Absorventes internos NÃO causam câncer

Nos bastidores do SBBr surgiu uma discussão certa vez de que falta algo para as mulheres, algo como no Papo de Homem. Um sítio para mulheres, com todo tipo de assunto interessante a elas mais ciência.
Essa necessidade se mostrou imensa semana passada, quando recebo (novamente nos bastidores, vindo da ClauChow) um email afirmando que absorventes internos causam câncer (ô palavra doce!).
Minha colega recebeu a mensagem, mas como é acostumada a pensar, não acreditou nela.
Mas quantas outras mulheres receberam o mesmo texto e simplesmente o tomaram como verdade?
Não necessariamente por estupidez (apesar de haver sim mulheres extremamente tapadas), mas mais por preguiça, acomodação e a tendência natural humana para acreditar sem criticar no que os outros dizem.
A quantidade de blogs onde encontrei a mesma estória, simplesmente regurgitada sem o mínimo de raciocínio crítico é impressionante, especialmente quando uma busca rápida por “absorvente” e “amianto” acha, logo no primeiro link, um artigo cético sobre o assunto.
Esses emails chocantes de “o que você não sabe pode lhe matar” sempre contém pequenas dicas de que são falsos ou deliberadamente escritos para causar pânico.
A melhor de todas são os nomes contidos: sempre que um nome é citado, esse nome pode ser investigado e, hoje em dia, basta um email ou alguns poucos minutos no Google para achar esclarecimentos.
(Normalmente, quando um dos citados é um hospital, ainda é mais fácil, pois não há coisa nova sob o céu e as instituições muito provavelmente não só já receberam vários pedidos de confirmação como geralmente já deixam no FAQ de seus sítios um destrinchamento das mensagens.)
Mas a grande maioria vai apenas dizer: “segundo um médico muito sabido, morrer é perigoso” sem jamais citar nomes ou locais ou dar qualquer outra informação passível de contestação, ou o nome de algum incauto que se prestou a passar adiante e deixou involuntariamente sua assinatura no corpo do texto, como que o validando (nem devia ter repassado, né? Em boca fechada não entra mosca).
Um email com muitas interrogações (perguntas retóricas do tipo: “sabia que você pode morrer?”), muitas palavras maiusculizadas (como em: “100% DAS PESSOAS MORREM UMA HORA OU OUTRA”), insistentes pedidos para ser repassado (como nas cartas-correntes dos anos 80: “envie para cinco outras pessoas ou morra um dia”) e apelos emocionais (“enviem para suas mães e avós pois elas merecem saber disso, não sejam ingratos!”) são marcas indeléveis de pilantragem internética.
Falta de consistência interna também, como no caso da mensagem sendo tratada aqui, que eu certo ponto pede para que se leia o rótulo dos produtos com atenção e em seguida faz uma pergunta retórica me dizendo que há amianto em sua composição.
Mentira.
Neste exato momento, tenho uma caixa de absorvente interno ao meu lado onde lê-se: 50% algodão, 50% rayon.
Se, mais para frente, o email pede para que eu não acredite no que está escrito, porque então me pede para ler com atenção o rótulo?
(Amianto é uma causa conhecida de câncer, principalmente pulmonar, mas como absorventes não contém amianto, não podem causar câncer pelo motivo do email.)
Novamente, mais uma pergunta já respondida, me dizendo que rayon faz mal e recomendando que eu só use absorventes que não o contenham.
Em primeiro lugar, rayon não faz mal (segundo o FDA, órgão estadunidense de controle de produtos onde incluem-se absorventes íntimos) e, em segundo, ainda mais importante que o primeiro: sem rayon, absorventes seriam poucos mais que toalhas.
Já viu como um pequeno rolo de algodão é eficiente em reter líquidos? Eu já, e não é nem um pouco (a imagem mental de sangue pingando fica por conta da casa, disponham).
E rayon é um derivado de madeira, feito de celulose (papel também). O que poderia até ser tóxico é um tal de “dióxido” ou “dioxina”, referidos no texto.
A palavra “dióxido” sozinha não faz sentido do mesmo jeito que “caldo” também não.
