Psicologia Brazuca: Vitor Haase e a neuropsicologia

Vitor Haase

O professor Vitor Geraldi Haase é coordenador do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND-UFMG) na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Configurando-se hoje como um dos maiores pesquisadores na área de neuropsicologia, tanto a nível nacional quanto internacional, o professor Vitor foi recentemente aprovado em primeiro lugar no concurso de professor titular da Psicologia da FAFICH-UFMG. Além de imerso em diversos projetos de pesquisa, ele escreve o blog Neuropsicologia e desenvolvimento humano, mais voltado para a divulgação de conhecimento científico na área, e o blog Reabilitação neuropsicológica, voltado para divulgar informações a pacientes e às suas famílias. Vejam esta ótima e profunda entrevista que o professor Vitor gentilmente nos cedeu, comentando sobre os mais diversos problemas não apenas da neuropsicologia, mas da psicologia de maneira mais ampla, estreando a nossa série Psicologia Brazuca em grande estilo!

Vitor, você poderia nos falar um pouco sobre os projetos de pesquisa que você tem conduzido no seu grupo de pesquisa e sobre os futuros projetos?

O Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND-UFMG), por mim coordenado, tem por objetivo a realização de pesquisas para desenvolver instrumentos neuropsicológicos de diagnóstico e intervenção para indivíduos com transtornos do desenvolvimento e suas famílias. As linhas de pesquisa são organizadas em torno de quatro eixos temáticos: dificuldades de aprendizagem de matemática, síndromes genéticas, infecção pediátrica por HIV/AIDS e paralisia cerebral.

Dificuldades de aprendizagem da matemática

Todos os nossos projetos de pesquisa, inclusive o projeto sobre discalculia, foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da UFMG. O projeto sobre discalculia vem sendo conduzido desde 2008 em uma colaboração internacional com os professores Klaus Willmes da Universidade de Aachen, Alemanha, e Guilherme Wood, da Universidade de Graz, Áustria.

As dificuldades de aprendizagem da matemática ou discalculia do desenvolvimento são menos conhecidas do que as dificuldades de aprendizagem da leitura, mas não menos importantes. O termo discalculia se refere a indivíduos com dificuldades graves na aprendizagem da matemática, principalmente em aspectos muito básicos, tais como estimação de grandezas, realização de cálculos simples e aprendizagem dos fatos aritméticos. Uma observação frequente é que a criança ou jovem precisa contar nos dedos ou se usa dos algoritmos de cálculo de forma ineficiente. A prevalência situa-se em torno de 3% a 6% das crianças em idade escolar e a discalculia é de natureza persistente, constituindo-se em fator de risco para desemprego, baixa renda e problemas relacionados com psicopatologia.

Os objetivos das nossas pesquisas com discalculia dizem respeito à caracterização dos mecanismos cognitivos e validação de procedimentos diagnósticos e de intervenção. Do ponto de vista dos mecanismos a discalculia é muito heterogênea. Pode estar relacionada a déficits no processamento fonológico, tais como aqueles observados na dislexia. Neste caso, o comprometimento maior é da aquisição e resgate dos fatos aritméticos e resolução de problemas verbalmente formulados. A memória de trabalho e funções executivas também são afetadas nos casos de discalculia, podendo explicar aqueles casos que se associam ao transtorno do déficit de atenção por hiperatividade. Finalmente, um grupo menor de crianças apresenta uma discalculia pura, associada a um déficit no senso numérico. Ou seja, ou capacidades muito básicas de estimação de grandezas, as quais impedem o desenvolvimento do conceito de número e outras habilidades. Nos casos de déficit no senso numérico as dificuldades são bem mais graves.

A pesquisa sobre os mecanismos da discalculia é importante porque ajuda a formular estratégias educacionais mais individuailizadas e eficientes. No que se refere às intervenções estamos trabalhando em várias frentes. Uma delas diz respeito aos estilos disciplinares. As dificuldades escolares fazem com que pais e educadores recorram a técnicas punitivas de modificação do comportamento, uma vez que as dificuldades da criança são atribuídas a “preguiça” ou falta de engajamento e motivação. Entretanto, ao invés de resolver o problema, as técnicas punitivas tendem a agravá-los, diminuindo também a auto-estima da criança e podendo contribuir para comportamentos de rebeldia ou agressividade. O nosso trabalho consiste em auxiliar pais e professores, através de procedimentos de aconselhamento e treinamento, a adotarem um estilo disciplinar não-coercivo, mais liberal, baseado no incentivo e não na punição. Também trabalhamos com cognitivas propriamente ditas, para melhorar a atenção, memória de trabalho, funções executivas, senso numérico, fatos aritméticos, resolução de problemas etc.

O diagnóstico e atendimento adequado às crianças com dificuldades de aprendizagem da matemática são muito importantes, uma vez que o mau desempenho escolar se associa a transtornos de comportamento e baixo auto-estima, contribuindo para isolar socialmente e discriminar os indivíduos afetados e suas famílias. O diagnóstico e as explicações científicas relacionadas aos mecanismos subjacentes permitem que o indivíduo afetado e sua família reconstruam seus selves, permitindo-se recuperar seu bem-estar e funcionalidade.

A frequência e gravidade dos problemas de aprendizagem, inclusive da matemática, indicam que há a necessidade de se construir um sistema público de diagnóstico e atendimento multidisciplinar para as crianças e jovens afetados e suas famílias. A falta de acesso a serviços públicos de diagnóstico e terapia é um fator que contribui para cercear oportunidades de desenvolvimento e acesso às carreiras melhor remuneradas para os indivíduos afetados e suas famílias.

Síndromes genéticas

Estamos trabalhando com a caracterização do perfil neuropsicológico de diversas síndromes neurogenéticas, tais como síndrome de Turner, síndrome velocardiofacial, síndrome de Williams etc. Este trabalho é realizado em parceria com diversos pesquisadores e instituições. Através de um financiamento da FAPEMIG a Profa. Maria Raquel Santos Carvalho do ICB-UFMG está disponibilizando técnicas de diagnóstico genético-molecular para o SUS. Estamos iniciando uma parceria com a Associação Brasileira da Síndrome de Williams, através de sua presidente, Sra. Jô Nunes. Em 3 demarço vai ocorrer na UFMG um encontro entre pesquisadores e familiares.

Também temos uma parceria com as Profas. Camila Dininno da PUC Minas e Célia Giacheti da UNESP de Marília para o estudo da síndrome velocardiofacial. Apesar de pouco conhecida, a síndrome velocardiofacial ou microdeleção do cromossoma 22q11.2 é uma das síndromes genéticas mais frequentes, com ocorrência em torno de 1 para 2000 na populaão. Além de uma facies característica, disfonia, insuficiência do véu palatino, malformações congênitas e atraso no desenvolvimento, a síndrome velocardiofacial é uma causa frequente de transtornos de aprendizagem, principalmente da matemática, e um fator de risco para esquizofrenia.

