Aniversários do 42.

Hoje completam-se 2π anos que blogo.

Não é bem esse tipo de “2 pi anos”.

π, ou pi, é um número irracional (ou seja, que não pode ser representado como uma fração, como 8, racional, pode ser representado como 32/4, por exemplo) que corresponde à circunferência de um círculo dividida pelo seu raio.

Pi-unrolled-720.gif

Aniversários do 42.

Hoje, completo 10 anos venusianos de blog! Comecei com outro, que mudou de nome e depois se separou em vários, dentre eles o 42.

Parabéns!

Parabéns!

A Vênus de Willendorf aí em cima tem uns trinta mil anos terráqueos, o que dá mais ou menos quarenta e oito mil anos venusianos.

“No meu tempo não existia bullying!”

O problema de envelhecer é ficar velho. Essa frase pode parecer uma tautologia ou um daqueles ditames de bolso do tipo “quem conhece, sabe” ou “para quem gosta, é bom” (ou ainda o infame “para quem sabe, é fácil” que eu costumava ouvir muito em época de prova na escola), mas ela melhora com definições mais precisas.

“Envelhecer” significa continuar vivendo, que é o que todos nós neste momento estamos fazendo. O “ficar velho” não é o mesmo que viver por muito tempo (que geralmente só é sinônimo de sabedoria no entendimento popular – que, via de regra, não é nem uma coisa, nem outra); está, sim, mais para que se tornou obsoleto [1].

Assim como as juntas endurecem e a musculatura atrofia, endurece também a parte antes maleável da nossa personalidade que nos fazia gostar de aprender (quem nunca se animou quando descobria como ajustar a hora num vídeo cassete?) e atrofia a região do cérebro que nos dá capacidade de entender e aceitar novas informações (óbvio que DVD é melhor que CD, mas esse tal de Blu-ray só existe para me prejudicar).

"Bullying não existe, o que existe é frescura."

“Bullying não existe, o que existe é frescura.”

A frase pode ser reescrita como “O problema em continuar vivendo através das mudanças da sociedade é solidificar seus próprios conceitos pessoais em detrimento do bem-estar coletivo”. A frase que dá título a este post é um exemplo bom disso.

O fato do termo não existir antigamente não significa que a atitude não existisse. E, mesmo que esse fosse o caso (que não é), o fato de ele não ter existido antes não significa que ele não exista agora. O que também existe é uma capacidade aparentemente infinita de negação e prepotência, um “tire isso daqui porque isso não existe porque só eu sei o que é verdade e isso aí não é” (tipo o secretário de segurança do Rio Grande do Norte dizendo que os cadáveres a céu aberto no pátio do ITEP documentados em vídeo não existem).

Isso é coisa de gente amargurada com a vida. Não por ter sofrido e não ter conseguido lidar com o sofrimento mas somente pelo fato de estar velho e temer tudo que é novo. Uma síndrome de egoísmo recalcado de “eu não sei o que é isso e não quero que mais ninguém saiba porque eu não estou disposto a aprender”. Ou algo assim. [2]

Eu apanhei no colégio, apanhei dos meus pais em casa e cresci normal.

É. Virou um adulto que acha que bater em criança não só é normal como também deve ser incentivado, inclusive na escola, por desconhecidos. Porque isso vai fazer com que ela cresça “normal”.

Infelizmente, eu sei o que é isso pelos dois lados.

Infelizmente, eu sei o que é isso pelos dois lados.

Cresceu para ser um adulto normal, daqueles que defendem a diminuição da maioridade penal e a criminalização do aborto. Porque o problema não é social e, sem dúvida, também não é o crime, mas o criminoso. Adequar a punição ao crime, independente da idade, não é opção, tem mais é que prender esse bando de pivete, que quanto mais jovem, pior. Por isso que deve apanhar e ser preso o quanto antes. Preferencialmente assim que nascer ao fim de uma gravidez indesejada porém forçada.

Um adulto normal que acha que “racismo não existe“, “bandido bom é bandido morto” e que pobre tem mais é que se lascar mesmo, porque ninguém nunca é acusado injustamente e emprego tem sobrando. Você nunca viu “alguém na rua pedindo emprego ao invés de esmola” e lá na sua casa “tem uma pia cheia de louça suja“. Não que você vá contratar um imundo desses para entrar na sua casa. Mesmo porque ele deve ser ladrão, né?

A criança que apanhou tanto em casa quanto na rua cresceu completamente normal e bem ajustada, achando que maconha é igual a crack e heroína, que “destrói neurônios” e, por isso, deve ser proibida e reprimida. Álcool, por outro lado, deve continuar sendo vendido, já que “é uma escolha pessoal beber ou não” e isso “não prejudica mais ninguém além do bebedor“.

