Como já foi sugerido que tentar desmistificar boatos acaba ajudando a reforçá-los por aumentar sua exposição, eu não vou me dar ao trabalho de rebater uma por uma as alegações do último absurdo que chegou a mim ontem via email.
Mas eu também não sei ficar quieto.
A mensagem é uma do tipo "o que você não sabe pode lhe matar" e "tudo ao seu redor está contaminado, menos as coisas aqui listadas" e já começa mentindo deslavadamente e com a maior cara-de-pau ao dizer que "toda pessoa tem células de câncer no corpo" (sic) segundo um estudo recente de um hospital famoso.
Eu me dei ao trabalho de checar (eu sou desse tipo de chato) e não achei um só estudo que sequer aventasse a possibilidade de pensar em talvez começar a insinuar que fosse mais ou menos provável que essa afirmação acima iniciasse a ser considerada verdadeira em qualquer grau.
Mas, o objetivo deste meu artigo é apresentar uma ferramenta simples para combater esse tipo de email assustador que causa mais transtornos que benefícios.
Em primeiro lugar, desconfie dessas listas que tentam mudar a sua vida e lhe dar informações sobre como você está perto de morrer e não sabe.
O problema não está no fato de existir gente ruim e sem caráter por aí que faz esse tipo de sacanagem porque gosta, mas por existir muita gente que acredita em coisas assim e, inocentemente, espalha mentiras.
A melhor maneira de se proteger disso é pesquisando.
O email que estou usando como exemplo cita um hospital pelo nome para dar credibilidade, já que qualquer pessoa pode ir na página do nosocômio confirmar. O problema é que ninguém vai. Nem mesmo quem está repassando tal barbaridade.
É mais fácil acreditar que procurar saber.
Se você tem preguiça de ir atrás da informação, procure alguém que gosta desse tipo de coisa ou tem isso como um hobby e mostra de onde tirou as informações, sendo um pouco mais confiável.
Mas existem outras maneiras de diminuir a credibilidade de mensagens assim, usando apenas o corpo do texto como pista.
Contradições, por exemplo.
Nesse caso particular, o autor nos diz que açúcar causa câncer e deve ser evitado a todo custo, mas dois parágrafos abaixo recomenda a ingestão de muitas frutas e legumes, que são alimentos ricos em açúcares.
Também é afirmado que alimentos ácidos devem ser evitados pelo mesmo motivo, mas novamente as frutas vêm à tona. Até onde minha pesquisa foi, não achei uma só fruta que não tivesse um pH ácido (abaixo de 7).
Se o texto contradiz a si próprio tão notavelmente, nossa confiança em suas informações já deveria estar bem abalada, mas ainda não é só isso.
Frases vagas são aplicadas para "encher linguiça" e engordar o escrito com mais palavras, mesmo que não façam sentido algum sob o mínimo de escrutínio.
Por exemplo, a frase "Células cancerosas podem ocorrer de 6 a mais de 10 vezes na vida de uma pessoa" (sic) aparenta afirmar que todos ficaremos doente pelo menos seis vezes, mas na verdade não está dizendo coisa com coisa. Explico:
Se elas "podem" ocorrer, é admissível também que elas "não possam". É uma possibilidade, não uma certeza.
Depois desse dado vazio, um número mínimo é utilizado como artifício para aparentar uma certeza, mas se algo pode acontecer seis vezes, o mesmo algo pode não acontecer seis vezes.
Apesar disso tudo a frase ainda não acabou e emenda com "mais de 10 vezes". Onze é mais de dez. Treze sesquilhões também.
Ou seja, a frase não deu dado algum.
Pode cair o número 18 no sorteio da Mega Sena e mais de cinco pessoas podem apostar nesse número.
Outro problema encontrado, mas que requer conhecimento prévio, são as afirmações notoriamente erradas.
O sujeito afirma que "café, chá e chocolate" devem ser evitados a todo custo por causa da cafeína, mas recomenda a ingestão de chá verde, que contém a mesma quantidade de cafeína que chá preto (ambos feitos da mesma folha) e até mais que café (quanto mais longa a infusão, mais cafeína é liberada na bebida, possibilitando esse fenômeno).
Outra afirmação comprovadamente falsa é a de que nosso sistema digestivo não funciona e apodrece com o tempo. A não ser que um indivíduo tenha uma condição que o impeça de excretar propriamente, nada permanece em nossos intestinos por mais de um dia.
Nada apodrece dentro de nós.
Também consta no email que água destilada é ácida. Acidez só ocorre na presença de íons, que são moléculas "sobrando" que surgem por causa da interação da água com certos elementos.
Água destilada = água pura. Se é pura não pode interagir com coisa alguma, pois se o fizesse não seria mais pura.
Água destilada tem o pH exatamente igual a 7 ligeiramente ácido quanto em contato com o ar (valeu Brudna!), ou seja, mais neutro que a Suíça (pena ter perdido a piada, mas tudo bem, correções são bem vindas sempre).
O autor recomenda o consumo de água "deionizada", que seria água pura, mas manda evitar água pura, por conter íons. Estranho.
"O sal de mesa tem uma substância química para torná-lo branco" (sic). Isso é só meia verdade, pois são na verdade duas substâncias que causam isso; sódio e cloro. Os dois elementos que, combinados, formam o sal de cozinha.
Quem já viu água do mar evaporando sabe que sal já bem branco "de fábrica". Mas não confiem em mim, vão numa salina (ou procurem fotos das montanhas de sal) e confirmem. Ou fervam água do mar até evaporar toda.
E ainda existe audácia suficiente para afirmar que câncer é uma doença do espírito!
Sorte que está perto do fim, porque se abrisse com essa linha, meu nojo seria tão imensurável que eu não conseguiria ler o resto.
O email é enorme, mas este meu artigo já está bem maior e ainda não consegui demonstrar sequer metade dos erros e informações falsas daquele.
Outro problema encontrado quando tento fazer isso; é bem mais fácil contar dez mentiras em uma só linha que tentar desmentir uma só em dez linhas.
Falar é fácil, explicar é difícil.
Dieta balanceada, exercício regulares, um pouco de estudo e uma dose de ceticismo fazem da vida um lugar mais agradável.

Comments (13)
Fora que, beber água deionizada deve dar um piriri do cão!
Imagina a confusão de íons se movendo pra tornar a fulada da água deionizada isosmótica com o meio interno...
Eu quer não bebo água deionizada!
E viva Karnak!
Posted by: Paula Signorini | fevereiro 12, 2009 12:14 PM