Previsível. Replicável. Falseável.

O Método Científico é o processo pelo qual os cientistas, coletivamente e com o passar do tempo, se aventuram para ajudar a construir uma representação do mundo cada vez mais apurada, confiável, consistente e não-arbitrária.
Tudo o que acontece, se dá por alguma causa natural, que pode ser explicada racionalmente. Não conseguir ver a causa não é o mesmo que a causa não existir (ausência de evidência não é evidência de ausência). Exemplo: passamos alguns milhares de anos sem saber como o Sol se movia ou a Chuva caía. Não víamos a causa, mas ela sempre esteve lá. Se acontece, é natural; se é natural, pode ser explicado; se ainda não é explicado, com perseverança e diligência (e, às vezes, sorte), é passível de ser. Não tema!
Natureza = Ciência.
Duas palavras que exprimem a mesma coisa. Como “mexerica” e “tangerina”, “mosquito” e “muriçoca”, “sutiã” e “califom”, etc.
A Ciência não é uma coisa, um objeto ou algo em que se deva acreditar cegamente. Ciência é um método, uma maneira de fazer as coisas, e que nos ajuda a entender a Natureza.
Este método promove, necessariamente, mais que qualquer religião ou filosofia, a humildade. Um pesquisador pode passar a vida envolvido numa teoria, mas sabe que aquilo, fruto de uma vida inteira de trabalho, pode ser destruído de maneira muito simples, por um experimento, observação ou condições melhores. E sabe que muitas pessoas ao redor do mundo vão tentar, o tempo todo, fazer exatamente isso, o que deve servir para que o cientista em questão se resguarde e se esforce, tentando deixar sua teoria e seu experimento sem furos e à prova de balas.
O que é meio impossível. Podem perguntar a Aristóteles, Newton e Einstein o que aconteceu com a Gravidade.
Na Ciência não existe dogmas, ou verdades imutáveis. Ciência tem que ser maleável e é bom que mude constantemente, para adequar dados mais confiáveis de instrumentos mais sensíveis e tecnologias mais avançadas.
Acreditar no consenso da comunidade científica não é se valer do argumento de autoridade (isso seria acreditar na palavra de uma só pessoa que se diga entendida no assunto), pois cada teoria existente está, neste exato momento, sendo exaustivamente testada para tentar ser desmantelada e uma melhor surgir.
Uma teoria nasce da seguinte forma:
Observação de um fenômeno; uma bola jogada para cima, sempre cai de volta.
Formulação de uma hipótese que explica o fenômeno; o peso da bola está fazendo-a ser atraída pelo chão.
Previsão de resultado, usando a mesma hipótese, de outro fenômeno semelhante; um sapato jogado para cima deverá cair do mesmo jeito.
Realização de testes experimentais, por indivíduos independentes, para tentar confirmar a hipótese; alguém em outro país joga uma banana para cima e espera que ela caia do mesmo jeito que a bola ou o sapato.
Criar uma fórmula (matemática, por exemplo) que explique os resultados experimentais obtidos e preveja com exatidão os próximos; sabendo os dados da banana, do sapato e da bola, posso calcular como um piano vai cair.
Aquelas pessoas independentes são, geralmente, editores e colaboradores de jornais científicos, que recebem as mais variadas hipóteses para serem testadas, num processo conhecido como “revisão por pares“.
Quando alguém procura primeiro os veículos de comunicação em massa para divulgar suas pesquisas ou suas experiências, está se utilizando do apelo popular que aquilo possa ter (poções que curam tudo, cremes tópicos que emagrecem, etc.), ao invés de colocar a sua “descoberta” sob o escrutínio de um painel especializado, que iria testar exaustivamente sua teoria.
Alegações extraordinárias, requerem provas extraordinárias.
Para uma hipótese finalmente virar uma teoria, ela precisa, necessariamente;
1 – Fazer previsões do que vai acontecer ANTES do fato. Não adianta prever depois. Isso é coisa para astrologia.
2 – Ser completamente repetível por terceiros (observadores autônomos), usando os mesmos parâmetros. Não serve dizer que só Fulano consegue usar um certo procedimento para chegar a um certo resultado especial. Isso é coisa de curandeiro e feng shui.
3 – Ser passível de uma completa obliteração através de observações melhores. Não voga dizer que se deu errado, a culpa é sua. Isso é coisa dos escritores d’O Segredo e de caçadores de fantasmas.
4 – Ser suportado por dados científicos reais, concretos e públicos. Não vale de nada dizer que existe uma pesquisa que prova que algo funciona sem dizer quem fez e onde estão os resultados para que estes possam ser avaliados. Isso aí é coisa de homeopatas.
Se um cientista se apegar a uma hipótese ou teoria e não quiser, mesmo se confrontando com evidências avassaladoras, que ela seja provada falsa, por vaidade ou qualquer outro motivo, esse sujeito não é um bom cientista. Provas sempre devem falar mais alto.
Para finalizar, gostaria de deixar claro que a crença em Ciência e no Método Científico não é o mesmo que crença religiosa, existe uma diferença semântica.
Exemplo, eu acredito que tem 1 Real no meu bolso, mas não pretendo fundar uma religião para venerar ou adorar meu R$1. Não existe dogmas, ou verdades supremas no meu parco dinheiro. Se eu gastar esse miúdo, não passarei o resto da eternidade vagando liso pelo mundo.
A confiança no Método é cética, fruto de provas e evidências, e não resultado de ouvir-falar nem de ameaças nefastas.
Se você está lendo isto, agradeça aos homens e mulheres que se valeram do citado procedimento para fazer com quê seus ancestrais tivessem fogo para afastar os animais, plantações para evitar a fome, barcos para colonizar novos mundos, casas e carros, para nos manter num lugar só, mas não por muito tempo, hospitais para diminuir o risco de morte dos infantes e suas genitoras, vacinas e antibióticos para frear o avanço de doenças, livros para armazenar conhecimento e computadores para perdermos nosso tempo lendo coisas como esta.
Aos que até aqui chegaram, espero que tenham gostado (eu usaria “tenham se maravilhado”, mas acho que esse tipo de reação acontece mais comIgor) do relato e que tenham entendido o que é Ciência.
E obrigado pela visita!
“Um milhão de experimentos podem comprovar minha teoria, mas basta um resultado contrário para que ela seja totalmente demolida.”
– Albert Einstein-
———-
Publicado originalmente no meu outro blogue.

