Agora o mundo acaba!

O mundo acabou. E agora?
Inspirado em parte por esse comentário, movido pela necessidade de criar meu próprio pânico em massa (todo mundo está fazendo, quero ser popular) e tendo estudado bastante psicohistória, cheguei à inevitável conclusão de que os sobreviventes morrerão à míngua.

(Não precisando explicar, pois é óbvio, mas explicando de todo jeito, claramente me refiro aos sobreviventes da peste maligna submissão ao Mulo colisão com o planeta Nibiru explosão de um supervulcão Skynet SkyLab ameaça extraterrestre síndrome respiratória aguda grave previsão do calendário maia 2012 frota Vogon queda de um asteróide vingança de Cthulhu epidemia zumbi gripe espanhola do frango suína.)

Quando 80% da população mundial estiver devidamente morta em decorrência da inevitável letalidade desta nova pandemia pandemônica panterritorial, os que sobrarem vão penar.
Nos primeiros dias, após o Estado de Sítio cessar por falta de quem o preserve, não teremos mais energia elétrica corrente e abundante.
Afinal, quem estaria cuidando das instalações das nossas hidreléticas, garantindo seu correto funcionamento?

Daqueles vinte por cento restantes, outros sete décimos pereceriam devido ao choque causado pela falta de TV, condicionadores de ar e enfeites natalinos luminosos.

Mais alguns certamente seriam pegos de surpresa ao notar que a Internet não mais existe num mundo sem linhas telefônicas, mesmo com energia suficiente para algumas horas de navegação ainda armazenadas em seus celulares e dispositivos similares da moda.
Poucos morreriam aqui, pois a inanição – resultante da inação causada pela incrível concentração com que certas pessoas fitam o monitor até o momento em que seus computadores façam o que se é esperado deles – que acompanha o tranco de se ver sem conexão vem ao decorrer de alguns dias. Baterias duram apenas poucas horas.

Tendo a produção de energia cessado, bombas de combustíveis não mais funcionariam, causando mais algumas mortes por excesso de exercício físico em alguns indivíduos (já severamente fragilizados pela falta de televisores) durante a árdua e extenuante tentativa de caminhar (a pé! Que disparate!) cem metros até a esquina para comprar pão.
E mesmo que você ainda consiga salvar muita gasolina das fogueiras de veículos abandonados, seria impraticável dirigir em ruas apinhadas de corpos (sim, pois os responsáveis pela coleta de cadáveres estão também mortos, talvez até contribuindo pessoalmente para o mórbido empilhamento das ruas).

Em seguida, o fornecimento de água também deixaria de existir para aqueles que moram acima do nível de rios e lagoas de abastecimento. Ou seja; todos.
Água não fica mais dominantemente em caixas comunitárias como antigamente, pois isso é pouco prático.
Em cidades com milhões de habitantes, os reservatórios teriam que ser tão grandes que a estrutura física requerida para mantê-los acima de todos os prédios teria um custo proibitivo. Bem mais fácil, prático e barato usar bombas que forçam água ladeira acima, diretamente das estações de tratamentos (ou similares).

Milhares de mortes mais aqui nesta etapa, pois se até a esquina já era um esforço tremendo, que dirá até um rio ou lagoa em um bairro circunvizinho.
Notem que a praga já eliminou 95% da população planetária (80% diretamente + 15% indiretamente).
Mas claro, isso é apenas um cálculo aproximado. O número de vítimas diretas é apenas inferido (tendendo para menos) e o de indiretas está sendo grosseiramente subestimado (por exemplo: muitas cabeças explodirão pela pressão causada pelo acúmulo de idiotices a qual era dado vazão adequada via telefone e Internet. Apresentadores de telejornais matutinos serão particularmente propícios a esse tipo de acidente).
Até o momento, a população, antes em sete bilhões, já baixou para trezentos e cinquenta milhões e continua caindo pela simples falta de conveniência e conforto modernos que eletricidade nos traz (obrigado Tesla!), queda que é tanto mais intensa quanto mais avançada for a sociedade em foco.

Nesse ponto, os Txucarramães, os Zulus e os Amish perderão apenas 80% de seus participantes (mortes diretamente relacionadas ao evento catastrófico) enquanto EUA e Coréia do Sul já não mais existirão (mortes indiretas, por falta de privilégios eletrônicos).
Um situação Senhor das Moscas se instauraria. Quem iria comandar as coisas agora que não existe mais governo?
(Não posso falar por outros países, mas aqui no Brasil eu acho que essa tragédia seria a gota d’água – por assim dizer – para qualquer sobrevivente que visse um Senador da República degustando uma Evian ou uma Fuji impunemente.)

Sem governo, até que me provem o contrário (e duvido que consigam pelos exemplos que já abundam), é cada um por si/lei da selva/sobrevivência do mais apto a desviar de balas.
Com a cooperação, que nos é imposta por leis, já devidamente morta, estraçalhada e enterrada num canto úmido de um terreno abandonado e cheio de mato, os mais preparados passariam a defender seus territórios e, eventualmente, a desbravar e conquistar novos espaços para continuar sobrevivendo.

