(adjetivo) repórter (verbo) reportagem. (substantivo)!

Participando da enxurrada de indignação que está caindo sobre a cabeça da colunista Ruth de Aquino da Época Online, resolvi me pronunciar (nada como uma mentalidade de turba logo de manhã cedo para me deixar excitado).
Porém, não consegui pensar em nada, pois Renan e Karl roubaram tiveram as melhores idéias, portanto vou usar as palavras da própria Ruth e distorcê-las ao ponto do ridículo, assim como ela se mostrou capaz de fazer (apesar de ter chupado a idéia já pronta e o texto já escrito de uma publicação internacional).
Ponto-a-ponto:

Com tanta desgraça na política, uma receita de riso certo é ler sobre pesquisas “científicas” de universidades respeitadas.

Com tanta coisa importante acontecendo no mundo, uma receita certa de indignação é ler uma “reportagem” leviana numa revista respeitada.

Conclusões: o cérebro masculino vê mulher de biquíni e sem rosto como objeto. Canhotos vão pior na escola – e os mais desajustados são as meninas ambidestras. Genes gays excitam as mulheres. Brincadeiras fazem bem às crianças.

Sugestões, pois pesquisas isoladas não concluem muita coisa, de pesquisas primárias que podem ser o início de algo melhor, mais bem elaborado.

Resultados variam do óbvio ao inverossímil e preconceituoso. Como se arruma patrocínio para tanto besteirol?

O resultado da reportagem mostra que ela é obviamente preconceituosa e inverossímil em seu besteirol patrocinado (e ela realmente acha que “genes gays excitam as mulheres” é uma conclusão óbvia? Até a idéia de um “gene gay” já está sendo descartada).

Essa enxurrada de conclusões, com base em entrevistas e em ressonâncias magnéticas do cérebro, vem revestida de um manto de credibilidade.

Um manto de credibilidade parecido com o vestido por esse artigo, baseado em desinformação?
O próximo trecho é meio longo, vou tentar cortar um pouco sem mudar o teor:

A “mulher-objeto”, por exemplo. Foi “um experimento nos Estados Unidos com 21 homens heterossexuais estudantes de pós-graduação, apresentado em Chicago na Sociedade Americana para o Avanço da Ciência”. Avanço? O estudo, com uns gatos pingados, comprovou que “ao observar um corpo feminino sensual desprovido de identidade” – ou seja, ao olhar uma gostosa de biquíni e com o rosto escondido – “os circuitos cerebrais ativados nos homens são os mesmos acionados ao observar uma ferramenta, um objeto inanimado”.

Bom, não consegui cortar. Mas o que tenho a dizer é o seguinte: reclamar que o experimento foi feito com pouca gente é tão fácil quanto escolher poucos artigos com conclusões aparentemente óbvias e expô-los ao ridículo.
Será que Ruth teria chegado a essa mesma conclusão usando apenas seus extraordinários dotes previsíveis? “Todo homem é cafajeste” não conta como conclusão.
E “avanço” não é só uma marca de desodorante. Se mesmo com essa amostragem imensamente mínima já foi possível notar que certas partes do cérebro acendem e outras não, já é um avanço.
Agora já há base para uma pesquisa com vinte mil homens.
Um passo de cada vez, jovem padawan.
Contrariando meu próprio conselho, vou pular uma parte do artigo e vou direto para

Como o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assina todos os documentos com a mão esquerda, é no mínimo inoportuna a pesquisa recente afirmando que “os canhotos vão pior na escola porque são uns desajustados com Q.I. mais baixo”.

Tem razão. Que burrice!
Resultados científicos tem que ser bonitinhos e favorecer os que mandam.
Longe daqui com essa idéia de que o presidente pode ter um traço ruim! Aff!
Se Obama começar a fumar vão mudar todos os resultados “inoportunos” que mostram que cigarro faz mal?

Homens gentis e sensíveis atraem mulheres, isso todo mundo sabe, para que pesquisar? E vice-versa.

Se todo mundo sabe, quem inventou o ditado “mulher gosta de apanhar”? E o termo “mulher de mecânico”?
E esse “vice-versa”? Mulheres atraem homens gentis e sensíveis?
Quando eu escrevia uma redação com ambiguidades assim no primário minha professora brigava comIgor…

Uma pesquisa inédita, da Faculdade Albert Einstein de Medicina, em Nova York, comprovou que crianças que dispõem de 15 minutos de intervalo para brincar na escola são menos bagunceiras e aprendem mais que as crianças confinadas o dia inteiro numa sala de aula. Esse estudo envolveu mais de 10 mil crianças entre 8 e 9 anos. Para provar o que todo ser humano já sabe.

A – todo ser humano sabe que uma criança de oito anos que passa quinze minutos brincando aprende mais.
B – eu não sabia disso
Conclusão – eu não sou um ser humano.
Isso explica tanta coisa! Obrigado Ruth, agora eu sei o que estava errado todos esses anos!
Para meu gran finale, uma explicação dos prêmios do IgNobel que ele acha hilários:

pulgas que vivem nos cães pulam mais alto que as que vivem nos gatos

Demonstração de corrida evolutiva. Cães são mais altos em geral, logo as pulgas que os afligem precisam pular mais alto.

Coca-Cola é um espermicida eficiente

No mesmo ano o mesmo prêmio foi dado a outra equipe que provou exatamente o contrário. Odeio explicar piada, mas isso é uma.

dançarinas de striptease ganham mais dinheiro nos períodos de fertilidade

Pesquisa sobre interações humanas e estados psicológicos afetados por mecanismos biológicos.
Isso é realmente muito interessante e merece mais pesquisa.

medicamentos falsos caros são mais eficientes que medicamentos falsos baratos

a comida é mais saborosa quando soa mais atraente

Mais sugestões acumuladas sobre o efeito placebo e o poder psicológico de influências externas.

montes de fios ou de cabelo inevitavelmente enroscam

Fios de qualquer tipo. Essa pesquisa pode ajudar a desenvolver um modelo matemático para a produção mais eficiente de certos produtos e embalagens.
Ruth, geralmente nós pensamos para a frente! Até primatas menores fazem isso.

É muito mais saudável que ler sobre o Senado, Sarney, Collor e Renan Calheiros. Está comprovado cientificamente.

Imbecil.
Pessoas mais discretas/responsáveis/esclarecidas que eu, sobre o mesmo assunto:
Em prol dos cientístas, idiotas e dos “ridículos” – Ciência Brasil
Conselho de Darwin para Ruth – Ecce Medicus
É muito fácil ser um jornalista frívolo – Geófagos
Nunca é tarde para uma autocrítica – n-Dimensional
Candidato a santo– Boca do Inferno
Ciência e o óbvio – Rainha Vermelha
Ciência é besteira? – Discutindo Ecologia
“Mas isso eu já sabia!” – 100Nexos
Pesquisas científicas me fazem rir! – Rastro de Carbono
Cara Ruth de Aquino, – Brontossauros
Ruth de Aquino já é a segunda colocada em comentários na Revista Época – SemCiência
Reportagem original – LINK

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Discussão - 1 comentário

  1. Blog Mallmal disse:

    O pior é que ele não entende nada do assunto que quer abordar. Um exame de ressonância funcional do tipo usado no estudo em questão (o da objetificação feminina) demora horas. É realizado em um aparelho caríssimo, que custa uns 5 milhões de reais e é disputado à tapa pelos pesquisadores.
    21 pacientes não quer dizer nada. O que importa é a correlação estatística obtida.

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