Resenha – Felicidade: Os Mandamentos Para Chegar Lá

Recebi esse livro (que acompanha um CD) quarta-feira passada e comecei a lê-lo com a intenção de escrever a resenha no fim de semana, o que obviamente não aconteceu.
O motivo foi o seguinte: eu estava lendo com um caderno de anotações do meu lado, o que propiciava que eu escrevesse uma refutação de cada linha que lia. Ou seja, eu estava escrevendo mais do que lendo.
Por não conseguir chegar sequer a metade do volume, resolvi mudar minha abordagem e deixei o caderninho de lado.
Mas não tem jeito, é uma obra de “auto-ajuda” escrito por Lair Ribeiro (esse mesmo autor escreveu um com o título Como Passar no Vestibular, cheio de dicas como “leve um chocolate e uma garrafinha d’água para a prova” enquanto omitia o melhor conselho de todos: estude a matéria).
Eu tenho problemas com isso desde a concepção: quem lê um livro de auto-ajuda escrito por outrem está recebendo AJUDA, pura e simples, nada de AUTO ajuda. É como ir num restaurante auto-serviço (self-service) onde alguém faz seu prato sem lhe perguntar o que você quer comer. Ou alguém fazendo ginástica por você.
Eu e minha mãe concordamos que o livro é uma “babaquice” (palavra dela que eu achei adequada), mas por razões diferentes: ela acha que ele é uma “coleção de idéias óbvias” enquanto eu o vejo como uma miríade de falácias e erros deliberados de interpretação de causa e efeito (minha mãe é uma diplomata, eu sou um chato).
Alguns itens dessa coleção incluem visões grosseiras e simplísticas de evolução e interação humana, definições errôneas de fisiologia e medicina em geral e promove uma psicologia “solução mágica”, que pode curar tudo com a mesma resposta.
Eu tenho o dever cívico de não recomendar a leitura para pessoa alguma, pois para alguém esclarecido seria um tremendo aborrecimento e perda de tempo e para alguém que precise de ajuda seria um desperdício de energia, dinheiro e tempo que não adicionaria coisa alguma ao seu estado inicial de necessidade.
Meu maior problema com o volume é o uso freqüente de metafísica e linguagem pseudocientífica, que parece dar validade às besteiras descritas.
Frases como “leis universais que regem todos os indivíduos” (leis realmente universais regem tudo, não só pessoas) dão a entender, e depois são confirmadas explicitamente mais adiante, que todas as pessoas (nunca animais, plantas ou rochas) são governadas por regras fixas e imutáveis que comandam suas personalidades e lhes dão suas características de caráter, fazendo com que todos sejam “iguais” potencialmente.
Algumas passagens interessantes, no entanto, são umas raras onde o autor aconselha ao leitor a não esperar que as oportunidades caiam do céu, que se vá atrás do que se quer, “se mexa e trabalhe por aquilo que deseja”.
Uma pessoa que realmente tire proveito do livro não precisaria passar da página 23, onde lê-se algo do tipo “por que fazer amanhã se é só começar neste segundo?”. Alguém realmente determinado a mudar sua vida pode largar o livro onde está e ir rumo à mudança, sem precisar continuar a se apoiar nas muletas daquela leitura (ou a ouvir o CD que acompanha o pacote e apenas resume, sem acrescentar, tudo que nele está escrito).
Mas a principal característica que eu senti na leitura é uma contradição, como o cartaz colado num muro que diz “proibido colar cartazes neste muro”.
Um conjunto de regras para seguir que se combinam para nos dizer que seguimos regras demais e que é exatamente isso que nos prejudica.
“É proibido proibir!”
Finalmente, Felicidade está para O Segredo assim como Não Te Esquecerei (Renato e seus Blue Caps) está para California Dreamin’ (The Mamas and The Papas). Uma versão, adaptada ao brasileiro comum que ainda não ouviu falar em quantum, mas sabe o que é força superior.
OU
Alguém pode me provar errado e fazer uma resenha positiva do livro nos comentários.
Eu não consigo.
Demonstração do DVD (vendido separadamente), que coincide perfeitamente com uma parte da faixa 1 do CD:


Pela Editora Nova Fronteira.
A venda nas melhores livrarias ou pela Internet.

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Discussão - 11 comentários

  1. Isis disse:

    Eu li, para uma matéria, o livro a Ciência da Felicidade. Ele é no mínimo curioso. Mas, mesmo embasado no conhecimento, as dicas são sempre de auto-ajuda. Não tem jeito. Se a pessoa quer ser feliz, a melhor maneira é fazer o que a deixa assim e cuidar da mente. Livros estão longe de fazer milagres.

  2. Paula disse:

    Maneira fácil de ganhar dinheiro… isso sim. Estou pra ver UM livro de auto ajuda que realmente presta. Ele é curioso? Curiosas são as publicações do lablogatórios… uma curiosidade atrás da outra! E baseada em Ciência de verdade, não pseudociência ou balelas pra boi dormir… (nem senso comum, nem falácias, nem nada disso).

  3. João Carlos disse:

    Como você mesmo diz, o grande “segredo” do sucesso dos livros de “auto-ajuda” é esse: eles “mandam” a pessoa para de esperar sentada e por mãos à obra… Mas quem precisa ler um livro para entender isso, vai atribuir seu eventual sucesso ao livro, não ao fato de ter procedido com um mínimo de bom senso… (Aliás, se essas pessoas tivessem esse mínimo de bom senso, não gastariam seu precioso dinheiro com “soluções mágicas”…)

  4. Karl disse:

    Uma pergunta que sempre me intriga é: Por que tanta gente compra e lê?
    Não acredito nessa história de desinformação, falta de cultura, etc. Esses livros devem preencher alguma lacuna que nos escapa e que com certeza, seria importante sabermos, não acham?

  5. Igor Santos disse:

    Karl, a minha hipótese é a da preguiça.
    As pessoas querem que outrem faça por elas o que elas não conseguem ou têm disposição para fazer elas mesmas. Eu prefiro esperar que meu novo emprego caia do céu sem que eu tenha que mover uma palha sequer para conseguir.
    Os livros de ajuda são isso; soluções mágicas para problemas de falta de vergonha na cara.

  6. Igor Santos disse:

    Pessoas que compram esses títulos são como as que pedem dinheiro no sinal. São viciadas em ajuda.
    São sempre as mesmas pessoas (conheço várias) que compram todos esses livros e vão a todos aqueles seminários “como mudar sua vida e ficar rico” (a melhor maneira de ficar rico fácil é iniciar um seminário desses).
    Quem compra essas porqueras não quer sair do poço, quer apenas ter uma estadia confortável lá dentro.

  7. Igor Santos disse:

    Gostei do seu comentário, Paula!
    =¦¤þ
    Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso quer nada além de distância desses livros.

  8. Igor Santos disse:

    Exatamente! Não existe fórmula mágica da felicidade. Cada pessoa necessita de uma mistura diferente de eventos e fatores para ser feliz.
    Um livro não poderia compilar tudo isso para cada gosto individual.

  9. hehehe
    Estadia confortável no fundo do poço.
    (rindo muito)

  10. […] o livro que me marcou mais profundamente foi um de Lair Ribeiro que continha um CD que, fato desconhecido por mim, tende a explodir quando […]

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