Salada 42.

Eu sempre achei o vegetarianismo imoral. Acho mais aceitável matar um animal com a finalidade de comê-lo do que matá-lo de fome, comendo a comida dele. Por que um ser humano trairia assim tão cruelmente sua própria herança evolutiva se recusando a comer proteína e vitamina B12?

Por isso, durante a maior parte da minha vida, a palavra “salada” significou “a comida da minha comida”. Todas que me eram apresentadas sofriam de uma crônica escassez de variedade. Ou eram rodelas de tomate e cebola servindo de peso para impedir que uma solitária e íntegra folha de alface fosse levada pelo vento, ou simplesmente alface servindo de camuflagem para sua amargurada e intensamente desgostosa prima, a rúcula.

Mas isso mudou alguns anos atrás, quando conheci quem viria a ser minha namorada e, logo em seguida, esposa.

Meire me apresentou ao delicado mundo dos vegetais cortados em cubinhos. Isso foi uma revolução gastronômica na minha vida, porque a partir de então eu poderia misturar os sabores diretamente na minha boca sem precisar deslocar meu maxilar, nem comer somente o 1/8 de cebola para só depois degustar do cilindro de tomate à minha frente.

No entanto, isso só aconteceria se eu mesmo preparasse, pois até nos comedouros especializados em salada ainda é mistério a tecnologia do “cortar cada pedaço mais de uma vez”.

E isso traz nada mais que vantagens, pois eu posso controlar tanto a densidade proteica e vitamínica quanto todos os sabores, texturas e umidades que desejar.

Após muita experimentação (em todas as acepções do termo), cheguei a um método que, para minhas papilas e da minha mulher é perfeito. Equilibradamente flexível e consistente enquanto macia e crocante, nutritiva e divertida, de preparo simples e de resultado complexo.

A fórmula é a seguinte (quantidades volumetricamente comparativas):

1 lycopersicon – qualquer variedade de tomate, sempre bem maduro.

1 vegetal folhoso – qualquer espécie de alface ou outra coisa que uma uma girafa não faria questão de rejeitar.

OU

1 vegetal crucífero – qualquer cor de repolho, qualquer nível botânico ou nacionalidade de couve, brócolis, nabo, etc.

1 cenoura – aqui não tem como fazer piadinha porque sua salada vai depender dela para crocância, coisa que nenhuma outra umbelifera pode dar visto que a maioria vem em forma de erva e as outras não prestam para comer cruas.

0,5 capsicum – se você estiver se sentindo aventureiro, vá de pimenta. Caso contrário, qualquer cor de pimentão.

1,5 allium – este vai ser dividido em duas partes, sendo um terço cru (recomendo que seja cebola mesmo) e dois terços caramelizados em fogo baixo com algumas gotas de azeite (mas shhhhh, isso é segredo).

1 legume (ou grão molhado) – milho, ervilha, feijão (sério, pode testar), grão-de-bico, lentilha, etc.

1 noz (ou grão seco) – amendoim, castanha, nozes, castanha-do-pará, amêndoa, avelã, pistache, caroço de jerimum, ou até alguns besouros ou formigas fritas.

0,5 doce e frutoso – morango glaceado, kiwi desidratado, uva-passa, doce de goiaba, figo turco, tâmara, damasco seco, etc. Você vai me agradecer enormemente por isso. Já adianto meu “de nada”.

1,5 animal – o ingrediente principal. Geralmente uso tiras de filé bovino, cubos churrascados de músculo estriado de aves ou atum defumado, mas creio que costela de porco, pernil de carneiro, anéis de lula ou outro representante da locomoção consciente (inclusive os embutidos) não deixariam sua salada terrível. Ou, se quiser comer um bicho inteiro de uma vez só, recomendo um ovo cozido.

1 queijo – esta etapa se torna melhor quando combinada com a anterior. Por exemplo, se usar tiras de filé, vá de gorgonzola; se preferir frango, escolha queijo do reino ou até brie; quando faço com atum, uso sempre algo branco, como mussarela ou coalho.

0,5 adstringente controverso e opcional – aqui, sempre usamos azeitona mas não vejo um só motivo para não acrescentar pasta de alho, vinagre balsâmico, alguma variação no tema mostarda ou até suvinil raiz-forte, caso seu nariz esteja entupido.

Tudo isso temperado com sal, pimenta-do-reino (moída na hora, por favor), noz-moscada (idem item anterior), azeite, vinagre, molho inglês ou de soja em quantidades adequadas (sempre lembrando que “zero” também é uma quantidade, caso você não goste de algo listado).

Outros ingredientes opcionais:

0,2 folhas aromáticas frescas – cebolinha, hortelã, alecrim, coentro, manjericão, orégano, salsa, ou até folhas de limoeiro (sem onda, elas são muito usadas na culinária vietnamita).

1 frutas frescas – tangerina, melão de qualquer cor, manga em um dos vários estágios de maturação, uva meiadas e descaroçadas, morango, fatias quarteadas de banana, caju, maçã ou pera em cubos e goiaba preferencialmente sem sementes.

Hoje eu como salada pelo menos uma vez por semana (quero até aumentar a frequência), nunca repetindo uma receita diferente mas sempre usando o esquema acima. E confiro o Selo Igor Gold de Qualidade enquanto agradeço novamente à minha mulher por me apresentar a este novo mundo de sabores e delícias.

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