Resenha – E Se?

“É provável que bifes sobrevivam ao romper a barreira do som. Se o bife estivesse só parcialmente congelado, ele iria se estilhaçar muito fácil. Contudo, se ele aterrissar na água, na lama ou em folhas, talvez fique ok.[1]

Plasma incandescente, petabits por segundo, gotas de chuva de um quilômetro de diâmetro, escala Richter negativa, cozimento gravitacional, quantos mortos existem no Facebook, o sinal UAU! e um secador de cabelos indestrutível. Este livro é, sem sombra de dúvidas, o meu filão.

Sem se manter numa mesma linha de raciocínio por mais de dois parágrafos, Randall Munroe, autor do sempre (estatisticamente) excelente XKCD, responde perguntas hipotéticas (e algumas aparentemente nem tanto) de seus leitores com um rigor científico encontrado apenas nas mais bem conceituadas instituições de publicação de webcomics. Afinal, apesar de ser roboticista, Randall é um cartunista humorista (ou “roboticisto”, “cartunisto” e “humoristo”, como o jornalisto Jô Soares acredita ser correto).

Foto do autor

Foto do autor

Um dos melhores capítulos é o que fala sobre o que aconteceria com a órbita terrestre se todas as pessoas se juntassem num mesmo lugar e pulassem ao mesmo tempo. E não digo isso porque o Scienceblogs é citado (é a matriz, afinal, mas está valendo) mas pela reviravolta épica que me pegou de surpresa. Pensamento lateral daqueles que caem para fora da página. E ainda me lembrou um texto épico meu.

Um livro extremamente divertido, fácil de ler (para mim foram três ou quatro horas de pura empolgação) e de acompanhar (as contas mais pesadas ele guarda para si e não “mostra o trabalho”, só dá a resposta). Divulgação científica de primeira com inúmeras piadinhas discretas espalhadas por todo lugar (incluindo no verso da folha de rosto que, quando trabalhei num jornal, chamavam de “serviço”) que certamente causarão gargalhadas em quem as encontrar dentre as 300 e poucas paginas.

Eu achei muito erro de tradução[2] e até alguns de gramática (e uns mistos, como muito uso de vírgula que sobrou do original mesmo não existindo em português). Mas não acho que a maioria das pessoas realize ou se incomode, com essas coisas.

e se

A minha cópia é da primeira edição e tem uma diagramação esquisita no inicio, onde um mapa com os oceanos do mundo esvaziados ficou praticamente sem África e Europa, que se perderam dentro da lombada. Mas, como sou gente boa, eis aqui o desenho original.

Em E Se?, lançado aqui pela Companhia das Letras, você também vai descobrir uma nova solução para a máxima do copo meio vazio, quanto custaria morrer num quebra-molas e, com a ajuda de girafas empilhadas, como uma criança de cinco anos pode destruir a lógica de um físico e a força de um arremessador profissional.

Minha cópia me foi enviada pela editora, mas é o tipo de livro que eu compraria sem hesitar. Recomendo fortemente para você que lê o 42. e não volta para casa com confusão mental. E, se você é fã do XKCD, nem sei porquê está lendo isto.

Ah, e para quem estiver lendo isto a tempo e precisar saber até sexta-feira:

Sweet.

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[1] Intacto, no caso. Não ok para comer.

[2] Porém, preciso parabenizar o tradutor que teve a ideia de traduzir “flyover state” para “estado janelinha”. A melhor manobra tradução que vi desde que “blaster” virou “explosor” nos anos 70.

Buscas e nível de escolaridade

Acho interessante como minhas buscas vão aumentando de escolaridade ao longo do tempo, à medida que o nível de complexidade das respostas não me satisfaz.

Para um post vindouro, preciso saber a influência do calor na quantidade de cafeína em uma xícara de café. Comecei hoje cedo com “quanta cafeína numa xícara de café”, mudei para “cafeína quente” e passei para “quantidade cafeína calor”, lendo blogs de consumidores.

Em seguida, mudei o idioma e fui para “coffee caffeine quantity” e “caffeine heat influence” e fui parar em blogs de baristas.

Segui com “caffeine milligrams heat” e li páginas de produtores. Mas ainda sem descobrir o que quero.

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Agora já estou procurando por “caffeine availability +extraction +methods” e “pharmacological objective measurements of heat acquired trimethylxanthine” e lendo PDFs de universidades.

Próximo passo é comprar papers com títulos como “1,3,7-Trimethylpurine-2,6-dione adsorption models” e “Gas Chromatography Time-Of-Flight Mass Spectrometry-Based Metabolomics for Comparison of Caffeinated and Decaffeinated Coffee in the Role of Adenosine Receptors and Endogenous Adenosine in Citalopram-induced Inhibition of PKC-dependent Extracellular Ca2+ Entry”.