Recentemente apresentamos no XXX Workshop on Cognitive Neuropsychology em Bressanone, Itália, um trabalho mostrando que os indivíduos com síndrome velocardiofacial apresentam um déficit importante no senso numérico, o qual não é explicado pela presenção muitas vezes associada de retardo mental. Profissionais, pacientes e familiares interessados em participar da pesquisa podem nos contatar através do telefone 31/34096295.

Infecção pediátrica por HIV/AIDS

As nossas pesquisas sobre a neuropsicologia da HIV/IADS são conduzidas em parceria com o Prof. Jorge Andrade Pinto da Pediatria UFMG, Centro de Referência Orestes Diniz para Doenças Infecto-contagiosas, e National Institutes of Health dos EUA. O nosso principal resultado até o momento com a AIDS é que as crianças e jovens com AIDS apresentam inteligência normal e um comprometimento cognitivo relativamente leve em funções executivas relacionadas a áreas pré-frontais do cérebro. Quer dizer, aspectos mais básicos do funcionamento cognitivo, tais como a inteligência, estão preservados. Quase não se observam mais casos de encefalopatia ou retardo mental. Os comprometimentos observados ocorrem em funções mais complexas, relacionadas à atenção, controle sobre as operações mentais mais sofisticadas, resolução de problemas, planejamento etc. Isto é muito importante porque atesta o sucesso do programa brasileiro de prevenção e tratamento da AIDS pediátrica. A prevenção da transmissão vertical impede que novos bebês sejam infectados. Por outro lado, os que já estão infectados têm uma sobrevida e qualidade de vida cada vez melhores. Atualmente estamos investigando o impacto das disfunções executivas que observamos sobre o rendimento escolar e qualidade de vida.

Paralisia cerebral

Das pesquisas sobre paralisia cerebral já resultaram baterias de testes para o diagnóstico de funções executivas (BIFE-UFMG), habilidades visoespaciais (BACE-UFMG) e processamento lexical (BANPLE-UFMG) para crianças com idade mental entre 4 e 6 anos de idade. Também desenvolvemos um conjunto de “core sets” ou categorias nucleares para a aplicação da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) no contexto da paralisia cerebral.  A CIF é um sistema de categorização das consequências funcionais das condições de saúde desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde, o qual se baseia em um modelo biopsicossocial das relações entre aspectos orgânicos, psicológicos e sociais que potencialmente afetam o funcionamento e bem-estar do indivíduo e sua família. O modelo da CIF está crescentemente sendo adotado como referencial teórico para a reabilitação neurológica e neuropsicológico. Entretanto, a CIF é complexa e sua aplicação clínica depende de pesquisas como as nossas, as quais contribuem para operacionalizar seus conceitos. Estas pesquisas estão contribuindo para um melhor reconhecimento das necessidades de reabilitação apresentadas pelos indivíduos afetados e suas famílias, bem como para o desenvolvimento de medidas de desfecho mais válidas e intervenções mais eficazes.

Também estamos trabalhando com a representação do corpo em crianças com paralisa cerebral hemiplégicas. Nossas pesquisas mostraram que 30% das crianças hemiplégicas apresentam agnosia ou negligência do lado afetado do corpo em tarefas bimanuais. Ao contrário do que acontece no adulto, no qual a hemissomatoagnosia ocorre predominantemente após lesões do hemisfério direito, em crianças a hemissomatoagnosia surge após comprometimento de qualquer um dos dois hemisférios cerebrais. A hemissomatoagnosia compromete a funcionalidade da criança, interferindo com os resultados da reabilitação. Desenvolvemos uma bateria neuropsicológica e um procedimento de observação clinica para o diagnóstico de hemissomatoagnosia em crianças com paralisia cerebral hemiplégica e estamos captando recursos para um projeto de reabilitação usando neurofeedback.

Quais são os planos para o futuro?

Estamos em uma fase muito boa. Esta semana (14/02/2012) eu fui aprovado em primeiro lugar no concurso de professor titular da Psicologia da FAFICH-UFMG e isto deve melhorar a nossa capacidade de financiamento de pesquisa. Adquirimos equipamento de eletroencefalografia e potenciais evocados cognitivos, os quais devem melhorar nossa capacidade de localizar temporalmente os déficits cognitivos nas diversas etapas do processamento de informação. Um doutorando está sendo treinado pelo Prof. Guilherme Wood no uso de EEG em Graz e as pesquisas aqui no LND devem se iniciar em setembro, em colaboração com o Prof. Carlos Julio Tierra da Engenharia da UFMG. Também em colaboração com o Prof. Carlos Julio e Guilherme elaboramos um projeto para utilização de neurofeedback na reabilitação de crianças com discalculia e paralisia cerebral. Estamos torcendo para que o projeto seja aprovado e possamos adquirir os equipamentos. Estamos procurando expandir nossas parcerias internacionais, melhorando o perfil das nossas publicações e aumentando a nossa participação no cenário científico internacional. Também estamos consolidando o nosso ambulatório, chamado Número, o qual se destina ao atendimento de crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem da matemática e síndromes genéticas. Quem tiver interesse em recorrer aos nossos serviços pode entrar em contato através do telefone 31/34096205. Na primeira semana letiva de cada semestre é feita uma triagem para verificar a indicação de atendimento em nosso ambulatório. A triagem se faz necessária porque os serviços são gratuitos e a demanda é grande.

Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?

A neuropsicologia foi o modo de eu conciliar interesses humanísticos com uma perspectiva biológica, científico-natural. Eu acredito muito em consiliência. Ou seja, na validação convergente de resultados empíricos a partir de diferentes perspectivas ou tradições de pesquisa. A realidade é muito complexa e o método indutivo usado pelas ciências têm suas limitações. A principal delas é a impossibilidade de demonstrar hipóteses, apenas de refutá-las. Isto faz com que a consiliência ou validação convergente seja o caminho. À medida que subimos de nível do físico, químico, biológico para o psicológico e social, ganhamos crescentemente em graus de liberdade quanto ao determinismo. Ou seja, emergem propriedades. Mas os pesquisadores nos níveis mais altos da hierarquia da realidade humana não têm liberdade total. Não podem postular ontologias descoladas da realidade física e biológica. Do ponto de vista psicológico, a biologia é uma fonte valiosa de restrições, as quais nos permitem vislumbrar a arquitetura e o funcionamento do sistema. A neuropsicologia me coloca em contato com as grandes questões filosóficas da ética, ontologia e epistemologia, mas a partir de uma perspectiva empírica. O neuropsicólogo lida com os mesmos temas do filósofo. Só que o filósofo trabalha com argumentos enquanto o neuropsicólogo trabalha com a mensuração do desempenho de pacientes, inferindo a arquitetura do sistema cognitivo e suas relações com o a estrutura e função cerebral.

