O que é Semelparidade?

Confesso a vocês que no texto sobre por que acabamos atraindo apenas loucos, no comentário de uma amiga bióloga inteligentíssima, apareceu uma palavra que eu nunca tinha ouvido falar: semilparidade. Como a palavra veio em um contexto meio ameaçador, eu fui obrigado a investigar e agora conto pra vocês.
Na verdade o termo correto é Semelparidade. Semel vem do latim e quer dizer “apenas uma vez”, e parare (que também vem do latim), “dar a luz”. Pros que não gostam de pensar que somos como os animais, esse é um bom motivo. Os semélparas são animais que concentram seu esforço reprodutivo em apenas uma tentativa. Acasalam e depois da deposição dos ovos, as fêmeas morrem. Resumindo, eles trepam apenas uma vez na vida. Que tristeza!

Durante a pesquisa, fiquei feliz de descobrir que somos iteróparas! A Iteroparidade (itero do latim “várias vezes”) é o termo que descreve aquelas espécies que acasalam várias vezes ao longo da vida. Essa é uma realidade para muitas espécies, principalmente de mamíferos, que são muito mais felizes. Uma coisa leva a outra e me lembrei que somos uma das únicas espécies em todo o reino animal (e vegetal também) que fazem sexo por diversão. Parece que os golfinhos são a única outra espécie. Mas qual o objetivo evolutivo do sexo por diversão?

Na maioria das espécies, o sexo é tão bom que mesmo o instinto de sobrevivência sucumbe ao desejo sexual e o acasalamento pode ocorrer mesmo em situações de risco de vida (ex: com um predador por perto). Mas o desejo sexual não é contínuo e as fêmeas não estão sempre preparadas para o sexo. A excitação feminina, dependente do hormônio testosterona, vem junto com a ovulação. É o cio (ou calore em italiano) e é um processo lento, mas que não pode ser desperdiçado. Como o macho nunca sabe quando vai encontrar uma fêmea no cio, ele tem de estar SEMPRE pronto para o sexo. Ou pelo menos em um estado basal que permita a ele se aprontar para o sexo em pouco tempo (os homens podem passar de um estado de não excitação a prontos para copula em 30s). Isso é garantido pelas altas concentrações de testosterona no corpo do homem.

Na maior parte das espécies, a excitação feminina é demonstrada de várias formas. A genitália muda de cor e de forma. Em macacos babuínos, os grandes lábios incham aumentando de tamanho e passam de uma tonalidade roxa para um vermelho vivo. Alem disso, a fêmea exala um odor particular, com substâncias químicas (os feromônios), que indicam ao macho que ela está pronta para a cópula. Se a vagina vermelha, inchada, quente e cheirosa não for suficiente para chamar atenção do cara, ela ainda faz danças e movimentos que indicam, com as mãos e gritos, que o momento é aquele e ainda indicam o “caminho” para ele.

Que felicidade seria sair à noite e saber exatamente quais fêmeas estão prontas para copular, não é mesmo rapazes? Bom, mas isso causaria um problema evolutivo para as fêmeas humanas. O fato é que o filhote humano é muito grande em relação ao corpo da fêmea (da mulher), e por isso que o parto é difícil e necessita de assistência, sem falar no número de mulheres que fenecem no parto. O auxilio precisa ser durante o parto, mas também no período de recuperação. E não só ela, mas também o filhote (que é grande, mas bobo e dependente) necessita de auxílio (em ambos os casos, por auxílio entenda-se alimento e proteção contra predadores). Quem é o escolhido para auxiliar nesse momento? O homem!

Mas por que o homem, que como nós já falamos anteriormente tem uma estratégia reprodutiva diferente da mulher, ficaria para ajudar depois de ter copulado? Não me venham com respostas culturais do tipo… por amor. O macho necessita de um argumento muuuuuuito bom para ficar ao lado da fêmea nesse momento e continuar provendo suas necessidades. E que argumento poderia ser melhor do que sexo? Nenhum, apenas MAIS sexo! Por isso, as fêmeas humanas desenvolveram evolutivamente a capacidade de ter sexo fora do período reprodutivo, apenas para manter o macho presente e feliz, a ponto de continuar suprindo suas necessidades. Claro, ela também tem prazer com isso, mas essa não era a idéia original. Vocês meninas é que acabaram aperfeiçoando o processo!

