Nojo, moralidade e preconceito

O que nojo tem a ver com moralidade?

Se você sentir um cheiro forte de fezes logo após entrar em um banheiro público, você provavelmente sentirá nojo. De maneira semelhante, se você ouvir uma história sobre um caso de pedofilia, é provável que você também sinta, em algum nível, nojo. Esta emoção poderia eliciar em você um padrão de expressão facial muito parecido com o que a maioria das pessoas ao redor do mundo exibiria: seu lábio superior levantaria, seu nariz se enrugaria, suas pálpebras levantariam e suas sobrancelhas abaixariam [1] – a famosa “cara de nojinho.” Em sua forma mais aguda, este estado mental de nojo poderia vir acompanhado de náuseas e vômitos.

O nojo é uma emoção primitiva, observada em diversas espécies, que nos motiva a evitar ou se distanciar de um objeto, como um peixe morto apodrecendo. O objeto não precisa estar presente, já que apenas pensar naquele objeto também pode eliciar o nojo. Esta emoção provavelmente foi selecionada em nosso passado evolutivo para evitar a ingestão de substâncias danosas ao organismo [2], pois saber qual alimento você não deveria comer, por exemplo, poderia fazer toda a diferença, já que uma intoxicação poderia ser fatal.

Os processos de evolução biológica e cultural propiciaram as condições básicas para que nosso sistema de avaliação cognitiva passasse a ser usado para avaliar não apenas alimentos e substâncias possivelmente danosas, mas também grupos sociais, pensamentos e ações das pessoas com as quais convivemos. Se você parar para pensar sobre isso, vai perceber que fazemos frequentemente este uso ao julgarmos as outras pessoas. Um pedófilo, por exemplo, é avaliado por muitos como uma pessoa nojenta e repulsiva, assim como um político rico que desvia grandes quantidades de verbas – ambos estariam fazendo não apenas coisas erradas, mas coisas nojentas. Existem inclusive evidências de que sentir o nojo gustativo e o nojo moral eliciam expressões faciais semelhantes de nojo, com a ativação da mesma musculatura na face [2].

ResearchBlogging.orgMuitos pesquisadores têm buscado compreender se a emoção de nojo serve como base para os nossos julgamentos morais. Para muitos deles, estes sentimentos viscerais (gut feelings), uma vez ativados, guiam muitas das nossas intuições e ações morais de maneira automática e inconsciente. No cotidiano, as nossas intuições morais seriam, muitas vezes, mais utilizados do que o nosso raciocínio moral para guiar nossos julgamentos, e tais intuições morais estariam intimamente relacionadas a estes sentimentos viscerais. Muitas evidências dão suporte para esta proposta [2, 3, 4, 5, 6]. Nestes estudos, encontrou-se que a indução do nojo tornou os participantes mais propícios a fazerem julgamentos morais severos, a se posicionarem como mais conservadores e a expressarem avaliações mais preconceituosas.

Entretanto, a influência que o nojo tem no julgamento moral varia entre as pessoas. Esta sensitividade individual ao nojo tem se mostrado uma importante variável para entender a influência desta emoção [5, 6]. Por exemplo, em um estudo [5], pessoas mais sensíveis ao nojo demonstraram avaliações morais intuitivas mais negativas em relação a homossexuais, porém quando foram questionados explicitamente sobre quão desaprovável moralmente seria uma demonstração pública de afeto (e.g. beijo) entre um casal homossexual, a sensitividade ao nojo dos participantes não se associou ao seu julgamento moral. Em um segundo estudo, este mesmo grupo de pesquisadores encontrou que, utilizando uma medida implícita da avaliação dos participantes em relação a homossexuais, indivíduos com maior sensitividade ao nojo apresentaram uma associação implícita mais negativa em relação a homossexuais. Estes dois estudos indicam que a sensitividade individual ao nojo torna as pessoas mais propícias a acharem intuitivamente “errados” alguns aspectos relacionados a homossexualidade, mas tais intuições podem ser mascaradas ou sobrepujadas por julgamentos explícitos e deliberados –  ao menos para as amostras destes estudos, normalmente estudantes universitários americanos. Entretanto, embora tais intuições possam ser mascaradas em um determinado momento, elas podem influenciar de maneira decisiva o comportamento espontâneo e cotidiano das pessoas.

Outro destes estudos contava com duas condições [6]: em uma delas (condição de priming), um odor desagradável era liberado no laboratório assim que os participantes chegavam; na outra (condição controle), nenhum odor era inserido. Na primeira condição, os participantes demonstraram maior preconceito em relação a homossexuais do que os participantes na outra condição. O curioso é que a diferença na avaliação dos participantes só foi observada para o grupo social de homossexuais do sexo masculino, mas não para outros grupos como americanos africanos ou idosos, como seria esperado se o nojo tivesse um efeito mais geral no preconceito dos participantes (no estudo, não encontrou-se uma diferença significativa na avaliação de lésbicas, mas em uma replicação do estudo foi encontrada tal diferença para este grupo também). Os autores ressaltaram que este resultado é coerente com o apelo retórico associado ao nojo que comumente é usado por indivíduos que são contra a homossexualidade.

