Sem meio termo

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Ao longo dos primeiros meses desse ano, acompanhei muitos artigos que, de maneira contundente, urgem a comunidade científica brasileira a assumir um verdadeiro compromisso com a qualidade da ciência produzida no país. Não podemos considerar nosso critério adequado com os indicadores que temos hoje. Eu sou daqueles que concorda, em grau, número e gênero, com o texto do artigo “Produção científica e lixo acadêmico no Brasil” do professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite publicado na Folha de São Paulo em 06/01/15.

No artigo É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro de 26/01/15, o professor emérito da Unicamp Lewis Joel Greene aponta o problema: “Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.”

O artigo me fez lembrar do que li no livro ‘Aprendiz da ciência’ de Carlos Chagas Filho. Ele fala da importância da “criação de um conceito fundamental para o nosso país: o emprego de modelos nacionais estudados pelas técnicas as mais avançadas, o que, de um modo geral, significam técnicas internacionais. Esse conceito define e determina o que se deve chamar ‘a ciência nacional’. Isto não significa nenhum tipo de xenofobismo ou de estreito nacionalismo, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento natural e social de nosso país.”

Para mim, e acredito que para ele também, não eram apenas as técnicas internacionais, mas também os critérios internacionais de qualidade. A ciência é um conjunto de ferramentas para entender como o mundo funciona. Seus critérios não podem ser flexíveis, porque as leis da natureza não são. Não há como discutir e chegar a um ‘consenso’ do que é o melhor. Não há ‘negociação’ com as evidências. Não há meio termo.

Ainda que eu admire o discurso do professor Domenico de Masi que diz que “as universidades do Brasil só não são consideradas as melhores do mundo porque os critérios para a escolha das melhores são determinados pelas mesmas universidades que publicam o ranking“, tendo tido a oportunidade e o privilégio de visitar Harvard e Stanford, não posso dizer que sejam critérios ruins.

Ainda assim, para mim, existe um critério melhor do que qualquer ranking. Um critério absoluto. O critério do que funciona e do que resolve problemas no mundo real. Quando Ioannidis publicou Why most published research findings are false‘ em 2005, era exatamente disso que ele estava falando: basta de coisas que não são replicáveis, não são confiáveis, coisas que não funcionam!

Nós precisamos fazer coisas que funcionem. Sejam elas teorias ou patentes, precisamos de ciência que ajude a resolver problemas no mundo real.

Precisamos do padrão Richard Feynman: “O que eu não posso criar, eu não posso entender.”

Ou do critério Ayn Rand em ‘A Revolta de Atlas': “Não há nada de importante na vida exceto sua competência no seu trabalho. Nada. Só isso. Tudo o mais que você for, vem disso. É a única medida do valor humano. Todos os códigos de ética que vão tentar enfiar na sua cabeça não passam de dinheiro falso impresso por vigaristas para despojar as pessoas de suas virtudes. O código de competência é o único sistema moral baseado no padrão ouro.”

A comunidade científica acredita hoje que os artigos científicos são o propósito. O ‘fim’. Entendi, recentemente, ainda que só tenha consolidado essa compreensão agora, neste exato momento, que os artigos científicos são apenas o começo. Se um artigo científico se encerra em si, ele não fez jus aos recursos que foram empenhados nele. Estou falando de transformar dados em informação e informação em conhecimento. E sim, conhecimento em coisas que funcionem.

Patentes ou teorias, artigos tem que se transformar em coisas que funcionem. 

Lembrei da metáfora da fábrica de tijolos. Em 1963 Bernard K. Forscher enviou uma carta a Science na qual usava a metafora de uma fábrica de tijolos para fazer exatamente essa crítica a ciência que estava sendo produzida no mundo (Caos na Fábrica de TijolosChaos in the brickyeard).

Sou um cientista que entende que o modelo de financiamento de ciência no mundo está esgotado. Também sei que a percepção do cientista sobre seu papel no desenvolvimento social e econômico do país é uma, a percepção da sociedade sobre esse mesmo papel é outra e o seu real papel, outro ainda. Espero contribuir com inovações que ajudem a chegarmos a um novo modelo, onde todas essas variáveis se reconciliem em um equilíbrio sustentável. Porque voltar ao que era (“nós pesquisamos o que quisermos e vocês pagam a conta”) simplesmente não é mais uma opção.

Há 4 anos atrás o artigo ‘Fabrica de doutores’ (PhD Factory) publicado na Nature chamava a atenção para o excesso de doutores sendo produzidos no mundo. Na semana passada, outro artigo na Nature, ‘O futuro do Postdoc’ (The future of postdoc), mostra como o problema aumentou.

No mundo inteiro, em qualquer área, as únicas pessoas com trabalho garantido são aquelas que aprenderam a se tornar indispensáveis. A maior parte das pessoas quer fazer o que quer fazer e ser paga, com benefícios, por isso. Temo que não seja possível.

Precisamos de muitas pessoas fazendo muita ciência, mas não qualquer pessoa e não qualquer ciência.

