Antena de celular e hierarquia na internet

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No início do ano recebi um e-mail do meu querido amigo Edu perguntando o que eu achava sobre os riscos da instalação de antes celulares no alto de edifícios. Caramba… era pergunta de prova! Eu prego que os cientistas sabem resolver qualquer problema, então não pude me furtar de tentar resolver o problema dele também. Fiquei meses querendo postar a resposta, mas sempre aparecia um tema mais interessante, porque no final das contas, resolver o problema dele foi simples: era uma questão de critério.
Mas será que meu amigo advogado não tem critério? Claro que tem, mas certamente não os mesmos que eu. Por isso, quando tenho um problema legal ligo pra ele e quando ele se defronta com um problema técnico liga pra mim.
Eu não entendo de emissões eletromagnéticas de telefones antenas de celular, mas confiei que o que eu sabia sobre energia eletromagnética em geral seria suficiente para ler alguma coisa. Eu sabia que era suficiente para saber que o vídeo da internet que mostra um ovo sendo cozido no meio de dois telefones que falam entre si é furado.
Além disso eu sei bastante sobre os efeitos biológicos das radiações. Já era o suficiente. Mas foi outro conhecimento que me ajudou mais. Eu conheço um pouco sobre o mercado editorial de revistas científicas, a qualidade duvidosa de algumas delas, os critérios que elas usam para selecionarem um artigo.
O Edu me enviou uma página no site da ABRACON, onde desfilam uma série de argumentos científicos que comprovam os males causados pelas radiações eletromagnéticas.

  • Lai et al (1989): influência da radiação de microondas de baixa freqüência no sistema nervoso central
  • Funkschau (1992): efeitos no mecanismo de transporte do sódio e do potássio através da membrana celular
  • Kues (1992): aumento do efeito colateral de medicamentos para glaucoma por REM
  • Persson (1997): aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica em ratos expostos a campos eletromagnéticos usados na comunicação sem-fio

Mas a lista começava com a declaração do “cientista armênio Avakian do Instituo de Física de Telecomunicações e de Eletrônica” sobre o “efeito dipólo das moléculas orgânicas” que faz com que “se orientem e girem sob um campo elétrico”.
Gente, vocês não precisam ser cientistas para saber que a Armênia não é especialmente famosa pela ciência que produz ou pela academia de ciências que possui. Além disso, a maior parte das moléculas orgânicas é apolar e não se orientam em um campo elétrico. Já a água sim, possui um dipolo (uma lado positivo e outro negativo). Passei a vista nos outros artigos, mas já sabia que, do ponto de vista científico, não havia nenhuma conclusão séria ou consenso geral sobre efeitos de baixas doses de radiações eletromagnéticas (quem quiser se informar em maior profundidade, aqui vai um resumo produzido por uma agência de advogados americana).
Pouco depois ganhei um celular da minha operadora e no manual do proprietário vinha importante informação ao consumidor:
Limite de tolerância da radiação não-ionizante de aparelhos celulares
Vejam que são informados não só o limite de exposição permitido pela agência internacional de radiação não-ionizante, como também os valores que foram apresentados pelo aparelho nos testes conduzidos pela empresa. Isso é mais informação do que vocês encontrarão em alguns artigos científicos de qualidade duvidosa (e eu garanto, existem muitos). Mas eu acho que mais que isso é o compromisso que esse papelzinho faz a empresa assumir com o seu consumidor (perante um juiz se for necessário) de que aquilo não é mentira. É com o meu critério de cidadão, é um compromisso maior que o dos editores de revista com o que é publicado nelas.
Escrevi pro Edu dizendo que, do ponto de vista do cientista, não havia nenhum impedimento. Agora ele poderia aplicar o critério de advogado dele a vontade.
Lembrei desse assunto e resolvi voltar a esse texto hoje por causa da polêmica que levantou a proposta do Leandro Tessler de um mecanismo de controle e hierarquização da informação na internet, comentada pela Sonia Rodrigues no Inclusão Digital.
Escrevi até aqui algo como 600 palavras, mas a quantidade de referências que deveriam ser verificadas para que esse post tenha 100% de credibilidade já é enorme. Atualmente são publicados muito mais de 10.000 artigos científicos por dia. Só o mecanismo de buscas ScienceDirect possui mais de 2500 revistas científicas indexadas.
Mais um problema: atualmente o maior problema do conteúdo é a sua indexação. Colocar um conteúdo online é fácil, mas classificá-lo é difícil porque os computadores não podem fazê-lo, só humanos. Isso significa que custa caro. Pergunte a qualquer gestor de portal.
Então como, como poderemos pensar em verificar, validar e certificar a informação na internet? É impossível, e não devemos gastar nosso precioso tempo tentando.
O que temos de fazer não é certificar a fonte, mas certificar o receptor! Temos que mudar imediatamente o ensino de conteúdo que ainda damos nas escolas e universidades e começarmos a ensinar critérios para os nossos alunos. Apenas assim eles poderão passar de consumidores de vídeos duvidosos na internet para produtores de vídeos que desmistificam o mito dos ovos que são assados por telefones celulares.

