Nullius in verba¹

Estava, como havia prometido anteriormente, preparando um artigo sobre os perigos da hipervitaminose (consumo exagerado de vitaminas), quando me deparei com um já escrito, mais ou menos na mesma linha que o meu.
Para evitar a fadiga, resolvi traduzir o outro e misturar com aquilo que eu já havia escrito.
A idéia de que Vitamina C é uma droga milagrosa que ajuda a prevenir gripes e resfriados (principalmente) se tornou bastante popular no anos 70, devido primordialmente a alguns livros escritos por um dos maiores cientistas que já viveu, Linus Pauling.
Pauling é um de apenas duas pessoas que receberam dois prêmios Nobel em categorias diferentes (eu acho que já escrevi isso aqui pelo meu blogue, mas estou com preguiça de procurar), sendo elas Química e Paz. A outra pessoa foi Marie Curie.
Ele ainda descreveu a estrutura do núcleo do átomo, foi um dos que imaginou (o que viria a ser provado) a estrutura em hélice do DNA e praticamente fundou a ciência da Biologia Molecular.
Linus, apesar de todas essas conquistas e de sua inestimável contribuição para a Ciência e para a Humanidade, passou os últimos anos de sua vida obcecado com um assunto, partindo de conclusões erradas.
Isso demonstra que, por mais brilhante que alguém seja em uma área, pode ser totalmente ignorante em outra ou, ainda mais grave, estar completamente equivocado em um tema específico dentro da mesma área em que excede intelectualmente (outro famoso exemplo é o de Einstein rejeitando o princípio da incerteza da Mecânica Quântica).
Em 1970, Pauling lançou um livro chamado Vitamina C e o Resfriado Comum, onde exalta o conceito que ele chama de Medicina Ortomolecular (ortomolecular significa “a molécula certa” e, do ponto de vista científico, não é Medicina, mas comprovadamente uma modalidade de charlatanismo), onde ele afirma que megadoses de Vitamina C previne resfriados e previne ou cura outras doenças (incluindo câncer, numa reedição do livro, que mudou de título para “Vitamina C e o Câncer” em 1979).
Em 1986 ele lança outro livro chama “Como Se Sentir Melhor e Viver Mais”, onde ele alarga seus conceitos e alega que megadoses de quaisquer vitaminas beneficiariam a saúde, retardaria o envelhecimento e aumentaria o prazer de viver. Esses argumentos foram testados e comprovados como ineficazes em mais de trinta estudos.
Aliás, hipervitaminose (consumo excessivo de vitaminas) é algo perigoso.
O consumo em excesso da boa e velha Vitamina C pode ocasionar a formação de cálculos renais (pedras nos rins; já as tive, não recomendo).
Hoje em dia, no mundo ocidental, uma dieta média, balanceada, já nos provê com tudo o que necessitamos. Vitaminas e outros suplementos devem ser tomados apenas sob recomendação médica após exames que comprovem uma deficiência, e não por recomendação da vizinha.
“E todas aquelas vezes quando eu tomei Redoxon direto e não adoeci?”
Da mesma forma que, vez por outra, interpretamos erroneamente o que outros nos dizem, não seria possível um lapso de interpretação de nossas próprias experiências?
A Ciência da Psicologia existe somente para nos lembrar que o que vemos, sentimos e vivemos não é uma interpretação 100% apurada do mundo real (eu, por exemplo, me acho muito interessante, mas a realidade tende a discordar).
Respondendo à pergunta; talvez o sujeito tenha tido um resfriadozinho de leve, mas o consumo da vitamina levou seu cérebro a interpretar aquilo como algo diferente, como uma alergia.
É possível que não tenha ficado resfriado simplesmente porque não iria ficar de todo jeito.
Razoável também atribuir a experiência à memória seletiva. Ele ficou doente, mas como isso geraria uma dissonância cognitiva (ansiedade resultante de atitudes ou convicções simultâneas que são incompatíveis entre si, como, por exemplo, a que é sentida por quem gosta de uma pessoa mas desaprova atrozmente algum de seus hábitos), o cérebro “deletou” o registro do evento. É mais fácil lidar com a vida dessa maneira.
É também bastante aceito que doses supérfluas de vitaminas são simplesmente excretadas na urina. Isso não é verdade.
Hipervitaminose é de verdade perigoso.
Uma superdose de Vitamina E, por exemplo, pode ocasionar problemas sangüíneos como aumento do colesterol e pode agir como anticoagulante (causando algo parecido com hemofilia)
Outros exemplos que posso dar são:
Hipervitaminose A; pode causar fetos defeituosos, problemas no fígado, osteoporose, problemas de pele e queda de cabelo.
Hipervitaminose D; desidratação crônica, vômito, diarréia, anorexia, hipercalcemia (presença de quantidade excessiva de cálcio no sangue, acompanhada de sintomas como fadiga fácil, fraqueza muscular, náuseas e anorexia de novo) e problemas renais (incluindo cálculos, que dóem muito).
Mas, isso tudo pode ser mentira, não acredite em mim, consulte um Médico.
Mas é um médico MESMO, alguém que se formou em Medicina. Praticantes de Naturopatia, balconistas de farmácias macrobióticas e funcionários de outros lugares que vendem vitaminas indiscriminadamente não contam.
Se bem que o currículo do curso de Medicina brasileiro atualmente inclui espiritismo e homeopatia, duas das coisas mais pseudocientíficas já inventadas (um é uma religião, algo primariamente não científico, e outro é uma enganação ridícula e sebosa, praticada por indivíduos de caráter duvidoso e sem escrúpulos. Sim, eu nutro Ódio em meu coração).
Lembram quando descobriram e divulgaram que Merthiolate servia para absolutamente zero? Eu lembro (mas minha memória é falha e eu posso ter inventado isso agora).
¹ aceite a palavra de ninguém como prova
==> Este artigo foi uma colaboração unilateral (“plágio” é uma palavra tão feia…) de Brian Dunning e Igor Santos. <==
P.S. café demais faz mal, principalmente para o sono e quando combinado com decepção.

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