Dizendo mais sobre nós mesmos do que podemos saber

O que podemos saber sobre o que influencia nossos comportamentos?

Imagine o seguinte cenário: alguém lhe pergunta qual era o nome de solteira da sua mãe. Você consegue responder com grande facilidade. Em seguida, a pessoa lhe faz outra pergunta: “como foi que você conseguiu lembrar disso?” Provavelmente, você responderia algo como: “eu não sei, eu só lembrei mesmo.” No dia-a-dia, confiamos regularmente na capacidade das pessoas de explicarem seus próprios comportamentos, como quando perguntamos “porque você fez isso?” ou “porque você não gosta disso?”

Também confiamos, sem perceber, na nossa própria capacidade de avaliar isso, considerando a rapidez com que somos capazes de oferecer explicações para os nossos comportamentos quando somos questionados sobre porque fizemos algo. Mas ao considerarmos o que a psicologia tem a dizer sobre esta capacidade, as pesquisas indicam que com frequência dizemos mais sobre nós mesmos do que poderíamos saber.

ResearchBlogging.orgO cenário descrito no início desse texto sobre o nome de solteira da sua mãe é um exemplo citado em um dos artigos mais importantes e pioneiros sobre o assunto que eu gostaria de falar hoje – o quanto temos acesso consciente às influências sobre os nossos comportamentos. Este artigo se intitula “Telling more than we can know: Verbal reports on mental processes,” [1] que poderia ser traduzido como “Dizendo mais do que podemos saber: Relatos verbais sobre processos mentais.” Neste importante artigo publicado em 1977, Nisbett e Wilson reuniram diversas evidências a partir da psicologia cognitiva e social de que as pessoas regularmente não tem consciência dos processos cognitivos que acompanham os seus comportamentos.

Muitas vezes, não temos consciência de estímulos que influenciaram nossos comportamentos nem de nossas respostas a estes estímulos, assim como da relação causal existente entre o estímulo e o comportamento. Diferente do que poderíamos esperar, estes autores propuseram que quando somos questionados, por exemplo, sobre como lembramos de algo ou porque nos comportamos de determinada maneira, o que relatamos são frequentemente teorias implícitas de causalidade resultantes de nossa tentativa de interpretar este aspecto da realidade, e não de alguma experiência introspectiva que nos daria acesso privilegiado a processos cognitivos e perceptuais mediadores dos efeitos de estímulos no comportamento. Isso significa que usamos as nossas intuições teóricas sobre psicologia humana mais acessíveis em um determinado momento para explicar as nossas ações.

O processo perceptual está fora do nosso alcance consciente

Por exemplo: as pessoas não conseguiriam informar, ao fazerem um julgamento de profundidade durante uma pesquisa, até que ponto elas se apoiaram na convergência de linha paralela da imagem para chegar à sua resposta. O processo pelo qual as pessoas usam esta pista perceptual no seu julgamento está fora do seu alcance consciente.

No âmbito das pesquisas em psicologia cognitiva da época deste artigo, já havia grande suporte para a noção de que as pessoas não tinham acesso consciente à maior parte dos processos perceptuais e cognitivos, apenas aos resultados destes processos, como a experiência auditiva ou a lembrança de um evento do passado. Este artigo serviu como uma crítica enfática à capacidade das pessoas de acessarem as informações que os pesquisadores estavam interessados em estudar e, por consequência, à confiança dos pesquisadores nesta capacidade, considerando que o método de questionar explicitamente os participantes para obter as informações relevantes era muito comum – e ainda é até hoje, com boas razões para isso em muitos casos.

Esta crítica ecoou por diversas áreas da psicologia, especialmente alcançando em cheio os estudiosos do preconceito, pois estes faziam uso extensivo do questionamento explícito dos participantes (e.g. questionários) para estudar o preconceito. Uma observação que inquietou muitos estudiosos desta área foi a constatação de que, apesar das atitudes explícitas negativas em relação a judeus, negros e asiáticos americanos nos Estados Unidos terem diminuído em relação à algumas décadas anteriores, houve um grande descompasso entre esta diminuição de preconceito e a discriminação, pois a última não acompanhou a diminuição da primeira como poderíamos esperar [2].

Em outras palavras, a avaliação que as pessoas relatavam sobre grupos étnicos não estava se relacionando coerentemente com o comportamento delas. Este descompasso foi interpretado por muitos como um indicador de que as medidas de auto-relato poderiam estar limitadas ao que as pessoas tinham capacidade de acessar conscientemente, mas que poderiam haver importantes elementos não-conscientes a serem considerados que, para serem estudados empiricamente, demandariam outros métodos de pesquisa que não dependessem tanto da capacidade introspectiva limitada das pessoas.

A dificuldade de depender do relato explícito das pessoas ao estudar um tema como o preconceito é que este, assim como muitos outros temas de interesse dos psicólogos, é um tema que envolve uma alta desejabilidade social, levando as respostas dos participantes a serem enviesadas na direção que é mais desejável naquela determinada cultura. Portanto, se é, de maneira ampla, desencorajado socialmente demonstrar preconceito racial em uma cultura, as pessoas poderão relatar menos preconceito quando forem questionadas dentro de um laboratório de pesquisa ou por desconhecidos, por mais que este relato não reflita apropriadamente o quão negativa é a avaliação que um indivíduo desenvolveu em relação a um grupo étnico, e a avaliação “implícita” que estas pessoas desenvolveram pode, entretanto, influenciar decisivamente o comportamento destas pessoas no seu cotidiano sem que elas percebam – ao menos é isso o que uma vasta linha de pesquisa que nasceu destes desdobramentos têm demonstrado desde então [2].

Subliminal: How Your Unconscious Mind Rules Your Behavior

É sobre esta dimensão implícita das nossas mentes, na maior parte do tempo oculta para nós mesmos, que buscarei discutir em alguns dos próximos textos deste blog. Sobre este assunto, vale a pena conferir o recente lançamento do livro de divulgação científica publicado pelo físico Leonard Mlodinow, intitulado Subliminal: How Your Unconscious Mind Rules Your Behavior (Subliminar: Como a sua mente inconsciente governa o seu comportamento).

Referências:

[1] Nisbett, R. E., & Wilson, T. D. (1977). Telling more than we can know: Verbal reports on mental processes. Psychological Review, 84 (3), 231-259 DOI: 10.1037//0033-295X.84.3.231

[2] Banaji, M. R., & Heiphetz, L. (2010). Attitudes. In S. T. Fiske, D. T. Gilbert & G. Lindzey (Eds.), Handbook of social psychology (pp. 228-267). New Jersey: Jon Wiley and Sons.

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Discussão - 2 comentários

  1. Renato Pincelli disse:

    A capa do livro do Mlodinow está muito sedutora, digo, sensacional!

  2. […] comecei a comentar no último texto, a psicologia têm desvendado nos últimos anos a dimensão implícita ou inconsciente de nossas […]

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