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Discussão - 13 comentários

  1. “Além disso, a maior parte das moléculas orgânicas é apolar e não se orientam em um campo elétrico.”
    Elas são eletricamente neutras (em pH fisiológico), não apolares – senão haveria problemas com o meio aquoso intra e intercelular, não seria solúveis.
    []s,
    Roberto Takata

  2. Alessandra disse:

    Que bom ler na sua conclusão o meu pensamento sobre essa dinâmica. Achei que fosse amadorismo da minha parte pensar desta maneira sobre educação e informação. Fiquei alegre.
    “Mesmo que exista uma estrutura que permeie a realidade, existem 36 meios de representá-la.” diz o Prêmio Nobel de Química Roald Hoffmann. [hoje na coluna do Marcelo Gleiser na FSP]

  3. tiago disse:

    Nossa que ótimo ver sua conclusão…tenho a mesma opinião.

  4. Sibele disse:

    “O que temos de fazer não é certificar a fonte, mas certificar o receptor!”
    Em 2001, no Roda Viva da tv Cultura, Pierre Levy, teórico da Internet, opinou que é necessário também dar sentido ao mar de informações virtuais: http://bit.ly/3ore5X

  5. Mauro Rebelo disse:

    Sibele, ele sugeriu ‘como’ fazer isso?

  6. Sibele disse:

    Ah Mauro, o vídeo no YouTube é de 2001, e só disponibilizaram esse fragmento, de todo o programa de 2 horas de sabatina do Lévy… mas se eu achar algo, retorno pra você! :P

  7. Sibele disse:

    Eita!
    Que seria de nós sem o Takata? :D
    Thank you!

  8. Sibele disse:

    Então, Mauro, o Lévi sugere, sim! Graças ao Takata, vi na íntegra (que é longa, mas vale a pena! Recomendo sua leitura a todos!) dessa sabatina que ele sugere, além da educação, mais duas coisas para dar sentido ao “mar de informação”: organização e… amor! Foi o que entendi! Veja nas respostas ao Marcelo Tas e à Nize Pellanda:

    Marcelo Tas: E hoje a gente vê a internet como uma coisa, pelo menos nesse aspecto, muito mais favorecendo essa diversidade. Mas, ao mesmo tempo, ela tem uma coisa que me angustia muito. Eu acho que angustia muito quem usa a internet, que é justamente uma de suas virtudes, é essa explosão de oferta de coisas para se fazer. Você mesmo estava falando do aumento das escolhas. Um dos seus livros descreve um cenário bastante curioso, [...] que você descreve como um dilúvio. Que a gente está vivendo uma espécie de dilúvio de informações e faz até uma comparação com o dilúvio de Noé, que resolveu o dilúvio com uma arca. Como que nós, hoje, poderemos resolver esse dilúvio? [Risos] Você tem alguma dica, assim, fácil de usar para a gente enfrentar esse volume de informações e ruídos?

