Auto-Hemoterapia e a medicina da Idade Média de mãos dadas

Sem ter o que fazer e procurando por pajés e feiticeiros modernos, me deparo com uma tal de Auto-hemoterapia (nome já devidamente adaptado às novas regras gramaticas) e uma rusga entre um médico e um jornalista acerca disso.
A ANIVSA proíbe, o Conselho Federal de Medicina apresentou um parecer sobre o assunto, dizendo que sua prática é potencialmente perigosa e o médico Munir Massud, escalado pelo tal conselho para preparar o documento (posteriormente apreciado, revisado e corrigido pelos 28 conselheiros federais do órgão) passou a ser furiosamente atacado pelo jornalista Walter Medeiros.
Um médico professor e pesquisador prepara um documento, a pedido do CFM, após decisão da ANVISA e um jornalista o ataca como sendo desonesto?
Achando um tanto quanto curioso, fui atrás de mais informações (novamente, era um dia ocioso, sem muito o que fazer).
Em primeiro lugar, auto-hemoterapia não consiste em tratar a si mesmo ouvindo Nx Zero ou Fall Out Boy, pois isso seria auto EMO terapia.
Ou nem isso, apenas auto emossificação, nada que qualquer adolescente hoje em dia já não faça.
Auto-hemoterapia é o ato de retirar sangue de uma veia e injetá-lo em um músculo da mesma pessoa.
O “auto” aí é falacioso, pois quem faz o procedimento é outra pessoa, em geral um médico.
Mas se médicos fazem então é beleza, certo?
Alguns médicos também praticam homeopatia e acupuntura, dois métodos não apenas comprovadamente falsos como também potencialmente perigosos que não trazem qualquer resultado benéfico aos pacientes além do efeito placebo (agulhas podem causar inflamações seríssimas e homeopatia é caro e pode desviar recursos de, e atenção a um tratamento realmente eficaz).
Zero eficácia e possibilidade de complicações? Passo.
Médicos são pessoas e como tal estão sujeitas a sugestões e preconceitos e uma das maiores forças naturais que existe é a Preguiça.
É tão mais fácil receber um dado e deixar por isso mesmo. Procurar corroboração adequada e confiável é muito mais difícil que simplesmente acreditar.
(E existem ainda os charlatões sem caráter que lesão propositalmente e que, como agravante, inventam estórias mirabolantes para justificar seus métodos sórdidos de infligir dor em outrem, como um tal de Francisco Rodrigues, que admitiu descaradamente em um periódico natalense (Diário de Natal) que tratava doentes mentais com passes (prática supersticiosa que envolve “espíritos” tomando os corpos dos vivos) e que, pasmem, pois eu estou 100% indignado, criou a disciplina opcional Medicina e Espiritualidade na UFRN.)
Auto-hemoterapia (que daqui para frente será referida por AHT para evitar repetição) não possui efeitos adversos comprovadamente atrelados a ela (o que não é o mesmo que dizer que ela está livre de efeitos colaterais indesejados, mas apenas que estes ainda não foram conectados sem sobra de dúvida à terapia) por simples falta de observações controladas.
Isso é o que a literatura me diz, mas eu digo um efeito adverso agora: dor.
Para qualquer tratamento que não traga benefício, o menor desconforto já é um malefício por demais grande.
É como um tapa na cara; por menor que o dano causado seja, a plena falta de benefícios torna o menor indício de dor algo insuportável.
E essa tal de AHT serve para o quê?
Segundo Luiz Moura, proeminente proponente da precitada prática; para tudo (incluindo câncer e HIV)!
Segundo a Ciência Médica, para nada!
Entre centenas de anos de melhoria, milhares de estudos e milhões de profissionais pesquisadores e um indivíduo, aposto sempre no primeiro grupo.
Quer revolucionar a medicina? Prove.
Apresente um projeto de pesquisa de uma condição específica (não pode ser tudo ao mesmo tempo) a uma comissão de ética, mendigue dinheiro de uma universidade e siga o método científico com a metodologia adequada.
Todo pesquisador faz isso (principalmente a parte da mendicância), por que alguns se acham perseguidos e merecedores de tratamento diferenciado?
Descobriu o moto-perpétuo da Medicina e acha que não precisa provar a ninguém?
Popper discorda de você.
Se acha o novo Newton e acha que é mais sabido que toda a comunidade médica?
Occam está de olho (e ele anda armado).
Voltando à confusão que me chamou atenção.
A maior parte das críticas (uma busca no Google por “Munir Massud” mostra vários resultados, podem ir atrás) são simples ataques à pessoa do médico.
Nenhum comentário que li, tanto do seu arquirrival Walter Medeiros (jornalista E poeta!) quanto de outros colegas seus são críticas ao documento, mas ao sujeito que primeiro o escreveu.
Eles não conseguem sequer citar trabalhos razoáveis que cubram seus argumentos, apenas estiram a língua e chamam de bobo.
Na minha terra, o nome disso é meninice. Na terra dos mais instruídos, chama-se ad hominem.
Não consegue discutir no mesmo nível intelectual? Seus argumentos não passam de xingamentos e tentativas de desacreditar o oponente?
Parabéns, você é um falacioso!
Há até um que o acusa de “criminoso” por ele assinar o documento como Professor Doutor Munir Massud.
Oxente, acusar Munir Massud de criminoso porque ele assina um texto como “professor doutor” é de uma cretinice esférica.
Em primeiro lugar, é tradicional se referir a médicos (e a advogados) por “doutor”.
Isso é um sinal de respeito pela dignidade da profissão e uma formalidade tradicional.
Médicos são doutores em Medicina, não necessariamente doutores acadêmicos. Contestar o fato tradicional (eis a palavra novamente) de que “médico” pode ser substituído por “doutor” é simplesmente desonestidade intelectual, visando somente ofender a honra e sujar o nome de Munir.
A não ser que o sujeito tenha sido criado numa caverna por um louco, ele sabe o que “doutor” nesse contexto significa.
(E sim, quando eu digo “cretino” estou me referindo à patologia de retardo mental.
Quem escreveu aquele texto tem duas opções: ser extremamente idiota (novamente, outra forma de retardo) ou ser irremediavelmente sem caráter. Escolha.)
Em segundo lugar, ele dá aulas numa universidade, logo pode se denominar “professor”.
E a premissa inicial ainda é falsa! Massud não foi o único responsável pelo documento.
Ele não fez uma apresentação .pps e saiu espalhando pelos emails de seus conhecidos. Ele procurou informações sérias (MedLine, EndNote) e teve seu artigo revisado e corrigido por um painel de 28 pessoas.
Houve ainda outro teorista da conspiração que sugeriu que a AHT não é aceita pela comunidade médica por ser uma terapia barata.
Beber água, caminhar meia hora por dia e dormir bem são atividades proibitivamente caras, por isso que são tão recomendadas por qualquer médico. Né?
Lavar as mãos antes de comer então, aff! Os olhos da cara!
Meus xingamentos não constituem ad hominens pois são baseados em evidências empíricas. É perfeitamente possível argumentar com alguém de igual para igual e continuar a chamá-lo de “feio” se ele assim o for.
Ou mesmo que não seja, argumentos sólidos podem ser construídos e temperados com esculachos. Por exemplo: “Você está errado porque está usando estudos com metodologia dúbia que não foram propriamente cegados e randomizados e que não contêm o menor valor científico, seu imbecil!”
A propósito, muito do que é dito por aí é fruto exatamente daquilo: estudos porcamente mal feitos, sem controles, não-cegos, não-randomizados, não-revisado por pares, não-replicados e divulgados em publicações sem critério.
Ou, pior ainda, divulgado em meios de mídia ANTES de passarem pelo crivo de pessoas que realmente sabem do que dizem.
Foi o que fez Luiz Moura, que distorceu estudos de um médico chamado Jesse Teixeira (já consideravelmente mal estruturados por terem sido idealizados antes de exigências metodológicas confiáveis) que se referiam a tratamentos de pós-operatórios.
Luiz Moura pegou a conclusão de Jesse e a esticou, sacudiu, dobrou, enrolou e distorceu até chegar a uma conclusão própria: AHT é a cura de todos os males!
URRÚ!!
Se você pegar um bolo solado e queimado feito de laranja azeda com farinha mofada e bater no liquidificador, temperar com alho e coentro, deixar no freezer por doze horas e reaquecer no micro-ondas e tentar comer, perceberá rapidamente que manipular algo que já começou ruim vai apenas incrementar a ruindade.
Ciência é como culinária nesse aspecto, mas várias ordens de magnitude maior.
Mexer em algo que desde o começo já está fora do escopo científico só tende a aumentar ainda mais a distância entre aquilo e o que é cientificamente aceitável.
E já que mencionei algumas falácias, aqui vem outra: alguns defensores da AHT afirmam que ela é boa por ser antiga (talvez não com essas palavras, estou interpretando um pouco), pois baseiam sua eficácia nas observações dos trabalhos do Dr. Teixeira. Se for um Apelo a Antiguidade, é um muito do reiêra, pois tem nem 80 anos direito. Velho o suficiente para ser ultrapassado, mas não o bastante para ser ‘antiguidade’. Igual a um Chevette.
E em medicina, quanto mais antigo o tratamento, menos crédito merece (a não ser que continue se mostrando bom ao longo dos anos).

