“Bebida amarga torna as pessoas mais críticas, mostra estudo” <= Não, não mostra.

Numa “matéria” (aspas irônicas) sobre um “estudo” (elas aqui novamente), a Folha.com dá uma aula de como jornalismo é feito atualmente: ctrl+c -> Google Translate -> ctrl+v.

Sem sequer a menor das críticas, o tradutor da Folha fez exatamente o que sua função exige, que é traduzir coisas. Pronto.

Com a diferença de que não se deu ao trabalho de incluir nem o nome do chefe do trabalho (Kendall Eskine) nem o nome da universidade que produziu tal primor de pesquisa (visto que “City University of New York” não é o mesmo que “Universidade da Cidade de Nova York”, a não ser que o jornal também traduza Cambridge e Oxford como “as universidades da Ponte de Came e Vau do Boi“).

A matéria foi capa do caderno Ciência e, como tal, deveria ter sido tratado com pelo menos uma nesguinha de ceticismo. Mas não, é bem mais fácil traduzir o que a New Scientist (adeus, qualidade) diz e deixar por isso mesmo.
Capa do caderno de ciência da Folha.com

A primeira linha já reforça o título, com: “O gosto amargo de uma bebida pode alterar o julgamento moral, fazendo com que as pessoas se tornem mais críticas.

É? E quem disse?

Aí vem a primeira bomba: “Esse é o resultado de uma pesquisa realizada com 57 voluntários (…)”

Cinquenta e sete voluntários? Que amostra imensa!

AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

Já pode morrer?

Minha frase favorita do artigo: “(…) o grupo teve que analisar cenas como a de um homem comendo um cachorro morto (…)”. <= WTF!?

Mas não, não era necrozoofilia. Era apenas um lanche mesmo.

Só não sei se isso melhora ou piora o ocorrido.

A tradução continua peba e a necessidade de destruição não se mostra instantânea, até que chegamos no “curioso” dado que “surgiu” e que “mostrou que os partidários conservadores são mais afetados pelo gosto amargo, e consequentemente suas críticas, do que os liberais.

É. Foi. Porque conservadores são naturalmente menos críticos que os liberais, não é?

NÃO! NÃO É!

E morrer agora, já pode?

Confundir causa e efeito é coisa de auto-hemoterapeuta. Esse tipo de falácia não deveria ter vez numa publicação que se propõe a divulgar Ciências.

Agora, meus amigos (porque em momentos de desespero, todos se tornam amigos), preparem-se para a maior conjectura já presumida numa matéria (notem a presença das Aspas Triplas do Repúdio) “””científica“””: “Embora o mecanismo entre paladar e comportamento não seja totalmente claro (…)”.

Não seja totalmente claro? Não seja totalmente claro?? E essa ████ existe??

Acho mais produtivo primeiro demonstrar que o mecanismo existe antes de insinuar a suposição de que já é um fenômeno bem estabelecido. É como dizer “embora o mecanismo entre florais de Bach e peidos de unicórnios não seja totalmente claro…”

Mas calma, ainda tem um restinho pegajoso no fundo desse copo marrom de Danone azedo das trevas. Vamos raspar com a colher (sic, sic, mil vezes sic).

[O]s pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova York (EUA) que desenvolveram o estudo se perguntam se um júri deveria evitar o consumo de líquidos amargos antes de um julgamento ou se a preferência de determinados alimentos influenciam nos ideias políticos dos indivíduos.

Não tenho resquício homeopático de dúvida de que pesquisadores desse calibre realmente se perguntem coisas desse tipo.

Me lembra Homer Simpson, em referência a donuts, se perguntando se há algo que elas não consigam fazer.

Folha, por favor, melhore.

A veia da minha testa agradece.
veia da testa

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Discussão - 8 comentários

  1. Danillo Nunes disse:

    Não é por nada, não, mas acho que você bebeu algo muito amargo antes de escrever esse post.

  2. Igor Santos disse:

    Sim, Danillo.
    Minha própria saliva.

  3. João Carlos disse:

    Na verdade, Oxford é mesmo Vau do Boi… Mas Cambridge é mais Ponte sobre o Cam (o rio que passa por lá… e vá você saber de onde veio esse nome).
    Mas, se bobear, essa “pesquisa científica” deve ter sido anunciada até no EurekAlert… so much for science divulgation…

  4. Andre Souza disse:

    Segundo a própria pesquisa nem o redator da matéria, nem o revisor, consumiram café puro ou qualquer tipo de bebida amarga

  5. Paulina disse:

    Esses jornalistas precisam parar de adoçar o café que consomem…

  6. Bessa disse:

    Estava eu falando sobre divulgação e jornalismo científico na UNEMAT quando fui mostrar o Scienceblogs e vi seu post. Foi assunto para o resto da tarde de discussão. Valeu pelo substrato de reação!

  7. Lindennerd disse:

    ahahahahahah
    ri muito
    muito bom teu post, mostra como a pseudociencia tem muito mais voz que a ciencia real, infelizmente.

  8. Esse texto serve muito bem para exemplificar o cientificismo, ou fé na ciência. Basta alguém dizer ‘foi cientificamente provado…’ ou ‘estudos mostram…’ que todos deixam o cérebro de lado.
    Creio que é porque as pessoas querem ter certezas, mas se apóiam num mito de que a ciência nos dá A verdade. Só que se esquecem – alguns omitem isso propositadamente – que A verdade que procuram está fora dos limites onde a ciência é válida.

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