Clube de ciências mostra invenções em encontro internacional

Lançamento do balão do Clube de Ciências Quark, dia 05. Crédito: Lucas Lacaz Ruiz.

Os estudantes de ensino médio Suny Watanabe e Ralf Gunter se preparam para viajar do vale do Paraíba para o Vale do Silício. A dupla vai apresentar um foguete e um balão meteorológico construídos em seu clube de ciências, em uma reunião internacional de mais de 14 mil cientistas profissionais em San Francisco, EUA, dia 18 de dezembro.

 

 A reunião é promovida pela AGU (União Geofísica Americana), associação que congrega 500 mil pesquisadores de 130 países de física aplicada às ciências da Terra e de outros planetas. Uma das sessões do encontro chama-se Bright STaRS (estudantes brilhantes treinados como pesquisadores científicos).

 

“A idéia é  ter estudantes de high school fazendo pesquisa de verdade com um cientista e apresentá-la em uma conferência”, explicou Inés Cifuentes, coordenadora do Bright StaRS.

 

Os meninos de São José dos Campos (SP) apresentarão pôsteres junto com doze outras equipes de escolas dos arredores da baía de San Francisco, orientadas por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Universidade de Stanford e de outras instituições científicas nos arredores de San Francisco.

 

A participação no congresso é iniciativa de Marcelo Saba, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que fundou o “Clube de Ciências Quark“, em 1994.

Saba submeteu os projetos do clube a Cifuentes. “Ela ficou empolgadíssima e nos convidou”, ele contou.

 

A maior parte das despesas da viagem será paga com duas bolsas de 950 dólares concedidas pela  AGU. O restante será bancado pelo colégio e os pais.

Como funciona o clube

 

O clube Quark funciona em um prédio na cidade de São José dos Campos, misto de residência para pesquisadores universitários, onde Saba mora, e centro cultural ligado à organização religiosa Opus Dei. “É um pessoal católico, inofensivo”, disse Watanabe, brincando com a fama da organização. 


Oficina do Clube de Ciências Quark. Crédito: Igor Zolnerkevic

 

Meninas não entram no clube, explica Saba, por conta da “educação tradicional cristã” separada para cada gênero. Existe outro centro na cidade ligado a Opus Dei exclusivo para mulheres, mas onde não há um clube de ciências.        

 

Junto com outros pesquisadores voluntários, Saba orienta uma dezena de rapazes vindos de escolas da região, que se reúnem por duas horas aos sábados à tarde para realizarem dois projetos a cada ano.

 

O clube é mantido por contribuições dos estudantes e patrocínio de suas escolas. “As escolas vêem no clube uma forma de divulgar o nome delas em competições como a Febrace [Feira Brasileira de Ciências e Engenharia]”. O Quark coleciona medalhas de primeiro lugar na Febrace e em outras competições. Não é a primeira vez que seus sócios são convidados para eventos internacionais.

Coleção de troféus e medalhas do Clube Quark. Crédito: Igor Zolnerkevic

Foguetes e balões

 

Gunter, que está no Quark há apenas alguns meses, se dipôs a apresentar o projeto do foguete “Frank” (de Frankenstein), desenvolvido pela turma do ano passado. Feito de partes de projetos anteriores, o Frank foi o primeiro foguete do clube a ser lançado com sucesso. Saba espera que a turma do ano que vêm acrescente uma carga útil ao foguete, como uma câmera para tirar fotos aéreas.

 

Watanabe freqüenta o Quark há um ano e meio. Ele mostrará aos americanos como construiu com mais quatro colegas um balão que sobe até 800 metros, mede a temperatura do ar durante o vôo, tira 50 fotos e faz um vídeo da decolagem.

Foto aérea tirada do balão do Clube Quark, durante

lançamento nas instalações do Inpe, em Cachoeira

Paulista. A maioria das fotos saiu desfocada porque

a esfera contendo a carga do balão girava. Instalar um

leme para estabilizar a esfera será um dos desafios da

próxima edição do projeto. Crédito: Clube de Ciências Quark

 

O balão não tem nada de muito high tech. Oito bexigas de festa cheias de gás hélio fazem subir no ar uma esfera oca de isopor contendo todo o equipamento. Um microchip de R$ 12 programado pelos próprios estudantes coordena o funcionamento do termômetro elétrico, de duas câmeras digitais simples e do sistema genial de aterrissagem: uma resistência elétrica de chuveiro que, ao esquentar, corta as cordas de seis das oito bexigas. Assim, o balão cai suavemente, sustentado pelas duas bexigas restantes, enquanto uma sirene que ajuda na localização do balão é ligada.

 

O lançamento do balão aconteceu  nas instalações do Inpe, em Cachoeira Paulista. Watanabe e seus colegas compararam as fotos tiradas pelo balão com imagens do Google Earth para calcularem a altura e a trajetória do instrumento.   

Trajetória do balão em imagem de satélite do Google Earth. Crédito: Clube de Ciências Quark

 

Aprendendo na prática

Para criar o balão, os alunos não precisaram mais do que o currículo básico de ciências do ensino médio: trigonometria para calcular distâncias, física e química de gases e conceitos básicos de eletrônica. “O projeto dá a oportunidade de mostrar ao aluno a utilidade do que ele aprende na escola”, explica Saba.

 

Embora Saba esteja mais interessado em como os experimentos contribuem na formação dos estudantes, o projeto do balão chegou a interessar indústrias da região do Vale do Paraíba, querendo usá-lo para medir o perfil de temperatura do ar para controle de poluição, em vez de usar balões padrões mais sofisticados que chegam a alturas além da necessária e custam em torno de R$ 2.500.

 

O espírito do clube de ciências de encontrar soluções com material de baixo custo também contagiou a pesquisa que Saba conduz no Inpe. “Um pesquisador americano que nos visitou ficou surpreso com o espelho esférico no topo da torre que uso para observar relâmpagos”, contou Saba. “O espelho é uma calota de roda de fusca.”

Essa é a versão original da reportagem que saiu hoje na Folha de S. Paulo.

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Discussão - 2 comentários

  1. sou fã.Quero fundar um clube,como faço!!mandem resposta por email.

  2. Claudia disse:

    O que mais me impressionou nesse Clube de Ciencia é q ele é mantido por uma instituição religiosa!!

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