Cresceu achando que “bom mesmo era na Ditadura“, porque “não havia corrupção, inflação nem impostos altos“. E ainda por cima “a música era boa e não essa seboseira de hoje em dia“, que deveria ser censurada e proibida. [3]

Adulto que acha um absurdo existir ateu e que a falta de deus no coração é o problema de hoje em dia, onde todo mundo é egoísta e só pensa em si mesmo. Tem que seguir a Bíblia porque só ela tem a Verdade. Não fala em penicilina nem manda ferver água antes de beber e tem também aquela parte controversa onde Jesus ordena que um sujeito “vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres” mas isso você acha que é uma parábola ou uma metáfora, porque fé é a única forma de salvação. [4]

Gays não devem casar porque dar esse direito a eles, de alguma forma, diminui os seus direitos, que permanecerão inafetados. Você cresceu sabendo que gays não podem casar porque isso é proibido pela sua religião (que, aliás, ordena o assassinato sumário dos envolvidos), apesar de isso ser uma questão civil num estado laico. Mas você quer continuar tendo o direito a se divorciar. Só por garantia, sabe como é

Velho durão que nunca sofreu problemas psicológicos por apanhar em casa e tem certeza que a maioria dos casos de estupro são culpa da vítima que anda por aí de roupa apertada, provocando. Quando entram na sua casa para roubar sua TV ou quando abordam você na rua e levam sua carteira, por outro lado, claramente a culpa não é sua por ter bens e andar com eles.

Aliás, mulher já dá motivo, né? Se leva um tapa na cara, do marido, é porque mereceu. Deve ter pensado em voz alta ou provocado um pedreiro a assobiar quando andava na rua (mulher é bicho perigoso, não pode dar chance!). Porque só apanha quem merece mesmo. Menos quando você não coopera e leva uma coronhada do sujeito que queria levar seu relógio. Ele merece apanhar porque deu uma surra em você, que não merecia.

Prega que “feminismo é sexismo ao contrário“, pois, a exemplo da união homoafetiva citada previamente, lutar por direitos iguais para ambos os sexos é, de alguma forma, cercear os direitos dos homens brancos cristãos de classe média que “não são todos iguais, espalhar esse tipo de estereótipo é coisa de mulher“. Reclama que “mulher quer ter os direitos iguais só na hora de ganhar dinheiro mas não quer servir o exército nem trocar pneu[5] mas acha supimpa que teve cinco dias de folga quando casou e jamais diria um “ai” contra a licença paternidade (que, talvez, poderia ser, tipo, um pouco mais longa?). Ter mais dinheiro entrando na conta também não seria ruim, você só não sabe como isso poderia acontecer, não é?

Maria da Penha Maia Fernandes - Nunca precisou sair mostrando os peitos para lutar pelo direito das mulheres! Não, nunca precisou mostrar os peitos. Só precisou recorrer a um tribunal internacional após sobreviver a uma tentativa de eletrocução em sua cadeira de rodas depois de ter ficado paraplégica por ter sido baleada nas costas, enquanto dormia, pelo marido que batia nela e nos três filhos menores de sete anos para que, ao fim de dezenove anos de luta, este ficasse preso por apenas dois anos.

Não deixa a esposa trabalhar porque “não vou deixar minha mulher me sustentar” ou porque “lugar de mulher é na cozinha“, já que mulher quando sai de casa pode “ter ideias” e deixar de ser “mulher de família” que, deus-o-livre, comece a pensar e agir como um ser independente e autônomo. Por outro lado, se bandido for preso, tem mais é que deixar a família desvalida mesmo!, porque auxílio reclusão não deve existir! já que quem não trabalha é vagabundo!, especialmente se for pobre. Mesmo que tenha se tornado pobre somente após a prisão do arrimo de família. Que não deixava a esposa trabalhar.

Videogames causam violência, mas o fato de você ter sido criado como um leão de circo dos anos 30 não. Você é a favor da violência contra crianças mas não é violento, já que no seu tempo não existia Mortal Kombat ou GTA. Só dá “palmada educativa, que nunca fez mal a ninguém“, já que no seu tempo não existia essa violência toda de hoje em dia que começou a pouco tempo e só depois de começarem a proibir violência infantil.

Você é contra a violência à sua integridade física e sua propriedade mas acha que ladrão deve ser morto e não vê nada errado em amarrar alguém num poste ou em linchamentos populares porque “quem rouba merece apanhar” (mesmo não havendo evidências formais do crime, punido com excesso de força). Que, por coincidência, nunca acontece com gente branca de classe média, mesmo com aqueles malditos “direitos humanos que só existem para proteger bandido“. O mesmo bandido que você quer ver linchado pela população e espancado pela polícia. E ainda reclama dessa “violência de hoje em dia” enquanto distribui a culpa entre inúmeros agentes, nenhum dele sendo você. Que apanhou quando era criança e cresceu “normal”.

Você apanhou na escola e em casa mas tudo bem, porque isso “faz bem ao caráter” e “prepara para o mundo real“. Um mundo real onde o seu preconceito e seu desprezo por minorias fomenta a perpetuação da violência alimentada por um caráter defeituoso que crê que surrar seres humanos que ainda nem acabaram de crescer é perfeitamente justificável.

ATUALIZAÇÃO – Leiam os comentários. Eles são terrivelmente instrutivos.

———

[1] Tipo um carro nacional fabricado em 1990 ou um prato de arroz esquecido dentro duma gaveta.

[2] Quem sou eu para julgar?

[3] “Geni e o Zepelim”, por exemplo, composta em 1978 no auge da ditadura pelo artista mais reverenciado como intelectual, é apenas uma música rebuscada e tortuosa sobre estupro e linchamento movido a misoginia. O Rock das Aranhas também é daquela época. Bem como o é o clássico da literatura “superbacana superbacana superbacana Super-homem superflit supervinc superist superbacana, o espinafre, o biotônico, o comando do avião supersônico, do parque eletrônico, do poder atômico, do avanço econômico, a moeda número um do Tio Patinhas não é minha, um batalhão de cowboys barra a entrada da legião dos super-heróis”.