Você acredita em magia? (terminei de ler…)

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As vezes a gente ouve uma música que diz tudo aquilo que a gente está sentindo. Ficamos impressionados de como alguém pode ter escrito as palavras que estavam em nossa cabeça, a gente só não sabia até ouvir. Ou isso nunca aconteceu com você ouvindo uma música do Chico Buarque? A verdade é que mesmo que quiséssemos, não poderíamos escrever a música. Mas que dava vontade de ter escrito, dava.

As vezes isso acontece comigo também quando leio um livro. E foi assim com ‘Do you believe in magic? The sense and non sense of alternative medicine’ (você acredita em magia? O sentido e o sem sentido da medicina alternativa) de Paul Offit.

Eu, que desde 2011 tenho rascunhos de textos no blog para falar sobre o fiasco do artigo da memória da água, publicado na prestigiosa revista ‘Nature’ em 1988 pelo francês Jacques Benveniste, só para depois ser retratado pelos editores (que não conseguiram reproduzir os resultados e terminaram acusando os autores de fraude), ou sobre a descoberta da via de ação do efeito placebo; quando li o livro de Offit, fiquei maravilhado: deletei os rascunhos velhos porque tudo que eu gostaria de ter dito, ele escreveu. Não sei se melhor do que eu escreveria ;-), mas muito bem escrito.

E ainda mais, ele traz TODOS os fatos relacionados ao crescimento descontrolado, desregulado e perigoso da industria de vitaminas: datas, montantes, leis, atos; nomes de lobistas, congressistas, CEOs de empresas, pseudo xamãs e celebridades que, equivocadas ou mal intencionadas, promovem o que não só não ajuda a saúde (soluções de água pura ou pílulas de açúcar) como o que pode fazer mal e até matar (excesso de antioxidantes).

Os resultados científicos compilados por Offit ao longo de mais de 100 anos da história da medicina científica colocam por terra as falsas promessas das milenares das ‘medicinas’ ayurvédica e chinesas. Assim como a acupuntura, quiropraxia, Roff, etc, etc, etc. Como ele diz no livro: “Não existe medicina e medicina alternativa. Existe medicina que funciona, de maneira reprodutível e comprovada cientificamente, e medicina que não funciona”.

Além disso, mostra como a atenção do médico e o efeito placebo podem, realmente, ajudar em algumas situações, mas quase exclusivamente situações onde a ‘dor’ (que tem um forte componente psicológico) está envolvida. E não… não se cura AIDS ou Cancer com o efeito placebo. Ou com ativação do sistema imune.

Diferente do classico programa dos anos 80 ‘Acredite, se quiser’ (Ripley’s Believe It or Not!), onde Jack Palace apresentava historias verdadeiras, mas quase inacreditáveis, Offit nos mostra como historias falsas, foram contadas de maneira muito acreditável por servir aos interesses de uma industria de vitaminas e suplementos alimentares que fatura tanto quanto a industria farmacêutica criticada pelos adeptos dessas práticas, mas sem gastar nenhum tostão em controle de qualidade, prova de eficácia ou eficiência.

Acredite somente se quiser, porque não há nenhuma outra razão para isso.

Terminei de ler… A nascente

The Fountainhead (1949) from El origen del mundo on Vimeo.

É lindo quando um livro nos comove e entretem ao mesmo tempo.

A história do arquiteto Howard Roark, o homem ‘possível’ da autora e filósofa Russa Ayn Rand, cuja integridade moral, criatividade genial e inabilidade social transformam sua vida numa montanha russa, surpreende a cada página. Me fez pensar (como qualquer outra coisa faz) tanto na ciência e na ciência brasileira: Não podemos fazer concessões! Custe o que custar. Doa a quem doer. A ciência não pode fazer concessões! É tão difícil, mas não podemos nunca nos esquecer.

A Nascente foi publicado em 1943 e mas continua moderno porque é real! Troque ‘arquiteto’ por qualquer outra coisa e a história continua verossímil.

Em 1949 foi lançado o filme (acima) que, apesar de ter roteiro da própria autora, pegou leve com os conflitos morais e éticos dos personagens, com a trama e com os diálogos. É… diferente de seu personagem, Ayn Rand abriu concessões. É uma alternativa para quem não tiver fôlego para as 800 páginas do livro, mas não tem comparação. E Gary Cooper como o jovem arquiteto Irlandês de cabelos cor de abóbora… não convence.

Para aqueles que precisam só de um pequeno estímulo, aqui vão alguns trechos de um testemunho de Roark:

