O Poder da Gentileza


Obra de Keith Haring, 1987

Nas grandes cidades, vivemos nossas vidas em meio a uma multidão de desconhecidos. Cruzamos todos os dias com estranhos que não conhecíamos e que, provavelmente, não vamos conhecer também. Nessa atmosfera, não é de se surpreender que a apatia pelo sofrimento alheio e a distribuição de grosserias tenham se tornado tão comuns e aceitáveis. Podemos até nos surpreender se um completo estranho   emergir a partir da multidão nos oferecendo um ato de gentileza, sem pedir nada em troca.

Você não se surpreenderia se, ao chegar no caixa de um restaurante para pagar a sua conta, fosse informado de que uma pessoa gentilmente pagou a sua conta e não quis se identificar? Uma situação como esta pode parecer muito improvável, mas foi exatamente o que aconteceu em um restaurante na Filadélfia, em 2009, nos Estados Unidos [1]. O ato de gentileza inspirou, nas 5 horas seguintes, várias pessoas naquele restaurante a pagar a conta de outras mesas sem se importar com o valor da conta e de maneira anônima. Os trabalhadores do restaurante ficaram emocionados, pois nunca tinham visto algo tão solidário como aquilo acontecer. Como diz na reportagem da NBC10 Philadelphia: “É uma história de feriado verdadeira que prova como um pequeno gesto de gentileza pode criar um pouco de magia.”

A gentileza é um tipo de ação espontânea e, muitas vezes, sutil, onde uma pessoa beneficia outra, seguindo normas implícitas de conduta. É um tipo de comportamento de baixo custo para quem o realiza, mas que pode beneficiar muito quem recebe. O vídeo abaixo demonstra vários exemplos de como a gentileza pode se manifestar no cotidiano.

Este vídeo é uma bela ilustração do que a gentileza é capaz de produzir no cotidiano das pessoas. Ela é contagiante. O vídeo (que encontrei no Treta) é uma produção do projeto Life Vest Inside (“Salva-Vidas Interno”), que busca promover a gentileza como uma maneira simples, mas poderosa e ativa, de melhorar o mundo. Uma parte da descrição do projeto merece ser traduzida aqui:

O trabalho de caridade e o serviço comunitário são ferramentas inestimáveis para melhorar o nosso mundo, mas a gentileza é mais do que boas ações ou voluntariado apenas. Gentileza é empatia, compaixão e conexão humana; é um sorriso, um toque ou uma palavra confortante. Mesmo o menor gesto pode clarear um dia escuro ou aliviar um fardo pesado.

O tema tem se tornado cada vez mais presente em campanhas empresariais como exemplifica o Movimento Trânsito + Gentil. Este projeto busca promover a gentileza entre motoristas no contexto do trânsito. Qualquer um que dirija em uma grande metrópole sabe reconhecer o valor de campanhas desta natureza, considerando a grosseria e falta de solidariedade que se pode observar facilmente no trânsito das grandes cidades. Como os idealizadores do projeto colocam de maneira simples: “E se você ouvisse uma música, em vez de buzinar? Ou apontasse o erro, em vez de xingar? Gentileza gera gentileza e se multiplica. Experimente.” Seguem abaixo dois vídeos curtos da campanha, onde um taxista fala sobre a importância que ele vê na gentileza:

Outras iniciativas também promovem a gentileza como um instrumento de mudança social, como a Random Acts of Kindness Foundation e o Help Others.org. Toda esta atenção dirigida para a gentileza tem um motivo – ela pode ser um meio extremamente simples, mas poderoso, de melhorar a vida das pessoas e o convívio social.