    Pierre Lévy: A liberdade é muito angustiante. Eu entendo a sua angústia. Mas é imprescindível aprender a conviver com isso. No livro intitulado Cibercultura, eu digo, diante dos dilúvios de informações que nos assolam, podemos ser tentados a dizer: “Vamos tentar salvar o essencial”, como Noé, que colocou os animais, um exemplar de cada espécie, na arca. No fundo, na arca de Noé, havia um resumo do conjunto de animais que ia desaparecer. E uso essa imagem no livro para dizer que, hoje, é impossível fazer um resumo do todo. Não podemos mais abraçar o todo, porque ele tornou-se uma coisa infinita. Mesmo que em um momento pudéssemos cercá-lo, logo em seguida, seria diferente. Portanto, todo esse trabalho teria sido vão. Então, digo que cada um, cada indivíduo, cada grupo deve, por conta própria, fazer necessariamente uma filtragem, uma organização, uma seleção, uma hierarquização. Não digo que acabou, que não precisamos de hierarquia, de seleção, nem filtragem. É absolutamente necessário. Sem isso, seria impossível dar um sentido a essas informações. E o sentido são informações organizadas de forma a desenhar uma figura, a contar uma história, não é? Com a totalidade de informações brutas não há história, figura, nem sentido. Mas devemos ter consciência de nossa responsabilidade quanto à fabricação do sentido.

    [...]

    Nize Pellanda: O amor, [Lévy suspira e os entrevistadores riem] banido da ciência clássica, como atrapalhador do conhecimento, volta na sua obra, e também na de outros cientistas complexos, como categoria cognitiva fundamental. O que você poderia dizer sobre isso?

    Pierre Lévy: Nize, agradeço muito por me fazer essa pergunta [risos]. Mais uma vez, temos de recorrer à experiência pessoal. É impossível compreender realmente alguém, um ser humano que está à nossa frente, sem amá-lo. Quando amamos alguém, tentamos nos colocar em seu lugar, entender seu interior, aproximamos nosso coração do coração dele e o entendemos. Há uma profunda relação entre conhecimento e amor. Entre duas pessoas, é evidente. Mas, mesmo em termos científicos, quando vemos a forma pela qual os entomologistas estudam formigas ou abelhas, se eles não as amassem, será que poderiam passar anos e anos estudando-as? Quando queremos conhecer uma coisa é porque a amamos. A relação entre conhecimento e amor é muito profunda.

    E isso me lembrou um outro post seu… “Razão e Sensibilidade”, onde você cita Dobzhanski… ;)

  9. Sibele disse:

    Digo, Dobzhansky! Sorry :P

  10. Eu adoro a conclusão e trabalho por ela. Só que isso parece-me um objetivo inatingível. Ainda não sei muito bem qual o caminho, mas de alguma forma alguém ou alguma organização poderia indicar o que faz sentido e o que não passa de bobagem em roupagem pretensamente científica.
    O caso dos celulares é um excelente exemplo. Em São Paulo uma lei municipal proíbe o uso de celulares em postos de gasolina temendo uma explosão. A lei foi elaborada a partir de supostos acidentes e explosões que nunca ocorreram, pelo menos devido às causas elencadas. É facílimo criar um senso comum a partir de histórias mal contadas que nos parecem razoáveis. Difícil é as pessoas se darem conta do que realmente faz sentido. Mais difícila inda é todos conseguirem realizar esse exercício.
    O debate está ótimo e pulverizado em 3 ou 4 blogs. Excelente!!!

  11. Erneso disse:

    Essa unidade SAR e para uma antena de portátil com 0,9 w a dois cm da cabeça. Mais uma torre com um transmissor que simultaneamente faz dezenas e até centena de emissões simultâneas e com ganhos de antena da ordem de 24 dB concentrando potencia num feixe equivalente a 20.000 celulares juntos e não para no dia tudo.
    O meu celular a 0,80 R$ o min uso muito pouco, mais muitos apartamentos se encontram a distancias próximas de antenas onde superam largamente essa margem segura.

  12. Mauro Rebelo disse:

    Importantíssima a sua informação Ernesto. Isso que dá biólogo se meter a falar te telecomunicação. Obrigado,

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