“Nada e dado ao homem na Terra. Tudo o que ele precisa tem que ser produzido. E esta e a alternativa básica que o homem enfrenta: ele pode sobreviver de duas maneiras: por meio do uso independente de sua mente ou como um parasita alimentado pelas mentes de outros. O criador origina. O parasita toma emprestado. O criador enfrenta a natureza sozinho. O parasita enfrenta a natureza através de um intermediário.” […] “O criador vive em função do seu trabalho. Ele não precisa de ninguém. Seu objetivo principal esta dentro de si mesmo. O parasita vive em função dos outros. Ele precisa dos outros. Os outros são a sua motivação principal.  […] “A necessidade básica do criador e a independência. A mente racional não pode funcionar sob qualquer forma de coação. Não pode ser limitada, sacrificada ou subordinada a nenhum tipo de consideração. Ela exige total independência no seu funcionamento e na sua motivação.” […] “Aos homens foi ensinado que a maior virtude não e realizar, e dar. Mas nada pode ser dado antes de ser criado. A criação precede a distribuição … ou não haveria nada a distribuir. As necessidades do criador tem precedência sabre as de qualquer possível beneficiário. Entretanto, somos ensinados a ter mais admiração pelo parasita que distribui presentes que não criou do que pelo homem que tornou os presentes possíveis. Nos elogiamos um ato de caridade e ficamos indiferentes a um ato de realização.” […] “Duas concepções foram oferecidas a ele como polos do bem e do mal: altruísmo e egoísmo. O egoísmo passou a significar o sacrifício dos outros ao ego, para beneficia próprio; o altruísmo, o sacrifício pessoal em beneficia dos outros. Essas concepções ataram irrevogavelmente o homem a outros homens e lhe deixaram apenas uma escolha de dor: sua própria dor, suportada para beneficia de outros, ou a infligida a outros, para beneficia próprio. Quando a essas concepções foi adicionada a ideia de que o homem deve se alegrar com o sacrifício pessoal, a autoimolação, a armadilha se fechou. O homem foi forçado a aceitar o masoquismo como seu ideal, sob a ameaça de que o sadismo era sua única alternativa.” […] “Graus de habilidade variam, mas o principia básico permanece o mesmo: o grau de independência, iniciativa e amor pelo seu trabalho e que determina seu talento como trabalhador e seu valor como homem. A independência de um homem e a única medida da sua virtude e do seu valor: O que um homem e, e O que faz de si mesmo; não O que fez, ou deixou de fazer, pelos outros. Não ha substituto para a dignidade pessoal. O único padrão de dignidade pessoal que existe e a independência.” […] “Em todos os relacionamentos dignos de respeito ninguém se sacrifica por ninguém”.

Coisas que aprendi ao longo do último ano

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Retirado de leituras de altíssima qualidade como ‘Por que pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas’ de Michael Shermen e ‘Why students don’t like school’ de Dan Willingham e os vídeos do curso de ‘irrational behavior’ de Dan Ariely.
Sobre o PENSAMENTO
  1. O pensamento é um processo altamente desgastante e impreciso. O fato de podermos pensar não significa que sejamos bons nele.
  2. Não somos bons em pensar e por isso queremos usar a ‘intuição’. A intuição não traz resultados reprodutíveis.
    1. ‘Confirmation bias’ e outros fenômenos nos iludem do poder da intuição.
    2. O pensamento é a inteligência são atividades que podem melhorar com método e prática.
    3. Existe diferença entre experiência e pratica. Experiência é fruto de repetição. Pratica tem o objetivo de melhoria qualitativa e quantitativa.
    4. Escolher tarefas que sejam levemente além do seu grau de conhecimento e trabalhar duro para resolver o problema (o que caracteriza pratica) é a única forma de avançar.
  3. O interesse não é suficiente para manter a atenção. A atenção tem que ser conquistada capítulo a capítulo.
  4. A distração é um problema maior do que todos queremos que seja e do que estamos dispostos a enfrentar.
  5. Melhorar o conteúdo para o leitor é uma tarefa do autor.
Sobre ESCOLHAS
  1. A expectativa é a mãe de toda frustração. (Expectation is the mother of all fuck-ups)
  2. Nossas escolhas NÃO são, na maioria das vezes, frutos de processos inteligentes. São fruto das opções em dadas circunstâncias, do medo e da vontade de agradar aos nossos pares.
  3. A inteligência entra quando criamos narrativas e selecionamos argumentos que possam sustentar, intelectualmente, nossas escolhas.
  4. A  preguiça e a resistência são uma saída para quem tem medo e dificuldade de se organizar, ou resistir às distrações ou simplesmente não se sente qualificado o suficiente.
  5. Não ter medo de errar e aceitar o fracasso como parte do processo de aprendizagem é a única forma de avançar. (Isso não significa aceitar ser um fracassado).
Sobre MOTIVAÇÃO
  1. As pessoas querem significado e/ou felicidade.
    1. Em geral um não vem acompanhado do outro
  2. Motivação depende de muito mais do que dinheiro: Depende de propósito, realização, compartilhamento e reconhecimento.
    1. As pessoas querem ser ouvidas sem necessariamente ter algo a dizer. Estão todos parados em conhecimento superficial e com ideias não verificadas que imitam o que outras pessoas já disseram.
  3. As pessoas adoram as suas próprias ideias e tendem a acreditar que elas são melhores. Sempre.
Eu resolvi compartilhar essas idéias porque me ajudam a enfrentar os desafios de ser um melhor professor, empreendedor, cientista e cidadão.

