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"Foi... por medo... de avião..."

Categoria: Livro
Escrito em fevereiro 4, 2010 7:59 PM, por Mauro Rebelo

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Em 'O brilho eterno de uma mente sem lembranças', Clementine, depois de anos de relacionamento com Joel, resolve apagá-lo, literalmente, de sua memória. As angustias que um despertava no outro, vivendo juntos ou separados, eram insuportáveis e eles se submeteram a um tratamento experimental no cérebro para bloquear as memórias que tinham um do outro.

Dois artigos publicados esse mês nas prestigiosas revistas Nature e Science mostram que a ciência está cada vez mais perto de fazer com que Joel possa bloquear, senão a memória de Clementine, a reação de angustia a lembrança dela.

Eu já falei aqui sobre drogas que podem induzir a perda do medo, mas elas tem o 'pequeno' inconveniente de interferir com a síntese protéica no cérebro de humanos. Mas esses novos artigos demonstram uma abordagem não invasiva, ou seja, sem drogas, que pode se tornar revolucionaria e mania nos consultórios de psicanálise.

Aprender a ter medo pode ser importante adaptativamente. Um dos maiores especialistas do mundo em memória, o neurocientista Ivan Izquierdo, diz que de todas as nossas emoções, a única que realmente sabemos que é capaz de estimular a nossa memória é o medo. O medo também pode ser ensinado através do 'reflexo incondicionado' de Pavlov. É quando ratos tomam um choque depois de ouvir o som de um apito e aprendem a temer o apito. O medo é medido através de uma resposta involuntária e inata (que no caso dos ratos é ficar completamente imóvel).

A memória pode ser de diferentes tipos e no caso de uma memória do medo, vários tipos estão envolvidos: a memória declarativa (aquela que é ativada por palavras e outros símbolos), a emotiva e a inconsciente (que gera, por exemplo, a resposta motora ao medo). Elas estão localizadas em diferentes regiões do cérebro, mas são fixadas contemporâneamente em um processo único e definitivo chamado de consolidação. No entanto, novos resultados de experimentos com bloqueadores químicos tem mostrado que a memória é fixada, construída, de novo, todas as vezes que ela é acessada (toda vez que nos lembramos daquilo), em um processo chamado de reconsolidação.

O período de reconsolidação é relativamente curto (em ratos e humanos, de até 6h), mas durante esse período, a memória pode ser relaxada, flexibilizada, alterada, manipulada e outros -adas que você queira. Passado esse período, a memória é fixada e não pode mais ser modificada. Porém, se tiver sido modificada, o efeito, segundo o artigo da Nature, é bastante duradouro, sendo observados mesmo após 1 ano da reconsolidação.

A maior parte dos tratamentos contra ansiedade é baseada em um processo chamado de extinção: o contexto amedrontador é apresentado, mas sem o agente do medo. A teoria diz que depois de repetir esse processo muitas e muitas vezes, o medo desaparece. E desaparece mesmo. Só que na maioria dos casos, não para sempre, com grandes chances de retorno após o final do tratamento.

Segundo os autores, a extinção só é eficiente se conduzida durante o processo de reconsolidação. É importante acessar a memória amedrontadora, para que o novo processo de contextualização seja disparado. E só então podemos alterar a memória.

Estou com a sensação que falta um exemplo. Fiquei aqui pensando no que eu poderia usar que não fossem os quadrados azuis e verdes do experimento descrito no artigo, medindo como resposta ao medo a variação na condutividade elétrica da pele. E ai lembrei do Belchior e do medo de avião que fez com que ele pegasse na mão da menina, me dando assim os dois argumentos que eu precisava para construir um bom exemplo: o contexto amedrontador - avião; e a resposta inata ao medo - segurar na mão.

O medo de avião é mais que bom, é um ótimo exemplo. É um medo intuitivo forte, porque o medo de altura é inato e todos nós o dividimos; mas ao mesmo tempo irracional, porque todo mundo sabe que é o meio de transporte mais seguro que existe e as estatísticas mostram que a chance de você morrer em um acidente aéreo é de 1:1.600.000 (menor que a de morrer atingido por um raio), o que significa que você pode viajar de avião todos os dias durante 26.000 anos sem que nada lhe aconteça. E ainda assim, a gente tem medo!