Não gosta da sua casa? Vá para a do vizinho. Há 1 chance em 1,05 de que ela esteja vazia pois seus antigos ocupantes estão mortos.
Uma área que contenha um supermercado valerá infinitamente mais que uma contendo vários bancos, pois dinheiro já não vale mais um centavo.
Um frigorífico só terá valor nas primeiras semanas, mas salsichinhas aperitivo, biscoitos recheados e salgadinhos crocantes de milho serão prezados por meses ou até anos (décadas, no caso dos salgadinhos).

Mesmo aqui, um país sem lojas de armas, lutas ferozes e sangrentas irromperão, pois quem tem tiver a maior ripa com mais pregos na ponta será constantemente desafiado pela posse do cacete, enquanto insistentemente combaterá outros mais fracos por território.
Não havendo água corrente nas torneiras das casas (e 10 entre 10 pessoas se recusando a beber água das privadas, mesmo sendo perfeitamente potável), galões e garrafas de água mineral rapidamente virarão prêmios a se ter a qualquer custo. Depois disso virão os refrigerantes e as tubaínas. Por fim, em casos de desespero (do tipo que leva pessoas ao canibalismo e urinofagia), as cervejas sem álcool e Schin Cola.
Bebidas alcoólicas serão as primeiras a desaparecer, antes mesmo das caixas d’água secarem.
Considerando, no entanto, que os sobreviventes sejam gente boa e gostem de companhia, haverão aqueles que se agruparão e formarão pequenas colônias longe dos territórios dos Supremos Mestres dos Arrabaldes do Carrefour.

Então, a melhor opção é voltar ao mato, você e sua recém-formada “tchurminha”.
Depois de um tempo, apenas água natural restará, naqueles rios e lagoas aludidos anteriormente.
Mas a água é segura para o consumo? Ela não passa antes por estações de tratamento?
Como saber se ela pode ser bebida? Esperar alguém testar antes é pouco prático, pois doenças aquáticas podem levar até semanas para se desenvolver e causar óbito e esse tempo é mais que suficiente para levar alguém a morrer de sede.
Sem métodos eficientes para teste, só resta purificar antes de beber.
Você já purificou água alguma vez na vida? Sabe como proceder para obter um líquido seguro para consumo?
Se a sua resposta é “sim”, eu queria apenas frisar que peneira não é um equipamento adequado, nem muito menos o é uma meia velha.
E ferver lama não lhe garante água potável. É certo que ela agora estaria limpa de micro-organismos, mas sílica, mercúrio, chumbo e ácidos provenientes de decomposição de matéria orgânica ainda são um problema sério para o nosso frágil corpo rosado.

Em caso da resposta ainda não ter mudado, saiba que agora você deverá purificar água em grande escala (doença não se pega só bebendo, pois às vezes contato já é suficiente), todos os dias.

Para sempre.

Este texto continua quarta-feira (eis o link). Não percam!.

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Discussão - 9 comentários

  1. Fenomenal!
    Aguardo ansiosamente a quarta-feira!

  2. Lux disse:

    “…Quando 80% da população mundial estiver devidamente morta…” = Temos 80%
    “…Daqueles vinte por cento restantes, outros sete décimos…” = Temos 14%
    80 + 14 = 95?!
    “…Notem que a praga já eliminou 95% da população planetária (80% diretamente + 15% indiretamente)…”

  3. Igor Santos disse:

    Lux, você está falhando em considerar as passagens Poucos morreriam aqui (…), (…) causando mais algumas mortes por excesso de exercício físico (…) e Milhares de mortes mais aqui nesta etapa(…), que eu escolhi contabilizar como 1,66…% do restante.
    Obrigado pelo comentario.

  4. Lux disse:

    Bela rebolado Igor.
    Também estou esperando por quarta.

  5. Dånut disse:

    Adorei o texto, muito bom 🙂
    Aguardando ansiosamente a continuação.

  6. Roberta disse:

    Adorei! Muito hilário!
    Descobri esse blog hj, e estou maravilhada!
    Um grande abraço!
    Roberta

  7. Igor Santos disse:

    Que bom!
    =¦¤þ

  8. Rogério disse:

    Concordo sobre o texto,já estudei muito sobre sobrevivência em livros etc,
    já tenho plano formado em situação de emergência,como saída da cidade
    local a ficar,mercadoria a levar,já tenho kit como ferramentas armas de sobrevivência tipo besta etc,comida de durabilidade maior, sementes,medicinas normal e natural,etc,grupo formado com +-20 pessoas,todos com conhecimentos de sobrevivência,só aguardamos s hora H…

  9. […] Um dos melhores capítulos é o que fala sobre o que aconteceria com a órbita terrestre se todas as pessoas se juntassem num mesmo lugar e pulassem ao mesmo tempo. E não digo isso porque o Scienceblogs é citado (é a matriz, afinal, mas está valendo) mas pela reviravolta épica que me pegou de surpresa. Pensamento lateral daqueles que caem para fora da página. E ainda me lembrou um texto épico meu. […]

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