A Intuição e o Método

Venus de Milo com Gavetas, de Salvador Dalí

Venus de Milo com Gavetas, de Salvador Dalí

Tenho pensado tanto sobre isso. Como cientista, o ‘método’ é o meu principal instrumento de trabalho. Isso não significa que eu seja metódico no que faço. Significa que eu recorro a evidência, a hipótese, a experimentação e a análise para tecer conclusões e tomar (ou questionar) decisões. Não há como ter dúvida do poder do método para alterar a nossa realidade. Mas ainda assim, grande parte dos desafios profissionais que eu encontro são sobre como convencer as pessoas, mesmo (principalmente) cientistas, a abraçar o método em áreas que não sejam o seu objeto de estudo.
Ainda que possamos nos apoiar na obra de Galileu, Bacon e Descartes para uma explicação do que é o ‘método'; explicar a intuição é muito mais complicado. E o fato de todos nós experimentarmos a intuição independente de compreende-la, torna ainda mais difícil explicá-la cientificamente, porque a explicação esbarra na nossa compreensão ‘intuitiva’ da intuição.
Mas e se quisermos entender o que é a intuição de forma não intuitiva?
Vamos ter que começar entendendo o que é a consciência. Uma tarefa nada fácil já que não existe um consenso científico sobre o que é a consciência. Mas tendo incluído ‘consciência’ no programa da minha disciplina de Biofísica para o curso de biologia da UFRJ, eu estudei bastante o assunto ao longo desse ano e vou arriscar uma explicação para vocês (para quem quiser mais informações eu sugiro fortemente o  documentário da BBC ‘O Eu secreto’).
De maneira bem resumida, quando o seu cérebro é requisitado a dar uma resposta, inicia-se  um processo mental onde são ativadas diferentes regiões do seu cérebro, dependendo de cada processo. A ativação dessas áreas gera sinais elétricos que se propagam por nervos, indo e vindo através dos troncos do tálamo, e disparando, ou ‘acendendo’, diferentes áreas do cortéx no caminho. Dessa atividade elétrica em diferentes áreas do seu cérebro, emerge uma ’sensação’ subjetiva: a auto-consciência. Quando bloqueamos o tráfego dos sinais impedindo a comunicação entre as diferentes regiões, seja pela administração de anestésicos ou naturalmente durante o sono, a nossa auto-consciência desaparece.
A idéia não poderia ser mais assustadora: em nenhum lugar do seu cérebro existe um repositório de quem é você. Não existe nenhuma ‘gaveta’ com a etiqueta ‘quem sou eu’. Ao contrário, a cada vez que o seu cérebro inconsciente decide que um evento é digno da sua atenção, o disparo coordenado de milhões de neurônios, bilhões na verdade, recreia, do zero, a noção de quem é você. 
Se tivesse descoberto que a cada momento eu era um novo ‘eu’, como descobriu Virginia Woolf no século XIV, assim como descrito no maravilhoso livro de Jonah Lehrer ‘Proust foi um neurocientista’, sem ter os instrumentos para compreender como isso era possível, talvez também tivesse me suicidado.
Curiosamente, ou contra-intuitivamente, é o nosso corpo físico, e não uma termodinamicamente improvável alma, que guarda a chave para o segredo da integridade da nossa auto-consciência. Com as nossas experiências anteriores armazenadas na nossa memória de longo prazo e com os limites físicos do nosso corpo identificados por neurônios na mesma posição, os disparos consecutivos que geram a auto-consciência são capazes de replicar com grande fidelidade o nosso ‘eu’.
Mas não com fidelidade total.
As áreas que acendem não são E-X-A-T-A-M-E-N-T-E as mesmas. Nunca!
Inquietante… para dizer o mínimo. Mesmo quando pensamos sobre a mesma coisa, mesmo se essa coisa for a nossa própria identidade, nunca pensamos sobre ela da mesma maneira.
E de fato é com essa assustadora, porém muito esclarecedora constatação que se inicia o livro de Daniel Willingham ‘Porque os alunos não gostam da escola’: Porque pensar é difícil e nós, ainda que sejamos capazes de pensar, não somos bons nisso.
Uma grande parte do nosso cérebro é dedicada ao processamento inconsciente de imagens visuais e, se tem alguma coisa na qual somos bons, é em ‘ver’. Já em pensar… como vocês podem bem imaginar pensando em grande parte das pessoas que conhecem… não é algo todos fazem da mesma maneira, com a mesma eficiência e na qual possamos todos dizer que somos… bons.
O mundo tem uma realidade complexa que procuramos recriar dentro do nosso cérebro para que possamos decidir como reagir a esse mundo real. Como nosso pensamento não é linear, não temos muito controle sobre quais memórias acessamos ou sobre quais áreas do cérebro serão ativadas pelos sinais iniciados com a atenção a um pensamento, não temos como repetir uma mesma análise da realidade duas vezes.
Para piorar a situação, como eu já descrevi aqui, as nossas decisões começam como uma resposta instintiva baseada em processamento ‘inconsciente’ do cérebro, só depois sendo reconsiderada em um processo consciente que, como vimos, é falho.
Por exemplo, no excelente livro ‘Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas’ de Michael Shermer, fica claro que as nossas escolhas, mesmo aquelas conscientes, não são fruto da nossa capacidade intelectual e sim dirigidas por 3 fatores principais: as alternativas oferecidas pelas circunstâncias, o medo e a expectativa da opinião dos nossos pares. Nossa… isso também explica tanta coisa!
A conclusão no poderia ser mais difícil de aceitar: por mais que você se considere um grande pensador, há um limite para o quanto você pode confiar nas suas idéias. Suas intuições… falham!
E é por isso que nós precisamos do método. Ele é a única maneira de escapar das armadilhas que nossos processos mentais nos impõe.
Mas se o método é o que pode nos salvar das nossas falhas mentais, porque será que, na minha experiência e em muitas outras ilustradas na história da psicologia, as pessoas resistem tanto ao uso do método?
Ainda não tenho uma resposta. Mas é possível que a insegurança gerada pela dificuldade de pensar conscientemente e a falsa segurança gerada pela natureza inconsciente da intuição estejam envolvidas nessa resistência.
Além da preguiça, é claro.