Por se tratar de uma das emoções mais poderosas e primitivas da nossa espécie e considerando o seu papel nos nossos julgamento morais evidenciado por estes estudos, não é de se admirar que seja tão difícil para algumas pessoas, especialmente as mais sensitivas ao nojo, julgar alguns grupos sociais a partir de outra perspectiva menos preconceituosa. Se você tem nojo de algo ou de algum grupo, sua resposta quase automática é a de se afastar ou repelir o objeto de avaliação, de maneira semelhante à repulsa que você sentiria por uma substância danosa ou tóxica. Mas o que as pesquisas em psicologia social também têm indicado é que mesmo avaliações negativas tão fortes, como as associadas ao nojo, podem ser alteradas por meio de estratégias relativamente simples, como propõe a teoria do contato intergrupal [7].

Referências:

[1] Ekman, P. & Friesen, W. V. (2003). Unmasking the face: A guide to recognizing emotions from facial clues. Cambridge, Ma: Malor Books

[2] Chapman HA, Kim DA, Susskind JM, & Anderson AK (2009). In bad taste: Evidence for the oral origins of moral disgust. Science (New York, N.Y.), 323 (5918), 1222-6 PMID: 19251631

[3] Schnall S, Haidt J, Clore GL, & Jordan AH (2008). Disgust as embodied moral judgment. Personality & social psychology bulletin, 34 (8), 1096-109 PMID: 18505801

[4] Smith KB, Oxley D, Hibbing MV, Alford JR, & Hibbing JR (2011). Disgust sensitivity and the neurophysiology of left-right political orientations. PloS one, 6 (10) PMID: 22039415

[5] Inbar Y, Pizarro DA, Knobe J, & Bloom P (2009). Disgust sensitivity predicts intuitive disapproval of gays. Emotion (Washington, D.C.), 9 (3), 435-9 PMID: 19485621

[6] Inbar Y, Pizarro DA, & Bloom P (2012). Disgusting smells cause decreased liking of gay men. Emotion (Washington, D.C.), 12 (1), 23-7 PMID: 21707161

[7] Pettigrew TF, & Tropp LR (2006). A meta-analytic test of intergroup contact theory. Journal of personality and social psychology, 90 (5), 751-83 PMID: 16737372

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Discussão - 5 comentários

  1. Luiz Verissimo disse:

    excelente texto, gostei bastante e nunca havia visto essas questões dessa forma.

  2. Felipe disse:

    André, mais um excelente texto!

    No momento, eu estou estudando aprofundadamente exatamente a relação entre evolução e as emoções. É muito empolgante [literalmente, pra mim] saber que reações tão essenciais na experiência humana são compartilhadas por outros seres vivos, o que também reforça a beleza da teoria da evolução, ao nos aproximar, não só no nível mais superficial, mas também no mais profundo, aos nossos “primos” primatas não-humanos.

    Eu já tinha ouvido um comentário aqui ou ali sobre essa relação entre o nojo mais visceral, sentido ao nos depararmos com cheiros ou imagens desagradáveis de alimentos estragados ou fluidos corporais, e o nojo social, que sentimos por atitudes, opiniões e tal.

    E isso também é fascinante! Veja só, temos uma reação simples para dois tipos de estímulos de naturezas diferentes, uma das amostras de como a evolução é uma engenheira que aproveita cada ferramenta para resolver mais de um problema, ou modifica-a ligeiramente permitindo essa flexibilidade – assemelhando-se mais a uma engenhoqueira do que a uma engenheira de verdade (ehehehehe).

    Enfim, belo texto!

    Abraço!

  3. André Rabelo disse:

    Luiz,

    obrigado pelo comentário!

    Abraço!

  4. André Rabelo disse:

    Grande Felipe, valeu!

    Eu compartilho destes sentimentos sobre este assunto, gosto muito quando leio algo demonstrando nossa proximidade com o resto da natureza em algum aspecto que eu ainda não conhecia. Cada vez mais, parece que isso fica evidente por meio destas pesquisas.

    Abraço!

  5. FRANKLIN BERNARDES DA FONSECA disse:

    A MINHA DÚVIDA, TOCANTE À PALAVA “”NOJO”” É EM FACE DA , PRONÚNCIA DA MESMA. QUAL SERÁ A VERDADE, SOBRE ISTO E PORQUE.
    1) A PESSOA SENTIU UM MAL CHEIRO E FICOU COM “””NOJO””, OU SEJA, SENTIU-SE MAL, FICOU ENOJADA.

    2) A PESSOA ESTÁ PASSANDO POR AQUELE PERÍODO DE “”DOIS OU TRÊS DIAS DE “”NOJO”” (NÓJO) , EM FACE DO FALECIMENTO DE UM ENTE QUERIDO, PRÓXIMO, TIPO FALECIMENDO DO PAI, DA MÃE, OU DA ESPOSA, OU DO MARIDO. ENTÃO A PESSOA ESTÁ EM NOJO (NÓJO).

    3) QUAL O SOM DESSES VERBETES, EM UM OU OUTRO CASO ???
    EM AMBOS É SIMPLESMENTE “”NOFO”” (ô), OU, NO PRIMEIRO CASO PE NOJO (Ô) E NO SEGUNDO EXEMPLO É NOJO (ô).
    QUAL É A PRONUNCIA CORRETA ??? OU NÃO EXISTE DIFERENÇA DA PRONÚNCIA, NOS DOS CASOS ???

    OBRIGADO PELA ATENÇÃO QUE EU MERECER.
    FRANKLIN.

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