologia tem identificado várias maneiras de aumentar a resiliência de indivíduos e grupos, como desenvolvendo habilidades de resolução de problemas e fortes vínculos sociais. A vida pode ser altamente significativa mesmo se algumas coisas que acontecem são meros acidentes. Coisas acontecem e então você lida com elas.

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*Paul R. Thagard é professor de Filosofia e Diretor do Programa de Ciência Cognitiva da Universidade de Waterloo, no Canadá. Seus livros incluem The Brain and the Meaning of Life, Hot Thought: Mechanisms and Applications of Emotional Cognition e Mind: Introduction to Cognitive Science.

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Discussão - 7 comentários

  1. vitor disse:

    assim como vc, não gosto de usar deus como justificativa da logistica que rege o universo.
    Porém, considero essa uma das maiores funções da religião no mundo contemporâneo, se não a maior. Sendo assim, deus é o instrumento (que os religiosos não me condenem, por favor!) mais poderoso existente para aumentar a capacidade de resiliência de grupos. Então justificativas como ‘deus quis que fosse assim’, por mais questionáveis que sejam, são positivas para a sociedade como um todo.

    Se o tal do Deus não tivesse uma importância dentro da sociedade, ele já teria sido eliminado, assim como o latim e o trabalho escravo. (comparações complexas, mas visiveis do ponto de vista histórico). Tente analisar as coisas dessa forma. Um grande abraço!

  2. André Rabelo disse:

    Grande Vitor, valeu pelo comentário!

    Copio abaixo um trecho do seu comentário que gostaria de questionar:

    “Então justificativas como ‘deus quis que fosse assim’, por mais questionáveis que sejam, são positivas para a sociedade como um todo”

    Eu discordo que este tipo de justificativa seja positiva para a sociedade como um todo. A primeira imagem do meu texto serve como ilustração do porque eu discordo. Alguém pode olhar para essa criança da imagem e pensar “ah, coitadinha, mas deus quis que fosse assim, fazer o que”. E ai, será mesmo que essa jusitifcativa é benéfica sempre e para todos? Na minha opinião, pensar que as coisas acontecem por causa de uma razão é algo que pode nos tornar conformados com como as coisas são e poderemos nos esforçar menos para mudar as coisas que achamos erradas, além de acharmos que podemos culpar as pessoas pelas coisas ruins que acontecem com elas (algo que me da naúseas só de pensar). Se uma criancinha é mantida no porão da casa dos pais (sem a mãe saber) e é estuprada e agredida pelo seu pai biológico durante toda a sua infância, engravidando durante a adolescência e permanecendo presa dentro de um porão até descobrirem o que o pai fazia e ele ser preso, isso aconteceu por uma razão? Devemos realmente culpar a criança ou racionalizar essa coisa terrível dizendo que havia uma razão para isso?

    O ponto mais importante do texto na minha opnião é que, independente de possuir qualquer possível função, pensar que as coisas acontecem porque deus quis é tão vazio e desprovido de justificativa quanto dizer que tudo acontece por uma razão. Ta justificativa não explica absolutamente nada e pode servir como ferramenta de justificativa de coisas bem desumanas (de fato, a igreja católica usou exatamente essa justificativa para as atrocidades que cometeu com crianças deficientes durante muitos séculos).

    Um último exemplo: A grande quantidade de crianças recém nascidas que sofrem com a fome, a miséria, a violência e as doenças em países pobres passam por tudo isso por uma razão? Como exatamente isso pode beneficiar estas crianças?

    abraço!

  3. Espero ser adicionada ao seu contato.

  4. Adelino Gomes disse:

    A questão de apontar Deus como causa de fatos em nosso mundo real pode servir de consolo para a maioria das pessoas, que não se dão ao trabalho de pensar com honestidade lógica e de forma cética.O acaso deve ser visto como uma possibilidade certa e sem a menor necessidade de uma explicação prévia.Uma força que tanto pode salvar a vida de muitos passageiros que perderam um voo que desabou nas profundezas do Atlântico, como pode também matar milhares por fatores históricos ,sísmicos e geográficos.

  5. […] Tudo acontece por uma razão? […]

  6. luis clara disse:

    Bom, eu achava que quando chega-se a esta idade iria ter uma série de respostas para uma série de dúvidas que tinha numa idade mais tenrra, no entanto às dúvidas permanecem e vão permanecer.
    como seres humanas, idolateramos filosofias de homens, uns com estudos outros com factos e outros porque têm o dom dá palavra e o que falam parece estar certo, como se de um político se tratá-se, parece que a humanidade anda sempre a tentar provar quem é que sabe mais ou quem tem a coisa maior e melhor.
    Não há critério, o certo e o errado, tudo depende da educação dá perspectiva, etc, etc. Justifica-se tudo porque temos o dom de falar e escrever, mas, a verdade que dizem que é uma só, também é relativa e ninguém a sabe, provavelmente um dia a saberemos, talvez ou não, é um enigma, a procura de uma resposta que justifique a nossa existência, e se não tiver essência, fundamento e sermos só mais uma coisa no meio e muitas.
    Se tudo tende para a destruição, porque pensarmos que somos diferentes, os gostos discutem-se, formas de vida, culturas e tudo mais, a vida é muito complexa mas muito fácil, a ambição do ser humano, mais ou menos como parasita inteligente é que complica.
    Quanto ao termo, ” Tudo acontece por uma razão” acho muito cruel, acho que colocar deus aqui Tb não dá certo, o Sr. teria muito que fazer, seria um gestor brincalhão, brincar com que 7 B. de pessoas não deve ser fácil, brincadeira à parte.
    Façam, porque ninguém fará por vc’s.

    Abraço

  7. Renata disse:

    Eu concordo quando dizes que esse pensamento pode levar a conformação das coisas ,mas eu tb concordo quando o victor diz q isso pode ser benéfico pra sociedade como um todo também,creio que na verdade depende muito do direcionamento certo desse pensamento,se a pessoa usar ele como forma de aprender com o que houve,ai sim.É um conforto sábio,é entender que as coisas acontecem para a gente aprender e buscar a essência delas,isso é um filósofo,agora usar esse pensamento como forma de se conformar cm as coisas e nada fazer ai já é outra história,o pensamento positivo é benéfico sim pra sociedade,talvez se n fosse por eles muitas pessoas n saberiam lidar com nada…só basta saber direcionar mesmo. =) abçs

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