[4] Eu linkei uma passagem editada mas recomendo fortemente a leitura de todo o capítulo 2 do livro de Tiago. Você vai ter uma lição em falso moralismo e hipocrisia.

[5] Isso aí era uma frase minha e costumava passar pela minha boca sob a mínima provocação. Eu nunca pude ser considerado uma pessoa boa, mas antigamente eu era bem pior.

Aniversários do 42.

Continuando o ano de comemorações, hoje, mais especificamente neste momento, o 42. completa três milhões de minutos! Com uma média de quase um visitante por minuto [1] desde que comecei a blogar.

êêêêê

êêêêê

Dois milhões, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove (2999999), por sua vez, é um número primo! Mas isso não tem nada a ver com a data de hoje! Êêêêêêêê!

———

[1] Contando somente o horário comercial, menos a pausa para o almoço e o cafezinho. Vários cafezinhos, aliás. E talvez uma ordem de magnitude a menos, também.

“Onde eu vou usar isso na minha vida?”

Durante minha vida acadêmica eu testemunhei em várias oportunidades alguns dos meus colegas reclamando das informações que recebiam dos professores, acusados de ensinar muita coisa desnecessária.

Preciso dizer aqui que concordo com tal observação. A escola tradicionalmente nos empurra informações que são completamente inúteis no mundo real e que em nada nos ajuda no nosso cotidiano (ou “na vida real”, como eu chamo o período de tempo que ocorre fora da Academia).

Por exemplo: quantos entre vocês sabem usar estatística? Arriscaria dizer que menos de 50% sabe usar porcentagem e menos de metade é familiar com o uso de frações.

Quanto mais eu estudava logaritmo, menos e menos eu aprendia. E também nunca precisei de matrizes para colocar um teto sobre a minha cabeça.

Quem precisou aprender sobre degradação de proteína nas aulas de Biologia ou sobre ligações iônicas nas de Química para colocar comida na mesa?

Para quê perder tempo aprendendo Física se toda a nossa informação hoje em dia vem pela Internet e TV (geralmente a cabo ou via satélite)?

Antigamente ninguém estudava História e em nenhuma parte do mundo as civilizações deixavam de existir por não saberem Geografia.

Filosofia e Literatura são duas coisas inúteis também, pois como já dizia Voltaire, “o valor dos grandes homens mede-se pela importância dos seus serviços prestados à humanidade“.

Ninguém nunca precisou estudar um segundo idioma para pedir uma long neck e uma pizza ao garçom, ou um croissant com cocktail de champagne no piano bar, nem para comprar tickets num site de Internet para um show de rock em turnê do CD de top hits, ou assumir que uma madame de batom e blush usa também spray de cabelo e gosta de buquê de tulipas e se veste como drag queen de prêt-à-porter. Nem para constatar que o layout de um ateliê de fashion design num shopping é igual a um camelô laissez-faire on-line que se acha chic por ser pink e não ter toilette. Por exemplo.

Ai, que chato...

Ai, que chato…

Eu estudei até quebrar a perna do óculos e até hoje nunca usei uma catacrese ou hipérbole em minha na vida. A escola acabou e jamais usei uma metonímia. Elipse, então…

Tirei muita nota ruim e horas da minha vida e, pá!, não aprendi o que é zeugma, onomatopeia, assíndeto, eufonia.

Alguém além dos alargados alambrados acadêmicos aprendeu a lidar com aliteração?

Eu, pessoalmente, olhei com meus próprios olhos para o livro até ele ficar com medo e não sei o significado de pleonasmo, perissologia, batologia ou prosopopeia.

A escola tentou me ensinar o que é tautologia porque a escola serve para ensinar.

Sabe-se lá o que significa ênclise! Tê-lo-ia aprendido se não me tivesse sido apresentado ao mesmo tempo em que mesóclise e próclise.

Não é excelente como a escola, excelente instituição de formação, nos fez aprender o que é diasirmo?

E de todas as figuras de linguagem, pelo menos uma delas eu domino plenamente. A rima!

Resenha – Formação do Brasil Contemporâneo

“Salvo em alguns setores do país, ainda conservam nossas relações sociais, em particular as de classe, um acentuado cunho colonial. (…) Quem percorre o Brasil de hoje fica muitas vezes surpreendido com aspectos que se imagina existirem nos nossos dias unicamente em livros de história.”

Surpreendentemente (ou não), as palavras acima foram publicadas pela primeira vez 72 anos atrás. Caio Prado Jr. descreveu, em 1942, um Brasil que parece recém saído da situação de colônia escravista, onde o trabalho livre ainda é desorganizado, a economia interna ainda é quase inexistente e a sociedade ainda não aprendeu a lidar com a falta de escravos sociais. Isso tudo, tristemente, continua desconfortavelmente atual hoje em dia, quase duzentos anos depois do nosso “grito de independência”.

caiopradojr

Formação do Brasil Contemporâneo foi o livro que mais contribuiu para o autoconhecimento do nosso país, até então dividido em ilhas de informações com intercomunicação inadequada. Ele investiga esmiuçadamente a realidade do país desde que éramos colônia portuguesa até a entitulada formação do Brasil como nação.

A forma como ele expõe os problemas atuais (sim, a maioria continua bem fresca, mostrando como evoluímos muito pouco nos últimos dois séculos) e suas causas no passado nos ajuda a compreender o contexto para o resto do livro e nos dá os fundamentos do que ele pensa ser a melhor forma de resolver nosso ranço colonial, que serviu para nos distanciar do resto do mundo, e que nos desviou para o lado errado da evolução social.

