O novo inconsciente na psicologia – Resenha do livro “Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas”

2014-03-11 21.12.28Muitas coisas acontecem bem na nossa frente sem que tenhamos consciência. Isso acontece porque existe muito mais informação no nosso ambiente do que nossa mente é capaz de captar e perceber conscientemente. Mas quando se trata das nossas próprias ações, é claro que temos consciência do que estamos fazendo e das razões pelas quais estamos realizando uma ação, certo? Bom… nem sempre, pois também podemos operar “no piloto automático”, mesmo quando realizamos ações complexas, como dirigir de volta para casa, por exemplo.

O livro Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas descreve como o inconsciente influencia as nossas ações e pensamentos, para o bem e para o mal. “Uau, alguém falando de psicanálise nesse blog, finalmente hein féra!” CALMA, muita calma! Não é o inconsciente do qual Freud falava. A nova concepção de inconsciente na psicologia e na neurociência, também explorada no livro Rápido e devagar: Duas formas de pensar, de Daniel Kahneman, é que captamos e usamos informações do ambiente basicamente de duas maneiras: de uma maneira mais automática e inconsciente ou de uma maneira mais controlada e consciente. Quando nossa “mente inconsciente” está no comando, ela preenche lacunas no nosso conhecimento e usa alguns truques bacanas para guiar nossas ações sem que a gente perceba, permitindo-nos assim realizar feitos incríveis, considerando a pouquíssima quantidade de esforço exigida (mas, infelizmente, também pode nos levar a erros igualmente “incríveis” e indesejáveis).

Escrito pelo físico Leonard Mlodinow (que resolveu escrever um livro de popularização da psicologia sei lá o porquê, mas fico feliz por tê-lo feito, valeu Mlô o/), o livro Subliminar é uma rápida e ótima maneira de conhecer como nossa mente inconsciente está presente em nossas ações cotidianas – desde as mais triviais, como escolher o que vai comer em um restaurante, até as decisões mais importantes, como com quem iremos nos casar ou em quem iremos votar nas próximas eleições.

Quem já leu O andar do bêbado: Como o acaso determina nossas vidas sabe que a escrita de Leonard é simples, direta e engajadora, e, em Subliminar, não foi diferente. Cada capítulo do livro explora um campo no qual psicólogos e neurocientistas têm encontrado rastros do inconsciente em ação, e isso inclui desde algo tão básico quanto a percepção visual até a maneira como percebemos e interagimos com os outros, bem como a maneira como grupos interagem. O livro é um verdadeiro passeio agradável pelo conhecimento que tem sido produzido sobre o inconsciente nas áreas da psicologia cognitiva, psicologia social e  neurociência, na companhia de um ótimo guia turístico (Leonard).

Apesar de ter gostado muito do livro e recomendá-lo a especialistas e não especialistas no assunto, a obra certamente possui os seus problemas, como não podia ser diferente (atenção, spoilers a caminho). O autor ás vezes colocou tanto peso nos avanços tecnológicos subjacentes à neurociência que pode dar a impressão ao leitor que foi apenas a neurociência que nos permitiu abrir a caixa preta e sem ela nada restaria da psicologia para investigar cientificamente o inconsciente. Essa é a impressão que o autor me deu no início do livro, embora boa parte dos estudos que ele descreve no livro é referente a famosos experimentos de psicologia cognitiva e/ou social, e não estudos que usaram ressonância magnética funcional ou algum outro aparelho para captar a atividade cerebral subjacente ao comportamento dos participantes (embora esses estudos também estejam bem representados e explicados nas páginas do livro).

Que esse avanço tecnológico revolucionou a nossa área é indiscutível, mas os avanços substanciais que ela tem permitido na compreensão dos processos psicológicos básicos ainda é algo muito debatido e muito já se descobriu sem que fosse necessário tocar um dedo em algum aparelho de ressonância magnética (veja as referências no final do texto e fiquem ligados no canal Minutos Psíquicos do Youtube, pois em breve haverá um episódio só sobre isso lá)!

Outro desapontamento meu foi quanto ao fato do livro não abordar uma das questões mais polêmicas e diretamente envolvidas no senso comum com o termo “subliminar”, deixando assim o leitor um pouco “no vácuo”, por assim dizer. Estou falando das famosas “mensagens subliminares”, um mito que se criou no final do século passado em torno de supostas apresentações subliminares de estímulos em cinemas que influenciavam o comportamento das pessoas, tais como a apresentação do símbolo da coca-cola muito rapidamente e o subsequente consumo maior de coca-cola por parte de quem estava na plateia. Influencias subliminares não são mitos, mas também não são tão simples quanto o mito das mensagens subliminares propunha. O livro perdeu uma ótima oportunidade de esclarecer tal questão, mas fica para uma próxima!

O trabalho de tradução da obra merece elogios, pois quem já leu livros traduzidos para o português da área da psicologia (por exemplo, a tradução do livro clássico de terapia cognitiva de Judith Beck, que da dó de ler em algumas partes) sabe que a coisa nem sempre fica como gostaríamos. Com algumas raras exceções, a tradução e adaptação para o português do livro ficou muito satisfatória.

Gostaria de agradecer a editora Zahar pelo seu ótimo trabalho na preparação dessa versão traduzida do livro, ajudando assim a divulgar a psicologia no Brasil, e pelo envio do exemplar que eu li do livro. Para quem ficou interessado em ler o livro, aguardem, pois faremos o sorteio de um exemplar do livro no Facebook! Fiquem ligados!

Referências:

Coltheart, M. (2006). What has functional neuroimaging told us about the mind (so far)? Cortex, 42, 323-31.

Mather, M., Cacioppo, J. T., & Kanwisher, N. (2013). How fMRI can inform cognitive theories. Perspectives on Psychological Science, 8(1), 108–113. doi:10.1177/1745691612469037

Rugg, M. D., & Thompson-Schill, S. L. (2013). Moving Forward With fMRI Data. Perspectives on Psychological Science, 8(1), 84–87. doi:10.1177/1745691612469030

Shimamura, A. P. (2010). Bridging Psychological and Biological Science: The Good, Bad, and Ugly. Perspectives on Psychological Science, 5(6), 772–775. doi:10.1177/1745691610388781

Kosslyn, S. M. (1999). If neuroimaging is the answer, what is the question? Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B, Biological Sciences, 354(1387), 1283–94. doi:10.1098/rstb.1999.0479

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  1. […] que falsas memórias levaram pessoas inocentes à prisão, vale muito a pena ler! Por sinal, publiquei aqui no blog uma resenha que fiz desse […]

  2. […] memórias levaram pessoas inocentes à prisão, vale muito a pena ler! Por sinal, publiquei aqui no blog uma resenha que fiz desse […]

  3. […] Haidt, acreditamos que a abordagem de Mlodinow tornou a apresentação do tema mais didática. Eu publiquei aqui no blog uma resenha que fiz desse […]

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  7. […] a automaticidade envolvida na percepção visual (algo que ilustramos no início do vídeo). Eu publiquei aqui no blog uma resenha que fiz desse […]

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  9. […] aquele espetáculo seria arruinado completamente. Além disso, como aprendemos no maravilhoso livro Subliminar, você somente gosta da musica devido ao baixo que era excelente e você nem […]

  10. […] de hoje. Ah e tem a palestra do Dan Ariely também (aqui). Tem também a minha resenha publicada aqui do livro Subliminar. Já o material no Netflix você acessa buscando por “Truques da […]

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