Estudo inteligente: Aproveite ao máximo o seu tempo de estudo com essas dicas tiradas de pesquisas

Fonte: gradPSYCH Magazine*
Autor: Lea Winerman
Tradutor: André Rabelo

Dicas de como estudar tiradas da psicologia cognitiva

Você provavelmente pensa que sabe como estudar.

Afinal de contas, você chegou ao ensino superior. Você entregou com sucesso tarefas de casa e passou em exames por pelo menos 16 anos. E existe uma grande chance de que você tenha um conjunto de rotinas de estudo, quer seja um copo de chá e o seus livros-texto na cama ou um canto em uma biblioteca calma que você alegou ser seu.

Mas pode ser que os hábitos de estudo que você desenvolveu por uma década ou duas não estejam te servindo tão bem quanto você pensa que eles estão.

Pesquisas têm mostrado que algumas técnicas de estudo do “senso comum” — como sempre ler no mesmo local calmo ou gastar horas em um momento de concentração em um assunto — não promovem aprendizagem de longo prazo. E alguns hábitos que você deve suspeitar não são tão bons, como o estudo de últimos minutos antes de exames, podem até ser pior do que você pensou.

Nós sumarizamos três princípios, tirados a partir de décadas de pesquisa na psicologia cognitiva, para te ajudar a aproveitar o máximo das suas horas de estudo (continua depois do parágrafo abaixo).

* Este material originalmente apareceu em inglês como [Winerman, L. (2011, November). Study Smart. gradPSYCH. Retrieved from http://www.apa.org/gradpsych/2011/11/study-smart.aspx]. Copyright © 2011 pela American Psychological Association. Traduzido e reproduzido com permissão. A American Psychological Association não é responsável pela precisão desta tradução. Esta tradução não pode ser reproduzida ou distribuída adiante sem uma permissão prévia escrita da APA.

Espaçe Suas Sessões de Estudo

Na medida em que as leituras de curso se empilham, pode ser tentador se deixar ficar para trás, o tempo todo se reafirmando de que você irá gastar dois dias estudando logo antes do exame. Mas enquanto o estudo de última hora pode te permitir passar em um teste, você não irá se lembrar do material por muito tempo, de acordo com o psicólogo da Williams College, Nate Kornell, PhD.

Décadas de pesquisa têm demonstrado que ter um espaçamento entre sessões de estudo por um período maior de tempo melhora a memória de longo prazo. Em outras palavras, se você tem 12 horas para gastar em um assunto, é melhor estudar isso por três horas a cada semana por quatro semanas do que acumular todas as 12 horas na quarta semana.

E para a maior parte, quanto mais tempo você demorar entre as sessões de estudo, melhor para você — ao menos dentro dos limites de tempo de um semestre acadêmico.

“Em algum momento, esperar demais [entre sessões] poderia ter um efeito negativo [na aprendizagem],” Kornell diz. “Entretanto, a maioria de nós espaça muito pouco. Praticamente falando, muito espaçamento não é realmente um perigo que alguém deveria se preocupar.”

Os pesquisadores não estão exatamente seguros do porque o espaçamento é tão efetivo. Entretanto, uma causa possível é que, ao longo do tempo, as pessoas esquecem o que elas aprenderam na sua sessão de estudo inicial. Então, quando elas voltam ao material depois, a nova sessão de estudo estimula as suas memórias e eles lembram o que eles aprenderam pela primeira vez. Este processo — esquecimento e recuperação — ajuda a consolidar o novo conhecimento no lugar.

Em um estudo, publicado em 2009 na Applied Cognitive Psychology, Kornell mostrou que o efeito do espaçamento funciona em uma escala de tempo menor também. Ele pediu a estudantes universitários para estudarem uma “pilha” de cartões de vocabulário digital. Todos os estudantes estudaram cada palavra quatro vezes. Mas metade dos estudantes estudou as palavras em um grande amontoado — eles passaram por todas as 20 palavras, e então recomeçaram. A outra metade dos estudantes estudou as palavras em quatro menores amontoados de quatro cartões cada. Então, os estudantes que usaram o maior amontoado tinham um tempo de espaçamento maior entre cada uma das quatro vezes que eles viram a palavra.