O Legado das Águas

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O maior pedaço de Mata Atlântica, contíguo, preservado, do Brasil, quem diria, é privado.

O Legado das Águas, a reserva da Votorantim, tem 31.000 ha de Mata Atlântica original preservados na região do Vale do Ribeira no Estado de São Paulo.

A preservação não foi altruística. Foi consciente: sem energia, não haveria como a Votorantim produzir alumínio. A energia tinha de vir de usinas hidrelétricas e, sem água, não haveria hidrelétricas. Então era preciso proteger a água. E para proteger a água, era preciso proteger a floresta.

O Rio de Janeiro já havia ensinado essa dolorosa lição. Quando durante o império colocaram a Mata Atlântica abaixo para plantar café no Maciço da Tijuca, o resultado foi um desastre ambiental: secaram as nascentes que abasteciam a cidade. D. Pedro II teve de mandar replantar tudo! E sob o comando do Marechal Archer, 5 escravos, Eleuthério, Leopoldo, Manoel, Matheus e Maria reflorestaram o que hoje é a a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca.

Então, em prol do futuro sustentável do seu negócio, Antônio Ermírio de Moraes começou a comprar títulos de propriedade para a construção de usinas hidrelétricas e a criação da reserva ambiental, que determinava a manutenção das nascentes do Rio Juquiá.

Os xiitas dirão: como pode ser preservado sem tem 4 hidrelétricas lá dentro? E me levarão para a discussão semântica entre os termos preservação e conservação. Eu responderia com a obra de Antônio Diegues, ‘O Mito Moderno da Natureza Intocada’, livro espetacular que faço com que todos os meus alunos de Biodiversidade leiam, e que fala das razões pouco ortodoxas que levaram a construção do modelo de parques florestais e reservas naturais vigente hoje no mundo, e a sua ineficácia em fazer com que a natureza siga o seu rumo com todos os seus agentes, incluindo os seres humanos. Mas eu sou um cara prático, e quando durante o 1o encontro científico organizado pelo Legado o programa de monitoramento de grandes animais mostrou as fotografias de dezenas de mamíferos selvagens como onças pardas, cachorros do mato e Muriquis, os grandes símios de sociedade matriarca que resolvem suas pendengas sociais com abraços e sexo ao invés de violência física, eu não tive dúvida de que o lugar é uma jóia na coroa do nosso remanescente de Mata Atlântica.

Abre parênteses  Além disso, tenho que confessar, tenho uma queda por barragens. Quem me acompanha sabe disso. Acho incrível como esses pequenos macacos pelados que somos nós são capazes que driblar incríveis forças da natureza. Fecha parênteses.

Se ainda assim alguém duvidar, eu tenho um argumento matador: Água, muita, MUITA água. Quem vive em São Paulo ou no Rio de Janeiro hoje está sentindo (ou seria melhor dizer ‘não está sentindo) na pele a importância disso.

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Quando a Votorantim pensou em preservar a floresta para preservar seu negócio de Alumínio nos anos 40, não sabíamos o que eram os genes e não conhecíamos a estrutura do DNA. Quando descobríamos a biologia molecular e inventávamos a biotecnologia nos anos 70 (bom estou me incluindo aí apesar de ter nascido nos anos 70 porque eu sempre soube que queria ser cientista), eu duvido que eles pensassem em fazer outro uso dessa floresta que não a conservação de suas águas. Mas agora, em meados da segunda década do século 21, temos os instrumentos tecnológicos para criar riqueza a partir da biodiversidade sem alterar 1mm dessa paisagem exuberante, sem prejudicar os serviços insubstituíveis que esse ecossistema pode prover.

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Para mim, Antônio Ermírio atirou no que viu e acertou no que viu e no que não viu. Será que os detentores do seu legado verão?

To do Science is not enough, we have to bet

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In Trieste, Italy, in a recent international gathering of scientific diplomacy organized by the Academy of Sciences for the Developing Countries (TWAS, its acronym in English) and the American Association for the Advancement of Science (AAAS, its acronym in English), I saw former NASA astronaut (the U.S. space agency) David Hilmers talk about cooperation between scientists of different nationalities in space. I also saw Norm Neureiter, former scientific adviser to the Ministry of Foreign Relations of the United States, talking about collaboration on scientific projects with the Soviet Union during the Cold War.

It’s a very different reality from that of the developing countries that were represented there. How to convince our politicians and governments to value science?

I asked this question to Ray Orbach, scientist responsible for negotiating the participation of the United States in thermonuclear experimental reactor to be built in France by a consortium of nine countries. There will be simulated in a controlled environment, temperatures as high as those found in the Sun, and that will make the nuclear fusion of hydrogen, producing helium gas and energy, lots of energy.