Ainda não achei o que quero, mas já sou especialista em absorção de glicose durante exercícios de baixo impacto e conheço a fundo a permeabilidade passiva microfluidica usando interface de gotículas nanolítricas em bicamadas de lipídios, por algum motivo.

Aniversários do 42.

Hoje completam-se 2π anos que blogo.

Não é bem esse tipo de “2 pi anos”.

π, ou pi, é um número irracional (ou seja, que não pode ser representado como uma fração, como 8, racional, pode ser representado como 32/4, por exemplo) que corresponde à circunferência de um círculo dividida pelo seu raio.

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Aniversários do 42.

Hoje, completo 10 anos venusianos de blog! Comecei com outro, que mudou de nome e depois se separou em vários, dentre eles o 42.

Parabéns!

Parabéns!

A Vênus de Willendorf aí em cima tem uns trinta mil anos terráqueos, o que dá mais ou menos quarenta e oito mil anos venusianos.

Aniversários do 42.

Continuando o ano de comemorações, hoje, mais especificamente neste momento, o 42. completa três milhões de minutos! Com uma média de quase um visitante por minuto [1] desde que comecei a blogar.

êêêêê

êêêêê

Dois milhões, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove (2999999), por sua vez, é um número primo! Mas isso não tem nada a ver com a data de hoje! Êêêêêêêê!

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[1] Contando somente o horário comercial, menos a pausa para o almoço e o cafezinho. Vários cafezinhos, aliás. E talvez uma ordem de magnitude a menos, também.

Aniversários do 42.

Hoje[1] o 42. completa três anos marcianos! E, para melhorar ainda mais o clima, terça-feira nosso blog favorito escrito por mim no Scienceblogs completará 4 \sqrt{2} anos!

Primeira evidência física de aproximação de √2, já em preparação para este aniversário.

Primeira evidência física de aproximação de √2, já em preparação para este aniversário.

No começo deste ano, em 17 de janeiro, completamos 2e anos e, no primo seguinte, dia 19, alcançamos nosso tricentésimo-primo dia.

Dois primos mais tarde, inteiramos três anos áureos.[2]

Não é a lei, é a proporção.

Não é a lei, é a proporção.

Muitos aniversários ainda estão por vir este ano. Fiquem ligados!

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[1] Contando a partir da separação do uôleo, meu mais antigo e mais aleatório.

[2] Já sob a tutela do Scienceblogs, após o fim do Lablogatórios.

Alguém me explica que Merd, ops, Nerdologia foi esse?

Como venho me dedicando aos livros em detrimento aos podcasts, venho marcando a passagem das semanas pelas quintas-feiras. Mais especificamente pelo excelente Nerdologia, escrito e apresentado por Atila Iamarino (sim, aquele do Rainha Vermelha).

O videocast é patrocinado, via de regra, pela Nerdstore (autoexplicativo) e, vez por outra, por alguma outra empresa fora do conglomerado Jovem Nerd (do qual o Nerdologia faz parte), mas nunca deixando de ser algo relacionado ao mundo neo-nerd, como videogames, computadores, esportes de ação (hein?). Exceto este último.

O episódio mais recente me pegou de surpresa. E me pegou num lugar inesperado. E privado.

Logo no comecinho, na primeira aparição do patrocinador, surge a imagem abaixo:

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Como a imagem aparece por menos de dois segundos na tela, li “hearing guardian” e achei que fosse algum tipo de protetor auricular. Sabe? Daquele que guard sua hearing? Pois. Não é.

No final, meio distraído (porque quando estou prestando atenção eu fecho o vídeo antes da propaganda começar), escuto uma voz diferente exclamando(sic): “Agora que você já sabe para que servem as suas células ciliadas, você pode exercitar as suas com o Hearing Guardian V1 da Biosom.”

Depois de recolher meu diploma do chão e recolocá-lo na parede, voltei para ouvir o resto. A propaganda alega que o produto Hearing Guardian V1 da empresa Biosom (sic) “é um software que ativa e movimenta as suas células ciliadas uma a uma, como se fosse um afinador de piano, deixando elas mais resistentes ao longo de sua vida”.

Eu até poderia discorrer sobre as propriedades fisiológicas dos estereocílios (o nome próprio das células que o software promete re-energizar reativar ressuscitar rejuvenescer exercitar) e fazer comparações do tipo “alegar que um programa pode exercitar as células do seu ouvido com estímulos sonoros é como tentar vender um massageador de períneo que promete deixar seus espermatozóides mais bronzeados, já que ambos prometem dar novas propriedades às celulas” ou ainda que dizer que isso vai deixar os estereocílios “mais resistentes ao longo da sua vida” é semelhante a propor que a pedra só é dura porque precisou aguentar, por anos a fio, as pancadas da água (que é mole pelo mesmo motivo, só que ao contrário).