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Discussão - 14 comentários

  1. Felipe Lucio disse:

    Muito bom o artigo!
    É justamente esta constante refutação que mais me instiga e que me fez, e ainda faz, gostar tanto de ciência.

  2. maria disse:

    belo texto, igor.
    nunca imaginei que fosse possível descrever o método científico num texto interessante!

  3. Um filósofo uma vez falou assim pra uma amiga minha “oras, vocês então querendo usar método científico na psicologia pra prever comportamentos? e o que mais depois? daqui a pouco vão querer controlar comportamentos também”.
    O senso comum acha isso horrível, menos quando é ele precisando de ajuda no consultório…

  4. João Carlos disse:

    Tomei a liberdade de transcrever uma “chamada” e linkar este post no “Roda de Ciência”, cujo tema de discussão atual é “Ciência e Pseudo-Ciência”.
    Uma boa descrição do método científico vem a calhar para balizar as discussões.

  5. Igor Santos disse:

    Sem problemas, João.
    Aliás, obrigado por isso!

  6. Rafael [RNAm] disse:

    Excelente. Seminal.
    Vai entrar para a cartilha.

  7. Kinnal disse:

    O método científico
    Não pode ser uma ventura como diz
    Nem tudo acontece por causa natural
    Foi construído
    Exemplo
    Como o sol se move foi ordenado construído por gente e vai mudar no futuro
    A chuva caía não víamos a causa
    Pois é
    Essa chuva é mesmo normal
    E está caindo sobre o solo terreno
    Pois estamos no mar quente chamado céu
    Tudo pode ser explicado
    Não tema
    Natureza é diferente de ciência
    Por sinal nem existe natureza
    Tudo fabricado
    A ciência não é uma coisa
    Você mesmo diz
    É um método
    E que nos ajuda a entender o que foi fabricado feito certo
    Não existe humildade em ciência
    Existe o certo
    Você disse
    Podem perguntar a Aristóteles Newton e Einstein
    Perguntei a cada um deles
    O que aconteceu com a gravidade ?
    E respondo
    Não aconteceu nada
    Nem existe tal gravidade
    No assunto exposto

  8. Igor Santos disse:

    ÊÊÊÊÊ!!!!
    Achei que nunca mais ia ter um tamagoshi por aqui.
    =¦¤þ
    p.s. Kinnal, você não sabe rimar.

