A trajetória de um biólogo I – Homenagem ao dia do biólogo

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Hoje é dia do Biólogo. E apesar dos vários textos que estão inacabados, esperando que eu me debruce sobre eles para, o que segundo Lobo Antunes e outros grandes autores te torna um escritor – reescrever, eu hoje não posso deixar de falar desse dia especial.
E que esse ano ainda é mais especial para mim, porque esse mês serei homenageado pelo Conselho Regional de Biologia no XVIII ENBio (Encontro Nacional de Biólogos) pelas contribuições a profissão.
Fiquei pensando nas minhas ‘contribuições a profissão’. Pensei que a indicação pode ser porque vou com a mesma disposição falar para doutores em um congresso internacional, professores de 2o grau em um curso de reciclagem, um auditório lotado de alunos de uma universidade privilegiada, ou uma sala incompleta de alunos de uma faculdade menos favorecida. Mas talvez não seja porque eu faço isso, mas sim o porquê eu faço isso: porque nenhuma das minhas contribuições é maior que o amor que tenho pela biologia e por ser biólogo. Torço para que tenha sido essa, ainda que seja um variável pouco analítica, a razão da indicação.
Lembrei de um texto que escrevi para a revista do Instituto de Ciências Biológicas da UFRJ a convite da minha querida amiga Marília Zaluar, sobre o que é ser biólogo. O texto se chamou ‘A trajetória de um biólogo’ e eu coloco ele aqui pra vocês.
Feliz 3 de setembro!
“Comecei a ser biólogo como os antigos naturalistas: catando bichinhos por aí. Também tem aqueles que começaram catando plantinhas, mas dessas eu nunca gostei muito. No meu caso específico, eram os peixes da Lagoa de Araruama, em São Pedro da Aldeia. Pegava-os nadando de bobeira pela margem e colocava no meu baldinho. Às vezes tentava levar para casa achando que poderia guardá-los até ficarem grandes, para descobrir sempre no dia seguinte que eles não sobreviviam à água da bica.
Ganhei meu primeiro aquário com 8 anos, que foi também meu primeiro laboratório. Aprendi sobre as necessidades especiais de cada peixe, sobre a temperatura, pH e oxigênio da forma tradicional: tentativa e erro. Infelizmente sacrifiquei muitos peixinhos e também toda a minha mesada nessa empreitada.
Quando chegou o fatídico momento de marcar a cruzinha na quadricula de ‘opção de carreira’ do vestibular, eu não tinha dúvida, queria ser biólogo.
Mas o que é ser biólogo? Naquela época eu certamente não sabia. Na verdade, para o que eu achava que era, aquariofilista estava muito bem. Tanto que quando meu pai me perguntou: “Mas como você vai ganhar a vida como biólogo, meu filho?” Eu respondi que ia trabalhar com criação comercial de peixes e camarões, que significava, trocando em miúdos, trabalhar em um grande aquário. Mas vá lá, a única referência que eu tinha, e que qualquer um durante muito tempo sempre tem de biólogo, eram os professores de biologia, e não era exatamente isso que eu queria ser.
É bem verdade que nos idos de 1988, a engenharia genética já estava dando o que falar. Começavam a aparecer as primeiras ratazanas que produziam leite de vaca e coisas desse tipo. Muito impressionantes para um adolescente que achava até então que ser biólogo era ser como o seu professor do 2º grau.
Na faculdade, a visão romântica do biólogo que fica o tempo todo coletando bichinhos e plantinhas desmoronou. No primeiro período, tínhamos Cálculo, Química e Física. Depois, Bioquímica e Biofísica. O curso da UFRJ tem uma sólida formação em História Natural, herança do tempo em que esse era o nome da faculdade, com quatro zoologias e quatro botânicas, mas que significa estudar animais e plantas que você nunca encontrará pela frente, pelo resto da vida.
Com toda a importância que eu reconheço hoje na Taxonomia, não posso deixar de concordar que a sistemática é um desafio para o aprendiz de biólogo, e motivo suficiente para um sem número de desistências. A biologia não era para qualquer um (que o digam as meninas na aula de dissecção de baratas). E tinha que estudar. Tinha que estudar muito!
Aí entra outro fator, que eu não acredito que possa ser generalizado, mas que vale a pena comentar. Minha turma era uma turma especial. Só tinha crânio. Eram de diferentes idades, cidades e classes sociais, mas todos eram muito inteligentes. Eu percebi nas primeiras festinhas que se bobeasse ficaria para trás. Os papos eram sobre livros que eu nunca tinha lido e filmes que nunca tinha assistido. Descobri que, como eu não gostava do colégio onde estudava, nunca gostei de estudar. Nunca tinha sido um aluno aplicado e isso agora estava fazendo falta. Mas a minha decisão foi firme: recuperaria o tempo perdido! Passei a ler mais e descobri que tinha a habilidade de prestar atenção no que os outros diziam e a aprender com isso. Servia para aulas, palestras, mas também para histórias. Aprendi muito ouvindo as histórias dos meus amigos.
Bom, e havia as festas. Uso ‘festas’ como um termo genérico que além do sentido estrito, inclui encontros estudantis e congressos científicos. Eu fui a todos as festas, excursões, acampamentos, ENEBs, EREBs, Interbios, etc. Fiz amigos biólogos em todo o Brasil e várias dessas amizades, cultivadas anos a fio com cartas escritas a mão, antes do e-mail, permanecem até hoje. Fui Dj, campeão de truco, delegado de comitiva, chefe de torcida e até ganhei uma medalha no Interbio de 1990 correndo 5000 m (não tinha mais ninguém que quisesse participar da prova), já que nunca fui uma maravilha nos esportes coletivos. E sim, namorei bastante também.
Meu primeiro estágio foi realmente em uma fazenda de cultivo de camarão. Fiquei lá tempo suficiente para aprender que ganhava dinheiro quem comprava e vendia camarão, mas não quem criava. E que esses cultivos de moda (rãs, avestruzes, minhocas…) só servem para dar dinheiro a quem dá curso e escreve livro.
Despido da minha fantasia de biólogo infantil, tive que arranjar uma outra. Enquanto todos os meus amigos tinham estágios em laboratórios na universidade, eu respondi a um anuncio que dizia ‘estágio com bolsa’ na Bayer do Brasil. Descobri que havia um mercado de trabalho para biólogos que era grande e crescente. Ser biólogo não era só ser professor afinal, nem ser o cara das plantinhas e dos bichinhos. O trabalho consistia em avaliar a toxicidade de efluentes industriais e produtos químicos comerciais. Trabalhar com poluição era instigante, mas trabalhar em uma indústria não. Depois de quatro meses, não tinha mais nada para aprender e o trabalho virou um eterno repetir. Eu, que nunca tinha gostado muito de estudar, estava sentindo falta de teoria, de estudo e de descobertas. Descobri que meu lugar não era ali, eu era da academia. E se eu queria seguir a carreira acadêmica não havia tempo a perder.”
(continua)
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Discussão - 4 comentários

  1. Congrats.
    []s,
    Roberto Takata

  2. kamila disse:

    sua historia é parecida com muitas
    outras. estudantes pensam que a prfissão
    do biologo, nada mais é do que
    catar plantas e animais.
    estaõ enganadoas(os)
    somos os profissionais de um futuro que já chegou e que clama
    por ajuda!
    feliz dia do biologo(a todos graduados da ufpb).

  3. Monique disse:

    Feliz dia do Biólogo! Agora em 2012!
    Fiz uma ótima leitura.
    Você escreve bem!

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