Porque fico tão ansioso?

Anxiety5Se você já precisou falar em público, tomar uma decisão muito importante ou tomar remédios para ter coragem de embarcar em um avião, você já sentiu na pele o que é a ansiedade. Toda vez que nos sentimos angustiados, tensos ou apreensivos por conta de como prevemos que eventos futuros ocorrerão ou interpretamos uma experiência atual como oferecendo riscos eminentes, estamos vivenciando um estado mental e afetivo conhecido na psicologia como ansiedade.

Todos nós vivenciamos a ansiedade diversas vezes ao longo de uma semana e até mesmo de um dia. Sentir-se assim é comum para a maioria das pessoas e necessário para que possamos nos adaptar às diferentes circunstâncias que vivemos. A ansiedade nos prepara física e psicologicamente para lidar com adversidades e para maximizar a nossa capacidade de sobrevivência. Entretanto, o nível de ansiedade que sentimos pode ser tão alto às vezes que, além de nos causar um grande sofrimento, nos impede de fazer as nossas coisas normalmente, como encontrar com amigos, ir ao trabalho, ter momentos prazerosos de lazer e dormir bem. Esse texto explora o que a terapia cognitiva tem a dizer sobre porque você, muitas vezes, não consegue controlar a sua ansiedade e é dominado por ela.

Atualmente, este estado intenso e regular de ansiedade tem prejudicado a vida de muitas pessoas. Segundo a Iniciativa Mundial de Pesquisa da Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade são os mais comuns entre os transtornos mentais na maioria dos países. Estima-se que cerca de 25 a 30% de adultos possuem algum transtorno de ansiedade ao longo de suas vidas. Os transtornos de ansiedade mais comuns são a fobia específica e o transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Juntam-se a estes dois na família dos transtornos de ansiedade o transtorno de pânico, a fobia social, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o transtorno de estresse pós-traumático. Essa classificação dos transtornos de ansiedade é baseada na quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)*.

As pessoas frequentemente supõem que são as próprias situações objetivas e os perigos reais que desencadeiam por si próprios a ansiedade. O que se propõe na terapia cognitiva é que não é a situação, mas sim a cognição que determina o nível de ansiedade vivenciado por alguém. É a maneira como interpretamos subjetivamente uma situação em um determinado momento que nos induzirá a diferentes estados de humor. Dois exemplos podem ajudar a ilustrar este ponto. Um indivíduo sem transtorno do pânico poderia sentir uma aceleração cardíaca repentina, porém permanecer tranquilo enquanto o coração desacelera, já alguém com transtorno do pânico poderia interpretar uma aceleração cardíaca repentina como um sinal de que ela pode estar vivenciando um ataque cardíaco e ficar desesperado. Se uma pessoa sem fobia social tivesse que apresentar um trabalho em uma disciplina que está cursando, ela provavelmente ficaria nervosa, mas, depois de um momento inicial, ela conseguiria se comunicar e  ficar menos nervosa, enquanto que alguém com fobia social poderia alcançar picos altos de ansiedade só de imaginar esta situação, quanto mais de ter que de fato apresentar um trabalho. Nos dois exemplos, a mesma situação desencadeou reações quase opostas nas pessoas – o que mudou foi a maneira como elas interpretaram a situação.

O modelo cognitivo da ansiedade detalha de maneira mais específica os processos cognitivos que antecedem os sintomas da ansiedade. Resumidamente, de acordo com este modelo, primeiro ocorre uma percepção de vulnerabilidade aumentada, ou seja, a pessoa se vê, de maneira desproporcional, como alguém que corre perigo certo e eminente. Nesta avaliação primária da ameaça, a pessoa pensa ser mais provável que o perigo se concretizará e que os danos provocados por ele serão grandes, por mais que a probabilidade real do perigo ocorrer seja pequena. Em seguida, ocorre uma reavaliação elaborada secundária, na qual a pessoa amplifica a percepção de perigo ao pensar que não será capaz de lidar com este perigo e que a sua segurança está comprometida. O nível de ansiedade que alguém vivenciará dependerá da combinação entre estas duas avaliações: se a pessoa achar que algo ruim certamente acontecerá e que ela não tem capacidade de lidar com isso, ela sentirá mais ansiedade; se ela não tiver tanta certeza de que isso ocorrerá e achar que pode lidar com isso, caso venha a acontencer, ela provavelmente sentirá menos ansiedade.

Este modelo propõe que algumas das características fundamentais da ansiedade são a avaliação inicial de ameaça desproporcional, a percepção amplificada de impotência e de falta de recursos para lidar com a ameaça, a inibição da capacidade de reflexão racional e do processamento de informações relacionadas à segurança e capacidade de enfrentamento, bem como a instalação de um ciclo vicioso entre os pensamentos ansiosos e a ansiedade que intensificam o sentimento negativo.