Técnicas como a de neurofeedback e estimulação transcraniana tem representado avanços importantes na área. Quais são as vantagens e desvantagens das técnicas usadas na neuropsicologia e na neurociência cognitiva e o que elas podem nos dizer?

Conheço os trabalhos sobre implantação de eletrodos em estruturas dos gânglios da base e estimulação em pacientes com Parkinson. Os resultados destes estudos são em grande parte paradoxais. Por vezes os pacientes melhoram, outras pioram. Ou melhora alguns aspectos e pioram outros. Acho que esta é uma área que ainda não é bem conhecida. Mas não sou especialista no assunto.

A estimulação magnética transcraniana é realmente uma técnica que trouxe uma contribuição importante à neuropsicologia. Todas as outras técnicas são correlacionais. Ou seja, o neuropsicológo observa que uma determinada lesão se associa com um dado padrão de alterações comportamentais ou cognitivas. Mas não pode ter certeza de que é a lesão que causou a alteração do comportamento. A natureza correlacional dos dados anátomo-clinicos não permite estabelecer de forma definitiva que as relações entre cérebro e comportamento são de causa e efeito.

Em alguns casos excepcionais é até possível fazer inferências causais. Um caso justamente famoso é o de um professor que começou a ter comportamentos pedófilos. Viu-se que ele tinha um tumor raríssimo, um hamangiopericitoma nas regiões frontais subcorticais. O paciente foi operado e melhorou. Posteriormente, o quadro de pedofilia retornou e verificou-se que o tumor havia recidivado. O relato deste caso demonstra através de um delineamento ABAB que existe uma relação causal entre o tumor e a alteração do comportamento.

A estimulação magnética transcraniana é importante por se tratar de uma técnica de causar “lesões” ou ablações funcionais reversíveis em indivíduos normais. Faz-se um pré-teste e constata-se que a função é normal. Faz-se a ablação funcional e verifica-se que foi induzida uma síndrome ou déficit neuropsicológico. Posteriormente observa-se a normalização da função. A estimulação magnética transcraniana é, portanto, uma técnica que permite fazer inferências causais entre e estrutura e função no cérebro.

Mas a estimulação magnética transcraniana também tem suas limitações. Uma delas é que nem todas as áreas cerebrais são acessíveis. Apenas o córtex e principalmente nas regiões frontais e temporais. Acho, entretanto, que a principal limitação é que a estimulação magnética transcraniana se associa ao risco de induzir crises convulsivas. Como ferramenta de investigação das correlações anátomo-funcionais seu uso se restringe a situações específicas em ambiente médico-hospitalar.

Que eu saiba, o principal uso terapêutico que está sendo feito da estimulação magnética transcraniana é no tratamento da depressão. Esta técnica está começando a substituir a eletroconvulsoterapia.

O surgimento e consolidação dos métodos de neuroimagem funcional nos últimos 30 anos fez com que o interesse por estudos de pacientes ou estudos de caso tenha diminuído bastante nos últimos anos. Atualmente, periódicos como Neuropsychologia e Cortex publicam majoritariamente estudos sobre neuroimagem. O número de estudos com pacientes vem diminuindo.

Por outro lado, tanto a neuroimagem quanto as técnicas de simulação em redes neurais têm sugerido fortemente que o processamento de informação ocorre de forma distribuída e paralela no cérebro. Estes avanços metodológicos e conceituais levaram a uma reformulação do tradicional conceito de localizacionismo em neuropsicologia. Hoje em dia se fala em localizacionismo distribuído.

Todos estes avanços são importantes. É preciso, entretanto, lembrar que tanto o método científico quanto suas diversas tecnologias se associam a limitações. Algumas questões os pesquisadores simplesmente não podem investigar devido a restrições éticas ou a limitações tecnológicas. p. ex., os estudos de neuroimagem funcional mostram padrões distribuídos de ativação. Mas como a resolução temporal destes estudos é muito baixa, não se pode excluir que os padrões distribuídos de ativação registrados em uma janela temporal de alguns segundos correspondam a ativações sequenciais em uma janela temporal de dezenas ou centenas de milissegundos.

Um estudo com registro de potenciais elétricos corticais em pacientes submetidos a cirurgia para epilepsia mostrou justamente isto. Ou seja, que os padrões distribuídos captados pelo sinal BOLD da fMRI na verdade correspondem a uma sequência muito precisa de ativação quando os dados são analisados com uma resolução temporal maior (Ned Sahin, Science, October 2009).

A conclusão então é que o cérebro processa informação tanto de modo distribuído quando paralelo. Os estudos de neuroimagem funcional atual têm limitações importantes quanto à resolução temporal e aquilo que parece ser um padrão distribuído simultâneo pode corresponder, na verdade, a uma ativação sequencial numa escala de tempo mais acurada.

Os padrões de ativação distribuídos também se associam a outra limitação das técnicas atuais de neuroimagem funcional. A variabilidade interindividual é muito grande. A variabilidade interindividual pode se dever tanto a diferenças anatômicas e funcionais do cérebro quanto ao tipo de estratégia empregada pelo participante da pesquisa. Assim, das diversas áreas ativadas na fMRI durante a realização de uma dada tarefa, algumas podem ser essenciais e outras não. A ativação de algumas áreas pode corresponder apenas a idiossincrasias relacionadas ao modo como os poucos indivíduos investigados executam a tarefa. A fMRI não pode identificar dentre todas as áreas ativadas quais são cruciais para a tarefa e quais desempenham um papel apenas acessório.

Somente os estudos com pacientes têm o potencial de identificar quais áreas cerebrais constituem conditio sine qua non para a implementação de uma dada função. Se uma área é ativada em um estudo de neuroimagem, posso concluir ela pode ter alguma coisa a ver com alguma função. Mas não posso saber jamais quão importante esta área é. Por outro lado, se uma lesão abole uma função, então posso inferir que a área desempenha um papel crucial para a função.

Da mesma forma, se um estudo de simulação em computador consegue implementar uma dada função cognitiva, isto não autoriza a realizar a inferir que o cérebro se comporta da mesma maneira. Redes conexionistas simuladas em computador mostram que da dinâmica de sistemas relativamente simples e com pouca programação prévia podem emergir funções relativamente complexas. Mas isto não autoriza ninguém a inferir que o cérebro funciona da mesma maneira.

Apesar de serem relativamente desvalorizados atualmente, os estudos de pacientes e de casos isolados continuam sendo importante. Somente os estudos de pacientes permitem uma testagem mais completa de hipóteses causais. Os estudos de neuroimagem e redes neurais funcionam bem no contexto da descoberta, permitindo gerar hipóteses anátomo-funcionais. Somente os estudos de pacientes e de estimulação magnética transcranianas permitem falsificar hipóteses. Ou seja, se um estudo de imagem mostra a ativação de uma área por uma tarefa, então pode-se concluir que a tal área está potencialmente implicada na tarefa. Por outro lado, se um estudo de paciente ou de estimulação magnética mostra que uma função não é comprometida por uma dada lesão ou ablação funcional isto significa que aquela área não é crucial, apenas acessória para a tarefa.