Todavia, como sou formado apenas em engenharia de áudio, vou me ater aqui ao que vem escrito na fonte.

E sabe o que mais movimenta suas células ciliadas uma a uma? Barulho. Qualquer barulho. E isso para não falar nada sobre o fato de que elas não ficam isoladas, mas sim em feixes de várias ao mesmo tempo.

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria...

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria…

O locutor da propaganda diz, em seguida, que o software foi desenvolvido na Coréia do Sul e teve sua eficácia comprovada pelo Instituto Earlogic de Pesquisa da Coréia. Bom, a partir dessa informação impressionante de comprovação de eficácia, já posso passar para o site da empresa Biosom. Lá, me deparo com a temida seção “depoimentos” que todo pseudocientista adora, já que experiência pessoal é sempre mais importante que qualquer estudo bem feito com milhares de pessoas (agora, adivinha o que nunca tem nessas páginas? Um formulário de “escreva aqui o seu depoimento” ou algo semelhante). São oitenta depoimentos dos quais cinquenta e um (63,75%) agradecem à marca por uma melhora significativa do zumbido ou tinnitus. Mas isso só fica importante mais para a frente.

Em seguida, encontro a subseção “estudo“, onde se lê:

Vários estudos têm relatado que o condicionamento de som (ou seja, exposição prévia a sons de baixo nível) poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ruído traumático em um número de espécies de mamíferos, incluindo humanos.

Palavra-chave ali é “proteger”, correto? Como em português essa frase só existe nessa página e noutras apontando para ela (e não sei do que se trata coreano), catei em inglês até achar isto aqui:

“In addition to delaying progressive hearing loss, acoustic stimuli could also protect hearing ability against damage by traumatic noise. In particular, a method called forward sound conditioning (i.e., prior exposure to moderate levels of sound) has been shown to reduce noise-induced hearing impairment in a number of mammalian species, including humans.”

Isso eu achei no ClinicalTrials.gov, uma base de dados de estudos clínicos em humanos do Instituto Nacional de Saúde americano. Esse estudo deveria comparar a diferença de percepção entre tons puros, antes e depois da estimulação sonora. Pena que, mesmo tendo sido completado dois anos atrás, ele nunca apresentou os resultados.

Um dos links na seção “Outros estudos sobre a tecnologia” é este, igualmente sem resultados publicados.

Ambos, prepare-se para a surpresa, patrocinados pela Earlogic Korea, Inc., tendo como investigadores principais Eunyee Kwak, Ph.D. e Earlogic Auditory Research Institute, empresa que o locutor diz ter comprovado a eficácia do software. Volto já para a Earlogic, calma.

Procurando mais especificamente pelo resultado do ^estudo^ (aspas irônicas) na página da Biosom vejo que na Internet inteira (ou na parte alcançada pelo Google, pelo menos), não há uma só menção (fora, claro, o site da marca) que relacionasse “13,51 dB” com “P= 0.00049″ a um estudo sobre audição. Ou sequer a qualquer outra coisa senão o próprio texto.

Me interessando bastante o “vários” em “vários estudos têm relatado que o condicionamento de som poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ruído traumático”, fui atrás. Achei um bem interessante, este sim publicado (no Journal of Neurophysiology da American Physiological Society).

O teste mostrou que o condicionamento sonoro (em ratos, seis horas diárias) realmente melhora a resposta coclear. Exceto na faixa testada acima de 12kHz. Que é o que acontece com a idade, quando os agudos começam a morrer. Como se ela tivesse sido exposta a sons, como quem passou anos ouvindo (como os ratos que passaram seis horas diárias e consecutivas durante dez dias ouvindo o equivalente ao som de um liquidificador de 600W triturando cem gramas de gelo a uma distância de noventa e cinco centímetros, mais ou menos [1]).

O estudo acima diz que é possível melhorar (simplificando, porque a explicação toda envolve termos como “permanent threshold shift” e “high pass filter” que eu aprendi quando fui alfabetizado em inglês e estou com séria indisposição agora) a eficiência coclear. Sabe o que o estudo não diz? Aliás, sequer cita? Que essa macumba sonora cura tinnitus ou zumbido ou perda de audição. Que é no que os depoimentos do site se concentram.

