Minha professora de ciências


Hoje inicio minha participação no grupo “Roda de ciência” um site onde blogueiros de ciência discutem diferentes assuntos através, cada um, de seu blog. O tema desse mês é “Ensino básico, criatividade, curiosidade” e algo me diz que essa pode ser minha primeira e última participação, porque minha opinião a esse respeito não é muito formal.

Me veio em mente a imagem da professora de ciências, falando de experiências dissecando girinos, contando histórias mas…Tenho discutido muito educação, por causa da minha participação nos projetos de capacitação de professores para educação a distância do CEDERJ e da UAB. Com as oficinas de escrita criativa, comandadas pela Sônia Rodrigues e de designe instrucional, comandadas pela Cristine Barreto, o que temos visto é o seguinte: A escola anda formatando o HD da moçada! Limpando o que existia antes e colocando um conteúdo padronizado. “Esquecemos que aprendemos a falar e a nos comunicar com o mundo contando histórias. Desaprendemos o modelo narrativo que tem funcionado por 25 séculos” como diz a Sonia; e passamos apenas a repetir um conteúdo imposto e programado. Estamos matando a criatividade e a fantasia.

Criatividade é um tema que eu adoro e investigo, mas o que eu tenho visto não me deixa muito animado. Vamos por partes:

Primeiro o livro didático. O Brasil deve ter um dos maiores programas de livros didáticos do mundo, ou alguém conhece outro país que distribui, todos os anos, quase 10 milhões de livros. O programa mantém ainda um sério comitê de avaliação da qualidade do conteúdo dos livros didáticos, que ainda assim, conseguem apenas, evitar grandes absurdos, como livros que propõe as crianças experimentos com facas, fogo e mutilações. Nossos livros estão longe de propor experiências e atividades criativas.

Depois a escola. Quando estive na Amazônia, dei aula em uma escola ribeirinha, uma casa de madeira, em palafitas, de apenas um cômodo, onde crianças de 2 a 12 anos têm aulas todas juntas, com um professor que tem apenas ensino médio. Essa escola, como muitas outras, não tem eletricidade e os alunos têm de percorrer, a pé ou em canoa, grandes distâncias para chegarem até lá. Não é a toa que uma das principais metas do PAC da educação é: eletrificar todas as escolas brasileiras. Gente… eletrificar! Imaginem quando poderemos pensar em levar água potável e esgoto…


Finalmente o professor. Recentemente, um grande amigo professor me contou a história do filho do caseiro, aluno muito deficiente no Rio de Janeiro, com alto índice de repetência, que por determinadas circunstâncias volta com a família para a cidade natal do nordeste, onde virou professor da escola da comunidade. Voltamos ao PAC da educação e a uma das suas outras metas: elevar o piso salarial dos professores de ensino médio para R$ 850,00 dentro de alguns anos.

A imagem da minha professora de ciências vem em mente como um grande romantismo que apenas um filho da classe média estabelecido como eu pode se dar ao luxo de ter. Apesar disso, não tenho nenhuma lembrança de pergunta instigante, que certamente teríamos dificuldade de encontrar mesmo dentro dos cursos de ciências das universidades hoje. A criatividade está morrendo dentro das escolas do ensino médio e dentro da universidade, condenada, até mesmo, pela obesidade intelectual que vivemos. É tanta informação a qual estamos expostos, e que temos de consumir, que não sobra espaço para pensarmos com independência. Para criar.

No seu tratado sobre criatividade, Domenico de Masi diz que as diferentes noções de paraíso dadas por cada cultura, em cada tempo, são uma das primeiras manifestações da criatividade humana. Desde um paraíso onde ninguém precisa trabalhar, até um paraíso onde as maquinas funcionam perfeitamente, passando por aqueles onde virgens exuberantes servem os homens por toda eternidade. Isso mostra o quanto o contexto social e ambiental é importante para o conhecimento criativo que é gerado por um determinado grupo de pessoas. Além disso, o autor defende que sem um ócio, que deveria ser cada vez mais permitido em função da capacidade das maquinas de realizarem o trabalho dos homens, não poderemos organizar as informações que recebemos do ambiente e integra-las, interagi-las de forma que novos conhecimentos criativos possam emergir.


Me volta a imagem das escolas da Amazônia. Com toda precariedade de infra-estrutura, as crianças tem dificuldade de realizar, como nossas pesquisas observaram, os mais básicos dos testes de QI. No entanto, sua habilidade manual para desenhar e modelar massa, além de criar brinquedos com os materiais que podem ser tirados da floresta, mostra que certamente elas são (tão, ou) mais criativas, do que qualquer criança urbana.

Quem tem de aprender com quem?

PS: Visite o Roda de Ciência e deixe lá seu comentário.

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Discussão - 1 comentário

  1. Minha professora de ciencias.. Keen :)

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