How to expect a country like Brazil, where the average citizen has little education – almost 70% of the population has not completed high school – and the government does not consider science, technology and innovation (ST & I) a priority – we have a fifth of the world’s average number of scientists by inhabitants – come participate in something so important for the future of humanity? This requires investments of frightening amounts of money, huge uncertainties, major conflicts of interest and too much risk. And what is worse, the results appear only in the long run: the operations of the reactor, for example, are referred to in 30 years.

Orbach had no answer. But in that moment, the president of TWAS, Romain Murenzi, a native of Rwanda, stood up and challenged me: “I was in Brazil and I can assure you, your country has a strong commitment to ST&I”. He mentioned the improvement of the position of Brazilian universities in international rankings and, as would be expected, the Science without Borders program.

The next day, when the representative of the Dominican Republic called for a stronger legislation to prevent the escape of academics from developing countries, Romain stood up again and said he was mistaken in thinking it was the lack of infrastructure that led scientists to escape their countries. In many of them, the political conditions were so unstable that researchers feared for his life, not by unavailability of equipment.

I understood later, talking privately with Romain that for him the fact of my country have invested in my education to the doctoral meant a deep commitment to ST & I. Of course if you compare Brazil with Rwanda will have to accept that our commitment to ST & I is strong. But if we compare with the U.S.? And what comparison is correct?

After seeing the two seconds video of the light touch of the leg of a paraplegic on the ball at the opening of the World Cup in Brazil, and the reaction of the scientific community on social networks, I found the answer.

The comparison did not matter. Only when we were willing to invest large sums of money on cutting-edge projects, risky and uncertain, we would unveil a big commitment to science.

Brazil has an enormous socioeconomic deficit that also inhibits its scientific development. It is virtually impossible not to be always one step behind our collaborators (and competitors). A strategy to escape this trap would be to walk an alternative path, where the long-term investment in basic education were accompanied by massive investments in fron
tier of sciences. Areas with potential for faster returns, but with greater financial contributions, as well as uncertainties and risks.

The answer was in that lawn. Brazil had committed! The result was not the expected. From the point of view of marketing – and it was a marketing event for the demonstration took place in the World Cup opening, not in a scientific congress – it was a failure. But scientifically the enterprise has not failed. It’s easy, retrospectively, to find the reasons why the venture failed. But cast the first stone who has never talked about an outcome before it was published. It will be up to the funding agencies to account for the invested resources and the scientific community to verify Nicolelis’ allegations. Which, incidentally, will be the only one to bear the embarrassment that was the difference between the promised and the delivered.

Scientific activity is risky and its results can never be predicted with accuracy. But it is part of the game. An expensive game, but precisely because of that, it requires a large commitment of the players. Four years ago, Nicolelis was the right bet. More than that, investing in science was the right decision for Brazil. Brazilian science can live without the 15 million USD that were allocated to Nicolelis’ research. What Brazil cannot, is to live without the fundamental commitment to risk in science.

MAURO F. REBELO, 42, PhD in biophysics, is professor at the Institute of Biophysics Carlos Chagas Filho, at Federal University of Rio de Janeiro

Free translation by the author from the article published in the Brazilian newspaper Folha de São Paulo on 21/06/2014

Science, Politics and Compromise

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As I get ready and pack for the Science Diplomacy workshop that I’m going to participate in Trieste, Italy next week, I try to control the enthusiasm. I am part of a very selected group of scientists and politicians from several parts of the world that are going to try establishing the common ground to address the challenges of the 21st century.

Under the sponsorship of the American Association for the Advancement of Science (AAAS) and The World Academy of Science (TWAS), we are going to discuss Mechanisms for Science diplomacy, Linking Science to Development, National Approaches to Science Diplomacy and Priorities, Large Scale Infrastructure, Transboundary Cooperation, The role of science education and exchanges to build international links and Regional Integration and Science Diplomacy.

I’m so excited! And afraid.

I am afraid that it may impossible for us to succeed, because there may be no such common language. No such middle ground.

Science is about the search for the truth based on evidence. Politics is about the search for consensus, not always (or not necessarily) based on evidence. Consensus is obtained by compromise. And in science, in the scientific activity, there is no room for compromise.

Open parenthesis: We want consensus in science too, and because we have evidence to set our disputes, consensus in science should be inevitable. But it turns out it is neither that simple, nor that easy. We, scientists, after all, are humans, and susceptible to conflict of interest, bias, partiality and other human motivational bad choices. Fortunately, eventually, evidence (or the truth) prevails and science moves forward in a consensus that Thomas Khun named “a new paradigm”. Close parenthesis

Politics are influenced by the opinion of the majority. Science could not care less about it. The reason is simple: the majority is not necessarily (actually, rarely is) smart. In lay terms, the Brazilian author Nelson Rodrigues said once: “all unanimity is stupid!”

No mystery behind that. The skeptic Michael Shermer shows in his inteesting book ‘Why intelligent people believe in strange things’ that our choices are rarely result of an intleigente rational process. Most of the times it is result of circumstances, emotions (specially fear) and our concern about other people (specially our peers) opinions (and acceptance).

