Religiosidade e bondade: O bom samaritano

O bom samaritano

“Antes sede bondosos uns para com os outros, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.”

– Efésios 4:32, Bíblia Sagrada.

Se alguém lhe pedir para pensar nas pessoas mais bondosas que você já ouviu falar, é provável que venha à sua mente, junto com alguns membros da sua própria família, alguns famosos representantes religiosos como, por exemplo, a Madre Teresa de Calcutá. Por sinal, a Madre Teresa foi usada em um estudo, já comentado aqui no blog, onde os participantes que tinham lido uma parte da biografia da Madre Teresa se demonstraram posteriormente mais prosociais com um desconhecido do que participantes que tinham lido uma parte da biografia da Margaret Thatcher. Ela se engajou frequentemente em diversos projetos sociais e por meio da ampla divulgação de suas ações generosas ao redor do mundo, ela se tornou praticamente um sinônimo de bondade.

Religiões extremamente difundidas atualmente, como a da Madre Teresa (católica), incentivam explicitamente os seus seguidores a agirem de maneira benevolente com os seus próximos (como na passagem que iniciou este texto), mas será que a religiosidade de alguém como a Madre Teresa de Calcutá tem alguma relação com a constante benevolência que ela demonstrou ao longo de sua vida? Será que pessoas religiosas como ela são mais generosas do que pessoas menos religiosas?

ResearchBlogging.orgPara tentar responder à estas perguntas, Ara Norenzayan e Azim Shariff publicaram na revista Science um artigo que buscou sistematizar o que conhecemos atualmente sobre a origem e a evolução da prosocialidade religiosa, ou seja, o suposto efeito facilitador que a religiosidade exerce na generosidade que as pessoas costumam exibir.

Alguns estudos citados nesta revisão indicaram evidências de que indivíduos com maior religiosidade “relataram” se engajar com mais frequência em ações prosociais, como doações e voluntariado. O problema destes estudos é que eles indicaram apenas o que estes indivíduos “relatam” fazer, e se as teorias evolucionistas mais aceitas atualmente acerca da religião estiverem certas, é correto esperar que indivíduos mais religiosos apresentem também uma maior preocupação com a sua reputação social, provavelmente enviesando o quanto eles relataram se engajar em ações prosociais. Entretanto, para averiguar isso melhor, outros estudos seriam necessários, e, para a nossa sorte, alguns deles também já foram feitos!

A importância deste problema fica ainda mais clara quando comparamos estes resultados com os obtidos por meio de experimentos que mediram o comportamento prosocial em si. Por exemplo, em um dos experimentos mais clássicos desta linha de pesquisa, Daniel Batson e seus colegas reproduziram a parábola bíblica do bom samaritano, sendo que os participantes deste estudo tinham que passar por um indivíduo caído no chão e que parecia estar doente. Nesta situação, tanto fez qual era a religiosidade dos participantes – essa variável não se relacionou com maiores ou menores tendências de ajuda. Ou seja, numa situação real de ajuda, indivíduos mais religiosos não se mostraram mais generosos. De maneira ampla, o que os estudos da área como estes indicam é que a religiosidade de uma pessoa se torna uma variável influente na sua prosocialidade principalmente quando motivações relacionadas à manutenção da reputação social são ativadas, ou seja, quando estas pessoas podem promover, através de suas ações, uma imagem boa delas mesmas.

Comentei até aqui apenas sobre estudos que mediram a religiosidade dos participantes e averiguaram o quanto este dado era capaz de predizer a prosocialidade exibida posteriormente por eles. Entretanto, estudos mais recentes têm buscado não apenas medir a religiosidade, mas manipulá-la momentaneamente também, principalmente através da ativação de conceitos religiosos usando a técnica de priming (ver aqui, aqui e aqui). Priming é o processo pelo qual experiências recentes, como ler um conjunto de palavras, resultam em maior acessibilidade cognitiva de determinados conceitos e em tendências de comportamento. Estes estudos avaliaram o quanto que tornar determinados conceitos religiosos mais acessíveis na cognição dos participantes influeciaria a prosocialidade dos mesmos.

Os resultados destes estudos indicaram que o priming de conceitos religiosos, tanto em um nível consciente quanto subliminar, diminuiu a probabilidade dos participantes trapacearem e aumentou a probabilidade destes serem gentis com estranhos anônimos. Portanto, embora diferenças individuais na religiosidade dos participantes não sejam bons preditores da sua prosocialidade, a ativação momentânea de conceitos relacionados à religião aumentou significativamente a prosocialidade dos mesmos, sendo os participantes religiosos ou não.

Entretanto, a ativação destes mesmos conceitos também pode ter efeitos não tão bonitinhos e desejáveis quanto estes – existem evidências de que a ativação de conceitos religiosos pode aumentar momentaneamente o preconceito étnico, a agressividade e até mesmo o apoio a ataques suicidas. Alguns autores defendem que esta diversidade de efeitos e a complexidade da relação entre a religiosidade e a prosocialidade mostram que o conceito de religiosidade é mais complexo e multifacetado do que previamente imaginado, mas esse é um papo para outro dia (eu prometo)!

Ao que tudo indica, a religiosidade que alguém relata possuir ou o seu grau de devoção à mesma não são muito relevantes para compreendermos a gentileza em um contexto de anonimato, pois pessoas religiosas não teriam, nesse tipo de situação, uma oportunidade de satisfazer suas motivações relacionadas à regulação de sua reputação. A prosocialidade religiosa é, portanto, seletiva e varia consideravelmente de acordo com aspectos como a possibilidade de aumentar sua reputação e a religiosidade do indivíduo que precisa de ajuda (mais sobre isso em um próximo texto) – não se trata de uma tendência à prosocialidade irrestrita e generalizada, como buscou-se incentivar por meio da parábola bíblica do bom samaritano.

Para ler mais sobre o assunto por enquanto:

O que religião tem a ver com moralidade?

Perspectivas Evolucionistas Acerca da Religião

A Gentileza de Estranhos

Referências:

Norenzayan A, & Shariff AF (2008). The origin and evolution of religious prosociality. Science (New York, N.Y.), 322 (5898), 58-62 PMID: 18832637

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Discussão - 5 comentários

  1. Curiosamente a compaixão parece ter um efeito maior em pessoas não religiosas:
    http://teotomia.blogspot.com.br/2012/06/o-impio-toma-emprestado-e-nao-paga-mas.html

    []s,

    Roberto Takata

  2. André Rabelo disse:

    Takata,

    valeu pelo complemento, já adiantou um dos estudos que eu vou comentar aqui!

    Abraço!

  3. Fala, André, ótimo texto. Coincidentemente escrevi recentemente sobre religião e moral, dá uma conferida: http://prismacientifico.wordpress.com/2012/09/14/a-moral-de-uma-pessoa-sem-fe/

    Abraço,

  4. André Rabelo disse:

    Opa, que legal, Marcus! Valeu por me avisar, estamos “antenados” hein =b ótimo o seu texto por sinal!

    Abraço!

  5. […] a relação entre generosidade e religiosidade é um tema recorrente aqui no blog (aqui, aqui, aqui e aqui), compartilho uma matéria mostrando histórias de ateus comprometidos com […]

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