Mais uma morte anunciada se confirmou: E a Universidade continua a atrapalhar nossa pesquisa

Autor: Ronaldo Pilati (autor convidado)*

sonhoquebrado

“Não deixe que a escola atrapalhe seus estudos!”

“Não deixe que a escola atrapalhe seus estudos!”

Quando tinha 17 anos descobri esta frase que, no calor de minha juventude fez muito sentido, graças à capacidade adquirida gradualmente de ver como as organizações educacionais funcionam como barreiras à sua aprendizagem. Quando cheguei à Universidade como estudante (e olha que era a UnB, uma das melhores do país), pouco tempo depois, notei que as coisas funcionavam de forma diferente no que concerne ao acesso a informação, mas ficou claro, relativamente rápido, que a forma de gestão e funcionamento da Universidade Brasileira, em sua estrutura paquidérmica, levam a organização para longe de seu objetivo precípuo: produção de conhecimento.

Não há muito espanto no descrito até aqui se não fosse o fato de que percebi que a frase continua valendo, com um pequeno ajuste, 20 anos depois da ‘descoberta’ e agora como docente (há mais de seis anos) na UnB: Não deixe que a Universidade atrapalhe sua Pesquisa! Ou de uma forma mais refinada e erudita, como escutei de um sábio colega que foi meu professor: Você faz e a UnB desfaz! Lamentavelmente boa parte do tempo de trabalho de um docente na UnB tem sido na tentativa de evitar que a instituição destrua aquilo que a atividade profissional conseguiu construir. Converse com alguns bem intencionados e qualificados pesquisadores que estão nas universidades (aqueles que buscam a excelência em suas áreas de pesquisa) e você verá que poucos ou nenhum discordam dessa asserção.

Quando assumi minha função como docente na UnB uma de minhas propostas ao Instituto de Psicologia foi a criação e consolidação de uma linha de pesquisa em Psicologia Social Experimental, algo sempre muito afeito a área na UnB mas pouco consolidado pela falta de estrutura laboratorial para tal empreitada. Ao final de 2007 em conversa bem articulada com vários colegas conseguimos estruturar uma proposta competitiva para a estruturação de laboratórios integrados de pesquisa experimental com humanos e de forma muito afortunada (exatamente por estar em uma unidade que a maioria dos docentes prima pela excelência em sua pesquisa), conseguimos constituir uma equipe de mais de 30 docentes dos quatro programas de pós-graduação que integram o IP-UnB, elaborando um projeto de laboratório com estrutura física e equipamentos suficientes para comportar linhas de pesquisa já existentes e outras tantas que poderiam ser constituídas. Foi excelente ver a equipe trabalhando de forma integrada e melhor ainda em ver esta proposta contemplada por dois anos consecutivos em um importante edital de apoio a infraestrutura de pesquisa: o CT-Infra da FINEP. A esperança foi renovada, o êxito exaltado por toda a unidade e perante a comunidade científica da Psicologia Brasileira, pois não havia precedente conhecido de um êxito desta magnitude de programas de Psicologia neste edital, e, aparentemente, as metas de pesquisa poderiam ser cumpridas. Pois é, poderiam, se o restante da história não terminasse com a panaceia desvairada da incompetência corporativa da UnB (alguns poderiam dizer que seria kafkiana esta história, mas isto se tornou a regra e não a exceção) em executar recursos arrecadados.

Hoje, cerca de cinco anos depois da UnB ter sido comtemplada no primeiro edital de nosso projeto (nos dois editais foram obtidos cerca de R$1,1 milhão de reais para a estruturação dos laboratórios integrados) recebemos a notícia de que a FINEP recolherá o dinheiro referente a 2007. O dinheiro está com a UnB já há bastante tempo, mas será devolvido a FINEP porque a UnB foi incapaz de executar.

Nestes anos desta ‘batalha surreal’ dentro da universidade foram dezenas (isto não é um eufemismo, pois a quantidade de demandas e solicitações foi enorme, por parte de membros da equipe e dos diretores de nossa unidade) de reuniões com diferentes gestores centrais (diretor de pesquisa do decanato, Ceplan, decanos) e inclusive uma audiência com o então Reitor, no início de 2012, para tratar exclusivamente deste assunto, na tentativa de que as licitações para execução da obra fossem feitas. Na audiência com o gestor máximo ficou acordado que a obra seria realizada a partir de junho de 2012, no mais tardar. O que ocorreu depois disto? De efetivo nada! O único fato concreto é o que chegou no dia de hoje, que confirma uma crônica de morte anunciada graças a incompetência e falta de envolvimento político da gestão central da UnB em fazer o que lhe era de mais básico e elementar: executar seus processos administrativos e implementar as ações já definidas. É profundamente entristecedor e desestimulante este desfecho, mas no final das contas será apenas mais um dentre tantas outras histórias de incapacidade de gestão das Universidades públicas brasileiras. Já é vala comum, infelizmente. Por isto e/ou por descrença generalizada não me parece que nada venha a mudar e este desfecho ilustra um quadro patente da Universidade federal brasileira.

O que nos resta agora? O que dizer para alunos, futuros pesquisadores e agências de avaliação da pós-graduação sobre como será possível a instituição de linhas de pesquisa outrora prometidas? Podemos dizer que a universidade brasileira é um bom lugar para se trabalhar e se fazer pesquisa? Que a ciência brasileira está se internacionalizando e tornando-se de ponta? A quem queremos enganar: a nós mesmos?

É evidente que não há como as Universidades Públicas brasileiras se tornarem de ponta com esta incompetência administrativa e de gestão tão escabrosas. O que temos no país são algumas poucas exceções, mas a regra geral, das poucas instituições federais de ensino que podem ser consideradas como instituições de pesquisa (queria crer que a UnB estivesse entre elas, por isto escolhi ficar nela para executar um plano de carreira como pesquisador), é esta incompetência generalizada na gestão de C&T, que leva corriqueiramente a absurdos como este que aqui narro. Fruto de uma instituição, que como diz um amigo meu, é gerenciada muito mais como uma prefeitura de interior do que como uma instituição de produção de conhecimento.

Talvez a única coisa que nos reste dizer a nossos alunos e às novas gerações de pesquisadores foi o que minha geração aprendeu de forma relativamente rápida: não deixe que a universidade atrapalhe sua pesquisa. Ao que tudo indica isto segue assim e seguirá por muito tempo, enquanto nossas universidades continuarem a funcionar como prefeituras de cidades interioranas que vivem da disputa entre pequenos grupos que nada tem de interesse como a função precípua da Universidade: produzir conhecimento.

*Ronaldo Pilati é professor do Instituto de Psicologia na Universidade de Brasília (UnB).

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Discussão - 2 comentários

  1. Mariza Monteiro Borges disse:

    Nessa hora é bom ressaltar que o autor fala de fatos ocorridos entre 2007 e 2012, ocasião na qual a administração superior da universidade parecia não saber que insumos para pesquisa não se encontram na rua.

  2. André Rabelo disse:

    Mariza,

    pois é… essa administração só nos atrapalhou, foi um atraso danado que eles trouxeram para a universidade.

    Abraço!

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