Caio Prado Jr. deixa bem claro que fomos colonizados somente para facilitar os interesses mercantilistas, transformando o país num imenso galpão fornecedor de riquezas para os outros e que isso nos afeta até hoje (1942 para ele, 2014 para nós). Por estarmos na zona tropical, nossa sociedade foi inventada, diferente da tradicional sociedade colonial temperada, parecida o suficiente com a colonizadora a ponto de ser quase uma extensão desta. Aqui fomos diferentes desde o primeiro dia. A ocupação do interior, por exemplo, foi apenas uma necessidade num mundo sedento por monoculturas, tanto agrícolas quanto pecuárias.

Ele fala também sobre as raças no Brasil, reclamando da falta de análise sistemática que “[f]ornece por isso ainda muito poucos elementos para a explicação de fatos históricos gerais, e temos por isso de nos contentar aqui no estudo da composição étnica do Brasil, em tomar as três raças como elementos irredutíveis, considerar cada qual unicamente na sua totalidade“. Especialmente na homogeneização dos escravos, provenientes de várias culturas distintas que foram forçados a conviver sob o peso dos grilhões pelos brancos, geralmente católicos.

Outra parte interessante é quando ele discorre sobre a criação disforme da nossa sociedade, antes baseada no mercantilismo e escravidão, que precisa agora crescer, de alguma forma, num mundo onde existe liberdade social e econômica. Esse monstro que se forma dessa situação cria a nossa sociedade com imensas fendas entre os abastados, que podem ter tudo do bom e do melhor que a Europa pode oferecer, e os desafortunados, impedidos de possuir.

Isso lembra alguma coisa?

Da colonização e povoamento, passando por economia e comércio e findando em (literalmente, sendo a última parte do livro) vida social e política, uma excelente leitura; didática e intrigante. Certamente, este é um dos livros que sempre quis ler mas me faltava oportunidade.

O volume acaba com uma entrevista sobre a importância histórica de Formação do Brasil Contemporâneo com o historiador Fernando Novais, seguida por um posfácio de Bernardo Ricupero.

O livro é muito bom para nos fazer enxergar como nossa sociedade mudou muito pouco nestas últimas oito ou doze décadas e que algumas soluções que poderiam ter sido postas em prática antes ainda têm seu lugar hoje em dia.

Recomendo para aqueles que gostam de aprender de onde vieram e, tudo coninuando da mesma forma, para onde irão. Talvez marxista demais para a maioria dos gostos, mas objetivo em suas descrições.

A bibliografia me deixou um pouco nervoso. É muita coisa interessante e muito pouco tempo para ler (ou até achar) tudo.

E, como bem lembrou minha esposa, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro – também na Companhia das Letras) e Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala) são os três autores indispensáveis para aqueles que querem entender melhor do Brasil. Por favor, se você gostar de um, leia-os todos.

Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., relançado pela Companhia das Letras e disponível em livro eletrônico ou arbóreo.

———

Resenha atrasadíssima. Mas a culpa não é minha, afinal não posso ser responsabilizado pelas coisas que a procrastinação me força a fazer. Ou não fazer, como seja.

Aguardem mais resenhas de volumes da Companhia das Letras nos próximos meses. Fizemos uma parceria.

33 curiosidades sobre o número 33

Hoje, por nenhum motivo especial, resolvi compilar uma lista de trinta e três propriedades sobre o número 33. Um número tão redondo que é capicua até em binário!

Para aquecer, e como estamos em 2014, vamos começar multiplicando este por aquele. 2014 * 33 = 66462. Notaram alguma relação interessante?

Em ASCII, simbolizando a minha surpresa no fim daquela conta, 33 equivale a uma exclamação! Como a que usei lá em cima! Uau!

Falando nisso, trinta e três fatorial, ou 33! = 8683317618811886495518194401280000000. O que por extenso se lê: oito undecilhões, seiscentos e oitenta e três decilhões, trezentos e dezessete nonilhões, seiscentos e dezoito octilhões, oitocentos e onze septilhões, oitocentos e oitenta e seis sextilhões, quatrocentos e noventa e cinco quintilhões, quinhentos e dezoito quadrilhões, cento e noventa e quatro trilhões, quatrocentos e um bilhões e duzentos e oitenta milhões. Com direito a metade de um “33″ ocupando a posição dos decilhões, que é um número com 33 dígitos.

A primeira vez que uma sequência de sete zeros seguidos (como no final do número acima) aparece em pi é a partir da 3794571ª casa decimal. 3794571 é divisível por 33.

Voltando um pouco, 33 é a soma dos fatoriais dos quatro primeiros números inteiros. 1! + 2! + 3! + 4! = 33.

33 é o menor número com 9 (ou 3 vezes 3) representações da soma de 3 primos. 2 + 2 + 29 = 3 + 7 + 23 = 3 + 11 + 19 = 3 + 13 + 17 = 5 + 5 + 23 = 5 + 11 + 17 = 7 + 7 + 19 = 7 + 13 + 13 = 11 + 11 + 11.

33 é também o menor número que pode ser expresso como a soma de dois números positivos elevados à quinta potência. 1^5 + 2^5 = 33.

Agora vamos para algo mais, digamos assim, “orgânico”.