ATUALIZAÇÃO: hoje, primeiro de novembro, venho adicionar dizendo que meus comentaristas crentes (veja abaixo) demonstram que minha interpretação acima é confiável. Acreditam na terapia somente por ela ser antiga.

Mais uma vez, a ANVISA proibiu a prática da AHT e pediu ao Conselho Federal de Medicina que elaborasse um parecer com base científica.
Hoje em dia não apenas Vigilância Sanitária e o CFM proibem essa prática como também o fazem os Conselhos Federais de Enfermagem e Farmácia.
A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (notem a falta do “auto” no nome) apresentou o seguinte comunicado:

“A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia- SBHH, frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática hemoterápica denominada “auto-hemoterapia”, vem a público esclarecer o que se segue:
• A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia NÃO RECONHECE do ponto de vista científico o procedimento “auto-hemoterapia”;
• Não existe na literatura médica, tanto nacional quanto internacional, qualquer estudo com evidências científicas sobre o referido tema;
• Por não existirem informações científicas sobre o referido procedimento, são desconhecidos os possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática, podendo colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos;
• Agrega-se a este parecer, a Resolução do Conselho Federal de Medicina- Resolução CFM no 1.499/98, que em seu artigo 1º, “Proíbe aos médicos a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica”.
Frente ao exposto, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia não recomenda a prática desse procedimento.
O comunicado é assinado pelo Presidente da SBHH, Dr. Carlos Chiattone”

Buraco cavado, caixão lacrado, cal por cima.
Dúvidas, sugestões ou esculhambações, me procurem. Meu email está por aqui em algum lugar.
Eu procurei o jornalista Walter Medeiros para comentar o caso, mas ele se mostrou envergonhado e não quis gravar entrevista (mentira, apenas sempre quis dizer isso e, como agora posso oficialmente ser tão jornalista quanto ele, posso dizer esse tipo de coisa também).
O Dr. Munir, no entanto, estava disponível e me ajudou com material (verdade, mas não confiem em mim, pois eu minto tanto quanto vocês).

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