Por que e para que

Quando eu era mais novo, nunca me interessei realmente pelos estudos. Quando cresci, descobri nas festinhas da minha turma – geralmente uma orgia de pizzas e crepes caseiros na casa do Maiô – onde conversas eram sobre temas que eu, muitas vezes, não tinha ouvido falar nem superficialmente e que os outros pareciam conhecer em profundidade; que eu tinha que recuperar o tempo perdido.

Mas por que eu nunca havia me interessado antes? Hoje eu descobri que eu sabia por que eu deveria estudar, mas não sabia para que. E pelo visto, meus professores também não.

Explico, mas não serei breve. Vou começar com uma historinha do livro “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman”, do físico americano Richard Feynman. Por favor, me acompanhem.

Quando esteve no Brasil em 1951, o físico Richard Feynman deu uma palestra na Aademia Brasileira de Ciências (ABC), onde disse que “não se está ensinando ciência alguma no Brasil”.

Ele perguntou para o auditório cheio: “Qual um bom motivo para lecionar ciência?” E ele mesmo respondeu “Porque é importante para que um país possa se considera civilizado, blá, blá, blá.”

Mas para ele, esse não é um bom motivo. E nós temos que ensinar ciência por um bom motivo. Sem um bom motivo, você acaba não ensinando nada.

Ele conta: “Tentei ensinar como resolver os problemas na física por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem. Comecei com alguns exemplos simples (…) e fiquei surpreso quando apenas 1 em 10 estudantes fez a tarefa. (…) Uma pequena delegação veio até mim , dizendo (…) que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética. (…) É claro que eu já havia notado o que acontecia: Eles não sabiam fazer!”

“Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia (…) assim: Dois corpos são considerados equivalentes se… Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações (…). Eu era o único que sabia que o professor estava falando de corpos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso”

“Depois da palestra falei com um estudante:

– Vocês estavam fazendo um monte de anotações. O que vão fazer com elas?
– Vamos estudar, teremos uma prova.
– E como será essa prova?
– Com perguntas como ‘Quando dois corpos são equivalentes?’

Então, você vê, eles podiam passar nas provas, ‘aprender’ essa coisa toda e não ‘saber’ nada, exceto o que eles tinham decorado”.

Parênteses: Vocês podem imaginar o rebuliço na ABC quando ele disse isso? Gostaria de ter estado lá. Fecha parênteses.

Quando li esse texto do Feynman, percebia o problema intuitivamente, mas ainda não tinha conseguido entender o que tinha acontecido. Como haviam chegado naquele ponto (que aliás, é o ponto aonde estamos até hoje)?!

Até que hoje, na aula da Rosita, lí o seguinte texto:

“Sem compreender o que se faz, a prática pedagógica é mera reprodução de hábitos existentes ou respostas que os docentes devem oferecer a demandas e ordens externas” (Sacristán e Gómez, 1998)

Nem olhei para os outros ítens. Esse era importante demais! Acho que tinha me lembrado do Feynman, só que ainda não sabia que tinha me lembrado. Esse é o problema que está antes de todos os outros! Qualquer um que assistiu aulas em uma faculdade sabe que ESSE é o maior problema do ensino no Brasil. Seja ele presencial ou a distância: O professor que não compreende o que faz acaba apenas ‘propagando hábitos existentes’! E consegue somente que seus alunos reproduzam hábitos existente.

A Rosita então chegou no grupo e disse que isso acontecia porque o professor sabe por que ensina. Ele tem, e segue, seus objetivos. Mas ele não sabe para que ensina, qual a finalidade daquilo. Ele ensina para formar cidadãos? Ou para que as pessoas saibam somar? O Feynman tentou dizer isso para os nossos cientistas há 50 anos.

O por que é a resposta que encerra, a ‘mera reprodução de hábitos existentes’. O para que é a pergunta que ‘abre caminho‘. O por que mantém o professor nos seus objetivos. O para que muda a atitude do professor.

Eu estudava por que. Estudava porque tinha de passar de ano, porque tinha que passar no vestibular. Não era um ‘bom motivo’ e por isso nunca me interessei pelos estudos. Na faculdade eu passei a estudar para que. Passei a estudar para poder mais. Sim, quem sabe mais, pode mais.