Open parenthesis: Although ‘intelligence and rational thinking are not our most used feature to make decisions, we use them a lot to justify whatever decision we have made. And we are very, very good at it. Close parenthesis.

The majority, as Isaias Pessotti mentioned in his marvelous book ‘The Mediavilla Manuscript’ is a measure of power, not intelligence. The majority is important to give mandates, not to make decisions. That is why we should give mandates to very intelligent people. In my particular opinion, as a scientist, I believe we should give mandates to very intelligent people that base their decisions in evidence. But, even though I’m not alone in this belief, we are far from being the majority.

Because politics have a mandate from the majority, they are worried about pleasing the (right or wrong) majority. Scientists… They don’t care about the majority (I could open another parenthesis here, for nowadays, many scientists are worried about the majority, or should I say, about showing up in the news). They care about being right (well, and publications, and grants, and prizes, and sometimes, they cara about money too).

“I don’t want to be right, I want to be happy” said the brazilian poet Ferreira Goulart. But for a scientist, to be right IS to be happy!

Scientists are full of defects. The are narcissist, egocentric, arrogant, jealous and envy (to list some). And the fact that they can, at least sometimes, go over all this to describe the reality in an unbiased way… is almost a miracle (ops, most scientists don’t believe in god or miracles either). To do that, we have to fight previous assumptions, preferences, intuitions, guesses, opinions. It is very hard. That is why is so obnoxious when journalists ask us to give contundent last minute statements about complex and complicated topics that we spend years studying, that are surrounded by uncertainty and to which, many times, we can only grasp a comprehension.

But we rarely put ourselves in anyone else’s shoes. People don’t understand and, most of the time, they don’t care about how things works. They want to be happy, they don’t want to be right. Politicians have to take that into account.

It was during a lecture from the physicist and ex-president of the Brazilian society for the advancement of science Enio Candotti, entitled ’Science, Politics and truth’ that I was introduced to this huge gap between the scientist’s objective perception of the reality and the politician’s subjective one.

Is there reconciliation between evidence and consensus? Objective and subjective? Right and Happy? I hope so, and I’m going to Trieste with an open mind and a lot of enthusiasm to look for it.

O beco sem saída

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O resultado do concurso para professor adjunto na minha instituição na semana passada deixou clara para mim uma coisa: o meu enorme desalinho com rumo que a universidade está tomando. Ou que tomou. Ou que sempre teve, não sei mais. De qualquer forma, fico me perguntando como não percebi isso antes. Não creio que tenha sido um estudante idealista pra ficar cego contra algumas obviedades, e muito menos um adulto idealista: como é que me escapou então?

Meu problema não foi, ou não tem sido, com os candidatos. Meu problema é com as bancas, que insistem em perpetuar um sistema que ultrapassado, que claramente não funciona mais, ainda que todo mundo faça o maior esforço pra fazer de conta que sim.

Mas eu não quero insistir, nesse texto, no ponto do concurso; quero insistir no desalinho. As vezes, muitas vezes, fico me perguntando se é possível que apenas eu veja que tudo está errado, que nossos professores estão desmotivados e despreparados; que nossos alunos estão além disso, desatentos; que nossas pesquisas não tem impacto…

Você não concorda comigo? Eu aprendi cedo na minha vida acadêmica que a única coisa, talvez capaz de convencer pessoas inteligentes a mudar de opinião, são argumentos técnicos. Afinal, como diz o canastrão  da série de televisão CSI - Miami, Horatio Caine: – “Pessoas mentem, evidências não”.

E nesse caso as evidências são sólidas, consistentes e aterrorizantes

– Alunos entram na universidade sem conhecimentos fundamentais de diversas disciplinas

– Na região norte do país, menos de 1% dos professores do ensino fundamental tem graduação. Qualquer graduação, em qualquer área.

– Apenas 14% dos jovens brasileiros entre 19 e 24 anos estão na universidade (menos que a Bolívia e muito, muito menos que Argentina e Venezuela)

– índices de evasão em cursos da UFRJ variam entre 50 e 90%

– A produção científica no país cresceu mas ela não tem impacto

– Os alunos do CsF voltam para casa por falta de proficiência em inglês

– Professores com doutorado ocupam 2 faixas da pista + o acostamento + as duas faixas da contramão na hora do rush na saída do campus do Fundão.

– 85% dos CEOs no Brasil dizem que sua maior preocupação para o crescimento é a disponibilidade de recursos humanos de qualidade.

Poderia continuar com mais argumentos.

Enquanto pesquisas e mais pesquisas em neurociência e psicologia evolutiva mostram, consistentemente, que as metodologias de ensino tradicionais são ineficientes e impossíveis de serem aplicadas em escala; eu gostaria de entender porque professores pesquisadores se recusam a aplicar em sala de aula as verdades científicas que outros cientistas produzem. Deve ter a ver com o que Dan Pink fala na excelente palestra TED sobre porque nos recusamos a aplicar verdades cientificamente comprovadas na gestão de recursos humanos nas empresas,

Na verdade, não preciso de Dan Pink, eu sei a resposta: porque vai dar trabalho, porque quem era o melhor professor antes não será mais o melhor professor, porque vai custar caro, porque não queremos aceitar que estacamos fazendo errado em primeiro lugar.