Quanto a este último aspecto, vale lembrar do que pode acontecer quando tentamos deliberadamente suprimir um pensamento indesejado. De maneira semelhante a este fenômeno, a ansiedade envolve processos que tendem a perpetuar a própria ansiedade. Entre eles, a atenção  cada vez mais focada nos pensamentos ansiosos, o incômodo cada vez maior com estes pensamentos e a consciência cada vez maior deles tendem a tornar as pessoas cada vez mais “ansiosas com o fato de que estão ansiosas” ou “preocupadas com as suas preocupações.” Se você fica cada vez mais preocupado com o fato de estar ficando muito ansioso regularmente, isso pode resultar em uma reativação dos seus pensamentos ansiosos, o que resultará em uma frequência maior ainda de recorrência destes pensamentos, o que, por sua vez, intensificará a sua ansiedade e te deixará mais preocupado ainda com ela (e por ai vai!). Essa é mais uma das “ciladas cognitivas” que corremos risco por conta da maneira como a nossa cognição funciona.

A prática da terapia cognitiva da ansiedade se baseia em criar as condições para que as pessoas que sofrem com a ansiedade possam desenvolver habilidades reflexivas que afetarão cada uma das etapas descritas anteriormente no modelo cognitivo da ansiedade. Isso envolve, por exemplo, desenvolver avaliações mais realistas de risco, desinibir a capacidade de analisar racionalmente a situação e a capacidade de perceber recursos que o indivíduo possui para enfrentar os riscos, além de enfraquecer o ciclo vicioso de ficar ansioso por conta da sua ansiedade.

livredaansiedadea mente vencendo o humor

Por último, recomendo aqui dois livros em português para quem se interessar em conhecer melhor a terapia cognitiva e a ansiedade. O primeiro deles é o livro A Mente Vencendo o Humor, uma das melhores introduções à terapia cognitiva, escrita de uma maneira simples e voltado para pessoas que não conhecem nada sobre o assunto. O segundo é o livro Livre da Ansiedade, um livro recente e também voltado para pessoas iniciantes no assunto. Ele é especificamente voltado para discutir a ansiedade e também traz uma série de técnicas voltadas para atenuar os sintomas da ansiedade que você pode começa a praticar imediatamente. Vale a pena também conferir os dois episódios do programa Fronteiras da Ciência sobre ansiedade e estresse (escute a parte 1 aqui e a parte 2 aqui).

* Este manual é elaborado e regularmente revisado por psiquiatras e visa classificar e organizar os transtornos mentais de acordo com sintomas e critérios que facilitem o diagnóstico de pacientes. Se você der uma olhada nele um dia e ler os sintomas dos transtornos, provavelmente você vai achar que tem quase todos os transtornos mentais descritos lá. Apresentar um sintoma não significa que alguém tem um transtorno – todos nós, em algum momento de nossas vidas, já apresentamos sintomas de diversos transtornos mentais. É por isso que nesse manual também existem critérios como, por exemplo, o grau de prejuízo que a pessoa enfrenta em sua vida cotidiana, para determinar se a condição da pessoa merece atenção especial. Um dos muitos problemas que essa classificação enfrenta é o que chamamos de “comorbidade.” Esse conceito se refere à observação de que sintomas de um transtorno regularmente vêm acompanhados de sintomas de outros transtornos, o que dificulta realizar um diagnóstico preciso.

Referências

 Clark, D. A., & Beck, A. T. (2010). Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade: Ciência e prática. Porto Alegre: Artmed.

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Discussão - 7 comentários

  1. Daniel disse:

    Isso me lembrou Epitetus, no Enchiridion, onde ele diz “não são as coisas que nos acontecem que nos perturbam, mas o julgamento que fazemos delas”.

  2. Leopoldina Batista disse:

    Gostei do post. Me interessando por terapia cognitiva!
    Gostaria de ler um post explorando os motivos de nossa dificuldade em realizar avaliações realistas de risco. O que você acha? É a sociedade? Ou é a mente, é cultural? Será que diferentes povos ou culturas tem mais facilidade em ser mais “realista”. E isto é determinado por?? Se tiver sugestões de leitura eu agradeço!

  3. TPBorderline disse:

    Muito bacana o seu blog! Estarei acompanhando. Um grande abraço.

  4. André Rabelo disse:

    Oi Daniel,

    essa sua citação de Epitetus capta muito bem uma das ideias básicas por detrás da terapia cognitiva. Obrigado pela contribuição!

    Abraço!

  5. André Rabelo disse:

    Olá Leopoldina,

    suas questões são muito interessantes e existem sim investigações tentando compreender essas diferenças individuais e culturais na capacidade de fazer avaliações mais realistas! Com certeza não são questões fáceis de responder, mas sugiro como leitura os livros de Robert Leahy e Aaron Beck sobre ansiedade, e como uma leitura mais densa o livro que eu citei no texto (Clark, D. A., & Beck, A. T. (2010). Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade: Ciência e prática. Porto Alegre: Artmed.). Existe uma tentativa de descrever e também de explicar porque nossas reações de ansiedade são tão exacerbadas às vezes. Obrigado pelo comentário e desculpe pela demora em responder!

    Abraço!

  6. André Rabelo disse:

    Olá TPBorderline,

    fico feliz que tenha gostado do blog! Parabéns pelo blog também, uma ótima iniciativa!

    Abraço!

  7. […] recomendo um texto aqui do próprio blog no qual explorei melhor o modelo cognitivo da ansiedade e dei alguma sugestões de ótimos livros […]

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