Resenha – O Vilarejo

“Ele recua, rejeita, mas é obrigado a aceitar os nacos de batata. Mastiga-os. Há pequenos pedaços de vidro, que cortam sua língua e ferem a garganta.”

Sim, O Vilarejo é desses; ou você gosta, ou evita. Raphael Montes escreve páginas literalmente (mais ou menos) sujas de sangue, narrando a (pouca) vida dos protagonistas mais odiáveis desde a Enfermeira Ratched, de forma despudorada e sem maquiagem. Como Mikhail[1] prefere.

Supostamente traduzido por um leigo a partir de um caderno escrito numa língua morta, o livro é muito bem preparado e a atenção a detalhes é excelente, chegando ao ponto de dispor de algumas palavras usadas de forma incomum, como algo que foi traduzido de uma língua morta por um leigo. Sei como é.
O volume conta sete estórias (ou oito, se contarmos a meta estória do próprio livro) de terror que variam do surpreendente ao merecido, passando por várias sensações que incluem “subir um gosto ruim à boca”.[1]

Cliquem aqui para visitar a página da editora.

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É um livro curtinho, bom de ler duma vez só e, de preferência, perto da hora de dormir. Não garanto pesadelos mas vai que você tem uma alucinação hipnogógica no caminho, né?

Como eu disse recentemente no Twitter, se tivesse lido este livro aos quinze anos, ele teria mudado a minha vida. Mas agora que já li Lovecraft, Poe e os livros pesados de Asimov (alô, Nightfall, lembra de mim? Chorando no canto em posição fet.., isso!) só me resta admirar o lido do rapaz que, apesar de ser comparado a Stephen King na capa do livro me soou mais como L. Ron Hubbard pré-cientologia (Fear é uma boa estória e deve ter num sebo perto de você, visto que os fiéis são “incentivados” a comprar o único livro do “profeta” a fazer sucesso crítico entre os colegas à época). É um weird fiction de horror semi-histórico. Isso existe? Por que não?

O livro é bom, eu recomendo. Só não sei para quem porque, sinceramente, não sei qual a idade-alvo. É como eu disse lá em cima, ou você gosta, ou evita.
Eu gosto.

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[1]Um dos personagens do livro. Trigger alert, by the way.

Resenha – A Inovação Destruidora

“[E]ssas democracias (as liberais) são os únicos regimes políticos conhecidos até o dia de hoje que não apenas autorizaram, mas até mesmo favoreceram a emergência de correntes sindicais ou políticas com a finalidade última de derrubar essas mesmas democracias!”

Soa atual? Enquanto de um lado temos um regime cuja última função parece ser sua própria manutenção e de outro enfrentamos manifestações como a Micareta do Ódio que ocorreu domingo, dia 16 deste, como nos safaremos desta enrascada?
Luc Ferry, filósofo francês contemporâneo, dá a resposta: em A Inovação Destruidora (Editora Objetiva, que me cedeu o volume para fins de resenha :]) ele mostra como, inevitavelmente, a única forma de progredir após um período de estagnação é passar por um minicaos, uma destruição que nos levará, enfim, a dar um passo à frente. Não uma destruição inovadora, mas uma inovação destruidora (a ordem das palavras faz diferença, pense um pouquinho). Um Kadinsky e um Schoenberg que tornam possível a existência de Star Wars, District 9 e Fury Road (e, por que não, Avengers).[1]

inov

A resenha do excelente Mortais, de Atul Gawande, você lê no Salada Livros e a biografia de Oliver Sacks ainda está sendo disputada lá em casa mas sai já já também.

Segundo Ferry, o que irá nos salvar não é a diminuição ou austeridade, mas a inovação. Embora seja uma força desestabilizadora para o mundo e, ao mesmo tempo, destrutiva, a inovação é vital (e assustadora). É buscando a resolução desse paradoxo que evoluimos socialmente. É demitindo funcionários das montadoras de automóveis em prol de robôs que criamos as condições para o aumento real da riqueza e a invenção do smartphone barato. É exatamente como a evolução natural de certos traços que são ruins para o indivíduo porém ótimos para a espécie.