Enquanto isso, nossos alunos continuam passando em branco pela universidade, chegando despreparados no mercado de trabalho e achando que fizemos a nossa parte porque ganhamos uma avaliação positiva depois de uma aula (ou um curso) ou porque um ou dois alunos deram uma resposta excelente em uma prova.

Será que ninguém vê que assim não vamos conseguir educar os milhões de jovens que precisamos para começar, apenas começar a retirar o atraso do Brasil nesse setor? Será que ninguém vê que esse bonde  caminha em
 um beco sem saída? Não, ninguém vê.

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[A falta de] Impacto social, econômico e intelectual da ciência brasileira

Ainda que a produção científica nacional tenha crescido significativamente nos últimos anos, o impacto das nossas publicações continua o mesmo: nenhum!

Ainda que a produção científica nacional tenha crescido significativamente nos últimos anos, o impacto das nossas publicações continua o mesmo: nenhum!

As vésperas do encontro anual da Academia Brasileira de Ciências, visitei um artigo publicado em fevereiro desse ano, onde o ex-presidente da FAPESP e ex-Reitor da Unicamp Henrique Britto-Cruz fala, embasado em amplas estatísticas, sobre a falta de impacto da nossa ciência.

A primeira vez que vi o Britto-Cruz falar foi em 1999, quando eu, junto com um grupo de alunos de doutorado preocupados com seu futuro como cientistas no Brasil, ajudei a organizar o simpósio ‘Cientistas do Próximo Milênio: O que se espera de um doutor em ciências no Brasil’. O evento foi incrível e contou com nomes importantes da ciência na época como Jorge Guimarães, Wanderley de Souza, Leopoldo de Meis, entre outros. A palestra de Britto-Cruz foi muito boa. Mas, se prestarmos atenção ao conteúdo, de 1999 pra cá, ele pouco mudou.

Já sabíamos que a produtividade científica do Brasil vinha aumentando pela decisão estratégica de investir os parcos recursos de C&T brasileiros em bolsas de pós-graduação ao longo da década de 1970, 80 e 90. Investimos maciçamente em um exercito de idealistas de pós-graduação dispostos a qualquer coisa pela ciência, mesmo a trabalhar nas péssimas condições oferecidas pelas universidades públicas, que estavam sendo sucateadas pela falta de recursos para infra-estrutura.

Mas aqueles não eram os únicos problemas. Como os jovens doutores que estavam sendo formados pelo sistema poderiam produzir ciência de alto impacto, como a que estavam fazendo em seus pós-doutorados no exterior, quando precisamos esperar meses pela liberação na alfândega de reagentes importados e pagamos até 3x mais pelo mesmo material que em outros países? Pois é, não dava.

Então, em 2003 um grupo de jovens pesquisadores brasileiros coloca dedo na ferida: altas taxas de importação e ágio estavam causando prejuízos financeiros aos laboratórios (e aos cofre públicos) e, junto com a demora na liberação de material importado para pesquisa, estavam minando a competitividade da ciência nacional. (veja em: ‘High prices of supplies drain cash from poorer nations’ labs’ – Nature 428, 453 (1 April 2004; doi:10.1038/428453a e ‘Scientific aid to Brazil is strangled by red tape’ – Nature 428, 601 (8 April 2004; doi:10.1038/428601a). Repetimos a companha em 2007 e o o presidente Lula, pressionado pela comunidade científica, em 20 de novembro assinou o decreto nº 6.262, dando 90 dias de prazo para quatro ministérios simplificarem o processo. Você acreditou que o problema estava resolvido? Eu acreditei, mas nada mudou. Sem grandes esperanças, repetiram a campanha em 2012 e o auxílio veio de onde menos se esperava:  o deputado federal Romário (PSB-RJ) propõe o projeto de Lei 4411/2012 que simplifica a importação de mercadorias destinadas à pesquisa científica será uma vitória, mas só quando virar lei. O texto, de autoria permite aos pesquisadores liberação automática de mercadorias, livres de taxas da Receita Federal e Anvisa. Ainda está longe da aprovação, mas deixou claro para mim uma coisa: o problema do impacto da ciência brasileira ainda não será resolvido por cientistas e não será resolvido na minha geração.

Entra ministro, sai ministro e… nada muda! Nossa classe científica dirigente se acomodou e não percebe que está ultrapassada. Não conseguem inovar para vencer os obstáculos do governo e libertar as amarras que impedem os 10.000 doutores que o Brasil produz por ano de ‘fazerem a diferença’.

Mas será que poderíamos esperar essa iniciativa dessa classe dirigente?

No mesmo número da Nature de 2004 onde foi publicada a reportagem sobre os danos da burocracia de importação no Brasil, um comentário de Robert Insall da Universidade de Birminghamem em um outro artigo sobre a ‘Tendenciosidade dos editores de grandes revistas científicas’, me ajuda a responder:  “Seria mais fácil fazer frio no inferno que conseguir que cientistas mais velhos mudem alguma coisa, muito menos alguma coisa que beneficia muitos deles”.

Vamos torcer para o Romário ser tão bom na câmara quanto era na área.

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