  9. Martinho disse:

    Discordo em alguns pontos, a previsibilidade por exemplo, onde está ela no princípio da incerteza de Werner Heisenberg? Discordo quando se diz que a ciência não é dogmática, ela na verdade não deveria ser. no seu texto você diz “Tudo o que acontece, se dá por alguma causa natural, que pode ser explicada racionalmente.” ao meu ver é uma falácia de generalização apressada. Não existe subsídio teórico para que se afirme isso. Nem existe método que comprove que tudo pode ser racionalizado com o “Método”. O método científico é o único válido? E a verificação da verificação do método? O que não é falseável é axioma ou dogma? A hermenéutica é levada em consideração? Eu sempre achei a ciência hiper valorizada. Uma ultima pergunta: Existe o artificial? ou tudo é meramente natureza?
    Abraços!

  10. Igor Santos disse:

    Martinho, você claramente desconhece o que seja o Princípio da Incerteza, que diz respeito à posição e movimento de uma quanta de energia e nada tem a ver com a previsibilidade de hipóteses do Método Científico.
    Não existe generalização apressada onde você apontou pois essa observação (de que tudo que acontece é natural e passível de explicação) é uma conclusão alcançada após séculos de dados naturais seguidos por explicações racionais (reproduzíveis e previsíveis).
    O Método é o único válido sim, pois é o único que admite correções em si mesmo, sendo auto-verificável.
    O que não é falseável não é Ciência (bule de chá ao redor de Marte, por exemplo).
    Opinião pessoal: você deve achar a Ciência hipervalorizada por não entender como ela funciona ou por achar que acreditar sem pensar ou questionar no que quer que você acredite é mais fácil e confortável.
    “Artificial” é um termo usado para diferenciar, de coisas que ocorrem naturalmente, coisas manipuladas ou que não ocorreriam sem intervenção. Plástico é diferente de petróleo, sendo o primeiro um produto artificial criado a partir do segundo, natural.
    Se foi criado, é bastante provável que o tenha sido a partir de algo natural (ou pelo menos tenha um ancestral natural), se tornando artificial que, novamente, é um termo lingüístico de diferenciação.

  11. Martinho disse:

    Caro Igor, o que você me descreve como o princípio da incerteza é uma visão escolar. Com um pouco mais de pesquisa você verá que do princípio da incerteza obtivemos a premissa de que não é possivel verificar ou fazer qualquer medição de pertícula sem que se altere o resultado. Você fala do “Método” como um fim em si mesmo, acho que se realmente eu não fosse questionador veria tal método com a perfeição descrita por você, quando na verdade apenas acredito que seja um sistema lógico como outro qualquer, com uma estrutura para validação, complexo e concreto sim, mas não o único válido. A pergunta que eu deixei com relação ao que é artificial serve apenas para exemplificar a não hulmidade do tal método, você me deu apenas uma definição léxica rasa. Qunado na verdade o homem, quando inserido no meio natural, tenta de qualquer forma se apartar dele, diferenciando-se não só linguísticamente mas metafisicamente, abraços cordiais!

  12. Renato Bueno disse:

    O texto tem um problema, para qual público você escreve?
    Se for para leigos, você os mata por usar tantos termos tecnicos e, na minha opinião, você deveria descrever o metodo cientifico de forma mais clara e simplificada; não fale de formulas, os brasileiros principalmente, odeiam fórmulas, e as fórmulas sevem apenas para explicar de forma mais fácil uma relação entre os fatores, pena que nosso sistema de ensino não mostre isso, fudendo com a mente das crianças e criando esse segmento de aversão às fórmulas…
    Se for para “aspirantes à cientistas”, bem, eu ja sei o que é metodo científico, e concordo que seja bem eficiente, então… Choveu no molhado…
    É uma critica construtiva, para que nos proximos textos você direcione melhor para o publico pretendido e assim potencialize os efeitos…
    No demais, muito bem explicado e não é cansativo, pelo menos para mim…
    []´s

  13. Igor Santos disse:

    Valeu Renato!
    Tanto pela crítica quanto pelo elogio.
    Esse texto é bem antigo e isso aí é uma republicação e eu espero ter melhorado bastante nesse ínterim.

  14. […] ser falseável (ao menos, e insisto, dentro da definição científica popperiana – ok, um link diferente sobre a definição popperiana de […]

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