Luc Ferry é ferrenhamente opositor ao movimento ambientalista. No entanto, ele põe os “ambientalistas” que são contra OGM só porque “natural = bom” e “não-natural = do demo” no mesmo saco daqueles, infinitamente mais responsáveis, que tentam demonstrar que aquecimento global não só é real como está sendo acelerado por mãos humanas. Ele, analogamente, é contra “ambientalistas” da mesma forma que a nossa classe econômica e socialmente privilegiada é contra “esquerdistas”. Fora isso, que me incomodou um pouco, Ferry discorre sobre teorias econômicas com as quais (parcialmente) concordo.

“No século 19, mesmo as mais audaciosas utopias não chegam – em matéria de liberdade dos costumes e de justiça social – aos pés do que as democracis europeias – apesar de todos os seus defeitos e crises que se quiser evocar – nos oferecem na realidade.”

A Inovação Destruidora é um livro bom para quem se interessa por arte e gosta de se questionar (vá por mim; pode ser um livro sobre filosofia social mas do que mais trata é arte). Ele escreve para a França, do seu ponto de vista parisiano. No entanto, salvo raros detalhes, poderia ter sido escrito por um baiano, ou uma capixaba, ou 1 amapaense. De tanto se preocupar com globalização, Ferry traça um conto que se expande além de oceanos e idiomas.

É curtinho, dá para ler em uma tarde. Demorei para resenhar porque havia escrito, em uma semana, um texto bem mais complexo e entediante que foi, hoje de manhã, apagado completamente em prol deste, bem melhor. Influência do livro? Talvez. É literalmente impossível saber.

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[1]Pensem bem. Sem a desconstrução da arte abstrata de Kadinsky, não existe H.P. Lovecraft nem H.R. Giger (até mesmo super-heróis dependem dessa mudança de paradigma onde deixa de existir apenas o homem comum); se a dissonância jamais tivesse sido apresentada como algo normal (e não-demoníaco) por Stravinsky, não existiria trilha sonora de cinema e Matrix teria que ter uma música de John Williams (este, por sua vez, já é uma quebra da quebra, um retorno à forma antiga e esta discussão é infinita, então paro aqui) e Muse não existiria porque distorção em guitarra seria impensável e Jimi Hendrix teria envelhecido tocando sanfona de cueca. Também não existiria dubstep que é bom sim cale a boca você que envelheceu e não se deu conta e depois eu que sou ranzinza texturas ouças as texturas.

Quem disse que animais não gostam de fogos de artifício?

Numa matéria (porcamente mal escrita, preciso avisar) publicada em 8 deste, o jornal sorocabano Cruzeiro do Sul informa do banimento (nem tanto, é apenas uma notícia já velha, retificando uma notícia errada do dia anterior, de que a prefeitura local deixou oficialmente de se valer) de fogos de artifício alegando o bem-estar dos animais.

Em setembro do ano passado, o portal G1 publicou algo semelhante mas mais especificamente voltado para a proibição, em municípios do Tocantins, durante a campanha eleitoral devido ao risco de incêndios. No entanto, a matéria também cita desconforto em animais.

Foto por: Andy Wilkes

Foto por: Andy Wilkes

Mas será que os fogos de artifício (rojões, foguetes, bombas, traques, bichas, bujões, peidos-de-véa e demais variantes regionais) realmente, causam desconforto em animais? Ou, como alega o Cruzeiro do Sul (sic): “[A]ssustam as aves e outros animais que mudam o comportamento, alterando a rotina”?

Será que os animais se importam tanto assim? Quer dizer, alguns deles até se importem, mas o que eu noto durante a época junina (que vai do Dia de Santo Antônio até o Dia de São Pedro e não sei se isso se aplica a outras regiões não-nordestinas) é que a queima indiscriminada e desnecessária de imensos volumes de madeira por indivíduos despreparados para lidar com possíveis consequências é uma prática comum, conhecida e incentivada (sem falar nada da “brincadeira” infantil de pular a fogueira já perto do fim da festa, quando todos os adultos já estão devidamente quentãozados e ainda menos capazes de intervir e/ou socorrer) e que continua firme e forte, sendo levada adiante geração após geração pela mesma subespécie de animais cuja rotina é justamente a de criar um ambiente sujo tanto auditiva quanto atmosfericamente (visto que não adquiriram evolutivamente[1] capacidade cognitiva adequada para identificar quando estão incomodando) e cujo comportamento subumano continua inalterado há milênios. Pois não há nada melhor que uma celebração europeia pagã (a chegada do verão, representada pelo solstício), reforçada pelo uso de dispositivos orientais para o afastamento de maus espíritos (fogos barulhentos e coloridos) e abastecida por rituais indígenas pré-colombianos (o alto consumo de milho, representando a fartura do nosso solstício de inverno), para reacender a paixão dos católicos pelas fogueiras e manter queimando a certeza prepotente de que o que eles fazem é sagrado e blindado a críticas ou reclamações.