Nos círculos da engenharia de áudio, conta-se que 33Hz seria “a frequência de ressonância clitoriana”. Aparentemente (não acho que isso tenha sido calculado em condições ideais e/ou livres de álcool), existe uma faixa de peso ideal para o efeito mas dizem que uma máquina de lavar em modo centrifugação alcança tal frequência (#ficadica). Alternativamente, se você tem um subwoofer em casa (em casa! Não posso frisar isso o suficiente), eis aqui dez minutos de 33 hertz para sua apreciação.

John Cage, compositor experimental, escreveu uma música em três movimentos chamada 4’33″. A partitura recomenda ao(s) músico(s) que não toque no seu instrumento por exatamente quatro minutos e trinta e três segundos. Muita gente acha Cage louco por fazer isso, outros o acham engraçado, mas poucos se dão conta de que o verdadeiro foco de 4’33″ não são os músicos, mas os espectadores que, após quase um minuto de silêncio, começam a “tocar” a música em si, uma música orgânica, improvisada e irrepetível, composta por cochichos, tosses, reclamações, rangidos de assento e, quem sabe, talvez até um vibrador na plateia.

Terceiro movimento da composição 4'33", já se aproximando do clímax.

Terceiro movimento da composição 4’33″, já se aproximando do clímax.

No mar, a pressão sobre um corpo aumenta uma atmosfera (1 atm) a cada dez metros, ou 33 pés, que o corpo afunda.

O sul africano Nuno Gomes tem o recorde do Guinness de mergulho ultraprofundo, chegando aos 318 metros. Outro mergulhador, Pascal Bernabé, contesta o recorde, dizendo que chegou aos 330 metros (ficando sob 33 atmosferas) mas ainda falta evidência confirmável disso.

Da área terrestre onde podemos andar sem molhar as canelas, 33% da superfície é formada por desertos. Tanto os frios quanto os quentes.
Alguns até se encontrando diretamente com o mar, como na Namíbia ou na Austrália.

Falando em deserto quente, o ângulo de repouso crítico da areia seca é mais ou menos 33 graus. Digo “mais ou menos” porque depende da granulosidade da areia e da definição funcional de “seca”.

A coluna vertebral humana (que sofre mais problemas de compressão por mergulhos em áreas próximas aos 33% acima) tem 33 ossos. O que me parece um pouco de trapaça, já que, dos 33, cinco são fundidos para formar o sacro. Que é um frase que deve ser dita com muito cuidado e atenção aos fonemas quando em público.

A Divina Comédia é dividida em três partes de 33 cantos cada. Não tenho muito mais a acrescentar, já que nunca consegui terminar de ler o livro. Posso dizer, pelo menos, que a página 33 da minha cópia discorre sobre o quarto círculo do inferno, onde “encontram-se os pródigos e os avarentos“, dentre eles “papas, clérigos ou cardeais, dominados pela torpe avareza“.

Em 1633, Galileu Galilei é condenado por heresia por defender que a Terra gira ao redor do Sol. Na época em que a Igreja mandava, uma condenação dessas não era besteira e ele ficou preso pelos últimos nove anos de sua vida por ter escrito uma coisa que era verdade. Ele foi julgado e condenado por causa de uma ideia. Esta arbitrariedade combinada com um poder supremo é o principal problema num estado teocrático.

Em Barcelona, na igreja da Sagrada Familia (aquela cuja construção nunca acaba) existe um quadrado mágico cuja soma é 33. Mas aí eu acho que tem algo a ver com mitos cristãos.

O filósofo William Whewell cunhou o termo “cientista” em 1833. Mesmo ano em que Ada Lovelace conheceu Charles Babbage e sua máquina diferencial. Talvez “1833″ seja um número importante para a Ciência da Computação.

Magnitude absoluta é a medida do brilho instrínseco de um objeto celestial a 10 parsecs, ou, aproximadamente, 33 anos-luz. A distância daqui para Pólux, a estrela gigante mais próxima de nós.

Nesta escala, a Terra é invisível.

Nesta escala, a Terra é invisível.

A famosa nebulosa Cabeça de Cavalo, descoberta por Williamina Fleming dentro de um espaço catalogado cem anos antes por Caroline Herschel, é oficialmente (para certas definições de “oficialmente”) conhecida como Barnard 33.

33 é o número atômico do arsênico, cuja formulação homeopática não me matou (PASMEM!) e que jamais poderia ser criado pela mistura de camarões com vitamina C porque isso seria ridículo.

Em 1972, a aeromoça (denominação da época) Vesna Vulović sobreviveu a uma queda de 33 mil, 330 pés depois que o avião onde trabalhava explodiu no ar. Ou pelo menos é o que o Guinness registra (documentos recentes parecem mostrar que o avião foi abatido “por engano” enquanto voava bem mais baixo que isso – mas mesmo assim…).

Num relógio analógico, os ponteiros das horas e dos minutos formam um ângulo de 33° entre eles apenas duas vezes em minutos inteiros, às 11:54 e 12:06. Não sei se vocês sabem, mas existe uma fórmula para calcular os ângulos entre os ponteiros do relógio. Sério, existe uma fórmula matemática especificamente para isso. Quem disse que estabilidade no emprego não compensa?