ResearchBlogging.orgO poder da gentileza não está apenas no benefício concreto que a pessoa ajudada recebe, mas a própria pessoa que ajuda também pode se beneficiar. Ser gentil pode tornar as pessoas mais felizes, até mesmo a longo prazo. Isto é o que alguns estudos indicam [2, 3, 4, 5]. Ser gentil com outras pessoas pode aumentar momentaneamente a felicidade de alguém que, por sua vez, aumenta a probabilidade dela agir gentilmente em situações subsequentes [2, 3]. Alguns pesquisadores como a professora Sonja Lyubomirsky, da Universidade de Stanford, propõem que a retroalimentação positiva existente entre a felicidade e a gentileza pode funcionar como um mecanismo para a sustentabilidade da felicidade a longo prazo.

Um artigo publicado na revista Science relatou evidências correlacionais, longitudinais e experimentais de que há um aumento maior na nossa felicidade quando gastamos nosso dinheiro com outras pessoas [3]. O dado mais interessante e contra-intuitivo é que, independente da quantia de dinheiro gasta, maiores gastos com outras pessoas se relacionaram com maior felicidade, mas maiores gastos consigo mesmo, não. Isto pode soar estranho, já que poderíamos esperar, intuitivamente, que quanto mais gastamos conosco, mais felizes deveríamos nos sentir. Entretanto, estes estudos indicam que utilizar dinheiro para beneficiar outras pessoas pode nos tornar mais felizes do que se os usarmos para nós mesmos, independente de quanto seja.

Adicionalmente, outros dados indicam que pessoas mais felizes também são mais propensas a agir gentilmente [5, 6, 7]. Em outro estudo que replicou a relação entre felicidade e gentileza, uma simples intervenção onde era pedido aos participantes que, ao longo de uma semana, ficassem atentos e contassem quantos atos de gentileza realizaram, resultou em um aumento na felicidade subjetiva dos participantes [5]. Todos estes estudos indicam que a gentileza tem o poder de nos tornar mais felizes, tanto momentaneamente quanto a longo prazo, se a praticarmos com as outras pessoas.

O vídeo abaixo da Random Acts of Kindness Foundation mostra uma admirável ação de duas crianças que aprenderam desde cedo com uma professora sobre como é bom ser gentil. Se você gostaria de praticar mais a gentileza, mas não sabe por onde começar, boas dicas podem ser encontradas nessa página do Help Others.org.

E nunca se esqueça do poder da gentileza – ela é contagiante, beneficia quem a recebe e, de brinde, ainda pode tornar mais feliz quem a pratica!

Referências

[1] Johnson, D. (2009). Mystery couple starts “magical” chain reaction. Recuperado em 4 de Janeiro, 2011 de http://www.nbcphiladelphia.com/news/local/Mystery-Couple-Pay-It-Forward-79179347.html

[2] Aknin, L., Dunn, E., & Norton, M. (2011). Happiness runs in a circular motion: Evidence for a positive feedback loop between prosocial spending and happiness. Journal of Happiness Studies DOI: 10.1007/s10902-011-9267-5

[3] Dunn, E., Aknin, L., & Norton, M. (2008). Spending money on others promotes happiness. Science, 319 (5870), 1687-1688 DOI: 10.1126/science.1150952

[4] Buchanan, K. E., & Bardi, A. (2010). Acts of kindness and acts of novelty affect life satisfaction. The Journal of Social Psychology, 150 (3), 235-7 PMID: 20575332

[5] Otake, K., Shimai, S., Tanaka-Matsumi, J., Otsui, K., & Fredrickson, B. (2006). Happy people become happier through kindness: A counting kindnesses intervention. Journal of Happiness Studies, 7 (3), 361-375 DOI: 10.1007/s10902-005-3650-z

[6] Feingold, A. (1983). Happiness, unselfishness, and popularity. The Journal of Psychology, 115 (1), 3-5 DOI: 10.1080/00223980.1983.9923590

[7] Lyubomirsky S, King L, & Diener E (2005). The benefits of frequent positive affect: Does happiness lead to success? Psychological Bulletin, 131 (6), 803-55 PMID: 16351326

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Discussão - 9 comentários

  1. Muito bacana! É impressionante a maneira como o nosso sistema cognitivo lida com aspectos relacionados à felicidade (e à percepção dela). Apesar de não ser muito fã da Psicologia Positiva — mesmo por que não sei ou entendo muito bem qual é a “parada” deles — eu acho os experimentos nessa área fantásticos e extremamente criativos (e.g., Dan Gilbert’s works…).