Pessoas que enchem a boca e estufam o peito ao declarar que o Brasil é o maior país católico do mundo[2] são as mesmas que estão agora segurando a calcinha/cueca nos dentes de ódio de mim (e seriamente pensando num bom uso para as fogueiras acima mencionadas). Ora, se ateus deveriam trabalhar no natal (ou hoje, que por algum motivo que me escapa foi feriado para mim e para toda a Justiça do RN), então por que católicos quereriam negar a origem 100% católica desse espetáculo medieval de adoração à destruição primitiva, irracional e inconsequente que tem seu maior palco precisamente nas áreas mais atrasadas (socialmente) do país mais atrasado (culturalmente)? Aliás; qual outra razão existiria para justificar tal comportamento? Ao que tudo indica, o homo erectus foi extinto ainda no médio paleolítico!

Foto de fonte duvidosa

Foto de fonte duvidosa

Uma coisa, porém, não posso negar: admiro grandemente essa confluência multicultural de religiões naturais e sobrenaturais europeias com pitadas do misticismo oriental e rituais incas/maias. Se ao menos tivessem tido tempo para evoluir um pouco essa mentalidade mágica que, apesar de claramente proibir a adoração de ídolos e outras divindades, abre vastas exceções para estátuas, folhetos, templos e comemorações à memória de sub-deuses e seus poderes santificados que, sob encomenda, fazem desde uma pessoa se pré-apaixonar por outra premonitoriamente através de uma faca enfiada numa bananeira ou gotas de cera quente pingando numa bacia até abrir as portas de um pós-vida que, não obstante ser eterno, não é infinitamente sem graça e entediante.

Então, até talvez os animais silvestres e de estimação (como bem frisou o G1) sejam perturbados pelas luzes, pelo barulho e pela fumaça junina, mas creio convictamente que, aos animais que fazem uso dos explosivos (sob os auspícios de uma justificativa hermeticamente neolítica), a queima de fogos e sua eventual cota extra de poluição visual, sonora e atmosférica faça até bem.

Ah! E por falar nisso: vá doar sangue. Você tem mais do que precisa e esta época do ano é ideal para alguma criança perder um dedo ou um olho ou pelo menos parte da pele.

Retirada da Wikipedia

Retirada da Wikipedia

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[1] Que são animais é indiscutível, mas não posso dizer que tal conjunto de características é uma espécie de retardo pois precisaria supor que criaturas desse tipo teriam um potencial refinado que lhes foi negado por alguma circunstância. Eles são realmente prejudicados ontogenicamente, desevoluídos e retrógrados.

[2] Noção duplamente errada, tanto absoluta quanto percentualmente, visto que 100% da população do Vaticano é católica e o fato do México ter mais ou menos cinco milhões a mais de católicos na população geral que nós. Ufa! Menos uma vergonha para este país de quinta.

“Homeopatia é remédio”

Recentemente, uma leitora (ou espectadora, mais especificamente) do 42. me convenceu, via email, de que homeopatia funciona.

Vou reproduzir aqui (sic, sempre lembrando) os argumentos dela para que vocês também sejam convertidos.

[nota: eu estava de férias e, mesmo com um assunto tão chamativo que claramente (conhecendo os apologistas que se dão ao trabalho de me alcançar por correspondência eletrônica) haveria de ter sido tão bem pesquisado e argumentado, aguentei bravamente e deixei para ler o email quando voltasse ao ritmo normal de vida.]