Se eles dizem ter sido curados de seus zumbidos e a propaganda diz que a eficácia foi comprovada pela Earlogic, vamos agora para a Coréia do Sul (a boazinha da duas) conhecer de perto a empresa.

Procurando primeiro por Eunyee Kwak, Ph.D., vejo que ela é a diretora de pesquisa da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Na página da Biosom ela é constantemente associada a outro Kwak, Sangyeop. Este, descobri, é o fundador e presidente/CEO da Earlogic Corporation (link em PDF). Segundo seu currículo, Sangyeop não publica desde 2010.

Fuçando na publicações curriculares, tem o promissor “Hearing Improvement with Customized Sound Stimulation“, supostamente publicado na American Academy of Audiology. O problema é que a academia nunca ouviu falar desse trabalho.

Aliás, somente a Eartronic e sua irmã Earlogic (digo irmã porque o currículo Kwak está no fileadmin da primeira, mostrando que ele é dono da segunda) parecem saber dessa publicação.

Do também excitante Ameliorative Effect of Customized Sound Stimulation on Sensorinerual Hearing Loss, só achei o abstract na Association for Research in Otolaryngology. As demais supostas publicações do currículo são mais específicas da prática de otologia do que da de magia negr, ops, “condicionamento sonoro antecipado”.

Aprofundando-me mais ainda naquele(a) obscuro(a) fosso(a) de desinformação que é o site da Biosom, encontro a seção “curiosidades“, onde acho o trecho a seguir:

“O software foi baseado no nosso equipamento que se chama REVE 134 (…)”

O que é esse REVE 134? O produto vendido pela Earlogic, criado por Kwak.

Aliás, as passagens “Um aparelho auditivo auxilia os deficientes auditivos amplificando os sons externos. Ele não tem a função de uma terapia fundamental para perda auditiva” da Biosom e “According to the current hearing loss management, hearing aids is used to help hearing-impaired people hear better by amplifying external sounds.It is not a fundamental therapy for hearing loss and does not cure the damaged auditory hair cell.” da Earlogic são bem, digamos assim, traduzidas.

Na parte de “Perguntas frequentes -> Dúvidas sobre os efeitos do Hearing Guardian V1 -> Há provas da eficácia do software?”, podemos ler e confirmar o que o locutor da propaganda diz, que:

“(…) estudos do Instituto Earlogic de Pesquisas da Coréia do Sul e do Grupo de Pesquisa Tecnológica Adaptive Neuromodulation GmbH (ANM) da Alemanha comprovaram que a utilização da tecnologia adequadamente pode recuperar em até 10dB a audição perdida no prazo de duas semanas, podendo assim diminuir sintomas decorrentes da perda auditiva, como zumbido e dores de cabeça.”

O produto Hearing Guardian V1, que também responde por REVE 134, foi desenvolvido pela Earlogic, aquela lá do Doutor Quack – ops, Kwak (hoje estou especialmente disléxico, que diabos!), mesma empresa (ou “Instituto”, como eles anunciam) que ^provou a eficácia^ do próprio produto em ^vários estudos^ nunca publicados.

O método descrito no ^estudo^ do site da Biosom usa um certo tom “a um nível mínimo audível” (o que nós, detentores de um diploma basicamente inútil, chamamos de “limiar de audição”). Bem diferente do som de liquidificador do estudo realmente publicado! O ^estudo^ com 17 voluntários (!) publicado no site é uma tradução do “The Effect of Sound Stimulation on Pure-tone Hearing Threshold” que o ClinicalTrials.gov diz não ter sido completado (última atualização em 7 de setembro de 2011) enquanto a Eartronic (irmã da Earlogic) publica uma versão atualizada dia 7 de janeiro de 2011 (PDF). Huuum…

E todos, todos os estudos, reais ou não, sempre dizem que o treinamento sonoro melhora a percepção de alguns tons ou ajuda a proteger contra lesões traumáticas. Nenhum deles cita zumbido/tinnitus ou restauração de audição perdida. Essas alegações só aparecem nas propagandas, subrepticiamente sempre conectada a “vários estudos” ou “teve sua eficácia comprovada” usando testes que nunca disseram coisas do tipo. E isso é propaganda enganosa, desonestidade intelectual e falência moral.

Não posso dizer que me decepcionei com o Nerdologia, visto que seu conteúdo continua sendo muito bom, além do programa ser bem produzido. O que posso afirmar é que o locutor do anúncio não pode dizer que o software teve sua eficácia comprovada. Especialmente tendo o público-alvo que tem. Mais ainda quando um deslize desses pode sujar a reputação de um cientista de verdade. Mais especificamente quando se trata de um amigo meu.

Agora durma com esse barulho.

