2012 no 42. em uma imagem que vale, literalmente, mil palavras

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Você se daria bem num mundo pós-apocalíptico?

[Texto originalmente publicado no Papo de Homem que estou reciclando para a Blogagem Coletiva Apocalíptica]

– Sabia que caju é uma fruta?

– Sim! Toda amêndoa é fruta!

– Não, não é da castanha que estou falando. Ela vem junto com uma fruta suculenta, que pode ser tanto amarela quanto vermelha.

– Sério?

– Deixe-me achar uma foto aqui para mostrar… Isso é a fruta do caju. O que vocês comem é essa parte aqui, a castanha.

– Que coisa estranha! Que gosto tem?

Se esse diálogo parece estranho é porque aconteceu do outro lado do mundo, quando eu morava na Austrália.

Amêndoas em geral são bastante apreciadas por lá como lanche e castanha de caju (conhecidas apenas por cashew) é uma das mais populares, facilmente encontradas em qualquer supermercado ou loja de conveniência, geralmente em duas versões:

– crua, que obviamente não é crua mesmo, apenas levemente tostada e esbranquiçada, e;

– assada, que é tostada até ficar dourada.

Sempre já descascadas e separadas em duas partes.

Os australianos não sabem que não estão comendo castanhas cruas, mas eles também desconhecem que uma iguaria dentre as suas favoritas é apenas parte de um conjunto (a parte macia, doce e suculenta é na verdade um pseudofruto, mas era mais fácil chamar de fruta e acabar logo com a conversa enquanto eu estava por cima).

“Tá. E daí?”

E daí, caro leitor, que eles não sabem o que estão comendo. Não sabem o que aquilo é, não sabem como é preparado, não sabem de onde vem, nunca viram um in natura nem sabem que gosto tem um caju.

Só sabem que a castanha é gostosa e vai bem com cerveja.

Um órgão regulador do comércio dum país de primeiro mundo deixa que um produto seja abertamente vendido com raw (cru) escrito na embalagem, mesmo ele sendo assado (não recomendo que façam, mas um experimento interessante é morder uma castanha natural e ver o que acontece quando o ácido anacárdico que ela contém começar a escorrer pelos seus lábios), então eu imagino quantos outros nós eles não estariam levando de coisas bem mais sofisticadas.

(Não estou criticando práticas comerciais internacionais. O que eu disse aí em cima vai fazer sentido num minuto.)

Os australianos (a maioria) pensam que podem achar no meio do mato um arbusto que dá cashews como amendoins e que é só colher e comer, como amoras.

Não sabem que para chegar ao produto embalado elas precisam primeiro ser colhidas, separadas do caju, assadas sobre fogo intenso (a fumaça resultante é terrível e só sai das roupas quando você compra novas), descascadas (parte mais difícil do processo), separadas e polidas.

Pascoal, um morador da vila de pescadores de Genipabu, sabe o que comer castanhas envolve. E por isso só o faz uma ou duas vezes ao ano.

Não vou supor que ele plantou um cajueiro porque não precisa; a máxima de Caminha “em se plantando, tudo dá” é 100% adequada à Genipabu (desde que “tudo” seja um eufemismo para “cajueiro”), mas eu sei que ele tem uma lata de leite especial, onde foi pregada uma ripa de madeira para servir de cabo, e que serve de assadeira de castanhas.

O fogareiro eu não sei se ainda existe pois ele precisou dos tijolos para um reparo na parede do quarto mês passado, mas imagino que não seja difícil montar outro rapidamente.

O mesmo pé de caju pode fornecer a lenha, enquanto sua mulher e filhas fornecem o trabalho manual de descascar dezenas de castanhas ainda quentes porque “é mais fácil enquanto ainda tá pegando fogo“, segundo me garantiu a esposa Zefinha, mulher de belas unhas (que cria galinhas no quintal de casa alimentando-as com o milho que ela mesma planta).

Ah, Pascoal também sabe manobrar uma jangada sobre correnteza de maré em completa escuridão, “ler” suas imediações para saber não só onde está mas onde os peixes estão, arremessar tarrafas que foram tecidas (e posteriormente remendadas) por ele, tratar um peixe em alto-mar usando um facão de doze polegadas (sob a luz das estrelas) e retornar são e salvo para terra firme no quebrar da barra.

