O lens flare como forma de expressão

Muito se discute atualmente acerca do uso do efeito de reflexo de lente, ou lens flare, pelo diretor de Super 8 e criador de Felicity, J.J. Abrams.

Mas o que diabos é esse tal de lens flare que parece irritar tanto os neo-nerds? [1]

Se você tentou fotografar alguma coisa contra o sol, provavelmente já percebeu como a imagem não fica exatamente cristalina. Por causa do excesso de luz, a imagem aparece esbranquiçada, com pouco contraste ou simplesmente ruim demais para ser aproveitada até no Instagram, repositório de tudo que não presta em termos de efeitos visuais.

lens-flare-wiki

O efeito pode ser também o de escurecer a imagem enquanto o software da câmera se concentra em proteger seus filtros regulando o obturador para uma velocidade mais rápida, captando praticamente apenas a luz do sol.

lens-flare

Outra manifestação do efeito são círculos (ou, por vezes, outras formas geométricas [3]) psicodélicos, como os da primeira foto lá em cima, causados quando a fonte de luz não está diretamente no campo da lente mas ainda assim a afeta, infiltrando raios fora de eixo, como no diagrama abaixo.

lente

Ou seja, para um lens flare ocorrer, são necessárias duas coisas: uma lente e uma fonte de luz intrusa.

Nos sets completamente verdes e inexistentes dos filmes grandiosos de hoje em dia não existem acidentes. Não existe uma lâmpada pendurada num lugar errado dando interferência no resto da cena. Se a imagem estiver estourada, com ruído ou com pouco contraste, tenha certeza de que foi proposital.

Então, vem a pergunta: por que usar, num filme milionário, um (d)efeito tão amador que geralmente é causado por um erro de preparação?

A resposta: preservação da suspensão de descrença. Mais sobre isso adiante.

George Lucas, por exemplo, é fortemente criticado pelo uso excessivo do chroma key, abandonando a técnica antiga de animatronics e modelos em escala reduzida em busca de maior flexibilidade (um boneco do tipo Gizmo, de Gremlins, não pode dar saltos e piruetas de forma convincente, como o faz Jar Jar Binks) mas, segundo alguns, em detrimento do senso de realidade que a interação de humanos com objetos físicos e reais proporciona. Mas logo ele, que um dia foi multado pela Directors Guild of America (Associação Americana de Diretores) por não incluir créditos no começo de Star Wars justamente para não destruir a suspensão de descrença ao dizer claramente aos espectadores que aquilo era um filme feito por atores!?

O revolucionário (nem tanto) O Hobbit causa frisson com sua alta taxa de quadros (48fps, o dobro do comum) mas Peter Jackson pré-resolveu o problema da suspensão de descrença usando mais locações (cenários reais) do que sets verdes (o famoso chroma key já citado). Ou seja, é mais difícil o espectador sair do mundo fantástico no qual está imerso porque percebeu algum artefato visual que o lembrou de que aquilo na tela não é um documentário de verdade.

Nada de computação. Apenas uma câmera deslizando sobre um papel.

George Lucas está sendo julgado pelas pessoas que sabem que existe um anão dentro de R2-D2 e que o movimento quebradiço dos olhos e lábios de Jabba são controlados por um técnico com um controle remoto na mão. Ou seja, essas mesmas pessoas conseguem identificar que o ator está contracenando com uma bola de tênis pendurada numa vara de pescar na frente de um fundo verde ou azul ao invés de realmente defletindo raios laser de um flutuante módulo de treinamento Jedi. Para quem não assistiu ao primeiro Jurassic Park no cinema (o principal filme de transição entre as técnicas de marionetes e computação) porque não era ainda nascido, isso não faz diferença. A cara esquisita de Falcor com sua língua obviamente mecanicovertebrada parece ridícula e antiquada para a geração que já cresceu com computadores de alta eficiência e capacidade de processamento.

Eles querem mais é mergulhar junto com Anakin na lava enquanto ele perde permanentemente o braço. A nova trilogia de Star Wars é para eles, não para nós.

Mas, se depender de J.J. Abrams, teremos nossa doce, doce vingança geriátrica em breve. E graças aos lens flares.

A geração para qual Jar Jar Binks foi criado sempre viu filmes digitais de alto orçamento com cenários e personagens virtuais, onde cada costura no bolso da bermuda do terceiro figurante sem fala numa cena de pânico é planejada e calculada. Música não tem mais chiado de fita (silêncio digital é absoluto, já que não existem mais cabeçotes roçando em plástico magneticamente embebido), o preto não é mais mofado (deixou de ser a representação de uma cor que foi filmada, processada e projetada – três passos envolvendo luz -, para ser a absoluta falta de estímulo luminoso) e a imagem não tem mais riscos e marcas de cortes (não existe mais fita para desgastar no projetor a cada sessão nem para ser recortada e colada para depois ser copiada – agora é tudo um arquivo digital incorruptível).

Como o sol no plano de fundo não é mais o Sol, estrela primária do nosso sistema planetário, mas sim uma série de uns e zeros, as lentes não são mais sobre-estimuladas e não distorcem o que estão captando (que está sendo perfeitamente iluminado por trás, com luz indireta e difusa, etc, etc termos técnicos, etc). A única coisa que o reflexo na lente faz para os representantes da corrente geração consumidora de blockbusters é tirá-los da trama, fazendo-os lembrar que aquilo é um efeito incluido na pós-produção.

“No espaço, ninguém ouve você reclamar do lens flare…”

Ao usar o tão previamente evitado reflexo de lente, Abrams inteligentemente reconecta os fãs antigos com os filmes contemporâneos.

Ao mostrar a USS Enterprise envolta num clarão supostamente indesejado, ela fica contextualizada num universo onde ela existe, é real e está sendo filmada! O diretor se utiliza de um truque para enganar nosso cérebro e fazê-lo crer ainda mais na existência daquele universo do qual ele (o cérebro do espectador) não deve sair, pois ao lembrar que o lens flare ocorre com lentes e uma fonte de luz intrusa, a associação com “esta cena foi filmada por uma câmera in loco” é praticamente inevitável. Mas só para quem assistia a Os Trapalhões Nas Minas do Rei Salomão num assento de madeira numa sala com ventilação ambiente e já viu o efeito ocorrendo naturalmente nas mãos de um operador de câmera inexperiente seguindo as orientações orgânicas de um diretor mal pago num filme de baixo orçamento.

Ou seja, ao tirar os espectadores jovens da ilusão de que aquilo é real pois foi filmado, o diretor paradoxalmente coloca os mais velhos ainda mais dentro do mundo onde aquilo é real pois foi filmado! No espaço sideral! HÁ MUITO, MUITO TEMPO!

E isso é genial!

Mal posso esperar o novo filme da terceira trilogia de Star Wars. [2]

———

[1] – Aqueles que cresceram sem saber muita coisa mas hoje em dia gostam de dizer “bazinga” e se autodenominam “nerds” por gostarem de ver TV e por nunca terem calçado um sapato social.

[2] – Mentira, posso esperar até bem confortavelmente. Não sou exatamente um cinéfilo.

[3] – Tem ainda o efeito como o da imagem abaixo, onde o reflexo não forma círculos mas cortes horizontais, por causa da distorção anamórfica usada para projeções em telas largas (widescreen). Sugiro que leiam a respeito, pois é bem interessante.

A única coisa real nessa cena é a má atuação.

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Discussão - 1 comentário

  1. […] bem, vamos lá. Falando pela segunda vez de J.J. Abrams em menos de dois meses, preciso dizer que gosto da até-agora-incompleta trilogia-não-declarada de […]

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