16/05

De: Suzane [[email protected]]

Assunto: Homeopatia é remédio

Achei você bobão de tudo com aqueles vídeos da homeopatia.
Pra você ver que a homeopatia funciona, quando estiver com caganeira beba o Arsenicun Albun pra ver que cura, a não que ser que esteja com algo grave no intestino.
Minha filha que bebia antibiótico todos os meses pra dor de garganta, passou 13 anos sem tomar, pois quando tinha dor de garganta usava essa fórmula; Beladona, Mercurio solb.e Barita Carb.
A homeopatia não é milagrosa, é remédio e tem que tomar com perseverança.

Os vídeos aos quais ela se refere são os da minha overdose homeopática e meu vídeo-diário de sintomas.

Abaixo, minha resposta, no início de junho:

Pois é, remédio não precisa de perseverança. Homeopatia precisa porque, no fim das contas, dor de garganta se cura sozinha enquanto você está se enganando e pondo sua filha em risco de algo mais sério acreditando em bruxaria.

E, finalmente, agora há pouco, chega em minha caixa de mensagens sua réplica inescrupulosamente impenetrável impressionantemente inteligente, idioticamente inescusável instigantemente inescrutável, intragavelmente insípida incrivelmente inspirada, imbativelmente incompreensível intrinsecamente inédita, indescritívelmente impenetrável intrigantemente imaculada e inescrupulosamente ideológica impositivamente imparcial da correspondente imberbe?:

16/06

De: Suzane [[email protected]]

Assunto: Homeopatia é remédio

Igor
Tenho pena de ti!
Esses dias ainda li, um cara achando um absurdo que a homeopatia tem remédio feito de veneno de cobra.
Eu disse pra ele: Boboca que não sabe de nada, o capotril que tu bebes que não é homeopático, pra pressão alta também é feito de veneno de cobra.
Mas num país que o médicos não dão valor na alimentação, o povo tem que ser doentão da cabeça e não confiar na homeopatia.

E pronto! Bastou isso para me converter à religião prática charlatã curativa da homeopatia.
Viu? É assim que a ciência funciona. Bons argumentos, apresentados de forma clara, preferencialmente por email, provando que homeopatia funcio.., opa, o que é isso?

Mil e oitocentos estudos mais tarde, cientistas concluem (mais uma vez) que homeopatia não funciona.

De acordo com a Revista do Smithsonian:

“Talvez você lembre de quando os cientistas desbancaram a homeopatia em 2002. Ou 2010. Ou 2014. Porém, agora um grande estudo australiano, analisando mais de 1800 trabalhos mostrou que homeopatia (…) é completamente ineficaz.

“Após avaliar mais de 1800 estudos sobre homeopatia, o Conselho Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde Australiano (NHMRC) conseguiu achar apenas 225 que eram bons o suficiente para analisar. E uma revisão sistemática desses estudos revelou “nenhuma evidência de qualidade que apóie as alegações de que homeopatia é eficaz para tratamentos de problemas de saúde”.”

Aqui o link (PDF) diretamente para o estudo do NHMRC: Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions.

Hum. E agora? Em quem eu confio? Numa análise sistemática de quase dois mil trabalhos feitos por uma instituição de boa reputação envolvendo centenas de profissionais qualificados que comprova que algo física, química, farmacológica e biologicamente impossível não funciona ou na opinião semi-inteligível de uma anônima da Internet que mal sabe usar pontuação, que me acha um “bobão de tudo” e que tem pena de mim?

Hum...

Hum…

Resenha – Serial Killer – Louco ou Cruel?

Olá, caros leitores. Estavam sumidos. O que aconteceu com vocês?

Que interessante! Bom, chega de falar de vocês, calem a boca e me escutem um pouco para variar. Aff…

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Na minha infinita busca por algo que me entretenha enquanto me informa, recebi (pedi, na verdade) da Ediouro o livro de Ilana Casoy sobre matadores em série e, assim que o recebi, não quis largar o pacote. Infelizmente, minha mulher é mais esperta e retirou o livro da embalagem sem que eu notasse (caixas me fascinam, sou como um gato assim) e se prestou a ler o volume antes que eu pudesse protestar.

Como eu rapidamente me ocupei com outra coisa (novamente, como um gato), ela leu e escreveu uma resenha que apresento a seguir (ela tirou o livro de mim, eu tirei a resenha que iria para o Tumblr dela. Nada mais justo).

