Fazendo mais pelo português que os portugueses


O VQEB embarcou para a África em numa aventura educacional. Comandados pela capitã Cristine Barreto, fomos para Moçambique treinar a ‘tropa de elite’ que vai escrever o material didático para os pólos da Universidade Aberta do Brasil em Moçambique.
Mas um estrangeiro em Maputo, a trabalho, pode muito bem não ver África alguma. Um bom hotel, bons restaurantes… e a África mesmo nem apareceria. Mas ela está nos detalhes. Alguns, como o aeroporto são detalhes chocantes, principalmente depois da troca de aviões em Johanesburgo, cujo aeroporto, reformado para a copa ou não, parece uma estação espacial. O preço da conexão a internet (USD 5,00 por hora) também é um detalhe que carrega muita informação.
Mas com um olhar atento, você vê a África quando conversa com o motorista de táxi, com a garçonete do Zambea e com os professores para os quais demos aulas. Ai vemos a África de verdade. E, como o Brasil, ela é cheia de contrastes.
Sorrisos lindos e tecidos coloridos (Capulanas) contrastam com ruas mal iluminadas e construções depreciadas. “Não se constrói nada em Moçambique desde que os portugueses foram embora” nos contou Orlando, o dono da reprografia da universidade, enquanto nos dava uma carona no seu carro verde, depois de um dia de aula, quando não conseguíamos, de jeito algum, um táxi para nos buscar. O ‘Zouk’, ou ‘Passada’ como é chamado lá, toca em cada esquina, em rodas de adultos, jovens, crianças ou idosos que estão jogando cartas, batendo papo ou bebendo xidibandota (um destilado caseiro feito com ‘o que quer que seja’ e que, segundo os relatos, já causou muitas mortes – provavelmente porque não removem direito o metanol que deveria sair na primeira destilação) contrasta com uma incidência de HIV superior a 15% na população adulta (dados do INE/MZ).
Acredito também que o maior desafio para implementar o ensino a distância em Moçambique também está nos detalhes. É claro que a falta de infra-estrutura é um problema (enquanto estávamos lá, um aeroporto no norte do país estava parado sem pousos ou decolagens há 3 dias, porque, simplesmente, não conseguiam fazer chegar combustível até lá), assim como as diferenças culturais (o tempo em Moçambique parece fluir mais devagar… um jeito baiano de viver a vida). Mas apesar desses desafios serem grandes, eles são óbvios, certamente do conhecimento dos responsáveis pela implementação desse projeto, e a solução para esses problemas é simples. Pode ser cara, porque construir estradas, importar equipamentos de laboratórios, instalar cobertura 3G para internet pode ser muito caro, mas é simples. Uma vez que se decide e se obtém os recursos em pouco tempo tudo pode estar resolvido.
Mas alguns detalhes que inicialmente passam desapercebidos, se revelam problemas bem mais graves e de solução muito mais complexa, do que construir estradas, hospitais e escolas.
A nova Constituição de 2004 diz que “Na República de Moçambique, a língua portuguesa é a língua oficial” e o ministro da educação de lá se orgulha de ter feito pelo língua portuguesa na África, mais que os próprios portugueses. Afinal, na época da colonização apenas 6% da população falava português e agora chegam a 40% (dados do INE/MZ).
Mas será que falam mesmo?
Na primeira missão de treinamento, os professores perceberam que para serem bem compreendidos, tinham que falar mais devagar. A solução para encontrar o ritmo certo era, muitas vezes, deixar que os próprios alunos lessem os trechos de textos que seriam discutidos na aula. Mas mesmo com o jeito baiano de ser, o ritmo as vezes era lento demais. A ficha quando o motorista de um dos táxis que tomamos nos levou ao ‘mercado’ (que são camelôs espalhados por todas as calçadas das ruas do centro da cidade) para procurarmos um adaptador para as estranhíssimas tomadas de 3 pinos originais da África do Sul e utilizadas no nosso hotel. Ele gritava ‘tomadas, tens tomadas?’ mas fora isso, entendíamos pouco, muito pouco do que ele falava. Isso porque, de verdade, ele falava pouco, muito pouco português. Sua primeira língua, como fomos descobrir depois é a primeira língua de muitos maputenses, é o Xichangana.
No dia seguinte, durante a aula, notei que os professores usavam muitos pronomes demonstrativos, como ‘esse’, ‘isso’ ou ‘aquilo’, numa clara demonstração de vocabulário restrito. Perguntei então qual era a primeira língua de cada um deles e apenas 1 em 10 respondeu português. Echuwabo, Chope, Xichangana… entre 10 alunos, tínhamos 8 línguas diferentes! Em Moçambique todo, são mais de 40 idiomas (dados do INE/MZ).
O Brasil é um país de dimensões continentais, mas mesmo quando fui para o Lago do Puruzinho, escondido num recanto do Rio Madeira, na divisa entre os estados de Rondônia e do Amazonas, podia falar exatamente a mesma língua, e exatamente da mesma forma, que em casa, no Rio de Janeiro. A língua é um instrumento fundamental de integração nacional e acredito que apesar de não representar nenhuma das línguas nativas, Moçambique só tem a lucrar como nação com o uso do português nas escolas e na universidade.
E esse é um objetivo que justifica a nossa busca por estratégias para capacitar esses docentes a produzir aulas a distancia que sejam instigantes, claras, objetivas, atraentes e corretas, num idioma que não é o deles.
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PS: Enquanto escrevo esse texto, com um pouco mais de uma semana de atraso, uma revolta popular explode em Maputo, pelas ruas por onde passei há tão pouco tempo, deixando centenas de feridos e um aperto no meu coração. O desafio não para de aumentar.
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Discussão - 2 comentários

  1. Henrique disse:

    Esse desafio para estabelecer comunicação não é exclusivo de Moçambique, devido a estranha divisão política da África com diversas tribos formando um único país, faz com que a maioria dos países sejam uma colcha de retalhos cultural.
    Na Nigéria, praticamente, existe um idioma por cidade e os nigerianos difícilmente compreendem o que o morador da cidade vizinha está dizendo. Lá o idioma unificador é o inglês, no entanto beira ao desconhecimento, apenas construções simples e com uma fonética muito da estranha.
    Ao conversar com dois amigos nigerianos eles se espantaram com o fato do Brasil, com tamanha dimensão territorial, não ser da mesma forma. Eles até argumentaram a diferença de acentos entre meu amigo (RN) e o meu (SP). Uma questão que podemos levantar é como podemos unificar pessoas de origens diferentes por um idioma que remota aos tempos de exploração?

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