Só não sabe vender (ele é meio careiro), mas cada um com sua especialidade.

O que me possibilita fazer uma transição perfeitamente suave e perguntar: qual a sua especialidade?

O que você sabe fazer? Não tenho dúvida (talvez só um pouquinho) de que você é um membro ativo e importante da sociedade e uma peça fundamental na engrenagem social contemporânea, mas o que você sabe fazer?

Vamos supor que falte energia em toda a cidade agora (ou pelo menos pouco depois de você ler a próxima pergunta). O que você pode fazer em sua casa/trabalho, das coisas que você faz costumeiramente, sem eletricidade? Melhor ainda, tente lembrar do apagão do dia 11/11/09 (caso não tenha sofrido um bloqueio mental por trauma psicológico extremo) que estatisticamente afetou a sua vizinhança. O que exatamente você fez enquanto a energia não voltou?

A única coisa em que eu consigo pensar é tomar banho, já que eu sempre tomo banho frio (a resistência do meu chuveiro queimou em 2007 e eu nunca lembro de comprar outra), e lavar a louça.

Na minha terceira visita à geladeira, seu estoque já começará a esquentar / derreter / apodrecer / criar crostas lodais / juntar água / reviver / talhar.

Meu tocador portátil de MP3 não durará muito pois eu sempre esqueço de deixar carregando tempo suficiente e meu laptop seria inútil sem Internet pois jogar Soldat sozinho não tem graça e eu já zerei Lego Star Wars duas vezes (eu não possuo um televisor, então não sentiria falta de uma caixa mágica piscante, mas entendo que isso constitua um problema para alguns).

Também não posso ir caminhar, pois o elevador não está funcionando e eu não sou louco de descer pela escada porque corro o risco de ter que subir por ela na volta. Uma coisa é me exercitar, outra bem diferente é ser otário.

Escada… pff.

Ou seja, meu dia sem eletricidade se resumiria a eu sentado numa cadeira defronte à pia, vendo água escorrer pela torneira, numa fútil tentativa de me confortar em saber que pelo menos algum aspecto da minha vida moderna ainda funciona.

E como eu tenho quase certeza de que todos os outros moradores da cidade estariam fazendo exatamente a mesma coisa, a água acumulada acabaria rapidamente, pois sem eletricidade não há como bombear água cano acima até as caixas d’água.

Agora, num mundo sem energia elétrica (computadores) e sem água corrente (descarga), volto a perguntar: o quê você sabe fazer? Isso é, fora ligar e pedir uma pizza pois os telefones e fornos a lenha ainda funcionam (pelo menos temporariamente, enquanto o gerador da companhia telefônica e o forno da pizzaria tiverem o que queimar).

Dependendo da época do ano e do nível de poluição em sua cidade, o sol vai desaparecer bem rápido e as noites serão muito longas e escuras.

O que você faria com apenas doze horas de luz? Lembre-se; não há energia em lugar algum, então todas as cervejas estão quentes (o que tira a razão de ser dos alimentos fritos e dos churrasquinhos de rua), logo todos os bares estão fechados.

Se você mora num lugar quente, não pode contar com ventiladores. Se mora num lugar frio, não pode ligar o aquecedor.

Em breve, o gás também acabará, levando consigo a feijoada (feita com produtos salgados que não precisam de refrigeração), que nesse ponto nada mais é que forro para a cachaça, única bebida conhecida que pode ser tomada em temperatura ambiente.

“Ah, mas ainda restam as frutas!”

Ao que eu pergunto: quem é o índio que ainda come frutas?

Tudo bem, algumas pessoas (hippies) realmente ingerem alimentos não-fritos.

Mas se você, leitor, for uma dessas pessoas (um hippie), você tem uma fruteira em casa?

E não me refiro ao móvel com rodinhas onde bananas de supermercado são deixadas até apodrecer nem ao receptáculo semiesferóide que fica sobre a mesa cheio de peças disformes de cera pintada, mas sim às árvores de onde nascem frutas. Tem uma dessas na sua casa?