Existe, portanto, uma complementaridade de métodos em neurociência cognitiva. Cada abordagem, neuroimagem funcional e neuropsicologia, tem seu papel. O que nós pesquisadores precisamos fazer é aprender a utilizar e complementar os resultados de cada método a partir de uma filosofia experimental de teste de hipóteses.  Mas é inegável o fascínio que as pessoas sentem pela observação de figurinhas coloridas do cérebro.

Como a neurociência pode contribuir para a educação?

A neurociência pode e está contribuindo muito para a educação. Vou mostrar como isto acontece discutindo um trabalho publicado em 2008 por Eveline Crone da Universidade de Leiden. O artigo saiu na revista Journal of Neuroscience e usou fMRI para investigar os efeitos do feedback positivo e negativo na aprendizagem por regras. Os participantes precisavam realizar uma tarefa de discriminação de estímulos visuais usando uma de duas regras alternativas. Era preciso descobrir a regra correta a ser empregada a partir do feedback fornecido, dizendo se a resposta havia sido correta ou incorreta.

No cérebro de adultos acontece assim. Em uma tarefa na qual o indivíduo precisa monitorar sua atividade são ativadas áreas no córtex pré-frontal medial dorsal, em torno do córtex cingulado anterior. Sempre que o indivíduo recebe um sinal de erro, o cíngulo anterior é ativado, repassando este sinal para o córtex pré-frontal dorsolateral, para análise ulterior, planejamento e solução de problemas.  Em registros eletroencefalográficos este sinal é conhecido como error-related negativity.  É uma coisa clássica.

O grando tchan do experimento conduzido por Eveline Crone foi descobrir que as crianças somente se beneficiam da mensagem de erro, ativando o giro do cíngulo anterior, a partir dos 12 anos de idade. Antes desta idade o feedback negativo não melhora o desempenho. Só o feedback positivo melhora o desempenho em crianças menores do que 12 anos. A conscientização do erro não ajuda.

A implicação pedagógica é óbvia: É mais eficiente elogiar a criança quando ela acerta do que corrigi-la quando ela erra.

Tem alguma novidade nisto? Tem e não tem.  Agora sabemos quais são as áreas cerebrais envolvidas em um fenômeno muito conhecido em análise experimental do comportamento. Ou seja, o erro prejudica a aprendizagem. A punição é menos eficiente do que o reforço. O ensino escolar se beneficia muito de estratégias de aprendizagem sem erro, ensino programado etc. De certa maneira, as professoras já fazem isto. No caso da ortografia, p. ex., no início vale tudo. É só a partir da quarta série que as crianças começam a ter a ortografia sistematicamente corrigida. Talvez na quarta série seja cedo demais. Para algumas crianças pode ser cedo demais, para outras não, uma vez que existe variabilidade inter-individual etc.

Eu fiquei fascinado quando li o artigo da Eveline Crone. O trabalho mostra o potencial que a neurociência tem para a educação. Mas mostra, sobretudo, o potencial que a psicologia cognitiva e comportamental sempre tiveram para a educação. Potencial este que nem sempre é aproveitado. Na maioria das vezes não é aproveitado. Há um fascínio enorme em pedagogia pelo sócio-construtivismo em detrimento de outras correntes teóricas. Conceitos e métodos da psicologia comportamental e cognitiva são aplicados intuitivamente pelas professoras. Mas não existe um estudo sistemático e uma formação das educadoras em psicologia comportamental, cognitiva e neuropsicologia. Talvez isto venha a mudar com a neurociência e com o atrativo das figurinhas coloridas. Mas a psicologia está e sempre esteve aí.

O aluno de graduação em psicologia no Brasil vive um contexto acadêmico conflituoso e até mesmo hostil às vezes. Este problema remete a um conflito mais amplo entre abordagens na psicologia. Como você vê este embate intelectual no Brasil e no mundo?

A psicologia é uma área muito heterogênea, na qual diversas abordagens teóricas, epistemológicas e até mesmo éticas são possíveis. De um modo geral, é possível seguir a discussão na filosofia sobre os conceitos de Erklären e Verstehen para categorizar as diversas abordagens.  Erklären significa explicar, sendo o objetivo das ciências naturais, empíricas e quantitativas. Explicar significa validar um modelo mecanicista de relações de causa e efeito, com base no método científico de testagem e falsificação de hipóteses.  Verstehen, por outro lado, significa compreender, sendo o objetivo das disciplinas hermenêuticas, ou interpretativas. O objetivo das disciplinas hermenêuticas é dar sentido à realidade, à vivência subjetiva. Ambos os objetivos são perseguidos por abordagens distintas na psicologia. A psicologia cognitiva experimental, a psicobiologia e a neuropsicologia têm por objetivo a explicação causal dos fenômenos psicológicos, servindo-se do método científico-experimental de teste (falsificação) de hipóteses e buscando construir modelos mecanicistas de relações causais. A tradição científico-natural contemporânea tem suas origens em William James (mente como processo), Charles Darwin (mente como adaptação) e Carl Wernicke (localização cerebral dos processos psicológicos).

Na tradição hermenêutica, que caracteriza o existencialismo/humanismo, psicanálise e psicossociologia, o objetivo da psicologia é construir um referencial interpretativo que auxilie na atribuição de sentido psicológico à experiência subjetiva humana. Se caracterizarmos a ciência pelo método hipotético-dedutivo-experimental, então estas disciplinas não são ciência. Seu conhecimento é de outro tipo. Mais relacionado com a sabedoria.  Eu gosto de pensar assim: a perspectiva hermenêutica trata a experiência subjetiva como variável independente, quase lhe atribuindo um estatuto de fator explicativo causal. Já na perspectiva científico-natural, a subjetividade é concebida como uma variável dependente, ou seja, algo que precisa ser explicado em função de fatores genéticos, da estrutura anátomo-funcional do cérebro, das experiências de aprendizagem etc.

As duas abordagens, científico-natural e hermenêutica, não deveriam ser incompatíveis. A relação entre elas deveria ser de complementaridade. Esta relação de complementaridade faz todo sentido do ponto de vista epistemológico. Os fenômenos psicológicos são muito complexos. Estudá-los a partir de múltiplas perspectivas somente contribui para enriquecer o conhecimento. Na prática não é assim. Uma das maiores dificuldades é que as diferentes correntes partem de pressupostos ontológicos, epistemológicos, éticos e até mesmo políticos muito distintos. Lá pelas tantas o diálogo se torna impossível. O grande psicólogo matemático norte-americano Paul Meehl brincava assim: aquilo que é foco de pesquisa para um psicólogo constitui o termo de erro para um psicólogo de outra corrente.