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[1] Segundo meu decibelímetro e minha fita métrica.

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam não necessariamente por email. Achar posts, imagens, tuítes, vídeos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso não é difícil. O difícil é confirmar a veracidade das informações antes de sair por aí espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alegações são, via de regra, as seguintes: as moedas falsas são mais leves, não brilham como as verdadeiras, não são atraídas por ímãs, os detalhes são grosseiros, a falsa é “mais oval”, o tamanho dos detalhes “são um pouco maior, pouca coisa, mas são!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que não significa que não estejam todos certos, visto que não existiria só um falsário fazendo moedas sempre no mesmo padrão. O problema aqui é, como muitos outros problemas na vida, ignorância dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, você me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo é uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

É como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois é, ambas são joaninhas). Se você supõe previamente que uma delas é falsa, você vai concluir que uma delas não é uma joaninha. Não porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contrário da primeira, é sim uma aranha disfarçada) ou outra espécie de inseto, mas porque você chegou a essa conclusão antes de obter dados suficiente para qualquer conclusão, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso é comum em apologistas de pseudociências como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles já começam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X é geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles não entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contrário). Os que são um pouquinho mais dispostos da cabeça (e não pegam toda informação acerca de sua religião prática exclusivamente através de um blog escrito todo em maiúsculas e negrito) até se dão ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas já tendo certeza de que, digamos, exercício e dieta balanceada não funcionam, pois o que funciona é só sua religião prática e só pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religião prática. No artigo tem algo como “mas certas pessoas têm problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARRÁ! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL ESTÁ ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabeça de Rorschach. No caso da pseudociência ela precisa não ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detectável por qualquer instrumento que não minha própria fé e precisa ser algo que não me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que é certo é a moeda que eu “sei” que é verdadeira. Como a outra não se enquadra nas categorias arbitrárias pré-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circulação moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modificações em suas características físicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na prática, as modificações na moeda de R$0,50 – de disco prateado – e na de R$1,00 – de núcleo prateado e anel dourado – são pouco significativas. Além de apresentarem pequenas alterações de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. Já os desenhos de ambas não sofreram nenhuma modificação.

E, saca só!, nem cuproníquel e nem alpaca (liga de cobre, níquel e zinco) são ferromagnéticos e, como tal, não são atraídos por ímãs. São também ligas mais maleáveis que aço, ficando mais propensas a riscos e pequenas deformações. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, são ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na República ou pé-de-galinha no Barão de Rio Branco é prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil é um país vagabundo e vira-lata, que acha que é primeiro mundo e cunha moedas de cuproníquel/alpaca mas não tem sequer condições de recolher moedas que já circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cuproníquel/alpaca depois de apenas três anos porque eles são caros demais e o custo não é compensado pelo valor irrisório da face. [3]

Mas o Brasil é um país rico! E auto-hemoterapia cura câncer! E shiatsu tem comprovação científica! E homeopatia não é só água e açúcar! E o PT é diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” são apenas aço-inox pintado. Cobre (matéria-prima do bronze, do cuproníquel e da alpaca) é caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes públicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher capôs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso – talvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensação de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da população que nunca leu uma só linha de Sir Doyle e não sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por aí acusando alguém de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mistérios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

Dez livros que marcaram a minha vida

Com muito tempo livre e sem ter algo mais construtivo para fazer, Rafael e Ana me incluiram numa corrente de Facebook. Com ainda mais tempo livre e com menos algos construtivos a fazer, eu aceitei o convite indicação intimação praga elo (porque é uma corrente, sacou? Hã? HÃ!?). Seguem as instruções.

Consiste em fazer uma lista com os 10 livros (ficção ou não-ficção) que tenham me marcado. A ideia não é gastar muito tempo, nem pensar muito. Não precisam ser grandes obras, apenas que tenham sido importantes pra mim. Eu tenho que marcar 10 amigos que vão gostar da brincadeira. E eles me incluírem quando fizerem suas listas para que eu possa ver a lista deles e conferir boas dicas.

O parágrafo acima está em Comic Sans porque é um trecho copiado. Eu jamais começaria uma frase com “consiste em”. O “e eles me incluírem” também não é da minha safra. Mas se vocês passaram mais que dois minutos no Facebook ultimamente sabem do que se trata. Então vamos aos livros:

1) Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Não somente para consulta. Eu o li de capa a capa e esse exercício em inutilidade foi bom para o desenvolvimento do meu pedantismo.

O primeiro Aurélio

Eu já lia Aurélio antes de virar Aurélio.

2) Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional – vários. Esta versão em especial é importante porque foi escrita por gente que sabe “tu” e “vós” saiu de voga há muito e que palavreado rebuscado é apenas uma forma de arrebanhar a massa ignorante que mal sabe escrever o nome direito, quanto mais conjugar verbos irregulares em segunda pessoa ou entender que está sendo ameaçado por um aproveitador da ingenuidade alheia. Também lida de capa a capa, me fez entender o sentido da palavra “hipocrisia” e descobrir que muito “religioso de verdade” jamais leu uma só linha do que tanto gosta de impor aos outros.

A seção de fantasia da minha biblioteca

A seção de fantasia da minha biblioteca.

3) Cândido – Voltaire. Me ensinou que otimista só se lasca. E que se você for bonzinho vai se lascar mais ainda.

4) Breve História de Quase Tudo – Bill Bryson. Num dia frio e solitário, numa biblioteca centenária de um país muito, muito distante, este livro reacendeu minha paixão por aprender – coisa que o Sistema Formal de Ensino (SiFodE) me havia estripado anos antes. O universo (ou natureza) é uma coisa massa. Ultramassa. Quem acha que não, ou nunca chegou a ser apresentado ao conceito, ou não gosta de pensar.

Nota-se que ele já foi bem amado. Tem muita informação já ultrapassada, mas continua sendo excelente.

Nota-se que ele já foi bem amado. Tem muita informação já ultrapassada, mas continua sendo excelente.

5) O Médico e O Monstro – Robert Louis Stevenson. Quando li este, ainda criança, notei como somos ruins em traduzir títulos. E quando digo “ruim”, uso no sentido de “aquele que gosta de fazer ruindade”, porque “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” não chocaria ninguém.

6) Coleção Descobrir – Editora Globo. Competiu bravamente contra o já mencionado SiFodE pela dominação da área da curiosidade no meu cérebro[1]. Perdeu, no entanto. Mas ainda guardo boas lembranças (apesar das instruções para montar uma “armadilha para fantasmas” que vieram em um dos fascículos).

Stevenson, Conan Doyle e King. LeCarre apareceu de gaiato na foto.

Stevenson, Conan Doyle e King. LeCarre apareceu de gaiato na foto.

7) The Meaning of Liff – Douglas Adams. Mais um dicionário, desta vez escrito por Douglas Adams. Fui ameaçado de expulsão da biblioteca supracitada se não conseguisse controlar minhas convulsões gargalháticas. Sofri dores abdominais por uma semana por causa do livro.

8) Dicionário Filosófico – Voltaire novamente. Terceiro dicionário. Poderia roubar e incluir um quarto, o Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce, mas este é bem parecido com aquele, o Filosófico sendo melhor. Me ajudou a entender que sarcasmo, ironia, desconfiança e chacota são armas mais poderosas que dogmas ou ameaças termodinamicamente impossíveis na criação de caráter.

Foto tirada em frente à biblioteca anteriormente aludida

Foto tirada em frente à biblioteca anteriormente aludida.

9) O Cão dos Baskervilles – Arthur Conan Doyle. Olá, ceticismo. Tudo bem? Meu nome é Igor Santos, prazer conhecê-lo.

10) O Homem que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu – Oliver Sacks. Ninguém é normal mas ninguém demonstra saber disso. Apenas alguns não conseguem esconder.

Oliver Sacks, mais um médico que sabe escrever.

Oliver Sacks, mais um médico que sabe escrever.

Quase entrou na lista: Uma Breve História do Tempo, de Hawking; Deus Não É Grande, de Hitchens; Deus, um Delirio, de Dawkins; uma coleção de contos de Lovecraft; Quatro Estações, de Stephen King; WWZ, de Max Brooks; A Vida na Terra, de Attenborough; um livro de Chico Anísio com o mais negro dos humores (Telefone Amarelo, talvez?), e a trilogia da distopia: 1984, Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451.

Melhores que a Escolinha do Professor Estereótipo.

Melhores que a Escolinha do Professor Estereótipo.


Ateus malditos! Por que precisam escrever tão bem?

Ateus malditos! Por que precisam escrever tão bem?

Só não entraram na lista porque não têm nome, autor ou editora: minhas apostilas de música.

Não entraram porque não são exatamente livros mas deveriam fazer parte da lista: Enciclopédia Koogan Larousse, blogs de ciência, meus livros de culinária, a revista Scientifc American (que, por incrível que pareça, foi minha porta de entrada no mundo dos podcasts), o roteiro do último episódio jamais produzido de Caverna do Dragão, a coleção de cromos do chocolate Surpresa, os rótulos das coisas, encartes de discos, uma enciclopédia/dicionário (mais um) da história da música (não encontro, devo ter perdido), a Constituição Federal, também lida na íntegra, e uma coleção da Reader’s Digest chamada Faça Você Mesmo.