Porque se você mora num apartamento eu sei que não tem (bonsai não conta, não insista).

Vou conceder (fantasiosamente) que exista um pé-de-X no seu quintal. Com qual frequência você pode colher Xs maduros durante o ano? E qual a quantidade absoluta de Xs maduros que sua árvore produz por dia? E por quanto tempo você aguentaria comer nada além de Xs?

Ah, mas seu terreno é grande e tem um pé-de-Y também! Ótimo, agora você pode alternar Xs e Ys até abusar dos dois ou até passar a época da floração, o que vier primeiro!

Eu estou propositalmente deixando de citar as de supermercado, pois qualé o motorista de caminhão que vai gastar o restinho da sua preciosa gasolina indo buscar e deixar frutas (ou “rango de hippie”, como são conhecidas na profissão) ao redor do país? Porque a região onde dá jabuticaba não é a mesma onde nasce mamão.

Ademais, sem energia não há adutoras nem irrigação agressiva e voltamos ao tempo das cavernas, quando precisávamos esperar até março para comer pitombas e jambos só davam entre outubro e novembro.

Nesse ponto, o pico inicial de desespero já voltou ao nível normal de constante pessimismo e falta de perspectiva e o episódio de assar o cachorro usando as cadeiras da sala como lenha já volta a parecer um ato bárbaro e não mais um momento “ou ele, ou eu” de necessidade, causado pela visão anuviada pela fome e as alucinações causadas pela falta de banho e rádio.

Se você precisar, você sabe arranjar comida? E com “arranjar” não estou fazendo referência a roubar, mas a produzir comida a partir de, bom, a partir de seja lá o que produz comida.

E todos os dias, para o resto da sua vida, pois sem eletricidade não há refrigeração e a conservação desse alimento produzido diariamente será grandemente prejudicada por isso.

Mas pelo menos você estaria comendo alimentos frescos todos os dias.

E quanto à água? Pois ela acabou alguns parágrafos acima e já se passaram alguns meses na linha do tempo deste texto.

Já descobriu como obter água potável ou morreu junto com o cachorro/churrasco?

Falando nisso, se sua casa pegar fogo, você sabe usar um extintor? Tem certeza?

Uma coisa básica, fácil e intuitiva como tirar um lacre, puxar um pino e espremer uma válvula é um conceito totalmente alienígena para algumas pessoas (constatei isso pessoalmente no Dia do Grande Esguicho, como ficou conhecido no meu prédio o dia em que alguns vândalos esvaziaram alguns extintores nos corredores, não sem muita dificuldade).

Imagino o quão difícil serias tarefas ordens de magnitude mais complexas, como destilar água ou acender uma fogueira (que, em caso de perda de controle, consumiria todo um quarteirão antes de alguns indivíduos conseguirem entender que a mangueira de um extintor é flexível e precisa estar apontando para a base da chama).

Recentemente eu fiquei 24 horas sem Internet e sofri bastante. Passei pelo menos dezoito dessas vinte e quatro sentado defronte ao monitor, esperando algo acontecer. Planejava apenas ler meus emails e ir lavar a louça, mas enquanto a rede não retornava, minha mente também não funcionava. É como se minha casa só existisse virtualmente e, sem conexão, não posso sequer varrer a sala e limpar o banheiro.

Não é péssimo quando perdemos algo com o qual nos acostumamos? A Internet só tem uns quinze anos, a Web 2.0 uns cinco ou seis, mas quem conseguiria, voluntariamente, deixar de usar Orkut, MSN, Twitter, Facebook, etc?

O mundo funcionou perfeitamente bem durante décadas sem um telefone em cada bolso, mas imagine passar uma semana sem celular.

Só imagine. O terror é por conta da casa.

Imagine agora que não há mais veículos motorizados e você tem que ir numa bicicleta (ou pior, caminhando!) para onde quer que seja o local onde você recolhe sua comida/água. Qual a melhor estratégia a adotar quando seu lar e sua fonte de alimentação não habitam o mesmo fuso horário?