Em parte o problema deriva da própria complexidade dos fenômenos psicológicos. Mas, na maior parte o problema se deve a divergências éticas e políticas, agravadas pelas tendências hegemônicas dos diversos grupos de pesquisadores.  A tendência dos pesquisadores é se agruparem na academia em igrejinhas, procurando adquirir poder,  reforçar-se mutuamente e impor-se ou até mesmo eliminar as correntes e grupos rivais.

A questão torna-se mais complexa ainda quando levamos em consideração que os interesses de muitos grupos acadêmicos são mais políticos do que científicos. Nas universidades, principalmente federais, mas também em associações científicas e profissionais, pode-se observar um acentuado predomínio de grupos políticos cuja principal ocupação é instrumentalizar a atividade acadêmica com o objetivo de promover as transformações sociais por eles consideradas necessárias. Isto é feito a partir de estratégias políticas delineadas pelo teórico marxista Antônio Gramsci na Década de 1930. Segundo Gramsci, uma vez que a estratégia da revolução socialista e da tomada do poder pela força se destina ao fracasso, os socialistas deveriam conduzir sua luta política no nível da super-estrutura ideológica, infiltrando-se nos diversos aparelhos ideológicos de estado e promovendo suas ideias, conquistando os corações e mentes das pessoas, principalmente dos jovens. Se considerarmos o predomínio crescente de opiniões politicamente corretas nas universidades brasileiras podemos fazer uma avaliação do grau de sucesso obtido.

O resultado deste processo, na minha avaliação, é uma hegemonia de atitudes anticientíficas nas universidades brasileiras atuais. O ambiente entre professores e alunos é majoritariamente hostil à pesquisa científica, à testagem de hipótese e à busca de neutralidade no conhecimento científico. Todo um castelo de construções teóricas foi construído, procurando argumentar que não existe neutralidade na pesquisa, que interesses econômicos e de dominação são os motivos verdadeiros subjacentes à pesquisa, que a ciência é um aparelho ideológico do estado, um instrumento de dominação e hegemonia e etc.

Este discurso é muito sedutor, principalmente para os jovens. A juventude se caracteriza pela inquietação, rebeldia, pela busca de alternativas ao status quo etc. Então é fácil compreender porque este discurso encanta tanto a muitos jovens. Ainda mais em um país caracterizado pelas brutais diferenças sociais, econômicas e culturais. O caminho da crítica ideológica é sedutor também por outro motivo. A crítica ideológica é o caminho do menor esforço. Não há necessidade de ralar, de malhar, de estudar epistemologia, estatística, de aprender neuroanatomia, epidemiologia clinica, matemática, programação de computadores, controle de variáveis etc. Basta se apossar de um referencial teórico mínimo e sair por aí “interpretando”. O que por vezes ocorre é uma verdadeira “interpretose”. Uma saturação de interpretações baseadas em lugares comuns, os quais são compartilhados por grupos descolados, não contribuindo em nada para o avanço do conhecimento ou transformação da realidade.

Isto não ocorre apenas na psicologia não. Em diversos cursos da área da saúde, p. ex., estão na moda atualmente os chamados estudos qualitativos. Nestes estudos, o objetivo do “pesquisador” não é testar uma hipótese científica sobre relações de causa e efeito entre variáveis, mas conhecer a opinião de um determinado grupo alvo sobre sua experiência de vida. Obviamente, que isto é interessante por si só. Mas contribui muito pouco, p. ex., para o conhecimento dos fatores de risco, mecanismos causais, prognóstico, eficácia de tratamentos, etc. Ou seja, a capacidade deste tipo de estudos de informar políticas públicas é muito reduzida. No máximo o gestor público fica informado de que como uma dada política será percebida por determinado grupo alvo. Isto é importante, mas não basta. A questão é que a pesquisa qualitativa/interpretativa constitui um delineamento muito fraco do ponto de vista da sua capacidade de generalização dos dados. Cria-se então uma situação paradoxal de uma “ciência do particular”. Ou seja, uma pesquisa cujo objetivo é reconstruir a experiência de um determinado grupo em uma dada situação. E não uma pesquisa cujos resultados possam ser generalizados de um contexto para outro, tendo potencial, portanto, para informar politicas públicas. Trata-se de uma espécie de narcisismo intelectual, que cultiva um discurso hermético, acessível apenas aos iniciados.

Um grupo de colegas, docentes de processos psicológicos básicos está muito preocupado com esta questão e tem promovido encontros e grupos de trabalhos com o intuito de melhorar nossa capacidade didática enquanto professores de psicologia geral, métodos quantitativos, psicologia experimental, psicobiologia, neuropsicologia etc. Algumas iniciativas tem sido mesmo brilhantes, trazendo benefícios enormes para o ensino de processos básicos. Mas apenas melhorar a nossa eficiência técnica pedagógica não basta. É preciso também trabalhar politicamente.  E acho que isto é o que está sendo feito também no Brasil, no âmbito deste movimento pelo ensino dos processos psicológicos básicos. Mas a missão é muito difícil. Uma estratégia, por exemplo, é infiltrar-se no ensino das disciplinas do primeiro semestre de psicologia. Eu já fiz. Já desenvolvi por três semestres um projeto de ensino de métodos quantitativos com a turma do primeiro período da graduação. O projeto foi um sucesso. Mas, no quinto período, quanto fui dar aulas para estas mesmas turmas sobre psicologia cognitiva, elas não apenas tinham esquecido o que haviam aprendido, mas tinham perdido totalmente o interesse pela psicologia experimental, tendo por vezes desenvolvido uma atitude hostil em relação à ciência.

Vou encerrar a resposta a esta pergunta comentando sobre um paradoxo e contrastando o ambiente intelectual brasileiro com o ambiente intelectual em outros países.

O paradoxo é o seguinte: Os mesmos grupos e correntes que argumentam em favor da transformação da realidade, da aceitação e convivência com as diferenças, pela diversidade etc. e tal, são justamente aqueles que na academia tentam eliminar as formas rivais de pensando de maneiras por vezes abjetas, incluindo perseguições, humilhações e desmoralização de colegas, como tantas vezes já tive oportunidade de testemunhar. O paradoxo aparente é o fato de as mesmas pessoas que argumentam contra o preconceito e pela diversidade comportarem-se de forma hegemônica em relação aos que divergem do seu pensamento. Parece que eles propugnam um tipo bem específico de diversidade, uma diversidade enviesada, abrangendo apenas um segmento do espectro de opções possíveis. Isto leva a uma forma de pensamento dicotômico, de nós contra eles, de luta da forças do bem e do “progresso” contra as forças da reação, do mal. Mas o paradoxo é apenas aparente, desaparecendo quando lembramos que somos todos seres humanos e que as associações entre conspecíficos são reguladas de modos bastante típicos, os quais são extensivamente investigados pela psicologia social.