Já lia DIY antes de virar sigla.

Já lia DIY antes de virar sigla.

Não entrou porque não lembro do nome: um de antropologia, que me fez perceber que somos todos macacos; um de histórias das religiões, que me fez perceber que somos todos macacos; um tratado filosófico, que me fez perceber que somos todos macacos metidos, e; um pdf de psicologia. Mas aí eu já sabia que somos todos macacos.

Alguns macacos são mais metidos a besta que outros.

Alguns macacos são mais metidos que outros.

Mas o livro que me marcou mais profundamente foi um de Lair Ribeiro que continha um CD que, fato desconhecido por mim, tende a explodir quando queimado.

Menção honrosa: A Divina Comédia. Primeiro livro que não consegui ler todo. Me ajudou a entender a bossalidade, especialmente daqueles que dizem tê-lo lido mas que sabem apenas da existência dos nove círculos do inferno, de Beatriz e Virgílio.

O "-pedia" em "Wikipedia".

O “-pedia” em “Wikipedia”.

Leiam também a lista da minha mulher e entendam porque me casei.

E a sua lista, como seria?

———

[1] Eu sei que isso não existe, mas o SiFodE quis me ensinar o contrário.

A Wikipédia em português e a panelinha editorial pseudocientífica

Eu já contei um pouco da minha história com a Wiki-PT no meu outro blog então não vou repetir que já fui editor logo no começo mas desisti porque minhas edições (baseadas em evidências e com links corroboráveis) eram sistematicamente deletadas pelos editores da panelinha ideológica da qual eu me recusava a fazer parte. Dito isso que eu disse que não repetiria, hoje eu fui ver o que a Wikipedia original (regulada por pessoas menos investidas emocional e monetariamente com seus assuntos favoritos) tinha a dizer da milenar [1] técnica da dedada oriental, conhecida no oeste por shiatsu.

Qual não foi minha surpresa ao constatar que, em inglês, o verbete atual de shiatsu cabe em apenas um screenshot

Clique para a versão completa.

Clique para a versão completa.

…enquanto o verbete na Wiki-PT é consideravelmente mais extenso! Em todos esses anos nesta indústria vital, esta é a primeira vez em que isso me acontece!

O que primeiro me chamou atenção após os cinco pagedowns necessários para ler o texto completo (tá, o que me segundo chamou atenção) foi isso aqui:

wiki-estilo

Para os não-iniciados, isso significa que quem escreveu o artigo o fez sem consultar as regras (ou sem se importar com o conteúdo) que regem a enciclopédia. Ou seja, alguém escreveu o que achava que deveria ser escrito, publicou e… ficou por isso mesmo. Há mais de um ano e meio.

Uma das genialidades da equipe de Jimmy Wales (comparem aqui o tamanho e a qualidade dos verbetes em inglês e português do fundador da Wikipedia) foi ter embutido no sistema uma ferramenta antifraude na forma de um histórico impossível de ser editado ou manipulado e que registra cada mudança mínima numa página.

Isso nos permite verificar que o maior contribuidor individual do verbete é Arnie rj, login de Arnaldo V. Carvalho, criador do Portal Verde e que, segundo seu currículo naquela mesma página, tem (sic) “Capacitação em Medicina Tradicional Chinesa e Naturopatia, em seus segmentos shiatsu (tradicional, ohashiatsu, shiatsu emocional, zen shiatsu e Express), massagem sueca, thai massagem, ramma, sei-tai, lomilomi, drenagem linfática manual, recepção ativa, correção postural postural, aromaterapia, fitoterapia, reeducação alimentar, cromoterapia, relaxamento e controle mental“. Ele também dá cursos de shiatsu emocional (é até proprietário de um blog sobre isso). Ou seja, poucas pessoas seriam mais beneficiadas do que o próprio editor pela inclusão da seção Validação e Produção Científica que diz, muito dissimuladamente e sem qualquer sombra de evidência (sic): “A Ciência vem se interessando em conhecer os mecanismos de ação do Shiatsu, e avaliar sua eficácia em diversos tratamentos. Atualmente há milhares de artigos científicos sobre o tema. Segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento e Pesquisa Tecnologica, (CNPq), 356 dos pesquisadores cadastrados na Plataforma Lattes, incluindo 49 doutores, possuem algum tipo de formação em Shiatsu.[2]

