A Gentileza de Estranhos

Fonte: Project Syndicate

Autor: Paul Bloom

Tradução: André Rabelo

Porque somos gentis com estranhos?

Eu admito que esta seja uma maneira incomum de ver o mundo, mas, ao ler o jornal, eu fico constantemente impressionado com a extensão da gentileza humana. A mais nova boa notícia vem do Centro sobre a Riqueza e Filantropia no Boston College, que estima que os americanos vão doar cerca de $250 bilhões em contribuições individuais de caridade  em 2010, muitos bilhões a mais do que no ano passado.

Pessoas doam seu sangue a estranhos, viajam em missões humanitárias para lugares como o Haiti e o Sudão e arriscam suas vidas para lutar contra a injustiça em outros lugares. E nova-iorquinos têm crescido acostumados a ler sobre heróis do metrô – bravas almas que saltam em direção aos trilhos para resgatar passageiros e então frequentemente somem, inconfortáveis com a atenção ou o crédito.

Como um psicólogo, eu sou fascinado pela origem e as consequências de tal gentileza. Alguns de nossos sentimentos morais e motivações morais são o produto da evolução biológica. Isso explica porque nós somos frequentemente gentis com a nossa própria carne e sangue – aqueles que compartilham nossos genes. Isto também pode explicar nossas ligações morais com aqueles que vemos como membros da nossa tribo imediata.

Existe uma lógica adaptativa em ser gentil com aqueles com os quais nós interagimos continuamente; nós coçamos suas costas, eles coçam as nossas. Mas não existe uma vantagem Darwiniana em sacrificar nossos recursos a estranhos anônimos, particularmente aqueles em terras distantes.

A explicação para nossa moralidade expandida vem da inteligência, imaginação e cultura. Uma força poderosa é o uso da linguagem para contar histórias. Estas podem nos motivar a pensar em pessoas distantes como se elas fossem amigos e familiares.

As experiências vicárias geradas pelas tragédias gregas, séries televisivas e histórias de jornais têm todos desempenhado um papel importante em expandir o escopo da preocupação moral. Outro fator é a propagação de ideologias, tanto seculares quanto religiosas, que nos encorajam a se preocupar com outros distantes, que nos persuade a expandir nossa gentileza além do nosso círculo imediato.

Mesmo a muito difamada força do capitalismo pode nos tornar mais agradáveis. Um estudo recente de 15 populações diversas, relatado na revista Science, encontrou que as sociedades que tratam estranhos anônimos de forma mais justa são aquelas com economias de mercado. Como Robert Wright tem enfatizado, na medida em que as pessoas se tornam cada vez mais interdependentes, o escopo da preocução moral se expande consequentemente.

Ninguém argumentaria que nós estamos perdendo a distinção entre aqueles que são próximos de nós e estranhos distantes. Eu não consigo imaginar que isso ocorreria algum dia. Um indivíduo que não distinguisse entre seu ou sua própria criança e uma criança desconhecida em uma terra distante – que sentisse o mesmo amor e a mesma obrigação em relação a ambos – dificilmente ainda seria um humano. O que tem acontecido, entretanto, é que a distinção entre “nós” e “eles” não é tão afiada quanto costumava ser.

Os efeitos da nossa gentileza não são de soma zero. Aqueles que recebem caridade têm suas vidas melhoradas, mas aqueles que fornecem isto também se beneficiam. É bom ser bom. De fato, um estudo recente encontrou que gastar dinheiro com outros é mais recompensador que gastá-lo consigo mesmo. Não é apenas prazer de curto prazo: aqueles que doam riquezas e tempo a outros tendem a ser muito mais feliz durante suas vidas do que aqueles que não doam. A conclusão paradoxal aqui é que um grande truque para ser feliz é esquecer de ser feliz e como alternativa tentar aumentar a felicidade dos outros.

Nem tudo é doçura e luz, entretanto; moralidade é mais do que compaixão e caridade. Sendo criaturas morais, nós somos direcionados para garantir a justiça.

Tendemos a punir trapaceiros.

Economistas experimentais têm encontrado que as pessoas irão sacrificar seus próprios recursos para punir trapaceiros e parasitas, e farão isto mesmo com estranhos anônimos que eles nunca mais irão interagir – um comportamento apelidado de “punição altruística.” Existe um prazer associado a isto também. Assim como doar a alguém em necessidade elicia uma resposta neural positiva, tomar de alguém que merece isso também elicia.

Este é o outro lado da moeda da caridade. Nós somos motivados a ser gentis com outros anônimos, mas nós também somos motivados a prejudicar aqueles que tratam mal estes outros anônimos. Isto pode direcionar nosso poderoso impulso para lidar com males distantes através de sanções, atentados e guerras. Nós queremos que estes malfeitores sofram.

O problema que surge é que nossos sentimentos morais viscerais são mal sintonizados com as consequências. Os padrões de doação caridosa para países estrangeiros comumente tem mais a ver com a saliência dos relatos de notícias do que considerações reais sobre onde o dinheiro é mais necessário. E evidências laboratoriais mostram que as pessoas vão continuar punindo mesmo que eles estejam bem conscientes de que agir desta maneira irá tornar as coisas ainda piores. Não é difícil ver as consequências disto no mundo real.

A extensão da moralidade humana é um desenvolvimento maravilhoso para a humanidade, mas ela seria ainda melhor se fosse temperada com racionalidade de sangue frio.

Paul Bloom é um professor de psicologia na Universidade de Yale. Seu último livro é o How Pleasure Works.

Copyright: Project Syndicate/Institute for Human Sciences, 2010.

www.project-syndicate.org

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