2012: Não acabe com o seu mundo antes que o mundo se acabe

 

Blogagem coletiva Fim do Mundo
Eis a ironia deste ano: mal começou 2012 e já não conseguimos parar de falar do seu fim. Ao que parece,  os maias já haviam previsto que 2012 seria o último fim de ano da humanidade. É uma pena mesmo se isto for verdade, pois neste ano não terão fogos de artifício na praia de Copacabana e assistiremos pela última vez os desfiles das escolas de samba… mas calma, não entre em desespero! Quem sabe estas histórias não passam de lendas… certo?

Jim Jones

Poderíamos até pensar que histórias sobre o fim do mundo em 2012 são bobagens e só acreditam nelas pessoas supersticiosas e pouco instruídas, ou seja, que estas ideias são inofensivas. Afinal de contas, como levar a sério histórias contadas em escritos de um povo tão antigo?

Entretanto, o conhecimento produzido pela psicologia social tem uma lição muito clara para nos dar sobre este assunto: pessoas com diversas histórias de vida, níveis de educação e saúde mental são vulneráveis à influências sociais e cognitivas tão poderosas que podem passar a acreditar de maneira veemente nas histórias mais cabeludas que você imaginar! Isso inclui eu, você e até aquele seu amigo super inteligente! Histórias reais ilustrando isso é o que não faltam.

O caso mais famoso é provavelmente o do reverendo Jim Jones que, em 1978, comandou um suicídio coletivo de 909 pessoas do seu culto. Adultos instruídos, trabalhadores e cuidadosos pais envenenaram seus filhos e a si mesmos. Você pode pensar: “ah, isso é loucura demais, né?” Mas não se deixe enganar pela aparência. Muitas destas pessoas tinham certeza que estavam fazendo aquilo por um motivo justificado, e antes de se envolverem com a seita de Jones, viviam vidas normais em comunidade (para mais detalhes, veja o documentário sobre esta história no Youtube).

Em 1997, os membros de outro culto, o Portal do Céu, também se suicidaram, acreditando que iriam vivenciar apenas uma “passagem de plano” para uma reencarnação no paraíso, enquanto o planeta Terra passava por um período de reciclagem (sim, literalmente isso). Entretanto, os membros do culto eram especialistas no desenvolvimento de sites na internet e entendiam tudo de computadores; eram considerados pelos seus vizinhos amigáveis e inteligentes [1]. O líder da seita, Marshall Herff Applewhite, era nada mais nada a menos do que um… professor universitário antes de fundar o culto! No vídeo abaixo, fica claro que Marshall era um indivíduo que acreditava no que estava dizendo e sua fala se assemelha assustadoramente ao que poderíamos esperar de algumas autoridades religiosas contemporâneas, socialmente respeitadas e tidas pelos seus seguidores como pessoas inteligentes.

O que estes casos ilustram são resultados de fenômenos psicológicos poderosos capazes de resultar em consequências bem desastrosas. Quando alguém investe alto em uma decisão, é provável que observemos uma forte tendência nesta pessoa de buscar justificativas para os seus esforços e para reafirmar que suas crenças são verdadeiras. Isso, por sua vez, motiva ainda mais a pessoa em investir na sua decisão. Este processo abre precedentes para escaladas de ações como as que observamos com os membros das seitas de Jones e Applewhite, que investiram suas vidas inteiras na seita.

Nunca devemos subestimar a influência destas tendências humanas, pois somos criaturas apaixonadas pela identificação de significados, mas muitas vezes limitadas para fazer isso de maneira acurada. A lição que a psicologia social oferece nesse caso é simples: sempre que abandonarmos a nossa humildade em favor de ideias “perfeitas” cultivadas por grupos aos quais pertencemos, estamos nos afastando das margens de um rio que pode nos levar para bem longe.

Quanto ao começo deste texto, vamos falar sério agora: não existem muitas consistências neste mito sobre a previsão maia do fim do mundo em 2012. Deem uma olhada aqui e aqui para entender melhor. Mas vale a pena aproveitar o tema para nos lembrarmos das limitações inerentes à cognição humana e como nossas ações são vulneráveis à influências que nem percebemos. Portanto, aos que andam se entusiasmando demais com todo esse alvoroço sobre o fim do mundo e formando seitas apocalípticas por ai, fica o conselho: todo cuidado é pouco para não acabar com o “seu” mundo antes que o mundo se acabe!

Obs: Esta postagem faz parte da blogagem coletiva organizada pelo Scienceblogs Brasil.

Referência:

[1] Aronson, E.; Wilson, T. D. & Akert, R. M. (2002) Psicologia social. São Paulo: LTC.

 

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Discussão - 5 comentários

  1. […] No Socialmente, o André Rabelo falou sobre como o fim do mundo pode ser providenciado por vias particulares. […]

  2. Felipe disse:

    Sem contar com o fato de que o ser humano em si ama histórias sobre fim. Tanto é que já decretamos o fim do nosso mundo de diversas formas diferentes, um milhão de vezes. rs O mito maia, ao que tudo indica, é só mais um deles que se mostraram falhos. No entanto, um dia realmente o mundo vai acabar e de tanta tentativa e erro alguém vai acabar acertando. Nesse momento, vai ter um crente lá pra dizer: Tá vendo? Eu estava certo! haha

    Mas eu duvido que no dia que nosso planeta realmente for ameaçado por um fim eminente, que ainda estejamos aqui pra viver esse momento (ou seria “pra morrer esse momento? rs)

  3. André Rabelo disse:

    Felipe,

    valeu pelo comentário! Em relação à repetição deste tipo de história, gostei do texto do Carlos Orsi:

    http://carlosorsi.blogspot.com/2012/02/as-marcas-do-apocalipse-de-ontem-e-de.html

    Acho que seria “para morrer esse momento” mesmo hahahaha

    Abraço!

  4. Poxa, perdi essa postagem coletiva sobre o fim do mundo… Até já tinha postado sobre o tema http://cog-psi.blogspot.com/2011/05/e-quando-o-mundo-nao-acaba.html

  5. André Rabelo disse:

    É mesmo, Marcus! Quando o tema da blogagem surgiu, lembrei do seu texto sobre dissonância cognitiva na hora, mas esqueci de lembrar vc disso… uma pena!

    Abraço!

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