  2. André Rabelo disse:

    André,

    eu também não sou grande conhecedor da psicologia positiva, mas entendo que de maneira bem geral a área propõe que, independente de abordagem, também precisamos estudar a fundo fenômenos que desejamos maximizar, por serem desejáveis e positivos (prosocialidade, felicidade) ao invés do que tradicionalmente temos feito na psicologia (estudar o que desejamos minimizar, ou seja, aspectos negativos como a psicopatologia, o preconceito, a violência) (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). Os experimentos do Daniel Gilbert são realmente muito legais!

    abraço!

    Referência:

    Seligman, M. E. P., & Csikszentmihalyi, M. (2000). Positive psychology: An introduction. American Psychologist, 55(1), 5-14.

  3. André, gostei das informações. Como seria bom se todos os motoristas aqui em São Paulo fossem só UM POUCO mais gentis. Se eu fosse te falar as vezes que fui fechado, as inúmeras vezes que não deixaram eu entrar numa pista ou coisa parecida, uhhhh…. seriam horas de histórias!

    Uma coisa que você disse num outro post… quando as pessoas fazem coisas ruins, temos a mesma propensão a praticar uma espécie de justiça dando a elas um tratamento ruim. Confesso que eu colo no carro da frente, por exemplo, apenas para não deixar um folgado entrar. É algo como ter o gostinho de dizer: “Sinta um pouco do seu próprio veneno”. Muitos diriam que isso não é construtivo, mas vai que numa dessas o cara começa a desistir de ser um troglodita?

    Isso só pra falar nos exemplos no TRÂNSITO! Há milhares ao longo do dia a dia… e achei interessante que pessoas mais felizes são mais gentis. Numa breve recordação, percebo que a informação procede!

    É isso ae! Be nice, guys!

  4. André Rabelo disse:

    Eduardo,

    obrigado pelo comentário! A punição altruística é uma estratégia importante para o manejo de trapaceiros, mas no caso do trânsito em especial, eu tenho dúvidas de que ela seja eficaz. Isso é só uma opinião, mas da convivência que eu tenho com motoristas que eu considero “trapaceiros”, acho que só algo mais grave teria efeito, punições mais leves são ignoradas ou às vezes nem percebidas (se você não permitir que o cara entre na sua frente e o de trás permitir, ele talvez nem perceba a sua intenção).

    Ah, fica ligado no que vai rolar ai em sampa dia 25:

    http://www.transitomaisgentil.com.br/blog/2012/movimento-transito-mais-gentil/concurso-cultural-sao-paulo-mais-gentil/

    Pelo que já ouvi falar do trânsito ai, a coisa anda feia. Mas, pelo sucesso da campanha do trânsito + gentil, parece que muitos pelos menos querem um trânsito mais gentil e entendem como ele pode melhorar nossas vidas.

    Abraço!

  5. Devanil disse:

    Como sempre André, sempre trazendo incríveis informações.

    Pena é que vivemos em uma sociedade que julga pejorativamente tais atitudes. Alguns julgariam ingênuo os atos de solidariedade praticados no restaurante. Sempre tanto passar por cima da gentileza alheia.

    O que podemos fazer é continuar praticando os atos, sem esperar que ela volte para nós. Até porque nós mesmos não somos gentis.

    Seria interessante você levantar a pauta (se já não foi) de uma mudança nas atitudes humanas se daria com a mudança do ambiente em que vivemos (nossa sociedade gera o estresse, por exemplo), ou a mudança psicológica de cada um para uma mudança do meio.

    Parabéns André, seu blog é um dos meus favoritos!

