E se o meu estudo não “der certo”?

E se der errado?

E se der errado?

Muitos alunos de graduação e pós-graduação tem a mesma preocupação: e se o meu estudo não “der certo”? Esse pensamento pode ser o reflexo de crenças sobre “o que é fazer pesquisa científica” que não são apenas incorretas, mas que também podem gerar ansiedade desnecessária e diminuir o quanto a pessoa gosta da experiência de fazer pesquisa. Quero falar aqui o meu ponto de vista sobre isso, pois acho que fazer pesquisas pode ser BEM mais interessante do que simplesmente tentar fazer um estudo “dar certo”.

Primeiro: o que significa um estudo “dar certo”? Na cabeça de muitos, significa encontrar alguma relação entre variáveis que alcance a famosa “significância estatística”, corroborar/replicar evidências de estudos anteriores ou simplesmente observar aquilo que se esperava por intuição. Eu penso que todas esses significados são indesejáveis, pois todos eles pressupõem que um dado só é interessante e/ou importante se for coerente com o que esperávamos, algo que não poderia estar mais errado! Afinal de contas, a história da ciência é repleta de descobertas acidentais que tiveram enormes implicações nas vidas de milhares de pessoas (já ouviu falar em penicilina? Pois é.. descoberta acidentalmente!).

E, parando para pensar, porque nos daríamos ao trabalho de fazer uma pesquisa se já soubéssemos quase com certeza qual seria o resultado? O ponto de fazer pesquisa não é exatamente porque não entendemos ainda uma coisa que queremos entender melhor?

Além disso, dados contraditórios com resultados anteriores são tão importantes quanto dados que corroboram. Pensa no dinheiro e tempo que é investido por vários pesquisadores para realizar uma pesquisa original. Se os dados encontrados por esses autores forem, de alguma maneira, imprecisos (porque os autores selecionaram demais os dados que foram apresentados, por exemplo), é possível que muitos outros pesquisadores, por acharem interessante esses dados, também se baseiem sem saber na enrascada que estavam se metendo neles para fazer novas pesquisas.

Mas, e se o seu estudo, que tentou replicar os dados originais e não conseguiu encontrar os mesmos resultados, tivessem se tornado público? Talvez outros autores pensassem duas vezes antes de confiar totalmente nos dados originais, também tentassem replicar com precisão o estudo original ou até mesmo tentassem realizar uma meta-análise para chegar a uma conclusão sobre a robustez dos resultados (para mais discussão sobre replicação na psicologia, que ainda é o assunto mais quente do momento, ver aqui e aqui). Resumindo, contrariamente ao que se poderia esperar, os seus resultados que “não deram certo” poderiam ser muito úteis e dizer algo interessante sobre um fenômeno!

Eu prefiro pensar da seguinte maneira: um estudo “deu certo” se ele foi conduzido do começo ao fim, independente do resultado. Afinal de contas, a graça de fazer pesquisa científica é poder explorar livremente e conhecer melhor algum aspecto do universo, e não necessariamente “reafirmar resultados prévios da literatura”!!! Em outras palavras, o que mais importa na ciência é observar como as coisas funcionam, e se o que você encontrar for contraditório com o que outros encontraram antes, existem vários motivos possíveis para isso ter acontecido. Quais as diferenças entre o seu estudo e os estudos anteriores? Essas diferenças poderiam explicar o seu resultado diferente? Na ânsia de encontrar aquilo que esperávamos, podemos estar menosprezando, sem perceber, a complexidade do que estamos estudando. Como disse o físico Richard Feynman, “a imaginação da natureza é tão maior que a do homem que ela nunca nos permitirá relaxar. 

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Discussão - 4 comentários

  1. O problema é que resultados negativos têm baixos índices de publicabilidade.

    Além disso, especialmente para o doutorado, os trabalhos são voltados mais a pesquisas originais. Nesse caso, tende a ser difícil de aprovar um projeto que tenha repetido estudos originais.

    E no caso de repetição de estudos há dilemas nos dois casos:
    a) Você teve um resultado positivo. Mas isso era o que já havia sido encontrado antes. O que realmente de novo seu trabalho trouxe então?
    b) Você teve um resultado negativo, Mas isso contraria o que havia antes. Será que você não fez nada de errado?

    Se é um estudo original, o dilema é no caso negativo:
    a) Você teve um resultado positivo. Ótimo! É uma novidade.
    b) Você teve um resultado negativo. Mas o negativo você já tinha. Afinal, se você pegar de modo aleatório qualquer hipótese falseável, as chances dela ser falsa são praticamente de 100%.

    Infelizmente, essa cultura do positivo, somada à cultura da publicação, pode levar a um incentivo aos casos de fabricação e manipulação de dados.

    []s,

    Roberto Takata

  2. Eduardo Bessa disse:

    Think serendipity!!!

  3. Jackson disse:

    Em Matemática, um “estudo não dar certo” pode significar um caminho sem saída, um problema que resistiu a todas as tentativas de solução, um teorema que não se conseguiu demonstrar.

  4. solange disse:

    otimo recomendo a todos ler

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