Opinião e reflexões

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Dia desses eu estava pensando que essa minha será a primeira geração de pais que jogam videogame quando chegam em casa do trabalho ao invés de lerem jornal antes de sair para trabalhar.
Um dos meus primeiros contatos com Internet (eu já tinha computador há alguns anos, mas naquela época os dois não eram sinônimos) foi com IRC (melhor método que já existiu de comunicação entre muitos na Rede) e ICQ (muito melhor que MSN, mas como não tinha smileys pulando, letras piscando e coisas rodando, foi sumariamente extinto).
Nesse mundo, todas as pessoas que estavam na minha lista de ICQ também estavam no canal de IRC que eu frequentava e, era bastante comum, conversar com a mesma pessoa através dos dois programas, mas usando cada um para um assunto, como se o interlocutor fosse dois indivíduos distintos.
Um efeito interessante que eu nunca consegui confirmar se acontecia com mais alguém ou só comIgor era a personalização de nicks.
Eu sabia quem eram as pessoas com quem conversava através de uma tela e conhecia a grande maioria pessoalmente, constantemente me encontrando com elas em IRContros, mas o nick de cada um adquiria uma personalidade própria.
Não só psicologicamente, mas também fisicamente. Cada um tinha um aspecto definido na minha cabeça (altura, cor, cabelo, sotaque, etc), proveniente do pseudônimo que usava.
Hoje isso acabou porque existem avatares.
Mó sem graça…
ICQ também era bom para mandar mensagens off-line (coisa que o MSN só permite fazer agora) de eventos aleatórios, frases engraçadas ou links.
Hoje em dia isso se faz no Twitter, onde todos falam mas ninguém escuta.
Na minha mente (que é um lugar muito confuso, deixe eu dizer logo antes que alguém diga), o Twitter é como uma transmissão de jogo de futebol na rádio: muita informação em pouco tempo, sendo a maior parte completamente inútil e contendo raros eventos inteligíveis e interessantes.
Então, num belo dia, eu pensei: “como forma de protesto, vou deixar de usar esse negócio, muito sem-futuro isso é!”
Mas que protesto secreto é esse que ninguém fica sabendo?
Aí apareceu um paradoxo na minha frente e me ameaçou com um fêmur de camelo: como vou deixar os outros sabendo que estou fazendo protesto contra um veículo se não divulgar no veículo alvo do meu protesto?
“Isso é um Paradoxo do Cartaz”, disse a figura brandindo o instrumento contundente ósseo-camelino, continuando: “do tipo em que colam num muro um cartaz onde se lê ‘proibido colar cartazes’. Também conhecido por ‘é proibido proibir’.”
A minha forma de protestar, portanto, é continuar usando o programa, mas escrevendo apenas coisas absurdamente aleatórias, dando vazão ao fluxo de consciência de dentro da minha cabeça, que é um lugar muito confuso.
Mas, voltando à analogia da narração futebolo-radialista, o Twitter tem servido para acompanhar caso-a-caso o desenvolvimento do pânico generalizado causado pela infame gripe da leitoa amojada.
Até agora ninguém tuitou “sou um caso confirmado” ou “estou tratando de um caso confirmado”, mas conseguimos ver, EM TEMPO REAL, NUM MAPA, DETALHADAMENTE, cada pessoa que espirra e grita na sequência achando que vai morrer de febre e virar bacon.
E como eu sei que ninguém ainda tuitou doente?
Se uma cantora feiosa virou moda instantânea, imagine um sujeito num quarto de hospital com seu blackberry, dizendo como está seu batimento cardíaco.
Ao ler esse trecho no blogue do Carlos: “Basicamente, fase 4 é o reconhecimento de que a gripe tem transmissão de humanos para humanos, o que já sabíamos há algum tempo diante da confirmação dos casos de Nova Iorque“, eu imediatamente lembrei da versão de rádio de Guerra dos Mundos, narrada por Orson Wells em 1938.
Setenta anos atrás não tínhamos muita tecnologia de acompanhamento. O narrador interrompe o Programa Dançante (La Cumparsita sendo tocada pela banda do maestro Ramón Raquello) para anunciar um boletim especial, em que o professor Farrell do Observatório Mount Jennings diz que exlposões de gás incandescentes foram avistadas em Marte e, posteriormente o faz novamente para anunciar que um meteorito flamejante caiu numa fazenda em Nova Jersey e que o objeto misterioso (aproximadamente vinte metros em diâmetro) está começando a abrir, desrosqueando a parte de cima como uma tampa de pote de biscoito. Nesse momento, o mundo (mais especificamente os ouvintes do programa que não pegaram o comecinho, onde foi avisado que tudo era ficção) entrou em pânico.
Não do tipo que faz as pessoas sairem correndo nuas pela rua estuprando hidrantes e surrandos tampas de bueiro, mas do tipo que as fazem não querer sair de casa com medo, enquanto continuam ouvindo atentamente o que a mídia lhes diz.
Na época era algo muito “moderno” uma informação ser transmitida em
tempo real, sendo possível para qualquer um ouvindo saber o que estava
acontecendo na hora em que acontecia (como a cena em que o repórter é morto por um raio vindo da coisa que saiu do meteorito).
Aí hoje, eu leio aquilo lá em cima e me assombro. Faz nem uma semana que isso tudo começou (ou faz? É difícil dizer hoje em dia o tempo que as coisas duram e quando tudo começou) e já podemos dizer coisas como “já sabíamos há algum tempo”.
Como disse o Karl na nossa lista interna: “Em tempos de pandemia, alguns dias são eternidade” (Carlos reclamou que era frase dele, então não sei, tirem par-ou-ímpar ou decidam na queda-de-braço).
Estamos quase andando mais rápido que os acontecimentos.
E isso me assusta mais que qualquer invasão marciana ou todos os H1N1’s do mundo.

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