Adversários precisam cooperar

No vídeo acima, o psicólogo Daniel Kahneman propõe que cientistas adversários deveriam cooperar pelo bem da ciência e deixar de lado seus destemperos. Kahneman chamou a atenção da mídia mês passado, com direito a aparição na revista Nature, por ter enviado um email a um grupo de pesquisadores convocando-os a cooperarem para mostrar ao público e à comunidade acadêmica a robustez dos seus resultados (se quiser entender um pouquinho mais sobre isso, leia aqui).

Ele defendeu enfaticamente a necessidade de lidar com os problemas de maneira cooperativa entre pesquisadores que discordam entre si como uma das poucas maneiras de recuperar a credibilidade de determinadas linhas de pesquisa, abaladas por recentes tentativas de replicação de estudos mal sucedidas. Em outras palavras, Kahneman pediu que a solidez dos fenômenos fosse testada colaborativamente entre pesquisadores que discordassem em pontos cruciais, garantindo assim maior confiança no resultado final de uma eventual colaboração. Me parece que a ênfase do professor pode recompensar muitos esforços na psicologia se for considerada seriamente, já que o acompanhamento de perto de pesquisadores críticos em relação a um fenômeno pode diminuir os vieses inconscientes que poderiam influenciar os resultados de uma replicação de estudo conduzida pelos pesquisadores que encontraram o resultado original. A proposta não é um remédio completo para o problema, mas certamente já acrescentaria mais um nível de rigorosidade aos achados subsequentes.

Peço desculpas, mas eu não sei inserir legendas em vídeos. Entretanto, eu ofereço aqui a tradução da transcrição da fala de Daniel Kahneman. Se algum bom samaritano quiser inserir as legendas e nos enviar o vídeo legendado, ficarei agradecido! Segue a transcrição traduzida:

“Existem diferentes formas de colaboração entre adversários. Uma forma é ter pessoas que discordam em algum aspecto teórico tentando conduzir experimentos que vão resolver as suas diferenças ou reduzir suas diferenças. E este é o primeiro passo na colaboração entre adversários, vamos ver o que nós concordamos e então vamos tentar resolver nossas diferenças.

Em alguns casos eles são amigos, então você pode facilmente concordar, embora você concorde que quando escrever os resultados você irá escrevê-los em duas vozes, para que você não se comprometa a concordar com a interpretação do resultado. Ás vezes você precisa de um árbitro para rodar o experimento. Isso acontece quando as relações são mais tensas. Ao invés do formato de réplica e tréplica você pode concordar em escrever um artigo conjunto no qual você primeiro define com o que você concorda e o que você descorda. Eu conheço algumas pessoas que estão dispostas a fazer isso. Por sinal, isso não é fácil, porque as pessoas que pensam mal do seu trabalho e de suas ideias dão nos seus nervos, então você precisa superar isso.

O melhor exemplo de colaboração entre adversários que eu tive foi sobre os limites da intuição. Quando a intuição é maravilhosa e quando ela é falha, e foi com Gary Klein, que é um autor muito conhecido que era um grande proponente da intuição expert. Então nós trabalhamos por seis ou sete anos juntos tentando nos decidir sobre as nossas diferenças sobre se a intuição é válida ou não e nós produzimos um artigo que foi–bem, ele foi um pouco em duas vozes–mas na maior parte das coisas nós concordamos. E esta foi a melhor colaboração entre adversários de todas.”

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Discussão - 2 comentários

  1. Edison disse:

    É absolutamente saudável que na ciência haja opiniões contraditórias.

    Ciênca não é Filosofia na qual os “loucos” lançam opiniões divergentes no ar e fica só nisso.

    Na ciência precisa-se de provas, de experimentos, de comprovação, e quem fizer isso “leva a taça”.

    A existência do contrário, aliás, ajuda que os estudos sejam mais cuidadosos, que se evitem erros crassos, que se busque certezas pelos resultados antes da publicação.

    E mais uma vez digo, aquele que provar que está certo, “leva”, e o contrário, na ciência, sabe disso, insistir que está certo quando o outro lado comprovou-se estar certo não é ciência.

    E fica muito visível quem está sendo contrário só por sê-lo e quem realmente está fazendo ciência.

  2. […] de estudos de replicação por laboratórios independentes (leia mais sobre isso aqui, aqui e aqui). Outra dificuldade se refere a vieses de publicação que favorecem que determinados tipos de […]

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