(Nota do editor: a boneca na foto ao final do texto não é minha. Eu jamais teria uma boneca Monster High. Prefiro brincar com miniaturas.)

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Serial Killer – Louco ou Cruel?

(Ilana Casoy, 2ª Edição, Ediouro)

A brasileira Ilana Casoy se formou em administração de empresas porém acabou mergulhando no estudo da mente criminosa. Mesmo sem ter formação em Direito, Medicina ou Psicologia Forense, hoje é considerada especialista no assunto e atua como consultora da OAB/SP, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Hospital das Clínicas de SP, bem como auxilia diversas Polícias na elaboração de perfis de criminosos.

Serial Killer – Louco ou Cruel? é o primeiro dos quatro livros da autora e foi relançado em 2010 pela Ediouro, que teve a gentileza de nos enviar um exemplar.

Na fase introdutória, Ilana faz um resumo didático e bastante acessível ao leigo sobre as teorias que tentam explicar o que leva uma pessoa a praticar atos hediondos em série, os diferentes padrões psicológicos dos criminosos, o ciclo vicioso com que os crimes no geral se processam, a capacidade de simulação do indivíduo para “envernizar-se” e viver em sociedade sem que ninguém desconfie de seus atos e as características comuns à infância de muitos deles, bem como o fato de que eles são, em sua maioria, brancos.

Não existe uma teoria que sozinha explique satisfatoriamente as ações de um assassino em série, e é digno de nota ressaltar que a autora nem se deixou contaminar pelas teorias dos defensores da tábula rasa, tampouco por teorias de determinação genética pura e simples. Não se pode, do ponto de vista científico, afirmar que uma pessoa nasce com o destino selado porque conta com uma carga genética X pois a qualidade dos relacionamentos interpessoais e as experiências psicológicas que a pessoa acumula ao longo da vida, ainda que não necessariamente mudem sua personalidade, podem atenuar ou moldar seu caráter violento. Ela se mostra muito mais preparada do que muitos professores universitários brasileiros.

Há psicopatas que escolhem, por exemplo, cursar Medicina e se especializar em cirurgia, outros que se encaminham para os crimes de colarinho branco sem chegar perto de uma gota de sangue durante toda a vida, outros que apenas vampirizam financeiramente a família e os criminosos de diversas naturezas. Os psicopatas estão por toda parte. A menor fatia deles, felizmente, age como os que Ilana coletou em sua obra.

Muitas pessoas adeptas da crença que descarta o biológico e defende que o homem é apenas produto do seu meio esquecem que a maioria das pessoas que sofreu abuso sexual nunca se tornou molestadora de crianças ou assassina em série e esquecem o principal; que adultos psicopatas que alegam passado de abuso no geral apontam que foram molestados de modo sistemático pelo pai, pela mãe, por tios ou avós. Os abusadores do passado destes psicopatas não só doaram a sua carga genética como também acionaram o gatilho para que a infância do serial killer se transforme na perfeita incubadora para o mal latente. De um lar desestruturado para uma inadequação social é um pulo.

O livro é interessante do começo ao fim. Cinco dos dezoito assassinos seriais retratados, como Ed Gein que inspirou ‘Psicose’de Hitchcock, ganharam uma descrição bem romanesca e diferente do relato algo jornalístico dos outros casos, porém sem qualquer tipo de apelo à compaixão do leitor em favor do assassino. É preciso reforçar que embora a imputabilidade seja algo relevante durante o julgamento, o fato é que indivíduos que praticam crimes hediondos em série não podem recuperar sua liberdade, seja através da permanência em casas de custódia ou de prisão perpétua ou pena de morte, de acordo com a legislação de cada país. Aqui no Brasil ainda se consegue manter alguns indivíduos de alta periculosidade em casa de custódia, mas às custas de um trabalho silencioso pois sempre há pressão para que o indivíduo, por mais cruel que seja, ganhe liberdade.