Em um teste no dia seguinte, os estudantes no grupo do “amontoado grande” lembraram significativamente mais das palavras do que estudantes no grupo de “quatro pequenos amontoados” — 49 por cento em comparação com 36 por cento.

Quando se trata de espaçamento, os estudantes são frequentemente desviados por suas próprias experiências, diz o professor de psicologia da Kent State University, Katherine Rawson, PhD, que também estuda aprendizagem. “Eles estudam logo antes de um exame, e para ser honesto isto é provavelmente OK para ir bem no seu exame,” diz ela. “Mas o problema é que isto é horrível para a retenção de longo prazo. Os estudantes não percebem que eles estão realmente prejudicando o seu próprio aprendizado.”

Misture Seus Assuntos

Você deve pensar que se você quiser aprender uma coisa bem, a melhor coisa a fazer seria sentar e se concentrar nisso por quanto tempo você puder ficar. Mas a pesquisa indica que misturar tarefas e tópicos é uma aposta melhor.

Em um estudo, publicado na Psychological Science em 2008, Kornell e o psicólogo da University of California, Los Angeles, Robert Bjork, PhD, pediram a 120 participantes para aprender os estilos de pintura de 12 artistas, olhando para seis exemplos do trabalho de cada artista. Para metade dos artistas, os participantes viram todas as seis pinturas em uma linha. Para a outra metade dos artistas, eles viram as pinturas em uma ordem misturada. Ao final do experimento, os participantes fizeram uma tarefa de distração (contar regressivamente de três a 547), e então tinham que identificar qual artista tinha pintado uma nova pintura. Os participantes eram significativamente melhores em identificar os artistas cujas pinturas eles tinham estudado em um estilo “entrelaçado” do que artistas cujos quadros eles tinham estudado em blocos.

Porque misturar assuntos ajuda os estudantes a aprender? De novo, como no espaçamento, a chave pode estar na aprendizagem, esquecimento e reaprendizagem que ajuda o cérebro a consolidar a nova informação para o longo prazo.

Outro fator, Bjork diz, poderia ser que a mistura — ele chama isto de “entrelaçamento” — força os estudantes a notar e processar as similaridades e diferenças entre as coisas que eles estão tentando aprender, dando a eles uma compreensão melhor e mais profunda do material.

A despeito das fortes evidências de que o  entrelaçamento funciona, pode ser difícil para os professores trabalharem o estilo misturado de ensino em suas aulas, ele diz.

“As pessoas esperam serem ensinadas do modo que estão acostumadas a serem ensinadas,” ele diz. “A maioria dos cursos envolve tópicos divididos em blocos. Se você começar a entrelaçar você vai parecer desorganizado.”

Mas, ele adiciona, estudantes podem trazer o método para suas próprias sessões de estudo.

Teste a si Próprio

A testagem recebe uma má fama: estudantes não gostam de participar de quizzes, professores não gostam de pontuá-los e algumas pessoas lamentam que muitos exames podem forçar os professores a “ensinar o teste” e espremer a criatividade para fora da sala de aula.

Mas feita de maneira correta, a testagem pode ser uma ferramenta útil para ajudar os estudantes a aprender, os pesquisadores dizem. Décadas de pesquisa têm demonstrado que buscar lembrar-se de informações ajuda a fortalecer sua aprendizagem de longo prazo, diz Henry Roediger, PhD, um psicólogo na Washington University em St. Louis, que tem feito algumas das pesquisas centrais na área. Em outras palavras, os estudantes podem não gostar de participar de um quiz no final de cada aula ou testar a si próprios toda vez que eles terminam de ler um capítulo, mas fazer isso provavelmente ajudaria eles a lembrar do material no exame final — e até mesmo depois que a aula terminasse.