A última questão diz respeito à comparação do panorama intelectual brasileiro e internacional. O nível dos debates no Brasil é muito baixo, muito ideologizado, contrastando com o que se observa em congressos internacionais e em instituições universitárias de outros países. Nos países de língua alemã, p. ex., o curriculum de graduação em psicologia pode compreende até uma dúzia de disciplinas relacionadas a métodos quantitativos, tais como estatística, programação, psicometria, metodologia experimental. O aluno sai do curso de graduação com uma base matemática e metodológica que foge ao alcance da imaginação dos nossos estudantes e professores. A psicologia é concebida como uma ciência e os seus conceitos e métodos precisam ser validados através do teste de hipóteses. Nestes países os alunos de psicologia mal ouvem falar, p. ex., em psicanálise. A psicanálise existe, mas é uma forma de terapia ou auto-conhecimento que é aprendida fora dos cursos de psicologia. A psicanálise é cultivada nas associações psicanalíticas e a formação em psicanálise é feita na pós-graduação pelos poucos indivíduos que se interessam pelo assunto.

Já na Itália a influência da psicanálise é maior. Mesmo assim a psicologia e neurociência cognitivas são muito fortes. Fico pensando assim: se algum curso de direito aqui no Brasil quisesse oferecer uma disciplina de psicologia para seus graduandos a probabilidade maior é que o curso fosse de psicanállse. Em Bolonha, por outro lado, os alunos de direito fazem uma disciplina de psicologia cognitiva.

Estas diferenças fazem parte de um contexto maior, caracterizado pelo isolamento intelectual em que vivemos aqui no Brasil. Durante décadas, p. ex., não podíamos importar computadores e era a maior dificuldade para importar livros. Quando eu me formei, há 30 anos atrás, era muito raro que os alunos brasileiros de graduação fossem ao exterior. A coisa mudou. Cada vez mais nossos alunos fazem intercâmbio e têm contato com outros ambientes intelectuais. Uma aluna de graduação que estava fazendo intercâmbio na Universidade de Leeds me escreveu certa vez que somente naquela ocasião ela tinha se dado conta do significado que os meus ensinamentos tinham, de como apesar de parecer um peixe fora d’água aqui no Brasil as coisas que eu ensino têm muito mais a ver com o que pessoal pensa lá fora.

Eu não tenho esperança de que isto possa mudar de uma hora para outra. Mas, por vezes me surpreendo. As transformações podem ocorrer de forma muito rápida. Considero que a minha principal missão como docente é formar profissionais, pesquisadores e docentes comprometidos com uma prática científica baseada em evidências e com um conceito de psicologia enquanto ciência natural. É claro que esta perspectiva não é a única. Nem tenho pretensões de que ela seja necessariamente a melhor. Isto depende muito dos objetivos que se tem. Mas acho que a perspectiva da psicologia enquanto ciência natural tem o seu lugar ao Sol, cativando um número pequeno, mas crescente de alunos talentosos e futuros profissionais muito promissores.

Como é ser um pesquisador em psicologia no Brasil?

Ser um pesquisador na área de psicologia no Brasil é um privilégio. A psicologia cresce que dá gosto no Brasil. Existe ainda uma hegemonia de tradições não-científicas na psicologia brasileira. Mas a vertente científica atrai cada vez mais jovens talentos. Vou discutir um pouco mais sobre a neuropsicologia, ressaltando alguns avanços.

Um desenvolvimento foi a eleição de uma nova diretoria na Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, a qual existe desde 1989. A atual diretoria, liderada pelo Prof. Leandro Fernandes Malloy-Diniz da UFMG congrega colegas de nove estados brasileiros, sendo bastante representativa da diversidade nacional. A agenda da SBNp para os próximos anos contempla algumas questões importantes, tais como 1) consolidar a neuropsicologia como uma área interdisciplinar de atuação profissional, não restrita profissionais com apenas um tipo específico de formação, 2) participar do debate sobre políticas públicas para crianças e jovens com transtornos de comportamento e aprendizagem, enfatizando a validade da abordagem nosológica nesta área, a natureza constitucional, neurobiológica e neurogenética de muitos transtornos e a necessidade de formulação de políticas públicas para atendimento multidisciplinar, principalmente da população carente, 3) desenvolvimento de critérios de qualificação e certificação profissional na área de neuropsicologia.

Vou discutir um pouco sobre cada um destes pontos, mas antes gostaria de mencionar a criação do IBNeC (Instituto de Neuropsicologia e Comportamento), ocorrida há três anos atrás por iniciativa do Prof. J. Landeira-Fernández da PUC-RJ. Como a SBNp, o IBNeC também é uma associação de caráter multiprofissional, voltada para o desenvolvimento da neuropsicologia no Brasil. Mas acho que o IBNeC nasceu com uma preocupação muito específica de articular uma conexão entre a neuropsicologia, mais voltada para a clínica, e pesquisa psicobiológica básica na área do comportamento humano e animal.

A atuação destas entidades, bem como o surgimento de periódicos científicos em inglês, tais como Psychology & Neuroscience, ligada ao IBNeC, Dementia & Neuropsycholoogia, ligada à Academia Brasileira de Neurologia, junto com a reativação da série Temas em Neuropsicologia da SBNp, estão permitindo que os neuropsicólogos tenham canais de comunicação para divulgar e debater os resultados de suas pesquisas, quanto discutir aquela ampla agenda relacionada ao exercício profissional e às políticas públicas.

Vou discutir agora os três tópicos da agenda da SBNp, os quais mencionei anteriormente, sem que a minha opinião necessariamente reflita aquela da Sociedade. Em primeiro lugar vou falar sobre a questão da interdisciplinaridade. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem defendido uma posição restritiva quanto ao uso de testes neuropsicológicos por profissionais de outras áreas, considerando que a avaliação de funções mentais é uma prerrogativa exclusiva de profissionais com formação em neuropsicologia. Eu acredito que esta posição do CFP é equivocada,  sendo lesiva aos interesses dos clientes dos serviços neuropsicológicos e aos próprios psicólogos.

A formação em neuropsicologia é necessariamente interdisciplinar, ocorrendo no nível da pós-graduação. Nenhum curso de graduação capacita os seus formandos a trabalhar com os conceitos e métodos empregados pela neuropsicologia, quais sejam, estrutura e função do cérebro, clinica das doenças neurológicas e psiquiátricas, psicometria, correlação estrutura-função, desenvolvimento humano etc. etc. O cerne da neuropsicologia diz respeito à correlação anátomo-clinica ou estrutura-função. A abordagem neuropsicológica consiste em procurar identificar relações sistemáticas entre alterações comportamentais e cognitivas e a integridade funcional de determinados sistemas cerebrais. Ninguém aprende isto na graduação de medicina, psicologia, fonoaudiologia etc. A formação é árdua, pós-graduada e interdisciplinar, abrangendo conhecimentos factuais e procedimentais oriundos de diversas áreas.