Apesar de não ser um livro técnico (nem ter a pretensão de ser), em minha opinião é leitura obrigatória para Policiais, Promotores, Médicos, Psicólogos, Advogados e Juízes. Muitos dos erros da nossa Justiça hoje, como soltar um criminoso perigoso só porque ele tem bom comportamento na cadeia, foram cometidos no passado em outros países e resultaram na perda de vida de muitas pessoas. No emblemático caso de Arthur Shawcross, que foi solto pelo Juiz por bom comportamento mesmo diante de vários pareceres médicos desfavoráveis – o que é revoltante -, mais onze pessoas morreram.

Um pedófilo que molesta crianças pode ser um cidadão modelo, um trabalhador dedicado em sua profissão, frequentar Igreja e fazer trabalho voluntário, e na cadeia se comportar como um Lorde Inglês, porém isso não muda em nada o fato dele ser incapaz de parar de molestar crianças sempre que tiver oportunidade.

O Brasil simplesmente não consegue entender isso e a cada natal temos mais pessoas mortas, estupradas, agredidas e assaltadas por causa do indulto natalino. E como se não bastasse, ainda temos a figura legal aberrante do semi-imputável, uma piada sem nenhuma graça.

Outra lição interessante que podemos extrair dos estudos de Ilana é que algumas Polícias costumam revistar a casa e fazer alguma devassa nos antecedentes dos assassinos quando estes são presos por crimes banais. Muitos sociopatas criminosos em série foram pegos assim, após furtarem uma conveniência saindo sem pagar ou fraudarem cartão de crédito, pois são mais cuidadosos quanto mais grave é a ofensa. Isso deveria ser rotina no Brasil. Quantos assassinos e estupradores entraram na cadeia por um crime bobo e saíram em poucos meses?

Todo mundo mente. E quando essa pessoa é um assassino em série essa regra é ainda mais forte. Médicos são educados sem capacitação para diagnosticar simulação e essa capacidade só vem com a prática que leva à busca de dados extra-médicos, de evidências circunstanciais que apoiem o raciocínio médico. A qualidade da Assistência Técnica ao Juiz foi bem ilustrada no caso de Dennis Andrew Nilsen, o serial killer ‘carente’. Os dois médicos que o avaliaram criaram uma série de teorias mirabolantes totalmente desconectadas dos fatos já documentados à época e enquanto eu lia as ideias dos colegas quase arranhei meu próprio rosto pensando que o criminoso havia se safado. Andrew trabalhava todos os dias em dois expedientes, mantinha rotina regular, cuidava de um animal doméstico e descreveu detalhadamente todos os seus crimes e mesmo assim um dos psiquiatras afirmou que ele teria “brancos” ocasionais como se fosse uma esquizofrenia que vai e volta, sugerindo imputabilidade! O terceiro parecer, que foi emitido por um Médico Legista, concluiu que o criminoso era um exímio manipulador.

Muitos dos dados de entrevistas acerca da infância dos criminosos não resistem a um detalhamento mais técnico, bem como as alegações das suas motivação para os crimes. Uma assassina em série que escolheu matar homens de meia idade foi mudando sua versão da história calculando os riscos, porém quando estava no corredor da morte disse que estava cansada das mentiras e confessou mais um crime, para o qual não havia sido julgada.

As mulheres são minoria entre os assassinos em série. A autora mostra a lista de mulheres executadas nos EUA desde 1976 e a das que estavam no corredor da morte até 2007. Além disso, ela também inclui um apêndice com alguns nomes apelidos de criminosos de todo o mundo e algumas frases famosas.

E, como ‘faixa bônus’, Ilana coloca o famoso caso do ‘Zodíaco’, sem resolução até hoje e que inspirou filmes, livros e seriados.

Recomendo a leitura.

Agora me responda: você é a favor da pena de morte? Por quê?

Não tem opinião formada? Sugiro que para ilustrar seu brainstorm leia os casos de Andrei Chikatilo e de Edmund Emil Kemper III.

Abraço,

M.

serial-killer-ilana-casoy

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Serial Killer – Louco ou Cruel?, de Ilana Casoy, pode ser adquirido diretamente na página da Ediouro ou, se você é do tipo que ainda sai de casa, em livrarias.

Até mais. E não sumam novamente.

Resenha – E Se?