Aos 33 anos:

Douglas Adams viajou pela primeira vez a Madagascar, no que seria a primeira de muitas viagens ao redor do mundo que findariam no documentário ambientalista Last Chance to See;

Charles Darwin publicou The Structure and Distribution of Coral Reefs, seu primeiro livro científico;

Arthur C. Clarke publicou Interplanetary Flight: An Introduction to Astronautics, um livro de divulgação sobre exploração espacial;

Machado de Assis publicou seu primeiro romance, Ressurreição;

Isaac Asimov publicou Second Foundation, compilado de seriados menores;

Terry Pratchett já havia publicado Strata mas ainda nenhum Discworld, e;

John Bonham já estava morto. 33 anos atrás.

PUDUM TISSSSssssss...

PUDUM TISSSSssssss…

Aniversários do 42.

Hoje[1] o 42. completa três anos marcianos! E, para melhorar ainda mais o clima, terça-feira nosso blog favorito escrito por mim no Scienceblogs completará 4 \sqrt{2} anos!

Primeira evidência física de aproximação de √2, já em preparação para este aniversário.

Primeira evidência física de aproximação de √2, já em preparação para este aniversário.

No começo deste ano, em 17 de janeiro, completamos 2e anos e, no primo seguinte, dia 19, alcançamos nosso tricentésimo-primo dia.

Dois primos mais tarde, inteiramos três anos áureos.[2]

Não é a lei, é a proporção.

Não é a lei, é a proporção.

Muitos aniversários ainda estão por vir este ano. Fiquem ligados!

———

[1] Contando a partir da separação do uôleo, meu mais antigo e mais aleatório.

[2] Já sob a tutela do Scienceblogs, após o fim do Lablogatórios.

Alguém me explica que Merd, ops, Nerdologia foi esse?

Como venho me dedicando aos livros em detrimento aos podcasts, venho marcando a passagem das semanas pelas quintas-feiras. Mais especificamente pelo excelente Nerdologia, escrito e apresentado por Atila Iamarino (sim, aquele do Rainha Vermelha).

O videocast é patrocinado, via de regra, pela Nerdstore (autoexplicativo) e, vez por outra, por alguma outra empresa fora do conglomerado Jovem Nerd (do qual o Nerdologia faz parte), mas nunca deixando de ser algo relacionado ao mundo neo-nerd, como videogames, computadores, esportes de ação (hein?). Exceto este último.

O episódio mais recente me pegou de surpresa. E me pegou num lugar inesperado. E privado.

Logo no comecinho, na primeira aparição do patrocinador, surge a imagem abaixo:

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Como a imagem aparece por menos de dois segundos na tela, li “hearing guardian” e achei que fosse algum tipo de protetor auricular. Sabe? Daquele que guard sua hearing? Pois. Não é.

No final, meio distraído (porque quando estou prestando atenção eu fecho o vídeo antes da propaganda começar), escuto uma voz diferente exclamando(sic): “Agora que você já sabe para que servem as suas células ciliadas, você pode exercitar as suas com o Hearing Guardian V1 da Biosom.”

Depois de recolher meu diploma do chão e recolocá-lo na parede, voltei para ouvir o resto. A propaganda alega que o produto Hearing Guardian V1 da empresa Biosom (sic) “é um software que ativa e movimenta as suas células ciliadas uma a uma, como se fosse um afinador de piano, deixando elas mais resistentes ao longo de sua vida”.

Eu até poderia discorrer sobre as propriedades fisiológicas dos estereocílios (o nome próprio das células que o software promete re-energizar reativar ressuscitar rejuvenescer exercitar) e fazer comparações do tipo “alegar que um programa pode exercitar as células do seu ouvido com estímulos sonoros é como tentar vender um massageador de períneo que promete deixar seus espermatozóides mais bronzeados, já que ambos prometem dar novas propriedades às celulas” ou ainda que dizer que isso vai deixar os estereocílios “mais resistentes ao longo da sua vida” é semelhante a propor que a pedra só é dura porque precisou aguentar, por anos a fio, as pancadas da água (que é mole pelo mesmo motivo, só que ao contrário).

Todavia, como sou formado apenas em engenharia de áudio, vou me ater aqui ao que vem escrito na fonte.

E sabe o que mais movimenta suas células ciliadas uma a uma? Barulho. Qualquer barulho. E isso para não falar nada sobre o fato de que elas não ficam isoladas, mas sim em feixes de várias ao mesmo tempo.

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria...

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria…

O locutor da propaganda diz, em seguida, que o software foi desenvolvido na Coréia do Sul e teve sua eficácia comprovada pelo Instituto Earlogic de Pesquisa da Coréia. Bom, a partir dessa informação impressionante de comprovação de eficácia, já posso passar para o site da empresa Biosom. Lá, me deparo com a temida seção “depoimentos” que todo pseudocientista adora, já que experiência pessoal é sempre mais importante que qualquer estudo bem feito com milhares de pessoas (agora, adivinha o que nunca tem nessas páginas? Um formulário de “escreva aqui o seu depoimento” ou algo semelhante). São oitenta depoimentos dos quais cinquenta e um (63,75%) agradecem à marca por uma melhora significativa do zumbido ou tinnitus. Mas isso só fica importante mais para a frente.

Em seguida, encontro a subseção “estudo“, onde se lê:

Vários estudos têm relatado que o condicionamento de som (ou seja, exposição prévia a sons de baixo nível) poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ruído traumático em um número de espécies de mamíferos, incluindo humanos.