E não estou falando de quinze graus de curvatura geóide, porque isso, para quem está a pé, é como daqui até Marte. Me refiro à distância que, sob certas circunstâncias, deixa de ser contada em passos ou quilômetros e passa a ser medida em horas ou luas.

Boa sorte voltando para casa no mesmo dia em que saiu para catar comida.

Voltando à estratégia, é melhor caramujar (levar sua casa consigo) ou fidipedesar (correr 42 quilômetros indo e 42 voltando)?

No caso de um apocalipse tecnológico, além de passar o dia chorando com saudades do meu GReader (na época em que este texto foi escrito, o Google ainda não tinha dado o tiro no pé de acabar com o Reader), eu acho que não me importaria em dormir no mato de vez em quando, desde que estivesse sempre perto de uma fonte de água bebível e comida abundante.

E como saber se aquele líquido pode ser consumido seguramente?

O método ideal envolve transformá-lo em cerveja, mas nem sempre isso é possível (ou desejável; lembre-se que não existem mais geladeiras).

Então, #comôfas?

Sem tecnologia, eu não sei. E nesse mundo pós-apocalíptico não posso usar o Google para descobrir. Poderia usá-lo agora e decorar a informação, mas isso dá muito trabalho e eu posso fazer mais tarde.

Chegando nos finalmentes: estamos sem energia, sem água tratada corrente, sem alimentos e sem perspectiva de melhorar.

“Sem perspectiva? Mas o espírito humano é inquebrantável, caro amigo!”

Concordo. O otimismo é a doença mental mais difundida no mundo, beirando proporções pandêmicas, mas pensamento positivo não vai trazer o Viva a Noite de volta. Não é?

Vivemos num mundo quase 100% especializado, onde cada indivíduo é exatamente isso: individual e especialista.

Eu, por exemplo, sou formado em Engenharia de Áudio com especialização em Gravação e Edição. Sem um computador possante, sou tão firme quanto um prego na areia e apenas estou fazendo peso na Terra.

Se você for um biólogo pode até entender bastante do Mundo Natural, mas eu aposto que sua função atual se resume a um laboratório cheio de coisas com nomes contendo o sufixo “eletrônico”.

E se trabalhar num escritório (como eu atualmente) é certeza que depende totalmente de um computador, que depende de eletricidade. Se esta acabar, você está na rua, sem função.

Se for advogado você ainda pode manter seu trabalho temporariamente (até o mundo abraçar a anarquia generalizada com as pernas), mas imagine preparar uma peça com uma caneta. E se precisar copiar um processo?

Neste nosso mundo ocidental refinadamente tecnológico temos todo o conforto do mundo. Desde que elétrons corram livres por fios de cobre, para lá e para cá, sessenta vezes por segundo.

Acabou energia, acabou civilização. Todos correremos loucos pelas ruas, destruindo tudo que for inteiro e ateando fogo a tudo que for inflamável, até morrermos de sede.

Se perdermos nosso estilo de vida, nunca mais o teremos de volta, pois não existem mais (ou se existem são extintamente escassos) inventores alquimistas renacentistas que sabem, em casa, transformar areia em tecnologia.

Se alguém quiser construir um carro, jamais o fará sozinho. Mesmo depois de extrair e purificar minério, derreter e preparar metal, desenvolver e montar peças móveis e fixas, preparar e executar um plano e, finalmente, construir um carro, ainda é necessário produzir combustível, óleos, sistemas hidráulicos e vulcanização de borracha. Que precisará ser extraída por você.

Sem nossas máquinas automatizadas, fazer um parafuso que seja é a coisa mais difícil do mundo! Imagine um eixo de roda verdadeiramente reto.

Viveríamos em caos total, pois sem máquinas somos inúteis e sem tecnologia somos muito frágeis. Não teríamos a mínima chance. Morreríamos à míngua, totalemente desamparados.

Enquanto isso, Pascoal e Zefinha, que moram perto de um poço artesiano, continuam suas vidas normais de pescador (obtendo a própria comida) e dona-de-casa (remendando as próprias roupas), assando castanhas uma vez ao ano.

Blogagem coletiva Fim do Mundo

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