Esses supostos “milhares de artigos” são frutos de buscas simples no PubMed, SciELO e Google Scholar pelo termo “shiatsu” (evidenciado pelas notas de rodapé da edição, já que as da versão atual estão desencontradas e completamente confusas, mostrando o nível nascôxa de qualidade de edição) e não uma análise qualitativa. Aliás, até quantitativamente é mentira, porque eu acabei de fazer a mesma busca no PubMed e obtive 758 resultados que, até onde eu saiba contar, é menos de mil. O SciELO me devolveu incríveis dois (02) resultados e o Google Scholar mostra qualquer coisa remotamente relacionada ao nome “shiatsu”, incluindo livros (que não são publicações acadêmicas), entrevistas (idem anterior), patentes (menos ainda), citações (“o mundo é como o shiatsu: vive de dar dedada nos outros” é uma citação) e etc. Acho pouco provável que o editor do verbete tenha lido um por um. Esse “segundo o CNPq” é igualmente uma busca no site do Conselho. Então não tenho como saber de onde ele tirou essa citação factual do CNPq.

E finalizar com “49 doutores” é só apelo a autoridade. E já sabemos que isso não é exatamente confiável. Especialmente eu tendo achado no Lattes 3236 doutores em “cocô” e 47 em “bosta”. Só 3 em urinoterapia, no entanto.

(Já sabemos que argumento de autoridade não é confiável, não é? Vocês sabem disso, né? Bom, ótimo, vamos em frente.)

Agora, qual editor incluiu essa seção pela primeira vez, mais especificamente às 14h53min de 31 de julho de 2012? Isso mesmo, Arnie rj. Aliás, a versão atual tem links tanto na nota de rodapé quanto na bibliografia para a página do editor, o Portal Verde anteriormente aludido e que lhe é fonte parcial de renda.

"Não estou dizendo que é shiatsu, mas..."

“Não estou dizendo que é shiatsu, mas…”

Em abril de 2012 uma edição se desfez do seguinte trecho, nunca mais citado (sic): “O Shiatsu não é recomendado para infecções, doenças contagiosas, fraturas, varizes ou como terapêutica única do câncer(…)”. E sabem quem fez essa edição? O financeiramente envolvido Arnie rj.

Ele não é de todo mau (aliás, nem acho que ele seja particularmente maligno, apenas equivocado e desprovido de pensamento crítico – a culpa maior sendo dos editores seniores da Wiki-PT), já que tirou também o trecho que recomenda shiatsu como coadjuvante no tratamento do câncer.

Sempre lembrando que shiatsu é somente uma massagem com os dedos (exclusivamente em gente branca, a julgar pelos resultados do Google Imagens. Credo) e nada mais que uma massagem com os dedos.

Se o verbete começasse com “o shiatsu é somente uma massagem inventanda num-sei-quando num-sei-onde que relaxa as pessoas e causa forte tendinite nos terapeutas…” eu não teria problema algum com isso. Eu passo a ter no momento em que o site mais acessado do mundo usa linguagem evasiva e informações ambíguas dissimuladas para tentar dizer que shiatsu é uma ciência e que deve ser vista e aceita como tal. O nome disso é “pseudociência”, palavra que parece não fazer parte do vocabulário da Wiki-PT. Ou até faz, mas parece merecer um grau mais alto de escrutínio sequer aludido na página discutida:

pseudociencia-wiki

Enquanto o único pecado do verbete de shiatsu é não estar formatado num padrão específico, o de pseudociências não cita fontes suficientes, usa dados duvidosos e não é considerado neutro.

Não usaram a mesma régua aí.

O Lexus LS 600h tem um banco com bolsas de ar que simula shiatsu. Não dizem, mas acho que ter um carro desses também serve como 'shiatsu emocional'.

O Lexus LS 600h tem um banco com bolsas de ar que simula shiatsu. Não dizem, mas acho que ter um carro desses também serve como ‘shiatsu emocional’.

Existe um grupo chamado Ceticismo de Guerrilha na Wikipedia que tenta melhorar a qualidade do conteúdo de certos verbetes que serviriam como propaganda para profissionais das pseudociências. O problema é que esse grupo não tem boa representação no Brasil ou em Portugal e, ainda por cima, quando tentam melhorar um artigo na Wiki-PT acontece o que acontecia comigo em 2006/07. Porque a cúpula ideológica da Wikipedia lusófona não admite que outros venham corrigir o que eles acreditam ser o correto.

Não sei qual canal devo acionar para tentar corrigir esse problema. Talvez já seja tarde demais para nós, que florescemos tardiamente no Lácio.

———

[1] Mentira, shiatsu tem nem 100 anos.

[2] O que faz dele um especialista em shiatsu, que é exatamente o que a Wikipedia pede e incentiva. Ele só não é especialista em ciência. Ou sequer em procurar resultados num site de busca.

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