Eu, por exemplo, não tinha medo de avião até que comecei a andar muito neles. Mas tudo começou mesmo quando assisti um programa que mostrava que é durante a decolagem e a aterrissagem que a maior parte dos pouquíssimos acidentes acontecem. Agora, todas as vezes que o avião decola, eu não chego a segurar na mão de quem está do lado, mas as minhas mãos suam frio, que é outro sinal inato de medo.

É um medo que eu controlo tranquilamente. Mas se o Belchior não, então minha sugestão é que ele fosse ao psicólogo pra tentar uma terapia de extinção, mostrando, por exemplo, filmes de várias e várias viagens de avião onde as pessoas partiram integras e chegaram integras aos seus destinos.

Mas o artigo diz que a terapia de extinção só funciona se houver antes uma exposição ao medo e uma recuperação da resposta a ele. Então, antes de começar a extinção, antes de começar a mostrar as viagens que são bem sucedidas, é preciso mostrar uma viagem mal sucedida. Só depois de ver um avião caindo, pegando na mão da psicóloga, a memória amedrontadora terá sido acessada, dando inicio ao período de reconsolidação. Só ai os filmes teriam efeito na flexibilização da memória do desastre que despertava a reação de segurar na mão dela. Da próxima vez que ele viajar com a menina, o gesto de pegar na mão será voluntário, e não uma resposta incondicionada.

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Já o artigo da Science diz que essa extinção não funciona para todo mundo, porque eles identificaram que pessoas que possuem uma mutação em uma única letra do DNA do gene BNDF, um fator de crescimento de células do cérebro mas que também está envolvido com comportamentos relacionados com ansiedade, não são suscetíveis a extinção. E estão fadados a viver sempre com medo de Joel ou de Clementine.

Schiller, D., Monfils, M., Raio, C., Johnson, D., LeDoux, J., & Phelps, E. (2009). Preventing the return of fear in humans using reconsolidation update mechanisms Nature, 463 (7277), 49-53 DOI: 10.1038/nature08637

Soliman F, Glatt CE, Bath KG, Levita L, Jones RM, Pattwell SS, Jing D, Tottenham N, Amso D, Somerville L, Voss HU, Glover G, Ballon DJ, Liston C, Teslovich T, Van Kempen T, Lee FS, & Casey BJ (2010). A Genetic Variant BDNF Polymorphism Alters Extinction Learning in Both Mouse and Human. Science (New York, N.Y.) PMID: 20075215

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Commentários (3)

1

Que legal, Mauro!

Então há de fato esperança para quem sofre com certos medos irracionais! Tenho uma amiga que possui um medo "incapacitante" de aranhas ou quaisquer formas (e até sombras) que lembrem estes aracnídeos. Lembrei dela na hora ao ler esse texto.

Abraços,

Escrito por: Fernanda Poletto | fevereiro 4, 2010 8:27 PM

2

Vou aconselhar Belchior a assistir a série Lost.

Escrito por: Cauê | fevereiro 5, 2010 7:00 PM

3

Leio o blog a tanto tempo que até perdi a conta das vezes que me surpreendi e me maravilhei com as informações mais lindas e loucas contidas nele, ou seja, parabéns. (lembra das tatuagens científicas? até coloquei a minha no hall do loom ^^)
Mas... "uma única letra do DNA do gene". Somos biólogos, não seria melhor... hã: "uma única base nitrogenada do gene tal". Também entendo que pra haver uma aproximação do grande público com a ciência é bom que deixemos os termos padrão de lado (as vezes) e nos refiramos às coisas de modo mais leigo, mas não seria legal acrescentar o termo correto entre parênteses pra tentar haver uma popularização sem uma vulgarização?
No mais, meus parabéns de verdade pelo ótimo trabalho e desculpe o incômodo.

Escrito por: Dônovan | fevereiro 16, 2010 10:06 PM

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