Palavra-chave ali é “proteger”, correto? Como em português essa frase só existe nessa página e noutras apontando para ela (e não sei do que se trata coreano), catei em inglês até achar isto aqui:

“In addition to delaying progressive hearing loss, acoustic stimuli could also protect hearing ability against damage by traumatic noise. In particular, a method called forward sound conditioning (i.e., prior exposure to moderate levels of sound) has been shown to reduce noise-induced hearing impairment in a number of mammalian species, including humans.”

Isso eu achei no ClinicalTrials.gov, uma base de dados de estudos clínicos em humanos do Instituto Nacional de Saúde americano. Esse estudo deveria comparar a diferença de percepção entre tons puros, antes e depois da estimulação sonora. Pena que, mesmo tendo sido completado dois anos atrás, ele nunca apresentou os resultados.

Um dos links na seção “Outros estudos sobre a tecnologia” é este, igualmente sem resultados publicados.

Ambos, prepare-se para a surpresa, patrocinados pela Earlogic Korea, Inc., tendo como investigadores principais Eunyee Kwak, Ph.D. e Earlogic Auditory Research Institute, empresa que o locutor diz ter comprovado a eficácia do software. Volto já para a Earlogic, calma.

Procurando mais especificamente pelo resultado do ^estudo^ (aspas irônicas) na página da Biosom vejo que na Internet inteira (ou na parte alcançada pelo Google, pelo menos), não há uma só menção (fora, claro, o site da marca) que relacionasse “13,51 dB” com “P= 0.00049″ a um estudo sobre audição. Ou sequer a qualquer outra coisa senão o próprio texto.

Me interessando bastante o “vários” em “vários estudos têm relatado que o condicionamento de som poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ruído traumático”, fui atrás. Achei um bem interessante, este sim publicado (no Journal of Neurophysiology da American Physiological Society).

O teste mostrou que o condicionamento sonoro (em ratos, seis horas diárias) realmente melhora a resposta coclear. Exceto na faixa testada acima de 12kHz. Que é o que acontece com a idade, quando os agudos começam a morrer. Como se ela tivesse sido exposta a sons, como quem passou anos ouvindo (como os ratos que passaram seis horas diárias e consecutivas durante dez dias ouvindo o equivalente ao som de um liquidificador de 600W triturando cem gramas de gelo a uma distância de noventa e cinco centímetros, mais ou menos [1]).

O estudo acima diz que é possível melhorar (simplificando, porque a explicação toda envolve termos como “permanent threshold shift” e “high pass filter” que eu aprendi quando fui alfabetizado em inglês e estou com séria indisposição agora) a eficiência coclear. Sabe o que o estudo não diz? Aliás, sequer cita? Que essa macumba sonora cura tinnitus ou zumbido ou perda de audição. Que é no que os depoimentos do site se concentram.

Se eles dizem ter sido curados de seus zumbidos e a propaganda diz que a eficácia foi comprovada pela Earlogic, vamos agora para a Coréia do Sul (a boazinha da duas) conhecer de perto a empresa.

Procurando primeiro por Eunyee Kwak, Ph.D., vejo que ela é a diretora de pesquisa da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Na página da Biosom ela é constantemente associada a outro Kwak, Sangyeop. Este, descobri, é o fundador e presidente/CEO da Earlogic Corporation (link em PDF). Segundo seu currículo, Sangyeop não publica desde 2010.

Fuçando na publicações curriculares, tem o promissor “Hearing Improvement with Customized Sound Stimulation“, supostamente publicado na American Academy of Audiology. O problema é que a academia nunca ouviu falar desse trabalho.

Aliás, somente a Eartronic e sua irmã Earlogic (digo irmã porque o currículo Kwak está no fileadmin da primeira, mostrando que ele é dono da segunda) parecem saber dessa publicação.

Do também excitante Ameliorative Effect of Customized Sound Stimulation on Sensorinerual Hearing Loss, só achei o abstract na Association for Research in Otolaryngology. As demais supostas publicações do currículo são mais específicas da prática de otologia do que da de magia negr, ops, “condicionamento sonoro antecipado”.

Aprofundando-me mais ainda naquele(a) obscuro(a) fosso(a) de desinformação que é o site da Biosom, encontro a seção “curiosidades“, onde acho o trecho a seguir:

“O software foi baseado no nosso equipamento que se chama REVE 134 (…)”

O que é esse REVE 134? O produto vendido pela Earlogic, criado por Kwak.

Aliás, as passagens “Um aparelho auditivo auxilia os deficientes auditivos amplificando os sons externos. Ele não tem a função de uma terapia fundamental para perda auditiva” da Biosom e “According to the current hearing loss management, hearing aids is used to help hearing-impaired people hear better by amplifying external sounds.It is not a fundamental therapy for hearing loss and does not cure the damaged auditory hair cell.” da Earlogic são bem, digamos assim, traduzidas.

Na parte de “Perguntas frequentes -> Dúvidas sobre os efeitos do Hearing Guardian V1 -> Há provas da eficácia do software?”, podemos ler e confirmar o que o locutor da propaganda diz, que:

“(…) estudos do Instituto Earlogic de Pesquisas da Coréia do Sul e do Grupo de Pesquisa Tecnológica Adaptive Neuromodulation GmbH (ANM) da Alemanha comprovaram que a utilização da tecnologia adequadamente pode recuperar em até 10dB a audição perdida no prazo de duas semanas, podendo assim diminuir sintomas decorrentes da perda auditiva, como zumbido e dores de cabeça.”

