Quais são os pré-requisitos para a acumulação cultural?

O que permitiu a acumulação cultural?

No início deste mês, a revista Science trouxe um trabalho investigando os pré-requisitos cognitivos e sociais básicos para que um organismo seja capaz de acumular cultura. Enquanto uma caraterística distintivamente humana, a capacidade de acumular cultura tem sido estudada e debatida há muitos anos, com muitas questões ainda levantando discordâncias.

Um posicionamento  influente na área é que algumas características cognitivas e sociais constituíram os ingredientes básicos para que a capacidade de acumular cultura pudesse se expandir de maneira tão acentuada e “repentina” do ponto de vista evolutivo, como indicam os dados arqueológicos acerca da produção de ferramentas ao longo da história evolutiva humana. Alguns destes pré-requisitos são a capacidade de ensinar, a linguagem, a imitação e a prosocialidade.

 Por outro lado, alguns autores defendem que determinados aspectos sociais impediram o desenvolvimento de acumulação cultural em outras espécies que não a humana, como o cleptoparasitismo, a tendência de indivíduos dominantes monopolizarem recursos e uma tendência a direcionar menos atenção a “inventores” com status social baixo no grupo.

A "puzzlebox" usada

Visando examinar algumas destas hipóteses, a equipe do professor Kevin Laland, da Universidade de St Andrews, realizou dois experimentos que são relatados no artigo da Science. No primeiro experimento, os autores descrevem um estudo que pela primeira vez investigou a capacidade de acumular cultura de humanos e de outros animais usando o mesmo aparato – uma puzzle box (mostrada na imagem acima). A puzzle box tinha 3 níveis de dificuldade de resolução e o avanço para os níveis mais difíceis dependia da resolução dos níveis anteriores. Desta maneira, ela permitiu avaliar em uma escala temporal reduzida o quanto um conhecimento (ex: solução para a puzzle box) poderia ser acumulado sucessivamente, compartilhado “SocialMente” (=]) e aprimorado por um grupo (que são as ideias básicas do conceito de acumulação cultural).

Os participantes do estudo (grupos de crianças, chimpanzés e macacos capuchinhos) eram apresentados à puzzle box em grupos de alguns membros, permitindo assim que as soluções pudessem ser compartilhadas e aprimoradas nos níveis de dificuldade superior. As evidências encontradas indicaram que tanto chimpanzés quanto macacos capuchinhos não demonstraram aprendizagem cultural acumulativa – poucos membros (ou nenhum, no caso dos capuchinhos) chegaram ao terceiro estágio de dificuldade, a despeito dos chimpanzés terem sido apresentados à puzzle box por 30 horas e os capuchinhos, por 56 horas.

ResearchBlogging.org

Agora vem o salto: depois de serem apresentados ao aparato por apenas 2,5 horas, diversas crianças foram capazes de atingir o segundo e o terceiro nível. Apoiando muitas das hipóteses que enfatizam as capacidades da cognição social, observou-se no estudo que as crianças fizeram uso extensivo de ensino por meio de instruções, aprendizagem observacional e prosocialidade, embora nenhuma destas variáveis  tenham se associado significativamente a capacidade de acumular cultura em chimpanzés ou capuchinhos.

No experimento 2, alguns chimpanzés eram treinados para atingir o terceiro estágio de dificuldade com sucesso, e então eram inseridos em grupos de chimpanzés não treinados. Entretanto, a introdução de um “expert” no grupo não melhorou significativamente a performance dos membros, o que dá indícios de que a capacidade de acumular cultura pode não depender de determinadas variáveis sociais.

Os resultados dos dois experimentos em conjunto indicam que aspectos sociais como o cleptoparasitismo, o monopólio de recursos por membros dominantes ou a falta de atenção recebida por membros de status social baixo não respondem pela ausência de acumulação cultural em espécies não-humanas. Por outro lado, as evidências apoiaram a importância de um conjunto de variáveis cognitivas e sociais específicas para a acumulação cultural – a capacidade de ensino por instrução verbal, de imitação e de prosocialidade. Os autores argumentam que se algumas destas características já estão presentes em chimpanzés, elas pelo menos são bastante rudimentares quando comparados aos humanos. Permanecem, entretanto, em aberto perguntas acerca de quando e porque estas capacidades cognitivas e sociais surgiram em nós, mas não em outras espécies.

Referências:

Dean, L., Kendal, R., Schapiro, S., Thierry, B., & Laland, K. (2012). Identification of the Social and Cognitive Processes Underlying Human Cumulative Culture. Science, 335 (6072), 1114-1118 DOI: 10.1126/science.1213969

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Discussão - 3 comentários

  1. Como se sairiam animais como Washoe e Koko que dominam parte da linguagem humana?

    []s,

    Roberto Takata

  2. André Rabelo disse:

    Takata,

    boa pergunta! Os animais usados no estudo receberam pouco treinamento se comparado aos exemplos que vc citou, além de não terem sido treinados desde pequenos. Eu gostaria de saber o resultado de um estudo que usasse chimpanzés com habilidades cognitivas mais desenvolvidas (na verdade, legal mesmo seria se houvesse um grupo de chimpanzés assim, será que haveria transmissão de instruções por meio de sinais e maior nível de aprendizagem observacional? Eu acho que ao menos em comparação ao grupo do estudo comentado aqui, observaríamos um aumento nestes aspectos).

    Abraço!

  3. André Rabelo disse:

    Sobre a Washoe, tem esse vídeo bem legal!

    http://www.youtube.com/watch?v=3V_rAY0g9DM

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