“É provável que bifes sobrevivam ao romper a barreira do som. Se o bife estivesse só parcialmente congelado, ele iria se estilhaçar muito fácil. Contudo, se ele aterrissar na água, na lama ou em folhas, talvez fique ok.[1]

Plasma incandescente, petabits por segundo, gotas de chuva de um quilômetro de diâmetro, escala Richter negativa, cozimento gravitacional, quantos mortos existem no Facebook, o sinal UAU! e um secador de cabelos indestrutível. Este livro é, sem sombra de dúvidas, o meu filão.

Sem se manter numa mesma linha de raciocínio por mais de dois parágrafos, Randall Munroe, autor do sempre (estatisticamente) excelente XKCD, responde perguntas hipotéticas (e algumas aparentemente nem tanto) de seus leitores com um rigor científico encontrado apenas nas mais bem conceituadas instituições de publicação de webcomics. Afinal, apesar de ser roboticista, Randall é um cartunista humorista (ou “roboticisto”, “cartunisto” e “humoristo”, como o jornalisto Jô Soares acredita ser correto).

Foto do autor

Foto do autor

Um dos melhores capítulos é o que fala sobre o que aconteceria com a órbita terrestre se todas as pessoas se juntassem num mesmo lugar e pulassem ao mesmo tempo. E não digo isso porque o Scienceblogs é citado (é a matriz, afinal, mas está valendo) mas pela reviravolta épica que me pegou de surpresa. Pensamento lateral daqueles que caem para fora da página. E ainda me lembrou um texto épico meu.

Um livro extremamente divertido, fácil de ler (para mim foram três ou quatro horas de pura empolgação) e de acompanhar (as contas mais pesadas ele guarda para si e não “mostra o trabalho”, só dá a resposta). Divulgação científica de primeira com inúmeras piadinhas discretas espalhadas por todo lugar (incluindo no verso da folha de rosto que, quando trabalhei num jornal, chamavam de “serviço”) que certamente causarão gargalhadas em quem as encontrar dentre as 300 e poucas paginas.

Eu achei muito erro de tradução[2] e até alguns de gramática (e uns mistos, como muito uso de vírgula que sobrou do original mesmo não existindo em português). Mas não acho que a maioria das pessoas realize ou se incomode, com essas coisas.

e se

A minha cópia é da primeira edição e tem uma diagramação esquisita no inicio, onde um mapa com os oceanos do mundo esvaziados ficou praticamente sem África e Europa, que se perderam dentro da lombada. Mas, como sou gente boa, eis aqui o desenho original.

Em E Se?, lançado aqui pela Companhia das Letras, você também vai descobrir uma nova solução para a máxima do copo meio vazio, quanto custaria morrer num quebra-molas e, com a ajuda de girafas empilhadas, como uma criança de cinco anos pode destruir a lógica de um físico e a força de um arremessador profissional.

Minha cópia me foi enviada pela editora, mas é o tipo de livro que eu compraria sem hesitar. Recomendo fortemente para você que lê o 42. e não volta para casa com confusão mental. E, se você é fã do XKCD, nem sei porquê está lendo isto.

Ah, e para quem estiver lendo isto a tempo e precisar saber até sexta-feira:

Sweet.

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[1] Intacto, no caso. Não ok para comer.

[2] Porém, preciso parabenizar o tradutor que teve a ideia de traduzir “flyover state” para “estado janelinha”. A melhor manobra tradução que vi desde que “blaster” virou “explosor” nos anos 70.

Resenha – Raízes do Brasil

“A falta de coesão em nossa vida social não representa um fenômeno moderno. E é por isso que erram profundamente aqueles que imaginam na volta à tradição, a certa tradição, a única defesa possível contra nossa desordem.”

Lançado seis anos antes de Formação do Brasil Contemporâneo, este livro é uma das bases para a compreensão do nosso país. De onde veio? O que come? Como sobrevive?

O historiador Sérgio Buarque de Holanda descreve a situação que nos criou; da falta de hierarquia e “frouxidão da estrutura social” até a formação e longevidade das oligarquias que conhecemos muito bem hoje.