E é por isso que temos que ensinar. Para que todos possam poder mais.

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Discussão - 7 comentários

  1. João Carlos disse:

    Gozado… Eu ensaiei uns cinco comentários a seu post anterior, onde eu ia citar exatamente esta passagem do Feynman (mas todas ficaram do tamanho de um post…)Agora, só falta você entrar no terceiro aspecto do assunto: como transmitir aos alunos a noção de para que serve aprender isso.

  2. Michele Gravina disse:

    Você tocou no ponto certo, Mauro! Precisamos rever pra que ensinamos determinadas coisas. Não me admira que os alunos não gostem de estudar. O conhecimento é oferecido a eles, não como fonte de prazer e descoberta, mas sim como uma obrigação. É preciso estudar para tirar boas notas, não reprovar e ganhar um baita castigo dos pais. É preciso mostrar a eles que o saber é legal, porque te permite “poder mais”, como você diz. Qual é o discurso que ouvimos dos pais e professores? “Olha, moleque, você não faz mais nada da vida; tem a obrigação de estudar pelo menos”. Vendem o peixe da pior forma possível… como se estudar fosse algo horrível e tedioso. Seria muito melhor mostrar aos jovens em formação que com o saber adquirido ele pode resolver melhor seus problemas, ter uma qualidade de vida melhor, ter o prazer de ver o mundo sob suas próprias lentes. Mas, para isso, uma mudança de mentalidade dos professores é imprescindível. É preciso que os próprios professores tenham gosto por aquilo que estão ensinando. É raro ver um professor com os olhos brilhando ao falar sobre evolução, por exemplo, para alunos do 3º ano. Um dos mais fascinantes assuntos dentro da biologia e o cara tá ali, repetindo a mesma coisa há anos. Antes de mais nada, é preciso que o professor recupere o seu entusiasmo pelo conhecimento, caso contrário, nossos alunos continuarão estudando apenas “porque” e não “para que”.

  3. Fabio GF disse:

    O Feynman foi o Feynman e é o Feynman! Difícil hoje nossos professores atingirem tal nível de abstração e copromentimento. Muitos lecionam por falta de opção, para faser ‘bico’ e complementar o orçamento, etc. O desafio é urgente e não é pequeno. Ví uma vez uma comparação que vem a propósito: caso (hipotéticamente) uma pessoa tivesse sido congelada em 1908 e somente agora – 100 anos depois – em 2008 tivesse sido descongelada, teria admirado e estranhado muito nosso mundo de hoje – com veículos, aviões, TV e internet. A única coisa que ela não estranharia em nada é a sala de aula… com o quadro negro, o giz, as carteiras e o professor… Nosso método de ensino (e isso não se restringe ao Brasil) não consegue mais competir com tanto assédio e o apelo das muitas e efêmeras formas que a mídia assume e impõe a favor do consumo e em detrimento da educação como busca da verdade e do que você diz ser ‘poder mais’. Não sou especialista em educação, e não tenho nenhuma fórmula. Acho somente que devemos (educadores e sociedade) discutir muito e buscar caminhos possíveis.

  4. Mauro Rebelo disse:

    Oi João, é uma boa pergunta, como sempre, mas acho que não tem resposta. Não dá para ensinar o ‘para que’. Acho que o professor tem que descobrir para que ensina e o aluno tem que descobrir para que aprende.

  5. Mauro Rebelo disse:

    Michele, pior que isso são esses caras de auto-ajuda que vendem ainda o peixe, na verdade a falsa ilusão, de que dá pra chegar lá sem (ou com um mínimo de) esforço.

  6. Mauro Rebelo disse:

    É Fábio… como eu escrevi no texto anterior, acho que é um problema de relevância. Tudo é propaganda e o relevante na propaganda é o consumo. Seja ele um tenis, um relógio ou uma notícia. Estamos tão saturados de informação que perdemos a noção do que é relevante.

  7. Ana Paula disse:

    “Passei esudar para poder mais”. Nietzsche, Vontade de Potência. Recém traduzido e editado como “Vontade de Poder” (prefiro a idéia de potência, nos movemos em direção de qq coisa que pareça nos tornar mais do que somos, sermos plenos!). Mas é para eu tirar o Nietzsche da minha tese sobre educação (afinal…ainda tem gente que o associa com o nazismo).

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