O produto Hearing Guardian V1, que também responde por REVE 134, foi desenvolvido pela Earlogic, aquela lá do Doutor Quack – ops, Kwak (hoje estou especialmente disléxico, que diabos!), mesma empresa (ou “Instituto”, como eles anunciam) que ^provou a eficácia^ do próprio produto em ^vários estudos^ nunca publicados.

O método descrito no ^estudo^ do site da Biosom usa um certo tom “a um nível mínimo audível” (o que nós, detentores de um diploma basicamente inútil, chamamos de “limiar de audição”). Bem diferente do som de liquidificador do estudo realmente publicado! O ^estudo^ com 17 voluntários (!) publicado no site é uma tradução do “The Effect of Sound Stimulation on Pure-tone Hearing Threshold” que o ClinicalTrials.gov diz não ter sido completado (última atualização em 7 de setembro de 2011) enquanto a Eartronic (irmã da Earlogic) publica uma versão atualizada dia 7 de janeiro de 2011 (PDF). Huuum…

E todos, todos os estudos, reais ou não, sempre dizem que o treinamento sonoro melhora a percepção de alguns tons ou ajuda a proteger contra lesões traumáticas. Nenhum deles cita zumbido/tinnitus ou restauração de audição perdida. Essas alegações só aparecem nas propagandas, subrepticiamente sempre conectada a “vários estudos” ou “teve sua eficácia comprovada” usando testes que nunca disseram coisas do tipo. E isso é propaganda enganosa, desonestidade intelectual e falência moral.

Não posso dizer que me decepcionei com o Nerdologia, visto que seu conteúdo continua sendo muito bom, além do programa ser bem produzido. O que posso afirmar é que o locutor do anúncio não pode dizer que o software teve sua eficácia comprovada. Especialmente tendo o público-alvo que tem. Mais ainda quando um deslize desses pode sujar a reputação de um cientista de verdade. Mais especificamente quando se trata de um amigo meu.

Agora durma com esse barulho.

———

[1] Segundo meu decibelímetro e minha fita métrica.

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam não necessariamente por email. Achar posts, imagens, tuítes, vídeos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso não é difícil. O difícil é confirmar a veracidade das informações antes de sair por aí espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alegações são, via de regra, as seguintes: as moedas falsas são mais leves, não brilham como as verdadeiras, não são atraídas por ímãs, os detalhes são grosseiros, a falsa é “mais oval”, o tamanho dos detalhes “são um pouco maior, pouca coisa, mas são!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que não significa que não estejam todos certos, visto que não existiria só um falsário fazendo moedas sempre no mesmo padrão. O problema aqui é, como muitos outros problemas na vida, ignorância dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, você me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo é uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

É como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois é, ambas são joaninhas). Se você supõe previamente que uma delas é falsa, você vai concluir que uma delas não é uma joaninha. Não porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contrário da primeira, é sim uma aranha disfarçada) ou outra espécie de inseto, mas porque você chegou a essa conclusão antes de obter dados suficiente para qualquer conclusão, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso é comum em apologistas de pseudociências como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles já começam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X é geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles não entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contrário). Os que são um pouquinho mais dispostos da cabeça (e não pegam toda informação acerca de sua religião prática exclusivamente através de um blog escrito todo em maiúsculas e negrito) até se dão ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas já tendo certeza de que, digamos, exercício e dieta balanceada não funcionam, pois o que funciona é só sua religião prática e só pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religião prática. No artigo tem algo como “mas certas pessoas têm problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARRÁ! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL ESTÁ ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabeça de Rorschach. No caso da pseudociência ela precisa não ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detectável por qualquer instrumento que não minha própria fé e precisa ser algo que não me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que é certo é a moeda que eu “sei” que é verdadeira. Como a outra não se enquadra nas categorias arbitrárias pré-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circulação moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modificações em suas características físicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na prática, as modificações na moeda de R$0,50 – de disco prateado – e na de R$1,00 – de núcleo prateado e anel dourado – são pouco significativas. Além de apresentarem pequenas alterações de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. Já os desenhos de ambas não sofreram nenhuma modificação.

E, saca só!, nem cuproníquel e nem alpaca (liga de cobre, níquel e zinco) são ferromagnéticos e, como tal, não são atraídos por ímãs. São também ligas mais maleáveis que aço, ficando mais propensas a riscos e pequenas deformações. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, são ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na República ou pé-de-galinha no Barão de Rio Branco é prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil é um país vagabundo e vira-lata, que acha que é primeiro mundo e cunha moedas de cuproníquel/alpaca mas não tem sequer condições de recolher moedas que já circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cuproníquel/alpaca depois de apenas três anos porque eles são caros demais e o custo não é compensado pelo valor irrisório da face. [3]

Mas o Brasil é um país rico! E auto-hemoterapia cura câncer! E shiatsu tem comprovação científica! E homeopatia não é só água e açúcar! E o PT é diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” são apenas aço-inox pintado. Cobre (matéria-prima do bronze, do cuproníquel e da alpaca) é caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes públicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher capôs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso – talvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensação de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da população que nunca leu uma só linha de Sir Doyle e não sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por aí acusando alguém de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mistérios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

Categorias

tempo

julho 2014
D S T Q Q S S
« mai    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

espaço

Locations of visitors to this page

desfrute e compartilhe

Creative Commons License
Esta obra de Igor Santos é licenciada sob Creative Commons by-nc-sa.

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM