Resenha – Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas

- Pode ser que seja uma mulher…

- Ora essa, e o que mais podia ser?

- Há mais coisas entre o céu e a terra… Se é uma mulher, por onde é que ela entra?

- Não sei.

- Pois é. Nem eu. Mas se for outra coisa… Ora, qual, para um prático homem de negócios no fim do século dezenove, essa espécie de conversa é um tanto ridícula.

Ele parou por aí, mas eu vi que o assunto o preocupava mais do que ele queria dar a parecer. A todas as velhas histórias de fantasmas de Thorpe Place, uma nova se estava acrescentando bem sob os nossos olhos.

No conto “A caixa de charão” (The Jappaned Box – 1899), dois personagens discutem acerca de uma voz feminina que surge sem explicação num quarto trancado onde ninguém é visto entrar ou sair.

Notem que a incredulidade expressa acima por um dos interlocutores é acompanhada de uma auto-recriminação, visto que “essa espécie de conversa é um tanto ridícula” já “no fim do século dezenove“. E por que pessoas práticas acreditam em coisas estranhas?

O conto citado acima foi escrito pelo criador do detetive que é (discutivelmente) o símbolo máximo do ceticismo, Sherlock Holmes. E mesmo assim, Arthur Conan Doyle, que tanto pregava a racionalidade em seus escritos, acreditava em fadas. Então, por que pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas?

Michael Shermer descreve casos, discute estudos, apresenta evidências e nos transporta para dentro da mente das pessoas que acreditam; tanto em coisas “comuns”, quanto em coisas “estranhas” (ou seja, todos nós).

Com uma bibliografia impressionante (quase vinte páginas só de referências), este livro, dividido em capítulos auto-contidos, é prazeroso e divertido de ler. Pelo menos para o verdadeiro cético, já que muitos conceitos e pré concepções são desafiados e demonstrados à luz da evidência científica, fazendo dele um volume bastante revelador em alguns pontos, que certamente são bem interessantes para os céticos de carteirinha (mas sinta-se à vontade para duvidar desta minha afirmação).

Eu notei alguns erros de tradução (como o uso de “desvio” em lugar do mais comum “viés” e o mais literal e confuso “sistema de endereçamento público” quando um simples “caixa de som” resolveria) e uma certa desatualização (como quanto ao consenso do início da vida na Terra), culpa da demora do lançamento nacional, quase dez anos depois da edição revisada e quase quinze depois do lançamento original.

Fora algumas besteiras que meu pedantismo não deixa passar, todo o livro se mantém fresco e revigorante.

Por que o fenômeno de “caça às bruxas” ocorre mesmo frente à impossibilidade das alegações? Como uma filosofia que prega o racionalismo e a individualidade absoluta se desvirtua e se transforma num movimento com aspectos de seita (onde discutem-se até se homicídio é justificável em casos de desrespeito ao líder)? Por que pessoas inteligentes defendem, com todos os seus recursos, ideias absurdas e apoiam a negação pura e simplesmente insustentável de fatos científicos e históricos, como a evolução e o holocausto nazista?

Algumas das pistas que Shermer nos dá para respondermos a essas (e outras) perguntas tão difíceis são: gratificação imediata; simplicidade, e; moralidade e sentido. Ou seja, algumas vezes, crer em absurdos é mais reconfortante, mais fácil e ainda transfere a responsabilidade para algo maior.

Teorias conspiratórias, seitas, religiosismo (e até livros de auto-ajuda) podem ser criaturas de simples falhas de pensamento crítico (como seria o caso das fadas de Conan Doyle, que não escapa de ser mencionado no último capítulo).

Dedicado a Carl Sagan, com prefácio de Stephen Jay Gould e com inúmeras referências a Martin Gardner, “Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas” tem um público certo que, sem dúvida, vai se identificar com as palavras do editor da revista Skeptic, Michael Shermer (e de Pope, Hume, Eddington, Malinowski, Randi, Pinker e outros tantos citados).

Excelente livro que irá residir ao lado do meu Mundo Assombrado Pelo Demônios (assim que a reforma aqui em casa acabar) por sua capacidade em ser, ao mesmo tempo, tanto uma leitura introdutória quanto de aprofundamento. Se você se interessa pela maquinaria do pensamento humano e gosta de ter seu próprio status quo interno desafiado, eu o recomendo fortemente.

Agora, vamos para o sorteio

Kentaro, editor do Ceticismo Aberto, está sorteando um volume entre todos que responderem à pergunta abaixo:

Participem. E, para a maioria que não ganhar, o livro pode ser adquirido diretamente pela página da editora.

Resenha: Guia Mangá de Biologia Molecular

Nunca li mangá na vida. Acho que essa é a melhor maneira de começar esta resenha.

Não posso dizer que estava preparado para a frenética variação emocional errática das personagens que conseguem, em uma página, passar por toda a gama de emoções que uma pessoa pode exprimir e mais algumas que só existem em desenho, mas acho que a juventude de hoje em dia entenda melhor que eu, manow. (Usei a gíria adequada?)

Passado o choque inicial, comecei a me divertir com a estória, que é de fácil imersão e abstração e o balanço entre ficção e conteúdo teórico é tão bem feito que minha suspensão de descrença ficou intacta praticamente o tempo todo.
E quando a informação fica difícil demais, o guia, um dos personagens da estória, liga o “modo fácil” que realmente ajuda na fluência.

O volume, apesar das quase duzentas e vinte páginas, pode ser facilmente lido em uma tarde, mas, a não ser que você tenha uma capacidade infinita de absorção de conhecimento (ou seja um biólogo molecular), não recomendo que o faça. Se você já não souber do que se trata, é muita informação prum dia só.

Por isso (eu acho, estou especulando aqui) o livro é dividido em cinco capítulos. Uma criança (para quem eu espero que o livro seja direcionado) poderia facilmente ler e aprender quase tudo ali no decorrer de uma semana de leitura.

Falando em criança, esse é o tipo de publicação que eu gostaria de ter lido vinte anos atrás.

Várias páginas ininterruptas de desenho, intercaladas com cinco ou seis de puro texto, aprofundando o assunto.
guia mangá de biologia molecular

Não que biologia fosse meu filão na infância, mas já se fosse um de física

Se bem que esse seria exatamente o tipo de livro que me faria querer virar técnico de PCR. Nasci para ser peão engenheiro mesmo

Uma coisa me decepcionou, no entanto: a falta de cores.

A capa é uma beleza e um desmantelo de informação multicromática, mas as páginas são todas em pretibranco, o que deve dificultar o interesse imediato de alguns estudantes.

Juventude de hoje em dia é acostumada com TVs digitais e suas mil milhões de cores. No meu tempo até as árvores eram em preto e branco!

Não, estou exagerando um pouco, o verde já tinha chegado na minha cidade naquela época.

Mas eu lembro de um livrinho com uma coletânea das tirinhas do recém-lançado Recruta Zero que demorei a ler porque era em tons de cinza.

Passando disso, o conteúdo é realmente muito bom e as explicações são fáceis de entender, especialmente quando o leitor é quem dita o passo.

Guia Mangá de Biologia Molecular
Nas bancas, por R$39, ou direto pela página da Novatec Editora com 20% de desconto.

A presença constante de ideogramas me deixou curioso, porque não tenho como saber se tudo aquilo está sendo traduzido ou não, no entanto eu não me importo muito em não entender tudo da primeira vez, pois quem sabe um dia eu não aprendo japonês, volto a ler a estorinha e descubro piadas novas depois de tantos anos? (Eu acho que entendi “peixes mortos no rio”, porém.)

Esse é um tipo bom de incitação à curiosidade.

Agora vamos ao desconto que eu sei que vocês adoram.

A editora, que foi gentil o suficiente para me mandar o volume resenhado aqui, abaterá 20% do preço de capa (que cairá de quase quarenta para quase trinta reais) para quem comprar direto da página informando o código “42″ no carrinho de compras. E a promoção é válida por todo o site até 30 de junho!

Aproveitem!

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