Psicólogo na University of Louisville, Keith Lyle, PhD, usou uma audiência cativa — estudantes em suas classes de estatística para graduação — para provar seu ponto. Em uma classe de 75 pessoas, ao final de cada sessão da classe, ele pediu aos estudantes para completar um quiz de resposta curta de quatro a seis questões sobre o material que tinha sido apresentado durante a aula. Cumulativamente, os quizzes contaram por apenas 8 por cento da nota final dos estudantes.

Lyle deu uma segunda aula usando o mesmo currículo, mas não fez os quizzes diários. Ao final do semestre, ele encontrou que os estudantes na classe com quiz se sairam significativamente melhor que os estudantes na classe sem quiz em todos os quatro exames intercalados.

Roediger diz que embora a maioria dos professores não irão usar os quizzes diários em seus cursos, estudantes podem — e deveriam — testar a si próprios perguntando a si próprios perguntas durante as sessões de estudo.

“O problema com a releitura repetitiva, que é o que a maioria dos estudantes faz para estudar, é que isto te da um falso senso de familiaridade. Você sente como se soubesse o material, mas você nunca tentou recuperá-lo,” ele diz.

Tomando a Rota Difícil

Se décadas de pesquisa têm demonstrado que espaçamento, entrelaçamento e testagem ajudam as pessoas a aprender mais eficientemente, então porque mais estudantes e professores não usam estas estratégias? Talvez porque elas são difíceis, diz Kornell, Bjork e outros pesquisadores.

É difícil estudar um tópico, então mudar para um assunto diferente e esperar uma semana para voltar ao primeiro. Quando você fizer, você deve sentir como se estivesse reaprendendo o material — e, em algum sentido, você está.

Pesquisadores da aprendizagem reconhecem que estas estratégias não são fáceis ou divertidas de colocar em prática. Bjork, de fato, tem classificado estas estratégias de “dificuldades desejáveis.” As estratégias funcionam porque elas são difíceis — é o processo de aprendizagem, esquecimento, recuperação e reaprendizagem que eventualmente registra o conhecimento em nossa memória de longo prazo.

“No curto prazo, é mais fácil não [usar estas estratégias], mas no longo prazo, isso vale a pena mil vezes,” diz Kornell.

Colocar o trabalho extra para aprender o material para o longo prazo é particularmente importante para estudantes de graduação, ele diz, porque no momento em que você alcançar a pós-graduação você não está apenas tentando passar em um teste — você está aprendendo coisas que você vai precisar saber lidar para o resto da sua vida de trabalho.

“Uma das mais importantes transições que você faz [no começo da pós-graduação] é perceber que você está ali realmente para aprender, não apenas para conseguir boas notas,” ele diz.

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Discussão - 4 comentários

  1. Alessandra disse:

    Você testou este método de estudo?

  2. Catatal disse:

    Em relação às equações diferenciais que decorei os métodos de solução cinco horas antes da prova final, não me lembro mais nada. Apenas tenho a sensação de que é um assunto interessante dada a possibilidade de ser apreendido tão rapidamente (devia ter uma certa elegância e racionalidade naquilo para eu conseguir o feito). Um oito para cinco horas de estudo deixa qualquer um orgulhoso, mas passado uns anos não me lembro mais nada do assunto. Mas no mercado de trabalho pouco importa conhecer equações diferenciais, na verdade o que vale é a capacidade de apreender conceitos e métodos em poucas horas e resolver a pendenga antes do chefe se estressar.

  3. André Rabelo disse:

    Alessandra,

    eu já testei alguns dos métodos sim e tive resultados excelentes! Até hoje misturo tarefas e tópicos nos meus estudos e faço testes, mas os testes dão muita preguiça de fazer (principalmente quando você tem uma montanha de coisas para ler para ontem).

    Abraço!

  4. André Rabelo disse:

    Catatal,

    concordo com você. Em algumas atividades, aprender rapidamente sem necessariamente reter por maiores períodos pode ser mais importante. Na atividade científica, mais especificamente, parece-me que reter as informações por períodos mais prolongados é essencial, e eu diria que para muitas outras profissões isso também é verdadeiro.

    Abraço!

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