Um diagnóstico ou avaliação neuropsicológico é um processo muito distinto de uma avaliação psicológica. O psicólogo trabalha com construtos psicológicos, tais como inteligência, personalidade, auto-estima, auto-eficácia, mecanismos de reforçamento, etc. O neuropsicológico, independentemente da sua formação, trabalha com construtos neuropsicológicos, ou seja, com correlações anátomo-clinicas, procurando associar padrões de alterações comportamentais ou cognitivas com alterações funcionais no cérebro. Isto é muito diferente.           Ninguém aprende isto no curso de psicologia. Não tem como um profissional de psicologia aprender isto sem necessariamente trabalhar em uma equipe interdisciplinar, na qual tenha oportunidade, por exemplo, de conviver e aprende com médicos e profissionais de outras áreas.

O trabalho interdisciplinar em neuropsicologia é também um preceito ético.  Indivíduos com problemas neuropsiquiátricos crônicos apresentam necessidades complexas de saúde, as quais demandam a atuação de profissionais de diferentes áreas. A tendência dos profissionais é atuar de forma multidisciplinar. Ou seja, são definidos objetivos em comum, mas cada profissional trabalha de forma independente. Isto leva a uma fragmentação dos esforços de intervenção, a uma perda da perspectiva de conjunto quanto aos problemas do cliente e da família e a uma reduplicação de esforços.

A avaliação neuropsicológica realizada por psicólogos deve ser reservada a situações mais específicas, nas quais se necessite de uma avaliação mais abrangente ou mais aprofundada de determinados aspectos. Todos os profissionais têm não apenas o direito, mas o dever, de avaliar as funções mentais dos seus pacientes.  E os profissionais de saúde têm o dever de utilizar instrumentos diagnósticos e terapêuticos validados de acordo com requisitos técnicos mínimos. Eu gosto de ilustrar isto com o seguinte exemplo. Sabe-se que a memória de trabalho fonológica desempenha um papel importante em algumas formas de afasia de condução. Suponha-se então uma fonoaudióloga que esteja atendendo um paciente com afasia de condução e precisa avaliar a memória de trabalho como parte do processo diagnóstico e de acompanhamento da intervenção. Acho que ela não precisa ser obrigada a encaminhar para uma psicóloga para fazer isto. Isto é desumano com o paciente, com a família, implicando em perda de tempo e aumento dos custos. De mais a mais, quantas psicólogas existem que sabem o que é uma afasia e têm experiência em avaliar pacientes afásicos? A reserva de mercado não é aceitável nem do ponto de vista ético, nem do ponto de vista prático, operacional.

O segundo ponto diz respeito às políticas públicas quanto ao atendimento de crianças com dificuldades de aprendizagem e/ou problemas de comportamento. Há um movimento, apoiado inclusive por órgãos de classe da psicologia, contra uma suposta “medicalização” do ensino. Ou seja, contra o uso de procedimentos diagnósticos e categorias nosológicas tais como hiperatividade, dislexia e discalculia na área de educação. O temor dos ativistas políticos que se envolvem em tal tipo de campanha é de que as crianças e suas famílias sejam responsabilizadas e estigmatizadas pelas dificuldades apresentadas. Dificuldades estas que são muitas vezes agravadas se não causadas por problemas sociais.

 A perspectiva da neuropsicologia é divergente destas campanhas contra a suposta “medicalização” do ensino. Na perspectiva neuropsicológica existem evidências científicas sólidas sustentando a validade de categorias nosológicas tais como dislexia, discalculia e hiperatividade. Estas condições correspondem a variações constitucionais do perfil de desempenho em habilidades específicas, as quais são de origem neurogenética, são persistentes, altamente incapacitantes e susceptíveis de melhoria com intervenção apropriada.

O argumento da estigmatização não se sustenta, uma vez que estas crianças e jovens já são estigmatizadas de qualquer maneira, sendo chamadas de “burras”, “lerdas” ou “preguiçosas”. Nestes casos é o diagnóstico que possibilita ao individuo a reconstrução do seu auto-conceito em termos mais favoráveis. O diagnóstico permite ao individuo e à família o acesso a uma explicação cientificamente fundamentada e socialmente aceitável quanto à natureza das dificuldades. Explicação esta que é isenta de juízos de cunho moral, permitindo ao indivíduo conviver e aceitar suas dificuldades, desenvolvendo estratégias para superá-las com o auxílio de profissionais.

A consequência deste tipo de movimentação contra a suposta “medicalização” do ensino tem como principal consequência impedir que as pessoas de classes sociais menos favorecidas tenham acesso a serviços multiprofissionais para dificuldades de aprendizagem e de comportamento. As famílias de classe média, inclusive da classe média ascendente, já estão procurando tais serviços em clinicas particulares. A ausência de uma política publica para este setor coloca os mais pobres em uma situação de dupla desvantagem, duplamente prejudicados, por terem problemas e por serem pobres, não tendo acesso aos serviços necessários.

O terceiro tópico diz respeito à qualificação profissional em neuropsicologia. Não existe qualquer tipo de regulamentação. A maioria das pessoas faz algum tipo de curso de especialização em neuropsicologia, com até 400 horas de duração e quase nenhuma formação e supervisão clinica específica. Que eu saiba não existe nenhum programa de programação strictu sensu especificamente voltado para a neuropsicologia. Mesmo assim é crescente o número de jovens doutores e professores que atuam na área, indicando que a mesma está crescendo.

Há a necessidade então de estabelecer diretrizes para a formação e estabelecer parâmetros mínimos para a formação e atuação profissional. Uma distorção que se observa com frequência demasiada no Brasil diz respeito a profissionais, com formais originais as mais diversas, que fazem um curso de especialização em neuropsicologia a aprendem a mecânica da aplicação de testes, não tendo qualquer formação mais sólida em neurologia, psicopatologia, desenvolvimento e, até mesmo, psicometria. Muitos relatórios neuropsicológicos que os pacientes trazem consigo revelam que a avaliação foi conduzida de forma mecânica, consistindo na aplicação de uma bateria de testes e levantamento de escores, sem que o profissional tenha definido as hipóteses diagnósticas que estavam sendo testadas.

Teste significa teste de hipótese. Teste é um procedimento padronizado de observação e mensuração do comportamento, o qual é empregado em neuropsicologia para testar a hipótese de que um dado processo cognitivo ou sistema cerebral esteja comprometido. Não tem como realizar um diagnóstico em neuropsicologia apenas a partir da aplicação mecânica de uma bateria rotineira de testes. Há necessidade de reflexão, de geração e levantamento de hipóteses. E a capacitação para realizar este teste de hipóteses não é adquirida em nenhum curso de graduação, muito menos em qualquer curso de especialização.