Você toma caldo de alguma coisa. Dióxido tem sempre que ser de alguma coisa também (dióxido de enxofre, de sódio, de carbono, etc). Outra falha de consistência.
Os níveis de dióxido de cloro presentes em amostras de absorventes (novamente, medidos pelo FDA) variam entre não-detectável e uma parte em um trilhão.
Uma parte em um milhão equivale ao peso de uma moeda de cinco centavos comparado ao de uma camionete cabine dupla.
1 bilhão são 1000 vezes 1 milhão. Uma parte em um bilhão é o peso de uma moeda de cinco centavos comparado ao peso de mil camionetes.
1 trilhão é 1000 vezes 1 bilhão. Uma parte em um trilhão é o peso de uma moeda de cinco centavos comparad ao peso total de toda a frota de veículos do estado do Rio Grande do Norte multiplicada por três (se todos os carros fossem camionetes Dodge RAM cabine dupla).
Não sei vocês, mas eu acho muito pouco.
Outra dica importante: propaganda. Eventualmente um spam vai alcançar um momento onde “indica” amigavelmente uma certa marca em detrimento de outras.
Cospe em um produto e diz que um concorrente é melhor.
Agora, o indício mais latejante de que tudo ali escrito não passa de delírios de algum teorista conspiratório ou da desesperada necessidade de atenção de algum garotinho solitário em busca de amigos virtuais invisíveis é a presença da famosa tática de pôr em dúvida as intenções de uma corporação.
Afirmações do tipo: “veja só, eles só querem ganhar dinheiro” são, além de óbvias (ninguém vende um produto para desganhar dinheiro), completamente maliciosas.
Um equivalente seria eu dizer: “seu cachorro não só baba como também nunca lhe ajuda nas suas tarefas domésticas”. A frase faz sentido por ser latentemente óbvia mas é absolutamente desnecessária pois apenas soa como uma tentativa de fazer com que você veja seu cachorro como um obstáculo em sua vida.
Qual motivo uma empresa teria para tentar matar você? Mesmo uma empresa bélica não quer que o cliente morra, pois isso contaria como -1 cliente. E, sempre lembrando, eles querem dinheiro.
Quanto mais gente comprar, mais dinheiro eles ganham. Quanto mais gente viva gostar e continuar usando e recomendando, mais dinheiro eles ganham.
E dizer que existem padrões distintos de qualidade entre sedes estrangeiras da mesma empresa é ridículo.
Por serem, majoritariamente, empresas multinacionais, essas companhias exigem um padrão de qualidade mínimo.
Essa é a maior segurança que existe no mercado. Não tem fiscalização governamental nem reclamações de consumidores que se iguale em poder a uma determinação do dono.
A fábrica da Tampax na Ucrânia (leiam o rótulo) não está em conforme com os quesitos de qualidade da Procter & Gamble Int.? Fecha! Simples assim.
É muito mais rentável a longo prazo (e empresa que sabe andar só pensa “a longo prazo” senão dança) fechar dezenas de fábricas por falta de consistência do que pagar eventuais multas estatais e milhões em indenizações pessoais.
E nem precisa fechar, basta recolher o que está errado e voltar a fabricar que preste.
Um problema realmente sério levantado pelo email é Síndrome do Choque Tóxico que pode ser sim causado pelo uso de absorventes internos, mas, que fique bem claro, em 1997 apenas cinco casos dessa síndrome foram confirmados (novamente, minha fonte é o FDA).
Isso é um negócio raro cuja ocorrência independe do uso de absorventes (homens e crianças também podem sofrer disso) porque agentes que eram melhores relacionados com a síndrome foram totalmente retirados do processo de fabricação.
Ou seja, se você tiver Síndrome do Choque Tóxico, eu apostaria que não foi por causa de um absorvente.
Finalizando (porque faz mais de dez dias que eu escrevo): absorventes íntimos são seguros porque são controlados pelos consumidores, fornecedores, fabricantes, governos e concorrência.
Se fizessem mal, teriam sido extintos.

Mais spams destruídos:
Alpiste não cura diabetes nem nenhuma outra coisa;
Como reconhecer um spam;
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