  6. André Rabelo disse:

    Querido Devanil,

    obrigado pelo comentário super gentil!

    Existem muitos elementos culturais que acabam atuando como obstáculos para uma sociedade mais gentil e altruista. Um deles, por exemplo, que temos estudado no laboratório de psicologia social é o jeitinho brasileiro, essa ideia de tirar proveito de tudo e de sempre sair no lucro (existem mais características do jeitinho, mas para o nosso contexto da discussão essas são as importantes). Por conta de coisas assim, as vezes quem age com benevolência é visto como “burro”, ou ingênuo, pois não está lucrando nada (aparente) sendo bonzinho.

    Certamente o contexto cultural no qual vivemos influencia o nosso comportamento, mas nós também influenciamos o contexto cultural no qual vivemos. Eu posso, por exemplo, fundar uma ONG para arrecadar fundos que serão enviados para desabrigados e isso pode atrair várias pessoas que terão seus comportamentos modificados. Se várias pessoas na minha cidade passarem a ter maiores preocupações prosociais por conta de coisas como isso, uma mudança cultural local pode estar tendo início.

    As mudanças de longo prazo se dão através de uma interação complexa entre estes elementos e outros (históricos, sociológicos, econômicos), portanto eu não sei se é proveitoso tentar raciocinar encima desta dicotomia (pq na medida em que somos influenciados pela nossa cultura, influenciamos ela de uma maneira diferente e por ai vai). A minha impressão é que o tipo de sociedade na qual vivemos (cidades muito populosas, violentas) favorece uma conduta individualista e pouco altruista, mas se desejamos uma mudança nela, certamente esta mudança deve ocorrer em vários níveis simultâneos. Este assunto me fez lembrar do projeto do professor David Sloan Wilson, da uma olhada depois:

    http://bnp.binghamton.edu/

    Abraço!

  7. […] Mas antes disso, considerando a data, porque não aproveitar hoje (ou amanhã) para fazer algo legal para alguém, um ato aleatório de gentileza? Nunca se esqueçam do poder que a gentileza pode ter não só para quem a recebe, mas para quem a pratica também! […]

  8. André Rabelo disse:

    Esta senhora bondosa parece conhecer na pele os efeitos positivos que a solidariedade pode ter em nossas vidas, além de conhecer também a literatura científica sobre o tema, muito bacana esta notícia:

    Após doar US$ 100 milhões, britânica diz que filantropia faz bem para a saúde
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/videos_e_fotos/2012/02/120131_milionaria_steve_uk_mm.shtml

    Abraço!

  9. roberto disse:

    o mundo é tão grande que qualquer coisa pode acontecer,mesmo que seja improvável

    eu fico pensando por que as pessoas só pagaram a conta depois de 5 horas seguidas,por que não mais tempo?

    se a gentileza fosse contagiosa,as pessoas deveriam estar pagando as conta das outras até hoje

    o que aconteceu naquela ocasião com aquelas pessoas é um mistério

    gentiliza não gera gentileza,se gentileza gerasse gentileza era só uma pessoa ser gentil com a outra,que isso geraria um ciclo infinito de gentileza

    eu ainda não encontrei nenhuma pessoa que se sinta bem gastando dinheiro com as outras pessoas,eu me daria bem se um dia encontrasse alguém desse tipo,eu ganharia dinheiro sem precisar trabalhar,se alguém aqui gosta de gastar dinheiro com os outros,pode entrar em contato comigo,eu adoraria ganhar dinheiro sem precisar me esforçar

    como os cientista fizeram para “saber” se as pessoas eram feliz,como distingir alguém que é feliz de alguém que está mentindo dizendo ser feliz?

    eu nunca me senti feliz sendo gentil com os outros,o resultado dessa pesquisa não diz respeito para mim,se ser gentil com os outros me fizesse mais feliz,eu seria gentl com os outros 24 horas por dia e viveria feliz

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