O IBNeC está contribuindo para resolver estas distorções, na medida em que aproxima a neuropsicologia das neurociências. Por outro lado, a SBNp está implantando um sistema de certificação profissional. Através de exames realizados periodicamente, consistindo da análise de títulos, prova de conhecimentos teóricos e prova clinica, prática, os profissionais serão qualificados e certificados conforme o seu nível de formação e experiência. Através desta qualificação os empregadores, pacientes e famílias usufruirão de indicadores quanto à qualificação do profissional.

Finalmente, farei um comentário sobre a pesquisa científica de um modo geral. No Brasil, o diferencial de pesquisa foi a criação do Portal de Periódicos da CAPES. O Portal da CAPES nos colocou no circuito. Outros avanços importantes ocorridos nos últimos anos dizem respeito à maior disponibilidade de financiamento para a pesquisa e o reconhecimento por parte das autoridades governamentais de que é importante aumentar a participação brasileira no panorama científico internacional, quer seja através de publicações, intercâmbio de alunos de graduação, bolsas de pós-graduação, apoio à participação em congressos, etc. O Brasil está começando a fazer presença no cenário internacional. Outro ponto é a origem do financiamento. Quase 100% da pesquisa no Brasil é financiada pelo poder público. Algumas entidades de fomento, tais como a FAPEMIG e FAPESP estão fazendo um esforço grande no sentido de aumentar a participação do setor privado no financiamento de pesquisa. Acho que as perspectivas são muito promissoras e fico feliz em poder testemunhar este crescimento.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?

Quando eu conclui a residência médica em neurologia e neuropediatra fui procurar a chefe do serviço onde eu havia feito minha formação. Eu disse então para esta senhora, uma neuropediatra muito importante, que tinha um interesse enorme em trabalhar com neuropsicologia. Ela então me aconselhou a trabalhar bastante, a aprofundar os meus estudos. Com isto, disse ela, eu viria a ser um “profissional com perícia reconhecida na área de neuropsicologia”. Após ouvir os seus conselhos eu fui procurar um outro serviço de neurologia, no qual tivesse mais oportunidades para desenvolver meus interesses como neuropsicólogo. Fui procurar o Prof. Jaderson Costa da Costa no Hospital da PUCRS, com quem trabalhei por cinco anos e completei minha formação. Desde então eu tenho trabalhado e estudado muito sobre neuropsicologia. E, como havia previsto a minha ex-professora, acabei me tornando reconhecido na área. Não é que ela tinha razão? Acho que foi um dos melhores conselhos que eu já recebi na vida.

Meu pai, por outro lado, teve uma atitude muito diferente em relação a conselhos. No seu leito de morte, o Rubén Haase falou assim pra mim e para o meu irmão: “Não adianta nada eu querer dar qualquer conselho pra vocês. Não tenho nada pra dizer. No final vocês vão fazer mesmo do jeito que bem entenderem”. Foi o que eu e o meu irmão fizemos. Foi, sem dúvida, o melhor conselho que eu já recebi. Penso há anos no que ele quis dizer com isto. Meu pai era um sábio, um verdadeiro oráculo. Botou a pulga atrás da minha orelha e me estimulou a fazer do jeito que eu bem entendesse. Obviamente, sempre fiquei pensando se este é o jeito certo. Se existe um jeito certo. E se ele descobriu, por que não quis me contar? Hoje sou pai de três adolescentes e aprendi que a sabedoria não se transmite via oral.

Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?

Faço algumas recomendações aos noviços: 1) Prefiram ler artigos originais do que livros. Livros e artigos de revisão somente servem para dar uma visão geral. A visão de conjunto é importante. Mas o progresso é relatado em um ritmo alucinante nos artigos originais. Aprendam a destrinchar a gramática textual IMRAD dos artigos originais: Introduction, Methos, Results and Discussion; 2) Prefiram ler em inglês do que em português. Se o autor se deu ao trabalho de escrever em inglês é porque ele considera que o seu trabalho merecer ser conhecido por um público universal. Ou seja, é de qualidade melhor. A literatura científica em outras línguas está sempre atrasada; 3) Aprendam a ser auto-didatas. Quem não desenvolve habilidades auto-didáticas fica condenado a sempre comer pela mão dos outros.

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Discussão - 10 comentários

  1. silvia disse:

    parabens pela entrevista com este brilhante médico que nos presenteia com muitos conhecimentos

  2. Laís Xavier disse:

    Muito bom!

  3. André Rabelo disse:

    Silvia e Laís,

    obrigado, que bom que gostaram da entrevista!

    Abraço!

  4. […] Psicologia Brazuca: Vitor Haase e a neuropsicologia […]

  5. marinalva cardoso disse:

    Eu,sempre percebia que existia,algum distúrbio em mim,hoje com 57 anos,e lendo agora essa matéria do neuro dr.Vitor Haase,fica a certeza da dúvida que eu tinha,Tenho dificuldade de diversificar cores,tamanhos dificuldade nas matérias de geografia,matemática,ciências e etc, etc….O estranho é que eu sempre gostei de estudar,mas a minha mente não acompanhava, os assuntos dados na aula.Até hoje,Fico achando que sou diferente dos outros.Incapaz. bjosss e muito Obrigado,pela atenção. BOAS FESTA.

  6. Elcia disse:

    Gostaria de saber do dr. Vítor se em algum momento ele levou em consideração a péssima formação de nossos professores do ensino básico brasileiro. Odeio matemática, conto ainda nos dedos…hahahaha…adorei o nome de discalculia, e meu olhar é de que não tive nenhum estímulo para gostar da matéria. O que já não aconteceu com a física, no colegial, onde tive um ótimo professor…

  7. […] da área também estarão presentes no congresso, como o Vitor Haase (que já foi entrevistado aqui no blog). Esse congresso é uma ótima oportunidade, espero poder encontrar alguns de vocês por lá! Para […]

  8. […] Dificuldades de aprendizagem na matemática, indisciplina e castigo […]

  9. geralda costa disse:

    bom dia Vitor Geraldi Haase eu gostei muito sobre esta assunto pois em 2014 descobri que meu filho tem hiperatividade e dèficit deatenção cid;10 f 90.0 e usa o medicamento Ritalina com eu em contro um proficional em neurofeeback em minha região moro em porto velho Ro ou uma cidade mais perto

  10. Jucimara Guimaraes disse:

    Oi, professor.
    Sou estudante de uma pós-graduaçao em neurocogniçao e aprendizagem aqui e Novo Hamburgo no RS e tenho muito interesse nos materiais sobre adaptaçao curricular…tbém sou profe da sala de recursos e atendo 21 crianças e adolescentes com diferentes deficiências…se possível me orientar e sugerir materiais ficarei muito grata
    Um abraço
    Juc

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