Os problemas, que começaram em Portugal mas que hoje já são bem nossos, explicam muito sobre nossa herança social e o motivo por sermos tão diferentes de países com a mesma idade do nosso (Estados Unidos) e até consideravelmente mais jovens (Austrália).

raizes

O volume mostra um pouco como a nossa escravidão (que acompanhou a plantação de cana-de-açúcar que foi escolhida porque tínhamos espaço demais para aproveitar) moldou os rumos das relações entre populações urbanas e rurais séculos depois e detalha as diferenças das mentalidades das maiores potências da época (Portugal e Espanha) e como isso dificultou a formação de uma personalidade brasileira.

[O] aparente triunfo de um princípio jamais significou no Brasil mais do que o triunfo de um personalismo sobre o outro.

É um livro fascinante realmente. Eu pensei em incluir algumas frases excepcionais mas percebi que estava sublinhando o livro inteiro. Qualquer página onde o livro for aberto vai ter uma excelente frase que é tão verdade hoje quanto era oitenta anos atrás.

Começa meio lento por causa da linguagem mas rapidamente você se acostuma com o passo e o mundo se abre ao seu redor. É um livro razoavelmente curto (cento e cinquenta páginas de texto propriamente holandiano) com uma leitura agradável.

“É inegável que em nossa vida política o personalismo pode ser em muitos casos uma força positiva e que ao seu lado os lemas da democracia liberal parecem conceitos puramente ornamentais ou declamatórios, sem raízes fundas na realidade.”

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, relançado pela Companhia das Letras (com Abaporu virado pro lado errado na capa) e a venda em casas do ramo. Recomendo (especialmente para mostrar, ao contrário do que a escola nos ensina, que História pode ser interessante).

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A frase que abre esta resenha e demonstra a ideia nada nova e apropriadamente ultrapassada de que “antigamente era melhor” se torna um tanto quanto comicamente irônica ao longo do livro, salpicado de citações não-traduzidas em francês, espanhol, italiano e, a mais esquisita, uma em latim retirada de um livro em alemão.

É bem estabelecido que “hoje” é sempre a melhor época para se viver, independente de quando esse “hoje” se encontre, mas parece que antigamente o pessoal era mais poliglota.

Buscas e nível de escolaridade

Acho interessante como minhas buscas vão aumentando de escolaridade ao longo do tempo, à medida que o nível de complexidade das respostas não me satisfaz.

Para um post vindouro, preciso saber a influência do calor na quantidade de cafeína em uma xícara de café. Comecei hoje cedo com “quanta cafeína numa xícara de café”, mudei para “cafeína quente” e passei para “quantidade cafeína calor”, lendo blogs de consumidores.

Em seguida, mudei o idioma e fui para “coffee caffeine quantity” e “caffeine heat influence” e fui parar em blogs de baristas.

Segui com “caffeine milligrams heat” e li páginas de produtores. Mas ainda sem descobrir o que quero.

trimetilxantina-42

Agora já estou procurando por “caffeine availability +extraction +methods” e “pharmacological objective measurements of heat acquired trimethylxanthine” e lendo PDFs de universidades.

Próximo passo é comprar papers com títulos como “1,3,7-Trimethylpurine-2,6-dione adsorption models” e “Gas Chromatography Time-Of-Flight Mass Spectrometry-Based Metabolomics for Comparison of Caffeinated and Decaffeinated Coffee in the Role of Adenosine Receptors and Endogenous Adenosine in Citalopram-induced Inhibition of PKC-dependent Extracellular Ca2+ Entry”.

Ainda não achei o que quero, mas já sou especialista em absorção de glicose durante exercícios de baixo impacto e conheço a fundo a permeabilidade passiva microfluidica usando interface de gotículas nanolítricas em bicamadas de lipídios, por algum motivo.

Aniversários do 42.

Hoje completam-se 2π anos que blogo.

Não é bem esse tipo de “2 pi anos”.

π, ou pi, é um número irracional (ou seja, que não pode ser representado como uma fração, como 8, racional, pode ser representado como 32/4, por exemplo) que corresponde à circunferência de um círculo dividida pelo seu raio.

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Aniversários do 42.

Hoje, completo 10 anos venusianos de blog! Comecei com outro, que mudou de nome e depois se separou em vários, dentre eles o 42.

Parabéns!

Parabéns!

A Vênus de Willendorf aí em cima tem uns trinta mil anos terráqueos, o que dá mais ou menos quarenta e oito mil anos venusianos.

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