Mas para isso ser verdade, precisaríamos observar algo que parece controverso: que os machos humanos casados e com filhos fariam mais sexo que os machos humanos solteiros e sem prole. Obviamente já foram pesquisar o assunto, e os homens casados fazem sexo em média 3 vezes por semana, enquanto os solteiros fazem menos de 1 vez por semana! É um fato.

Então, da próxima vez que você invejar aquele seu amigo solteiro que ta saindo para uma tremenda noitada enquanto você vai pra casa colocar os filhos pra dormir, lembre-se que você vai trepar com certeza, já ele…

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Discussão - 9 comentários

  1. Fefê disse:

    Não seja modesto, querido….

  2. Cristine disse:

    Partindo do princípio que o autor não esteja interessado somente em garantir o exercício do encantamento (leia-se sexo) sobre a alma feminina, devo dizer que nosso blogger favorito atendeu às minhas demandas e me satisfez (quase inteiramente) tanto do ponto de vista feminino quanto do ponto de vista biológico. De fato, como disse um seu leitor, o Mauro é de uma inteligência acachapante (do Aurélio: irrecusável, irretorquível; esmagadora). E não foi porque dessa vez ele acabou mostrando um lado difícil da vida dos homens solteiros e pelo menos uma vantagem dos casados (porque dessa coisa amorosa que as mulheres gostam, ele nem chegou perto). Mas porque o Mauro é capaz – sempre – de tradução. Toma uma informação num contexto, processa, transforma, e nos traduz em outro. Isso é para poucos. Então, além de chamar a atenção para o fato de que esta que vos escreve havia se feito valer da grafia errada do termo semelparidade (agradeço a correção), foi investigar o conceito e nos trouxe o olhar para um entorno diferente. Felizmente, nossa espécie é dada à iteroparidade e podemos fazer sexo a vida toda, por puro divertimento (yes!). Mais bacana ainda, mostrou que os machos têm uma função e tanto. Capela Sistina? Nascimento da Vênus? Porta do Inferno? Vitória de Samotrácia? Tudo bico. Os machos vieram mesmo pra nos ajudar (primeiro a fazer) e depois a criar a prole. As fêmeas agradecem empenhadas e reiteram o conhecimento de que sim, temos que fazer muito sexo com esses nossos heróis, que eles merecem. Mas devo dizer também que dentre linhas no blog e falas na minha casa (onde o Mauro é só o Mauro, sem uma imagem a zelar), eu sempre aprendo com nosso amigo a apreciar o lado bom (embora incerto) da solteirice. E tenho que admitir, em nome das mulheres r-estrategistas do Rio de Janeiro, que há coisas que somente essa vida “avulsa” nos permite experimentar e por isso está aberta a temporada do divertimento na minha vida! Mas o mais engraçado de tudo, vocês nem têm idéia… Justo quando eu ia pedir umas aulas intensivas de “como ser solteira no rio de janeiro”, nosso malandro pra valer, não espalha, guardou um pouco a navalha, tem mulher (sem filho) e casa e tal, e dizem as más línguas que ele até chacoalha e anda descobrindo as vantagens da estratégia K para o amor, oooopps…, desculpem…, para o acasalamento! Uma prova de que as estratégias r e K se aplicam, dependendo do contexto, a homens e mulheres. E salve o Mauro!

  3. Andrea disse:

    Estava estudando para uma prova da faculdade e de repente me aparece no texto os termos Iteroparidade e Semelparidade. E claro que não entendi bulhufas da explicação destes antigos textos academicos, resolvi então apelar para o sempre prestativo Google. Foi então que encontrei o blog do Mauro, que alem de me ajudar a entender tais termos me fez pensar mais sobre esse treco de reprodução. De um jeito muito inteligente e engraçadissimo vc conseguiu explicar e me prender nas expliçoes. Parabens!!

  4. Mauro Rebelo disse:

    Obrigado Andrea! Agora que você já sabe o endereço é só vir direto aqui!

  5. Dryca disse:

    Ah.Só fazendo um acréscimo ao seu post,os bonobos(espécie de macacos) eles fazem sexo por prazer também,salve o engano eles são responsáveis por grande parte das posições do kamasutra.
    Obrigada pelas informações salvou minha prova.

  6. Adriana disse:

    Obrigado por me ajudar a estudar pra prova de ecologia.

  7. Pedro disse:

    Na verdade os humanos possuem uma reprodução contínua e, portanto, não são iteróporas (os quais possuem várias fazes reprodutivas ligadas à sazonalidade por exemplo). Da uma olhada na página 96 do Begon (Ecologia: de indivíduos a ecossistemas). Abs.

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